Alejandro Pagni/AFP
Alejandro Pagni/AFP

Milhares vão às ruas na Argentina para protestar contra intervenção em empresa privada

Segundo analistas, decisão relativa à empresa de grãos Vicentín envia um 'sinal negativo' à classe empresarial do país

Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 18h36

Milhares de manifestantes foram às ruas da Argentina neste sábado, 20, protestar contra a decisão do governo de Alberto Fernández de interferir na exportadora de grãos Vicentin. Em várias cidades, inclusive na capital Buenos Aires, cidadãos se manifestaram portando máscaras, para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, e também bandeiras do país. Gritos de ordem em defesa da empresa e da propriedade privada deram o tom. Parte dos manifestantes também se queixava das duras medidas de isolamento social, que prejudicaram seus negócios.

Em 9 de junho, o governo argentino, por decreto, anunciou a intervenção na Vicentín por 60 dias. Segundo a Casa Rosada, o objetivo era evitar a falência – o fato foi considerado como inconstitucional pela oposição. Fernández ainda pretende enviar projeto de lei para o Congresso, visando declarar a exportadora como empresa de interesse nacional e estatizá-la em caráter definitivo.

A intenção assustou líderes agrícolas da Argentina, que têm convocado protestos para evitar uma suposta escalada intervencionista no país. Atos são esperados na capital Buenos Aires e também em outras cidades importantes, como Mendoza e Rosario.

Volta do kirchnerismo

Analistas dizem que o decreto do governo argentino sobre a Vicentín acaba por reavivar temores em relação à volta do kirchnerismo. O presidente Alberto Fernández é temido desde a eleição presidencial do ano passado, justamente por sua ligação íntima com os ex-presidentes Néstor Kirchner e Cristina Kirchner.

"Não estamos atacando propriedades privadas, estamos resgatando uma empresa falida, cujos próprios proprietários pediram ao Estado para assumi-la. Se não (digo isso), pareço um louco que se levanta e pede para desapropriar empresas", defendeu-se hoje o presidente argentino em entrevista à rádio El Destape. À emissora, ele ainda disse não estar preocupado com as manifestações convocadas para esta tarde.

A intervenção na Vicentín, rechaçada pela oposição e pelo setor agrícola do país, que vê um "precedente perigoso", tampouco foi aprovada por analistas. "Essa decisão envia um sinal negativo para a comunidade empresarial do país, preocupada que a aquisição de ativos seja novamente uma possibilidade. Tudo isso reforça a tendência negativa para o país", diz Daniel Kerner, diretor para América Latina do Eurasia Group. "Este não é o começo de um plano para nacionalizar várias empresas. Não é isso que Fernández está pensando, mas mostra que o governo responderá aos crescentes problemas econômicos aumentando a intervenção do Estado."

O UBS também vê como negativas as notícias de intervenção na Vicentín, mas diz que o caso guarda diferenças com a nacionalização da petrolífera Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), expropriada pela então presidente Cristina Kirchner em 2013, alegando preocupações com a soberania energética. "Diferentemente da situação atual da Vicentín, que entrou em contato com os credores, a YPF não teve um problema de estresse financeiro quando sofreu a intervenção", diz o banco.

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