Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Montezano disse que “compartilha da frustração e ansiedade” dos veículos de notícias, sobre prazos para as respostas em torno da 'caixa-preta' do BNDES. Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Auditoria de 'caixa-preta' mirou empréstimos de R$ 21,2 bi ao grupo J&F, diz presidente do BNDES

Gustavo Montezano se pronuncia pela primeira vez sobre o caso desde que o 'Estado' revelou que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação para apurar eventuais irregularidades em operações de empréstimo

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 09h55

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para investigar contratos do banco com as empresas do grupo J&F mirou oito operações que, em valores atualizados, somaram R$ 21,2 bilhões. “O valor é quase equivalente a todo o valor desembolsado pelo BNDES a grandes empresas em 2019”, afirmou Montezano.

Essa é a primeira vez que o presidente do BNDES se pronuncia desde a revelação em 20 de janeiro, pelo Estado, de que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação externa para apurar eventuais irregularidades em operações com as empresas JBS, grupo Bertin e Eldorado Brasil Celulose, realizadas entre 2005 e 2018.

O valor foi pago a um escritório estrangeiro, o Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, que subcontratou outro brasileiro, o Levy & Salomão.

Segundo Montezano, o objetivo da investigação era apurar evidências de violação de leis anticorrupção no Brasil ou nos Estados Unidos por integrantes do banco, como atos de corrupção ou suborno.

O presidente do BNDES informou que a contratação da apuração externa foi recomendada em setembro de 2017 pelo auditor independente do banco (KPMG), que aconselhou o BNDES a “se proteger” contratando a investigação. A própria KPMG acompanhou as apurações como uma espécie de “revisor”, para verificar o passo a passo do Cleary.

Montezano iniciou a entrevista dizendo que a transparência é “atributo fundamental” para qualquer instituição financeira. “A lei nos obriga, mas transparência também protege executivos e funcionários da instituição”, disse. “Credibilidade é atributo mais importante para uma empresa, daí nossa conversa”, acrescentou o presidente.

Ele explicou que, desde que o tema da auditoria surgiu, há nove dias, as equipes do banco se debruçaram sobre as informações em relação à investigação para prestar os devidos esclarecimentos. “Entendemos que todos os pontos questionados estarão endereçados hoje”, disse.

Montezano afirmou ainda que “compartilha da frustração e ansiedade” dos veículos de notícias sobre prazos para as respostas. Desde que o Estado revelou o valor da auditoria, o banco não havia se pronunciado.

Nesta terça-feira, 28, o presidente Jair Bolsonaro disse ver algum "coisa esquisita" no reajuste que levou o BNDES a pagar R$ 48 milhões a uma auditoria para abrir a "caixa-preta" do banco em operações com o grupo J&F, sem encontrar nenhuma irregularidade. Ao comentar o último aditivo, feito pelo atual presidente do banco, Gustavo Montezano, Bolsonaro disse parecer  "que alguém quis raspar o tacho", sem citar quem. "Expõe logo o negócio e resolve", ordenou o presidente ao chegar ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, depois da volta dele da Índia.  

A abertura da "caixa-preta" foi uma das missões conferidas por  Bolsonaro a Montezano, que tomou posse em substituição a Joaquim Levy, primeiro nomeado pelo governo para comandar a instituição. Levy  se juntou a outros executivos que passaram pelo banco após o fim da gestão Dilma Rousseff e tiveram dificuldades para comprovar irregularidades na concessão dos financiamentos.

No governo Temer, Maria Silvia Bastos Marques evitou o assunto. Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira negaram sua existência. "Ou sou um completo idiota ou não existe 'caixa-preta' no BNDES", chegou a dizer Rabello.

Levy falou em "ter clareza sobre operações do passado", mas não chegou a avançar na busca por operações fraudulentas. A dificuldade foi apontada como um dos motivos para a insatisfação de Bolsonaro com sua gestão - o executivo pediu demissão após o presidente dizer em entrevista que estava "por aqui" com ele.

A "caixa-preta" foi um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro. Para muitos apoiadores do presidente, a sua abertura teria potencial para revelar malfeitos maiores do que os descobertos pela Operação Lava Jato na Petrobrás.

Logo após a vitória nas urnas, o presidente eleito se comprometeu a determinar, no início do mandato, "a abertura da 'caixa-preta' do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos".

“Em temas delicados, espinhosos, que passaram por várias gestões, temos de ter responsabilidade e acuracidade. Temos pontos a melhorar, queremos ser mais ágeis em prestar informações, mas sem abrir mão da acuracidade”, justificou.

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Com câmbio diferente, presidente do BNDES contradiz banco e diz que auditoria custou R$ 42,6 milhões

O próprio banco havia informado que serviço para investigar suposta 'caixa-preta' havia custado R$ 48 milhões

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 10h40

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para avaliar oito operações com empresas do grupo J&F custou R$ 42,666 milhões.

O próprio BNDES havia informado ao Estado, via Lei de Acesso à Informação, que o custo total era de R$ 48 milhões. Montezano esclareceu, porém, que a diferença se deve ao fato de que os pagamentos em dólar passaram a ser convertidos ao câmbio do dia do repasse.

Segundo Montezano, o custo inicial total projetado em 2018, no momento da contratação da auditoria, era de R$ 23,4 milhões. “O Conselho de Administração e a diretoria concluíram (em novembro de 2017) que a investigação externa era primordial”, justificou o presidente do BNDES.

Segundo ele, em 2018 houve uma ampliação da quantidade de trabalho das investigações, com maior volume de dados, o que levou a uma primeira suplementação em novembro daquele ano, no valor de R$ 5,067 milhões.

Montezano disse ainda que, em 2 de julho de 2019, foi aprovado o aumento do escopo da auditoria para abarcar informações levantadas pela Operação Bullish e pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas no Congresso sobre o tema. Ele ressaltou a data dizendo que foi um dia antes de ele tomar posse oficialmente como presidente.

O aumento do escopo ampliou em R$ 11,9 milhões o valor do contrato. “Sem o aumento do escopo, relatório teria ressalva que praticamente o invalidaria”, disse.

Montezano disse que o único aditivo aprovado em sua gestão foi um adicional de R$ 2,3 milhões no contrato com a auditoria KPMG para que ela acompanhasse os trabalhos da investigação externa como uma espécie de revisor, no que é chamado no jargão do setor como “auditoria shadow”.

O presidente do BNDES ainda exibiu um vídeo de seu depoimento na CPI do BNDES em que ele, em agosto de 2019, informava que o valor da auditoria poderia se aproximar dos R$ 45 milhões.

Aditivo

O diretor jurídico do BNDES, Saulo Puttini, afirmou ainda que o aditivo de US$ 3,5 milhões aprovado em outubro de 2019 no contrato com o Cleary foi feito para ampliar o valor do contrato guarda-chuva para serviços jurídicos. “Os valores ficam em stand by para uso à medida que serviços jurídicos forem sendo demandados, para o banco não ficar descoberto na área internacional”, disse.

“O aditivo contratual em outubro de 2019 não diz respeito à investigação sobre a JBS, mas sim ao contrato guarda-chuva”, acrescentou o diretor.

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'Parece que alguém quis raspar o tacho', diz Bolsonaro sobre custo de auditoria no BNDES

Como revelou o Estado, o último aditivo do contrato, de outubro de 2019, foi realizado sob a gestão do atual presidente do banco, Gustavo Montezano

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 09h09

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta terça-feira, 28, que "tem coisa esquisita" no reajuste que levou o BNDES a pagar R$ 48 milhões a uma auditoria para abrir a "caixa-preta" do banco em operações com o grupo J&F, sem encontrar nenhuma irregularidade. Ao comentar o último aditivo, feito pelo atual presidente do banco, Gustavo Montezano, Bolsonaro disse que "parece que alguém quis raspar o tacho”. 

"Essa auditoria começou no governo Temer. E tiveram dois aditivos. O último aditivo parece, não tenho certeza, seria na ordem de R$ 2 milhões. E chegou a R$ 48 milhões no final. Tá errado. Tá errado", afirmou Bolsonaro ao chegar ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, após visita oficial à Índia

Como revelou o Estado, o último aditivo do contrato, de outubro de 2019, foi realizado sob a gestão de Montezano. Por ele, houve incremento de cerca de R$ 15 milhões no valor do contrato com o Cleary.

"Tem coisa esquisita aí. Parece que alguém quis raspar o tacho. Não sei se vou ter tempo para estar com Paulo Guedes (ministro da Economia) hoje (terça-feira, 28), parece que ele está em Brasília. É o garoto lá, foi o garoto, porque, conheço por coincidência desde pequeno, o presidente do BNDES é um jovem bem intencionado. E ele que passou as informações disso que falei para vocês (jornalistas) agora, que são os aditivos. A ordem é não passar a mão na cabeça de ninguém. Expõe logo o negócio e resolve", disse o presidente.

Após um ano e dez meses de trabalho focado em oito operações com as empresas JBS, Bertin, Eldorado Brasil Celulose, a auditoria não apontou nenhuma irregularidade. O Ministério Público Federal em Brasília, porém, apontou prejuízos de R$ 2 bilhões ao banco em operações com o grupo J&F, controlador da JBS. Dados da Operação Bullish mostram desrespeito ao limite de crédito que poderia ser emprestado à  companhia e dispensa de recebimento de juros sobre o valor injetado na empresa.

Além do aditivo de Montezano, o contrato já tinha sido reajustado na gestão de Dyogo Oliveira no BNDES, no segundo semestre de 2018. Na sexta-feira, o Tribunal de Contas da União (TCU) deu um prazo de 20 dias para o BNDES dar explicações sobre o aumento do valor da auditoria.

O caso ainda pode se tornar alvo de uma fiscalização específica na corte de contas, já que o Ministério Público junto ao TCU entrou com uma representação pedindo verificação do pagamento ao Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, escritório americano contratado para realizar os serviços de auditoria.

Desde a revelação do caso pelo Estado do valor de R$ 48 milhões da auditoria que não encontrou nenhuma irregularidade, o atual presidente do banco tem sido pressionado pela diretoria e pelo Conselho de Administração do BNDES. Eles pedem uma resposta mais contundente e rápida sobre a auditoria contratada para desvendar a suposta caixa-preta de operações feitas entre 2005 e 2018.

A avaliação entre diretores e conselheiros do BNDES é que o banco está muito lento para responder e divulgar uma nota oficial  justificando a contratação da auditoria externa que investigou as operações, com um passo a passo. Na segunda-feira, 27, a cúpula do banco passou o dia em Brasília para dar explicações. A primeira rodada de conversas ocorreu na Controladoria-Geral da União (CGU) e seguiu no início da tarde na Câmara dos Deputados e no Tribunal de Contas da União. Não houve, porém, coletiva de imprensa.

O ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro, responsável pelo início da auditoria, também engrossa o pedido por explicações em carta a Montezano. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o contrato inicialmente previa um custo próximo a R$ 16 milhões.

A revelação do aditivo assinado sob a gestão Montezano causou ainda mais desgaste interno porque o atual presidente, em entrevista em Davos, Suíça, havia tentado jogar a responsabilidade pela auditoria para seus antecessores.

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Vários governos e aditivos depois, 'caixa-preta' do BNDES não deu em nada; entenda o caso

Como revelou o 'Estado', o banco pagou R$ 48 milhões por uma auditoria que prometia abrir a 'caixa-preta' da instituições, mas não encontrou irregularidades nas operações

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 05h00

Entenda passo a passo como o contrato do BNDES com um escritório internacional para prestar serviços jurídicos foi responsável pela auditoria que acabou não achando nenhuma irregularidade nas operações do banco com o grupo J&F.

Depois de passar por quatro governos, subcontratar empresas e receber dois aditivos, o custo do contrato passou de US$ 14 milhões (em torno de R$ 58 milhões) para US$ 17,5 milhões (superior a R$ 70 milhões).

2015 

Governo Dilma Roussef

Presidente do banco Luciano Coutinho

  • Após concorrência internacional, BNDES assina contrato com a Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP para prestação de serviços jurídicos de diferentes naturezas, como pareceres e consultorias em direito internacional, até o valor de US$ 14 milhões.

2017 

Governo Michel Temer

Presidente do banco Paulo Rabello de Castro

  • Após a delação dos irmãos Batista, donos da JBS, e após escândalos envolvendo Odebrecht, BNDES é pressionado a contratar, no fim de 2017, uma auditoria externa para avaliar operações com essas empresas.
  • Focos do principal incêndio, operações com JBS viram prioridade inicial da auditoria.
  • BNDES decide aproveitar contratos com escritórios internacionais para fazer auditoria, já que maior parte das operações da JBS ocorreram no exterior.
  • Contrato com Cleary prevê inicialmente custo de cerca de R$ 16 milhões (entre US$ 5 milhões e US$ 6 milhões) - dentro, portanto, do limite de US$ 14 milhões do contrato.
  • Empresa Protiviti é subcontratada por cerca de R$ 3 milhões (aproximadamente US$ 1 milhão ao câmbio da época), para fazer uma varredura em equipamentos em e-mails em busca de documentos de interesse da auditoria.

2018

Governo Michel Temer

Presidente Dyogo Oliveira

  • Após varredura dos dados e início das entrevistas com funcionários do BNDES, escopo da auditoria aumenta. Para se ter uma ideia, a análise já alcançava até o fim do ano mais de 200 mil documentos, ante 100 mil previstos inicialmente.
  • Diretoria e Conselho de Administração aprovam aumento do valor da auditoria para pouco mais de R$ 20 milhões, valor que ainda se encaixava no contrato guarda-chuva com a Cleary.

2019 

Governo Jair Bolsonaro

Presidente: Gustavo Montezano

  • Em julho, Conselho de Administração do BNDES aprova a realização de um serviço complementar pela Cleary "para fins de conclusão do processo de investigação independente das operações com o Grupo J&F".
  • Em outubro, sob a gestão do atual presidente do BNDES, Gustavo Montezano, banco autoriza um aditivo de 25% no contrato-guarda chuva com a Cleary, que sobe de US$ 14 milhões para US$ 17,5 milhões.

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Após JBS, BNDES faria auditoria em operações com Odebrecht, mas plano pode ser abortado

Com resultado da auditoria, que apontou inexistência de indícios de irregularidade e, ao mesmo tempo, com polêmica devido ao custo, de R$ 48 mi, avaliação é que “não faz sentido” gastar recursos com esse tipo de auditoria externa

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 13h26

BRASÍLIA - A conclusão da auditoria nas operações do BNDES com a JBS levaria a instituição a um segundo passo nas investigações: a apuração de eventuais indícios de irregularidades nos contratos com a Odebrecht. Esse era o cronograma original acertado pelo banco de fomento no ápice dos escândalos de corrupção e acusações de “caixa-preta”, em 2017. O plano, porém, pode ser abortado, segundo apurou o Estadão/Broadcast

Após a auditoria nas operações da JBS apontar inexistência de indícios de irregularidade e, ao mesmo tempo, gerar polêmica devido ao custo de R$ 48 milhões revelado pelo Estado, a avaliação interna no banco é que “não faz mais sentido” gastar recursos com esse tipo de auditoria externa.

O acerto foi feito em 2017 entre o BNDES e a KPMG, seu auditor independente. Na esteira das delações de executivos da Odebrecht e da JBS, a KPMG sinalizou que não estava confortável com os resultados das apurações internas do banco (a partir de comissões instauradas pela ex-presidente Maria Silvia Bastos Marques) e que poderia não assinar as demonstrações contábeis da instituição.

A assinatura do auditor funciona como uma espécie de “selo” de que os registros são fidedignos e confiáveis. No auge das investigações da Operação Lava Jato, no fim de 2014, a Petrobrás deixou de publicar o seu balanço após o auditor independente se recusar a assinar o documento. O episódio teve repercussão extremamente negativa sobre a companhia, que acabou divulgando, no início de 2015, um balanço não auditado ainda sem registrar as perdas com a corrupção na empresa.

Diante do ocorrido com a Petrobrás, o BNDES avaliou que teria muito a perder caso a KPMG não assinasse seu balanço. Como o auditor sinalizou que o compromisso com uma auditoria externa sobre as operações mais problemáticas resolveria o impasse, o banco acertou o cronograma.

A JBS foi o foco inicial porque a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista era a mais recente e explosiva. Para isso, foi aproveitado um contrato já existente com a Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLC, que assumiu a auditoria forense após o primeiro escritório internacional que tinha contrato com o BNDES alegar impossibilidade por “conflito de interesse”. O banco optou por uma banca do exterior para garantir que os resultados seriam reconhecidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que também voltou suas atenções para as operações suspeitas.

Ao fim do trabalho com as operações da JBS, viria a auditoria sobre as operações com a Odebrecht. Em uma reunião do Conselho de Administração do BNDES, em 12 de novembro de 2018, a diretoria do banco destacou que a auditoria forense em relação às exportações relacionadas à Odebrecht “não foi incluída no escopo do contrato em epígrafe, pois o volume já conhecido de dados a analisar extrapola a margem (de custo) existente no Contrato OCS n° 270/2015”. Segundo a ata da reunião, a diretoria citou a necessidade de contratar uma nova auditoria, em separado, para a avaliação das operações com a Odebrecht.

Segundo apurou a reportagem, o BNDES chegou a fazer uma pesquisa de preços para a nova auditoria, mas não houve avanço. Agora, a avaliação é de que esse segundo passo não deve vingar “por não ser necessário”.

De acordo com uma fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast, a contratação do Cleary para analisar as operações com a JBS foi feita porque a KPMG demandou uma avaliação externa, e nenhum outra empresa quis assumir o trabalho de auditar o BNDES em meio ao furacão das delações devido a “riscos de reputação”.

Agora, após o depoimento de quase 60 funcionários do banco, análise de centenas de milhares de documentos e um período de paralisia no banco, a avaliação interna é que o período mais crítico de desconfiança já foi vencido.

Procurada, a KPMG no Brasil informou que “por motivos de cláusulas de confidencialidade que regem a profissão de auditor está impedida de se manifestar sobre casos envolvendo empresas auditadas ou que já foram auditadas pela firma”. O BNDES não se pronunciou. 

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O que falta saber sobre a auditoria que abriu a 'caixa-preta' do BNDES

'Estado' enviou mais de 20 perguntas ao BNDES desde que a reportagem revelou que o banco pagou R$ 48 milhões à consultoria Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, mas não foram encontrados indícios diretos de corrupção

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 05h00

Desde a segunda, quando o Estado revelou que o BNDES pagou R$ 48 milhões à consultoria Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP para abrir a "caixa-preta" do banco nas operações relacionadas ao grupo J&F entre 2005 e 2018 - mas relatório não apontou nenhuma evidência direta de corrupção -, mais de 20 perguntas foram enviadas ao banco. Algumas das que não foram esclarecidas: 

  1. Uma reunião do conselho de administração do BNDES aprovou acréscimo no contrato com a Cleary para que a auditoria fosse concluída em 2018.  Por que a consultoria não foi encerrada naquele ano?
  2. Quem aprovou a continuidade dos trabalhos de auditoria no governo de Jair Bolsonaro? Com quais critérios?
  3. Além da Cleary, outras empresas receberam do BNDES para fazer a auditoria? Quais? Qual valor?
  4. Com qual justificativa o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, aditivou em R$ 15 milhões o contrato com a Cleary faltando apenas dois meses para o fim da auditoria? 
  5. Com o valor do contrato subindo para quase R$ 70 milhões (U$ 17,5 milhões de dólares), quer dizer que o valor da auditoria ainda pode ultrapassar os R$ 70 milhões?
  6. Além da auditoria, quais serviços foram prestados pelo escritório Clifford Chance US LLP, contratado na mesma concorrência internacional que o Cleary e que teve aditivo no contrato no mesmo valor e na mesma data, de US$ 14 milhões para US$ 17,5 milhões?
  7. Qual parte concorrência internacional de 2014 (vencida pela Cleary) diz que a empresa vencedora poderia prestar serviços de auditoria,  já que em nenhum momento o edital sequer traz tal termo?
  8. O valor de  US$ 1.096.574,00 (um milhão, noventa e seis mil, quinhentos e setenta e quatro dólares) pago à subcontratada Protiviti, para atuar na auditoria, está incluso nos R$ 48 milhões gastos informados pelo BNDES como o total gasto com a auditoria? Quantos foi pago e quantos ainda falta ser pagos a este escritório?
  9. A KPMG, empresa que audita o balanço do banco, acompanhou ou foi observadora neste trabalho. Caso positivo, a KPMG foi remunerada por este trabalho no âmbito deste contrato? Se acompanhou ou foi observadora, de quem partiu a demanda: do auditor, da diretoria ou do conselho de administração?

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PGR promete analisar proposta de 'força-tarefa' para investigar BNDES

Augusto Aras quer investigar se servidores do banco atuaram para beneficiar empresas; 'Estado' revelou que o banco gastou R$ 42 milhões com uma auditoria que não encontrou nada

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 20h23

BRASÍLIA - O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, prometeu analisar a proposta de criação de uma força-tarefa para investigar se servidores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atuaram para beneficiar empresas. A solicitação foi apresentada por membros extinta Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do BNDES, na tarde desta terça-feira, 11, durante reunião no gabinete do procurador.

Os deputados questionaram a necessidade de uma nova investigação no BNDES depois que o Estado revelou que o banco gastou R$ 42 milhões com uma auditoria que não encontrou nada.  O pedido também inclui investigar a contratação dessa consultoria. Segundo os deputados, o procurador disse que “fará uma análise detalhada dos documentos” anexados ao pedido de investigação do banco.

A CPI do BNDES foi encerrada em outubro do ano passado, após sugerir o indiciamento de 52 pessoas. A avaliação das lideranças que investigaram por meses o banco é de que somente a Polícia Federal e o MPF teriam instrumentos para apurar as supostas ilegalidades cometidas por funcionários e dirigentes do BNDES nos últimos anos.

Os parlamentares querem que a força-tarefa, caso seja acatada pelo procurador Augusto Aras, contemple uma “apuração rigorosa” do gasto de R$ 42 milhões com a auditoria que prometia abrir a caixa-preta do banco, mas que não encontrou irregularidades em oito operações com o grupo J&F.

 “O TCU fala uma coisa, o MPF e a auditoria (de R$ 42 milhões) dizem outra. Então a Polícia Federal tem que abrir uma força-tarefa. É essa nossa sugestão, da CPI. Queremos uma espécie de lava-jato  exclusiva no BNDES”, afirma Paula Belmonte (Cidadania).

Além de Paula, que foi vice-presidente da CPI, assinaram o pedido de investigação os deputados Vanderley Macris (PSDB-SP), Sanderson (PSL-RS) e General Girão (PSL-RN).

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