Banco Central promove maior choque de juros em quase 20 anos para conter a inflação

Com o novo aumento previsto para a Selic, que deve ir a 9,25%, taxa vai acumular alta de 7,25 pontos em nove meses; mesmo assim, BC não deve cumprir metas de inflação estipuladas para 2021 e 2022

Thaís Barcellos - O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Para combater uma inflação alta, persistente e disseminada, o Banco Central está promovendo o mais forte choque de juros em quase 20 anos, com a taxa Selic subindo ao patamar de 9,25% nesta quarta-feira, 8, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano. Em nove meses, o aumento acumulado soma 7,25 pontos porcentuais, do nível inicial de 2% - o mínimo histórico.  

A dose cavalar de juros em curto espaço de tempo só fica atrás nos últimos 20 anos do ciclo iniciado no fim de 2002, em meio à eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela oportunidade, a taxa Selic subiu 7,5 pontos em apenas três meses – de outubro a janeiro, com uma alta final de 1 ponto em fevereiro, para 26,50%.

Mesmo com os juros subindo “de elevador”, é provável que o Banco Central descumpra seu objetivo por dois anos seguidos, em 2021 e 2022, considerando a maioria das projeções de economistas ouvidos pela própria instituição para o boletim Focus. Inflação na casa dos dois dígitos promove uma bagunça na economia, prejudica a atividade e empobrece a população.

Continua após a publicidade

Sede do Banco Central, em Brasília; a aumento dos gastos públicos ajuda a explicar a subida rápida do juro pelo BC. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O "remédio amargo" com a alta de 1,5 ponto porcentual é a sétima elevação da taxa Selic neste ciclo de aperto monetário, que foi iniciado em março, e o nível mais alto desde setembro de 2017. O aumento do juro básico da economia se reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

Uma combinação de ponto de partida muito baixo, certa demora do Banco Central para agir e surpresas inflacionárias e fiscais explicam o processo acelerado de alta de juros, na opinião de especialistas. “O primeiro ponto para explicar a rapidez (do aumento) é o ponto de partida, o fato que começamos com o juro, em retrospecto, baixo demais. Essa não era minha visão no início do ano. Mas o juro a 2% estava muito baixo, a inflação descolou e o BC teve que correr atrás do prejuízo”, avalia o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC.

Segundo Schwartsman, olhando de hoje, o BC esteve “atrás da curva” desde o início do processo de alta de juros, com a necessidade de ajustar a estratégia e a comunicação a cada novo Copom. Ele também argumenta que a piora fiscal provocou desancoragem de expectativas, dificultando o trabalho do BC. “Boa parte da desancoragem das expectativas de inflação deve ser explicada pelo fato de o fiscal estar indo para o ralo.”

Surpresa

Para a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro, a inflação surpreendeu a todos, aos BCs daqui e de lá de fora, além do mercado. Mas o caso brasileiro é mais grave, porque foi potencializado pelo drible nas regras fiscais, como o teto de gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que aumenta o risco país e gera maior desvalorização do real.“O risco de insustentabilidade fiscal exige uma atitude mais dura do BC, porque ele está sozinho. O BC americano também tem mudado o discurso. Mas nosso juro está subindo de elevador pelos problemas domésticos”, diz. 

Na última reunião do Copom, em outubro, o BC mudou o “plano de voo”, de alta da Selic de 1,0 para de 1,50 ponto porcentual, diante de novas surpresas inflacionárias e das manobras patrocinadas pelo governo na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, para abrir espaço para mais gastos em 2022, ano eleitoral.

“O BC ficou inicialmente atrás da curva com as sinalizações tímidas, como a de normalização parcial. Mas, mais recentemente, foi a mudança abrupta do cenário fiscal que alterou totalmente o cenário para o BC”, concorda o economista-chefe da ASA Investments, Gustavo Ribeiro.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Banco Central eleva Selic a 9,25%, e taxa básica de juros atinge o maior patamar em quatro anos

Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu elevar os juros em 1,50 ponto para conter a alta da inflação; é o sétimo aumento consecutivo este ano

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues - O Estado de S.Paulo

Com a inflação sem dar trégua e a economia em recessão técnica, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu por uma nova alta de 1,50 ponto porcentual da Selic (a taxa básica de juros) nesta quarta-feira, 8. A taxa subiu de 7,75% para 9,25% ao ano, conforme já havia indicado o Copom na última reunião, em outubro.

Foi o sétimo movimento consecutivo dos juros, após o BC cortar a taxa básica à mínima histórica (2%) em meio à pandemia de covid-19. Nas seis reuniões anteriores, o BC havia subido a taxa em 0,75 ponto percentual em três ocasiões, em 1 ponto nos encontros de agosto e setembro e em 1,5 ponto. em outubro.

Com a decisão de dezembro, o choque de juros este ano chega a 7,25 pontos porcentuais, o maior em quase 20 anos – desde o ciclo entre o fim de 2022 e o início de 2003. E a Selic alcançou o maior patamar desde setembro de 2017, quando estava em um ciclo de afrouxamento após alcançar 14,25% em meio à crise de 2015 e 2016.

Continua após a publicidade

A taxa está, portanto, no maior nível do governo Bolsonaro. Quando o presidente chegou ao poder, a taxa Selic estava em 6,50%.

 

Além de elevar a Selic mais uma vez em 1,5 ponto porcentual, o Copom sinalizou um novo aumento de mesma magnitude na próxima reunião, em fevereiro, para 10,75% ao ano. Ainda assim, o colegiado deixou a porta aberta para uma ação ainda mais forte na taxa básica de juros e prometeu perservar essa possibilidade até que as projeções de inflação voltem às metas para os próximos anos.

"O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária", afirmou o BC em comunicado.

Se na reunião anterior o colegiado considerou apropriado que o ciclo de aperto seguisse em território "ainda mais" contracionista (isto é, com taxas de juros mais elevadas), agora o Copom avalia ser necessário avançar "significativamente" nesse território. O BC chamou a atenção para o risco de as expectativas de inflação ficarem acima da meta em prazos mais longos, a partir de 2023.

"O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", enfatizou o comunicado.

Efeitos na economia

O aumento do juro básico da economia reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

Com a inflação em dois dígitos, a aprovação da PEC dos Precatórios na Câmara e no Senado (que abre espaço no Orçamento para o novo Auxílio Brasil ao driblar o teto de gastos), e a economia em recessão técnica, a decisão de hoje era amplamente esperada pelo mercado financeiro. Todas as 51 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast esperavam o aumento de 1,50 ponto do juro básico, para 9,25%.

Fachada do Banco Central, em Brasilia; aumento da taxa de juros busca controlar a inflação Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADAO - 3/12/2021

A avaliação fiscal é que, embora as manobras patrocinadas pelo governo no teto de gastos (que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) sejam negativas, a aprovação da PEC ao menos circunscreve o tamanho do estrago em 2022. Com todas as mudanças da PEC, um espaço de R$ 106,1 bilhões para gastos adicionais é aberto em 2022, ano eleitoral.  

“Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mantendo a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico”, afirma o documento do Banco Central.

Na decisão desta quarta, o Copom reconheceu ainda que os últimos indicadores sobre a atividade vieram mais uma vez “moderadamente” abaixo do previsto e repetiu que a inflação ao consumidor continua elevada. "A alta dos preços foi acima da esperada, tanto nos componentes mais voláteis como também nos itens associados à inflação subjacente”, completou o BC. 

No cenário internacional, o Copom citou especificamente o aparecimento da variante Ômicron do novo coronavírus como um fator que adiciona incerteza sobre o ritmo de recuperação da economia mundial, diante da possibilidade de uma nova onda de covid-19 no inverno do Hemisfério Norte. “No cenário externo, o ambiente se tornou menos favorável. Alguns bancos centrais das principais economias expressaram claramente a necessidade de cautela frente à maior persistência da inflação, tornando as condições financeiras mais desafiadoras para economias emergentes”, destacou o comunicado.

Juro real

Com o último movimento de aperto monetário, o Brasil continuou a ter uma das maiores taxas de juros real (descontada a inflação) do mundo, mas perdeu o pódio para a Turquia (+5,83%), considerando as 40 economias mais relevantes.

Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em +5,03% ao ano. Na terceira posição, aparece a Rússia (+4,23%). A média dos 40 países considerados é de -1,13%.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Como ficam os investimentos e a poupança com a Selic a 9,25%

Na renda fixa, as melhores apostas são em papéis atrelados a uma taxa flutuante, como o CDI ou a Selic, para curto prazo, ou ao IPCA+, para um prazo mais alongado; já quem quer algo no curtíssimo prazo deve cogitar aplicações isentas de IR

Érika Motoda e Heloísa Scognamiglio - O Estado de S.Paulo

O rendimento bruto da poupança sobe de 0,44% para 0,5% ao mês agora que o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica de juros a 9,25%. Este foi o sétimo aumento consecutivo da Selic. Apesar do rendimento mais alto, a poupança é uma das aplicações que traz o menor retorno real ao investidor, ainda mais com a inflação projetada a 10,18% neste ano, segundo o Boletim Focus mais recente

Segundo a regra do Banco Central, a poupança rende 70% da Selic mais a taxa referencial (TR) quando a Selic está abaixo de 8,5% ao ano. Acima disso, o rendimento é de 0,5% ao mês mais a TR, que está zerada. “Se pegarmos 0,5% ao mês e levarmos a valor futuro daqui a 12 meses, a poupança vai apresentar uma rentabilidade de 6,17%”, disse Rodrigo Beresca, analista de Soluções Financeiras da Ativa Investimentos

Com o aumento da Selic, os juros ficam mais caros Foto: USP Imagens

Continua após a publicidade

Nos cálculos do professor de Finanças da FGV Fabio Gallo, quem depositar R$ 1 mil hoje vai ter uma rentabilidade real negativa equivalente a R$ 43,64 daqui a 12 meses, considerando a inflação estimada. “Todos os investimentos em renda fixa terão retornos reais negativos porque o Banco Central ainda está correndo atrás da curva de inflação”, disse.

Os analistas preveem um ano bem volátil para a renda variável em 2022 por causa das eleições. Além disso, a alta da inflação estará presente tanto por fatores domésticos como internacionais. Não há perspectiva de melhora no câmbio também.  

Nesse ambiente, os especialistas recomendam outras aplicações de renda fixa aos investidores que querem fazer proveito da alta da taxa básica de juros. Entre eles, estão especialmente os papéis atrelados a alguma taxa flutuante, como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou a Selic, para um prazo mais curto, ou ao IPCA+, para um prazo mais alongado. Já quem quer algo no curtíssimo prazo deve cogitar aplicações isentas de Imposto de Renda.

“É realmente um momento muito interessante para investir na renda fixa”, diz Camilla Dolle, head de renda fixa da XP. Apesar de ressaltar que o melhor investimento vai depender do perfil do investidor, ela aponta que, considerando a alta da Selic, o investimento mais indicado continua sendo nos títulos pós-fixados atrelados ao CDI, que acompanha o movimento da Selic. 

Flávio Serrano, economista-chefe da Greenbay Investimentos, concorda:  “No cenário em que estamos, já percebemos um fluxo maior para a renda fixa, e a renda variável perdendo um pouco de aplicações.”

A expectativa do mercado é de que a taxa básica de juros continue aumentando até o primeiro semestre de 2022, atingindo 11% ao ano. Depois, segundo especialistas, deve estacionar e pode até, em um cenário econômico mais otimista, começar a cair. Investimentos prefixados passam a ser mais interessantes em um cenário de queda de juros. 

“Os pós-fixados estão em um momento legal porque vão acompanhar essa alta esperada da Selic, que deve continuar até 2022. Também são investimentos mais conservadores, que oscilam menos ao longo do ciclo de mercado. Para quem quer se proteger de oscilações também no ano que vem, por exemplo, que é ano eleitoral, é uma boa opção”, afirma Camilla Dolle, da XP. “Mesmo que o Banco Central comece a cortar os juros, seja no ano que vem ou em 2023,  a Selic vai continuar elevada ainda por um tempo, então o pós-fixado é uma boa opção.” 

Outra recomendação dos especialistas é investir em títulos indexados à inflação, que usam o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esses papéis oferecem uma proteção contra a inflação para o investidor, desde que ele mantenha o papel até o prazo de vencimento. 

“Um título indexado à inflação promete que, caso você leve até o vencimento, você terá essa proteção contra a inflação, mantendo seu poder de compra”, diz João Beck, economista e sócio da BRA, escritório credenciado da XP Investimentos. “No entanto, se resgatar antes do vencimento, você pode sair pior do que entrou, em alguns casos até com rendimento negativo”, diz. 

“Considerando o cenário que nós esperamos, de que a Selic chegue a dois dígitos até o meio do ano que vem e pare de subir, esses títulos, que geralmente têm prazos de vencimento de dois, três ou quatro anos, começam a se valorizar. Então são bons investimentos”, acrescenta. 

Caso o investidor queira aplicar o dinheiro por menos de um ano, é preciso também optar por produtos que não pagam Imposto de Renda, segundo Jansen Costa, sócio-fundador da Fatorial Investimentos. “Porque sairia muito caro pagar o imposto nesses casos. Teria que procurar títulos isentos, como LCI e LCA.”

Renda variável 

As projeções de que a B3 fecharia o ano no nível dos 130 mil pontos não se concretizaram. A Bolsa acumula perdas de 9,32% em 2021 e de 5,16% em 12 meses. Na terça-feira, 7, o Ibovespa encerrou o dia em 107,5 mil pontos, alta de 0,65%. “A gente teve uma deterioração das expectativas na Bolsa principalmente no segundo semestre. Tivemos a crise hídrica e o rompimento do teto de gastos”, afirma Beck, da BRA. 

“Os balanços das empresas estão, de forma geral, robustos. Eles não estão caindo tanto quanto o preço de cada ação. Algumas blue chips (empresas grandes e sólidas) caíram bastante sem um balanço que justificasse essa queda, algumas estão até faturando mais. Agora, estamos tendo um fluxo positivo de estrangeiro na Bolsa brasileira. E o que está se vendo nos números é a saída do próprio investidor brasileiro, que é o oposto do que aconteceu no ano passado.” 

As perspectivas para o futuro próximo, porém, não são otimistas. É possível que o investidor tenha que viver com certa volatilidade ao longo do ano de 2022 inteiro até começar a ver no horizonte uma certa estabilidade no fim do ano que vem. 

Beresca, da Ativa, acredita que o câmbio não deva se valorizar. “O descontrole fiscal e a PEC dos Precatórios como forma de contornar o teto afetam as finanças domésticas. Além disso, com a retirada de estímulos do Federal Reserve na economia americana e o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos devem fazer com que estrangeiros saiam de mercados emergentes e para investir mais lá", diz.

A carteira mensal recomendada da Nova Futura Investimentos em renda variável aposta na retomada da economia, com ações de bancos, varejo, commodities e rodovias. “Até há uns meses, evitávamos setores elétricos, mas as chuvas provaram ser abundantes, o que melhorou o sistema energético. Ainda existe uma cautela, mas estamos voltando aos poucos”, disse Bruno Tebaldi, analista de Risco da instituição.

Como ficam os investimentos

  • Investimentos isentos de IR:

Poupança - Tem liquidez diária, ou seja, é possível resgatar o dinheiro a qualquer momento, e oferece risco zero para o investidor, mas também, por isso, oferece uma rentabilidade baixa, que não costuma bater nem a inflação.

LCI e LCA - Bons títulos por causa da isenção do IR e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). As letras têm lastro em ativos imobiliários e ativos agrícolas e são mais seguras que os CRIs e os CRAs, mas, por esse mesmo motivo, podem apresentar um prêmio menor. 

CRI e CRA - Estão com as taxas bem atrativas, porque costumam ser pós-fixadas. Não têm cobertura do FGC. Para não correr riscos desnecessários, deve-se olhar o emissor desses ativos. Se o ranking do emissor for alto, ele pode pagar melhor que LCI e LCA. Mas se o emissor tiver um ranking baixo, existe a possibilidade de calote. São ativos securitizados, ou seja, possuem lastros em outros ativos. 

Por exemplo: se um agricultor quer fazer um financiamento para sua safra, ele contrai uma dívida emitindo um Certificado de Cédulas de Crédito Bancário (CCB) e a vende para um banco. Esse banco pode pegar várias CCBs e as vender para uma securitizadora, que, por sua vez, as “empacota” por meio do CRA e vende para o investidor final. No caso das dívidas imobiliárias, o processo é o mesmo, mas feito por meio do financiamento imobiliário com a Cédula de Crédito Imobiliário (CCI). 

Debêntures incentivadas - Ótimas opções porque tem pagamentos semestrais dos cupons.

  • Investimentos sem isenção do IR:

CDB: As melhores opções são os atrelados a taxas flutuantes (CDI e IPCA). 

Fundos DI: Ótimas opções porque tendem a seguir a Selic, que ainda está em ciclo de alta. São mais conservadores e têm uma liquidez mais alta, diária. 

Fundos imobiliários: O aumento da taxa de juros impacta o crédito imobiliário, que encarece com a Selic mais alta. Por ora, a melhor opção em fundos imobiliários são os fundos de papel, que investem em papéis de dívida imobiliária.

Fundos multimercado: Bom investimento, porque, como porque investem em diversas estratégias, os gestores conseguem fazer movimentações para se beneficiar conforme o cenário. Os que têm investimento em Bolsa podem não ir muito bem. 

Qual é o melhor investimento na renda fixa

Dentre os ativos de renda fixa, existem aqueles que são isentos de Imposto de Renda e outros que não. Para comparar em pé de igualdade esses investimentos, existe no mercado financeiro o “gross up”, que consiste em calcular o retorno de um investimento isento ao embutir uma alíquota de Imposto de Renda fictícia. Assim, é possível comparar os itens que anteriormente não seriam comparáveis por causa de suas características distintas. 

Por exemplo: qual investimento é melhor durante o período de 365 dias, uma LCI que rende 94% do CDI e é isenta de Imposto de Renda ou um CDB que rende 115% do CDI no mesmo intervalo, mas em que há uma taxa de IR a ser paga? 

Lembrando que as aplicações seguem uma tabela regressiva do Imposto de Renda. Quem retira o dinheiro aplicado antes de 180 dias paga um imposto de 22,5%. De 181 a 360 dias, a alíquota cai para 20%. De 361 a 720, fica em 17,5%. E, acima de 720 dias, 15%.

A fórmula utilizada para fazer o gross up é a seguinte: Rendimento com gross up = Rendimento bruto/ (1 - Imposto de Renda).

Sempre lembrando em transformar os números em decimais. Basta dividir por 100. 

Por exemplo, para comparar uma LCI que rende 94% do CDI e é isenta de Imposto de Renda com um CDB que rende 115% do CDI (ambos com vencimento daqui a 365 dias).

Rendimento com gross up da LCI = 0,94/ (1 - 0,175)

Rendimento com gross up da LCI = 1,139 x 100 (para transformar em porcentagem)

Rendimento com gross up da LCI = 113,9% da CDI 

Portanto, nesse caso, mesmo o CDB não sendo isento, ele traz um retorno maior que a LCI. 

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Está começando a pintar um cenário em que a Selic não vai chegar a 12%', diz Tony Volpon

Para o economista, a desaceleração da economia nos últimos meses indica que o Banco Central não deverá elevar a taxa básica de juros acima de 12% no ano que vem

Márcia De Chiara - O Estado de S.Paulo

O economista Tony Volpon, estrategista-chefe da WHG (Wealth High Governance) e ex-diretor do Banco Central (BC), acredita que o limite para alta da taxa básica de juros, a fim de conter a inflação, seja 12%. Apesar de boa parte do mercado indicar que o BC deva colocar os juros nas alturas, o economista observa que, por causa dos resultados dos últimos indicadores – PIB (Produto Interno Bruto), vendas no varejo, produção industrial –, o ritmo de desaceleração da atividade está mais rápido do que o esperado.

“Colocar os juros em 13% só piora a recessão”, afirma o ex-diretor do BC. Ele lembra também que só uma pequena parcela da alta dos juros já teve impacto na atividade. “Tem um caminhão de juros para jogar na cabeça da economia”, alerta. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Para Tony Volpon, o Banco Central 'errou muito e teve azar'. Foto: Amanda Perobelli/Estadão - 27/7/2017

Até quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deve subir os juros para conter a inflação?

Continua após a publicidade

Chegamos a precificar uma Selic a 14%. Mas parece que estamos tendo uma desaceleração da economia mais rápida do que o mercado estava prevendo. Temos uma sequência de dados da atividade econômica bem fracos, inclusive as vendas do varejo que foram um show de horror, o resultado do PIB do terceiro trimestre, produção industrial. Acho que as expectativas de crescimento para este ano e o próximo devem cair de novo nas próximas versões do Boletim Focus. Esse é um elemento novo que deveria impactar o que o BC irá fazer na primeira reunião d e 2022. Agora está começando a pintar um cenário em que a Selic não vai chegar a 12%. Acredito que a última alta de juros ocorra na reunião de fevereiro e o ciclo se encerre com uma taxa entre 11% e 12%, mas não acima de 12%.

A fraqueza da economia vai ajudar na redução da inflação?

Certamente ajuda. Não há ciclo monetário de desinflação sem a contribuição da atividade menor, porque pega na demanda. A inflação de hoje é fruto de coisas que aconteceram seis meses atrás. E qual foi o passado que levou a uma inflação de 11%? No passado, o BC colocou os juros em patamar negativo, algo que nunca tinha feito propositadamente desde o início do Plano Real. Deixou o câmbio se desvalorizar fortemente. Fez tudo isso num período em que ficou claro que teríamos uma rápida reabertura da economia global com a chegada da vacina em outubro de 2020. E o BC só mexeu nos juros em março de 2021.

O BC errou?

Errou muito e teve azar. Teve crise hídrica, a bagunça fiscal que começou em janeiro e se estendeu por quase o ano inteiro, o câmbio desvalorizou muito. A economia brasileira estava crescendo fortemente porque houve a reabertura e as pessoas estavam com mais dinheiro no bolso, além da pressão nos preços das commodities. Quando a gente olha hoje, o que vai ser a inflação em seis meses? Os juros já não são mais negativos e devemos ter uma taxa real indo para 6% ou 6,5%. O câmbio nominal tem ficado quase no mesmo patamar o ano inteiro. Nas commodities, há preços subindo e caindo. E a economia está desacelerando fortemente. As pessoas com muito menos dinheiro por conta da corrosão da renda pela inflação e redução das transferências fiscais. É um movimento contrário ao que houve no ano passado. O ano que vem será 5% mesmo de inflação, mas 2023 tem uma eleição no meio.

Então, o que está acontecendo?

O mercado está expressando uma opinião política ao elevar a expectativa de inflação para 2023. Ele está dizendo o que deve acontecer na eleição deve ter efeito negativo sobre a inflação. Isso pode até ser verdade. Mas é preciso ter um pouco de cuidado. O BC não é agência política. O BC cometeu aquele erro no passado e agora está em busca da credibilidade perdida. Tem um monte de gente falando que tem de colocar os juros nas alturas. A partir dos dados conhecidos, parece que estamos caminhando para uma recessão. Então, colocar os juros em 13% só piora a recessão, em busca da credibilidade perdida. Esse não é o papel do BC.

Agora a questão é de dosagem dos juros?

Sim. Ninguém está discutindo que o juro não tenha que subir. Da mesma maneira que o BC errou na dosagem baixando 2%. Juro de 2% era justificado quando se achava que não haveria vacina. Mas quando veio a vacina não era mais justificável. O BC não pode cometer agora o erro com o sinal trocado.

Quando o sr. acha que a inflação volta para a meta?

Acho que em 2023. Obviamente, estou pressupondo que o resultado eleitoral não seja um desastre total. Quando as condicionantes da inflação viraram ao contrário, como estão virando agora, a inflação fica artificialmente alta por causa da inércia. Mas quando a inércia se desgasta e o BC fica segurando os juros, a inflação desaba. Acho que vai acontecer isso em 2023. Movimento semelhante ocorreu em 2015 e 2016 e a inflação desabou em 2017. Mas não estou dizendo que em 2023 a inflação vá ficar abaixo da meta como em 2017.

O intervalo entre a alta dos juros e o impacto na economia real é de cerca de seis meses, então uma parte dessa alta de juros dos últimos meses não se manifestou?

Não se manifestou, por isso o cenário é meio preocupante. Estamos vendo a desaceleração da atividade em dezembro. E, em tese, estamos pegando um pouquinho da alta do juro, quando ele foi de 2% para 2,75%. Tem um caminhão de juros para jogar na cabeça da economia. O impacto dos juros sobre a economia começa em seis meses e pode se estender até dois anos. Esse aumento de juros pode prejudicar a economia em 2023. A gente acha que 2023 pode ser recessivo, mas tem uma eleição no meio. Por outro lado, se o mercado e a economia real se preocuparem menos com resultado eleitoral e um eventual provável ganhador da eleição disser coisas certas, como os preços dos ativos caíram muito, então um pouquinho de expectativas positivas no fim do processo eleitoral poderá salvar 2023.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Alta de preços desorganiza economia brasileira e empobrece a população

Mesmo sem ser uma hiperinflação, IPCA na casa dos 10% prejudica a atividade econômica e afeta diferentes segmentos; investimentos, supermercados e até mesmo as escolas já sentem os efeitos da inflação

Márcia de Chiara - O Estado de S.Paulo

A inflação atingiu patamares que não se viam desde 2015, e passou a marca dos 10% (mais exatamente 10,73%, pelo IPCA-15 de novembro). Para quem viveu a época da hiperinflação, nas décadas de 80 e 90, isso não pode nem parecer muito. Mas não é um número trivial. A inflação alta desorganiza toda a economia. Para combatê-la, é necessário subir os juros, o que prejudica a atividade econômica.

O descontrole inflacionário tem efeitos em todos os setores, mas atinge principalmente o bolso das pessoas. Isso porque há um descompasso entre a correção dos preços e da renda. No mês passado, por exemplo, 70% dos acordos salariais fechados tiveram reajustes abaixo da inflação, aponta o Boletim Salariômetro, da Fipe.

Alimentos da cesta básica estão mais caros desde o ano passado, penalizando especialmente as famílias de baixa renda. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Continua após a publicidade

Economistas especializados em inflação ressaltam que a situação atual ainda está longe do descontrole e da perda de referência de preços que ocorreu no período de hiperinflação. “A inflação hoje está mais persistente do que galopante”, diz o coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), André Braz.

Disparada

IPCA-15 teve o maior resultado para novembro desde 2002

Para Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe, a perda de referência seria o primeiro sinal de hiperinflação, o que não é o caso atual. “Hoje o consumidor tem referência de preços”, diz. “O que ele não tem é renda para suportá-los.” Veja abaixo exemplos de como a inflação alta afeta o dia a dia das pessoas:

  • Investimentos perdem para a inflação:

Inflação em alta pode até significar maiores rendimentos nas aplicações financeiras, porque o remédio usado para conter os preços é o juro alto. No entanto, como se percebeu nos últimos meses, é difícil para quem tem dinheiro para aplicar conseguir ganhar da inflação. Os ganhos em renda fixa, em geral, repõem apenas parcialmente as perdas. E investimentos em renda variável, como ações, se tornam muito mais arriscados em uma economia desorganizada, característica dos períodos inflacionários.

  • Tarifas mais caras: 

Cerca de metade da inflação dos últimos 12 meses ocorreu por conta da energia elétrica e dos combustíveis. Gastos com energia ou gás de cozinha podem até ser reduzidos, mas dificilmente são substituídos pelas famílias. A perspectiva é que o fim, previsto para maio, da bandeira “escassez hídrica”, dê pelo menos um alívio nessa despesa. A bandeira especial foi criada e adotada este ano, e acrescenta uma tarifa extra cobrada nas contas de luz.

  • Combustível nas alturas:

A alta do dólar e das cotações do petróleo no mercado internacional provocaram um choque nos combustíveis. O preço médio do litro gasolina subiu de R$ 4,409 para R$ 6,744, de novembro de 2020 a novembro deste ano, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em alguns postos do País, o valor chegou a quase R$ 8. Já o litro do óleo diesel subiu de R$ 3,515 para R$ 5,359 no mesmo período. É um aumento que afeta diretamente as famílias que dependem do carro próprio e desequilibra o orçamento. Além disso, as empresas são prejudicadas em razão do maior custo do transporte, que acaba repassado para o preço final dos produtos e serviços. 

  • Reajustes das escolas: 

Depois de muito tempo sem aumento por causa da pandemia ou com pequenas correções, as escolas preparam reajustes entre 7% e 10%, em média, para o ano que vem, segundo pesquisas do setor. Dirigentes de escolas dizem que há espaço para negociação, mas alegam pressões de custos e argumentam que fizeram investimentos pesados em tecnologia para se adaptar ao ensino a distância.

  • Preço salgado no supermercado:

Tidos como os grandes vilões da inflação em 2020, os alimentos da cesta básica continuam em alta. Entre janeiro e outubro, o custo da cesta subiu em todas as capitais, segundo o Dieese, com aumentos de até 20%. O impacto maior recai nas famílias de menor renda, que gastam quase a totalidade do orçamento com alimentos. 

  • Renegociação de aluguéis:

Os aluguéis tinham tudo para uma explosão muito maior, porque o indexador usado nos contratos geralmente é o IGP-M, que acumula alta de quase 18% em 12 meses até novembro. No entanto, os reajustes ficaram em 6,17%  em 12 meses até outubro, até abaixo do IPCA cheio, de 10,67% no período. Sinal de que há espaço para negociação entre inquilinos e proprietários.

  • Juros do financiamento imobiliário:

Com inflação sob controle e juros em trajetória de queda, a Caixa lançou, em 2019, um financiamento imobiliário atrelado ao IPCA. A linha trazia condições melhores que as de outros financiamentos tradicionais. Mas, com o IPCA na casa dos 10%, esse crédito se transformou numa grande armadilha para quem o contratou. O resultado é que as concessões de financiamentos nessa modalidade praticamente desapareceram.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Fábio Alves: Não há como o Banco Central trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia

Para parte do mercado, um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem

Fábio Alves* - O Estado de S.Paulo

Depois da leve queda no PIB do terceiro trimestre e um recuo da produção industrial em outubro, enquanto o mercado esperava aumento, uma parcela de analistas e investidores passou a criticar com mais veemência o ritmo do aperto monetário do Banco Central.

O argumento dessa corrente do mercado é de que um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem. Mais ainda: que a desaceleração da atividade econômica já conseguiria fazer parte do trabalho da política monetária para arrefecer a inflação.

Só para lembrar: o PIB do terceiro trimestre caiu 0,1% ante o segundo trimestre, jogando a economia em recessão técnica. Isso seria já suficiente para o BC rever a magnitude do aperto monetário em curso?

Continua após a publicidade

Mesmo com a economia desacelerando, a inflação acumulada em 12 meses seguirá em dois dígitos até março de 2022. Foto: Beto Nociti/Banco Central

A resposta é não. Apesar do resultado negativo, a composição do PIB do terceiro trimestre ainda mostra fontes de pressão à inflação, com o crescimento forte dos setores de consumo, de serviços e de gastos do governo em julho, agosto e setembro.

Um exemplo foram os chamados “outros serviços”, que englobam atividades como bares, restaurantes, hotéis, educação privada, saúde e serviços de beleza, e tiveram alta de 4,4% no terceiro trimestre em comparação com os três meses anteriores.

São os setores mais sensíveis à política monetária. E o esforço que o BC deveria estar fazendo é evitar que os preços dos bens não comercializáveis, como os do setor de serviços, subam tanto em 2022 para acomodar uma desaceleração dos preços que sofreram um choque com a pandemia.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o mercado projeta inflação de 10,18% neste ano e de 5,02% em 2022, um estouro do teto da meta por dois anos consecutivos. Para a decisão do Copom hoje, a esmagadora maioria dos analistas espera alta de 1,5 ponto porcentual da taxa Selic, para 9,25%.

Mesmo com a economia desacelerando, a inflação acumulada em 12 meses seguirá em dois dígitos até, ao menos, março do ano que vem. Isso porque ainda ocorrem repasses da inflação passada ao redor de 8%, 9%, como mostram os dissídios salariais monitorados pela Fipe. Ou seja, a velocidade de queda da inflação devido à inércia poderá ser lenta.

Uma das maneiras que o BC poderá quebrar esse processo seria tentar valorizar o câmbio via diferencial de juros maior, pois, com a Selic a 7,75%, o dólar segue ao redor de R$ 5,60. O ruído político e a piora na percepção do risco fiscal tornam esse trabalho mais difícil. Mas, infelizmente, não há como trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

Tudo o que sabemos sobre:

Banco Central promove maior choque de juros em quase 20 anos para conter a inflação

Com o novo aumento previsto para a Selic, que deve ir a 9,25%, taxa vai acumular alta de 7,25 pontos em nove meses; mesmo assim, BC não deve cumprir metas de inflação estipuladas para 2021 e 2022

Thaís Barcellos - O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Para combater uma inflação alta, persistente e disseminada, o Banco Central está promovendo o mais forte choque de juros em quase 20 anos, com a taxa Selic subindo ao patamar de 9,25% nesta quarta-feira, 8, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano. Em nove meses, o aumento acumulado soma 7,25 pontos porcentuais, do nível inicial de 2% - o mínimo histórico.  

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Banco Central eleva Selic a 9,25%, e taxa básica de juros atinge o maior patamar em quatro anos

Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu elevar os juros em 1,50 ponto para conter a alta da inflação; é o sétimo aumento consecutivo este ano

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues - O Estado de S.Paulo

Com a inflação sem dar trégua e a economia em recessão técnica, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu por uma nova alta de 1,50 ponto porcentual da Selic (a taxa básica de juros) nesta quarta-feira, 8. A taxa subiu de 7,75% para 9,25% ao ano, conforme já havia indicado o Copom na última reunião, em outubro.

Foi o sétimo movimento consecutivo dos juros, após o BC cortar a taxa básica à mínima histórica (2%) em meio à pandemia de covid-19. Nas seis reuniões anteriores, o BC havia subido a taxa em 0,75 ponto percentual em três ocasiões, em 1 ponto nos encontros de agosto e setembro e em 1,5 ponto. em outubro.

Com a decisão de dezembro, o choque de juros este ano chega a 7,25 pontos porcentuais, o maior em quase 20 anos – desde o ciclo entre o fim de 2022 e o início de 2003. E a Selic alcançou o maior patamar desde setembro de 2017, quando estava em um ciclo de afrouxamento após alcançar 14,25% em meio à crise de 2015 e 2016.

Continua após a publicidade

A taxa está, portanto, no maior nível do governo Bolsonaro. Quando o presidente chegou ao poder, a taxa Selic estava em 6,50%.

 

Além de elevar a Selic mais uma vez em 1,5 ponto porcentual, o Copom sinalizou um novo aumento de mesma magnitude na próxima reunião, em fevereiro, para 10,75% ao ano. Ainda assim, o colegiado deixou a porta aberta para uma ação ainda mais forte na taxa básica de juros e prometeu perservar essa possibilidade até que as projeções de inflação voltem às metas para os próximos anos.

"O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária", afirmou o BC em comunicado.

Se na reunião anterior o colegiado considerou apropriado que o ciclo de aperto seguisse em território "ainda mais" contracionista (isto é, com taxas de juros mais elevadas), agora o Copom avalia ser necessário avançar "significativamente" nesse território. O BC chamou a atenção para o risco de as expectativas de inflação ficarem acima da meta em prazos mais longos, a partir de 2023.

"O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", enfatizou o comunicado.

Efeitos na economia

O aumento do juro básico da economia reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

Com a inflação em dois dígitos, a aprovação da PEC dos Precatórios na Câmara e no Senado (que abre espaço no Orçamento para o novo Auxílio Brasil ao driblar o teto de gastos), e a economia em recessão técnica, a decisão de hoje era amplamente esperada pelo mercado financeiro. Todas as 51 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast esperavam o aumento de 1,50 ponto do juro básico, para 9,25%.

Fachada do Banco Central, em Brasilia; aumento da taxa de juros busca controlar a inflação Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADAO - 3/12/2021

A avaliação fiscal é que, embora as manobras patrocinadas pelo governo no teto de gastos (que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) sejam negativas, a aprovação da PEC ao menos circunscreve o tamanho do estrago em 2022. Com todas as mudanças da PEC, um espaço de R$ 106,1 bilhões para gastos adicionais é aberto em 2022, ano eleitoral.  

“Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mantendo a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico”, afirma o documento do Banco Central.

Na decisão desta quarta, o Copom reconheceu ainda que os últimos indicadores sobre a atividade vieram mais uma vez “moderadamente” abaixo do previsto e repetiu que a inflação ao consumidor continua elevada. "A alta dos preços foi acima da esperada, tanto nos componentes mais voláteis como também nos itens associados à inflação subjacente”, completou o BC. 

No cenário internacional, o Copom citou especificamente o aparecimento da variante Ômicron do novo coronavírus como um fator que adiciona incerteza sobre o ritmo de recuperação da economia mundial, diante da possibilidade de uma nova onda de covid-19 no inverno do Hemisfério Norte. “No cenário externo, o ambiente se tornou menos favorável. Alguns bancos centrais das principais economias expressaram claramente a necessidade de cautela frente à maior persistência da inflação, tornando as condições financeiras mais desafiadoras para economias emergentes”, destacou o comunicado.

Juro real

Com o último movimento de aperto monetário, o Brasil continuou a ter uma das maiores taxas de juros real (descontada a inflação) do mundo, mas perdeu o pódio para a Turquia (+5,83%), considerando as 40 economias mais relevantes.

Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em +5,03% ao ano. Na terceira posição, aparece a Rússia (+4,23%). A média dos 40 países considerados é de -1,13%.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Como ficam os investimentos e a poupança com a Selic a 9,25%

Na renda fixa, as melhores apostas são em papéis atrelados a uma taxa flutuante, como o CDI ou a Selic, para curto prazo, ou ao IPCA+, para um prazo mais alongado; já quem quer algo no curtíssimo prazo deve cogitar aplicações isentas de IR

Érika Motoda e Heloísa Scognamiglio - O Estado de S.Paulo

O rendimento bruto da poupança sobe de 0,44% para 0,5% ao mês agora que o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica de juros a 9,25%. Este foi o sétimo aumento consecutivo da Selic. Apesar do rendimento mais alto, a poupança é uma das aplicações que traz o menor retorno real ao investidor, ainda mais com a inflação projetada a 10,18% neste ano, segundo o Boletim Focus mais recente

Segundo a regra do Banco Central, a poupança rende 70% da Selic mais a taxa referencial (TR) quando a Selic está abaixo de 8,5% ao ano. Acima disso, o rendimento é de 0,5% ao mês mais a TR, que está zerada. “Se pegarmos 0,5% ao mês e levarmos a valor futuro daqui a 12 meses, a poupança vai apresentar uma rentabilidade de 6,17%”, disse Rodrigo Beresca, analista de Soluções Financeiras da Ativa Investimentos

Com o aumento da Selic, os juros ficam mais caros Foto: USP Imagens

Continua após a publicidade

Nos cálculos do professor de Finanças da FGV Fabio Gallo, quem depositar R$ 1 mil hoje vai ter uma rentabilidade real negativa equivalente a R$ 43,64 daqui a 12 meses, considerando a inflação estimada. “Todos os investimentos em renda fixa terão retornos reais negativos porque o Banco Central ainda está correndo atrás da curva de inflação”, disse.

Os analistas preveem um ano bem volátil para a renda variável em 2022 por causa das eleições. Além disso, a alta da inflação estará presente tanto por fatores domésticos como internacionais. Não há perspectiva de melhora no câmbio também.  

Nesse ambiente, os especialistas recomendam outras aplicações de renda fixa aos investidores que querem fazer proveito da alta da taxa básica de juros. Entre eles, estão especialmente os papéis atrelados a alguma taxa flutuante, como o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) ou a Selic, para um prazo mais curto, ou ao IPCA+, para um prazo mais alongado. Já quem quer algo no curtíssimo prazo deve cogitar aplicações isentas de Imposto de Renda.

“É realmente um momento muito interessante para investir na renda fixa”, diz Camilla Dolle, head de renda fixa da XP. Apesar de ressaltar que o melhor investimento vai depender do perfil do investidor, ela aponta que, considerando a alta da Selic, o investimento mais indicado continua sendo nos títulos pós-fixados atrelados ao CDI, que acompanha o movimento da Selic. 

Flávio Serrano, economista-chefe da Greenbay Investimentos, concorda:  “No cenário em que estamos, já percebemos um fluxo maior para a renda fixa, e a renda variável perdendo um pouco de aplicações.”

A expectativa do mercado é de que a taxa básica de juros continue aumentando até o primeiro semestre de 2022, atingindo 11% ao ano. Depois, segundo especialistas, deve estacionar e pode até, em um cenário econômico mais otimista, começar a cair. Investimentos prefixados passam a ser mais interessantes em um cenário de queda de juros. 

“Os pós-fixados estão em um momento legal porque vão acompanhar essa alta esperada da Selic, que deve continuar até 2022. Também são investimentos mais conservadores, que oscilam menos ao longo do ciclo de mercado. Para quem quer se proteger de oscilações também no ano que vem, por exemplo, que é ano eleitoral, é uma boa opção”, afirma Camilla Dolle, da XP. “Mesmo que o Banco Central comece a cortar os juros, seja no ano que vem ou em 2023,  a Selic vai continuar elevada ainda por um tempo, então o pós-fixado é uma boa opção.” 

Outra recomendação dos especialistas é investir em títulos indexados à inflação, que usam o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esses papéis oferecem uma proteção contra a inflação para o investidor, desde que ele mantenha o papel até o prazo de vencimento. 

“Um título indexado à inflação promete que, caso você leve até o vencimento, você terá essa proteção contra a inflação, mantendo seu poder de compra”, diz João Beck, economista e sócio da BRA, escritório credenciado da XP Investimentos. “No entanto, se resgatar antes do vencimento, você pode sair pior do que entrou, em alguns casos até com rendimento negativo”, diz. 

“Considerando o cenário que nós esperamos, de que a Selic chegue a dois dígitos até o meio do ano que vem e pare de subir, esses títulos, que geralmente têm prazos de vencimento de dois, três ou quatro anos, começam a se valorizar. Então são bons investimentos”, acrescenta. 

Caso o investidor queira aplicar o dinheiro por menos de um ano, é preciso também optar por produtos que não pagam Imposto de Renda, segundo Jansen Costa, sócio-fundador da Fatorial Investimentos. “Porque sairia muito caro pagar o imposto nesses casos. Teria que procurar títulos isentos, como LCI e LCA.”

Renda variável 

As projeções de que a B3 fecharia o ano no nível dos 130 mil pontos não se concretizaram. A Bolsa acumula perdas de 9,32% em 2021 e de 5,16% em 12 meses. Na terça-feira, 7, o Ibovespa encerrou o dia em 107,5 mil pontos, alta de 0,65%. “A gente teve uma deterioração das expectativas na Bolsa principalmente no segundo semestre. Tivemos a crise hídrica e o rompimento do teto de gastos”, afirma Beck, da BRA. 

“Os balanços das empresas estão, de forma geral, robustos. Eles não estão caindo tanto quanto o preço de cada ação. Algumas blue chips (empresas grandes e sólidas) caíram bastante sem um balanço que justificasse essa queda, algumas estão até faturando mais. Agora, estamos tendo um fluxo positivo de estrangeiro na Bolsa brasileira. E o que está se vendo nos números é a saída do próprio investidor brasileiro, que é o oposto do que aconteceu no ano passado.” 

As perspectivas para o futuro próximo, porém, não são otimistas. É possível que o investidor tenha que viver com certa volatilidade ao longo do ano de 2022 inteiro até começar a ver no horizonte uma certa estabilidade no fim do ano que vem. 

Beresca, da Ativa, acredita que o câmbio não deva se valorizar. “O descontrole fiscal e a PEC dos Precatórios como forma de contornar o teto afetam as finanças domésticas. Além disso, com a retirada de estímulos do Federal Reserve na economia americana e o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos devem fazer com que estrangeiros saiam de mercados emergentes e para investir mais lá", diz.

A carteira mensal recomendada da Nova Futura Investimentos em renda variável aposta na retomada da economia, com ações de bancos, varejo, commodities e rodovias. “Até há uns meses, evitávamos setores elétricos, mas as chuvas provaram ser abundantes, o que melhorou o sistema energético. Ainda existe uma cautela, mas estamos voltando aos poucos”, disse Bruno Tebaldi, analista de Risco da instituição.

Como ficam os investimentos

  • Investimentos isentos de IR:

Poupança - Tem liquidez diária, ou seja, é possível resgatar o dinheiro a qualquer momento, e oferece risco zero para o investidor, mas também, por isso, oferece uma rentabilidade baixa, que não costuma bater nem a inflação.

LCI e LCA - Bons títulos por causa da isenção do IR e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). As letras têm lastro em ativos imobiliários e ativos agrícolas e são mais seguras que os CRIs e os CRAs, mas, por esse mesmo motivo, podem apresentar um prêmio menor. 

CRI e CRA - Estão com as taxas bem atrativas, porque costumam ser pós-fixadas. Não têm cobertura do FGC. Para não correr riscos desnecessários, deve-se olhar o emissor desses ativos. Se o ranking do emissor for alto, ele pode pagar melhor que LCI e LCA. Mas se o emissor tiver um ranking baixo, existe a possibilidade de calote. São ativos securitizados, ou seja, possuem lastros em outros ativos. 

Por exemplo: se um agricultor quer fazer um financiamento para sua safra, ele contrai uma dívida emitindo um Certificado de Cédulas de Crédito Bancário (CCB) e a vende para um banco. Esse banco pode pegar várias CCBs e as vender para uma securitizadora, que, por sua vez, as “empacota” por meio do CRA e vende para o investidor final. No caso das dívidas imobiliárias, o processo é o mesmo, mas feito por meio do financiamento imobiliário com a Cédula de Crédito Imobiliário (CCI). 

Debêntures incentivadas - Ótimas opções porque tem pagamentos semestrais dos cupons.

  • Investimentos sem isenção do IR:

CDB: As melhores opções são os atrelados a taxas flutuantes (CDI e IPCA). 

Fundos DI: Ótimas opções porque tendem a seguir a Selic, que ainda está em ciclo de alta. São mais conservadores e têm uma liquidez mais alta, diária. 

Fundos imobiliários: O aumento da taxa de juros impacta o crédito imobiliário, que encarece com a Selic mais alta. Por ora, a melhor opção em fundos imobiliários são os fundos de papel, que investem em papéis de dívida imobiliária.

Fundos multimercado: Bom investimento, porque, como porque investem em diversas estratégias, os gestores conseguem fazer movimentações para se beneficiar conforme o cenário. Os que têm investimento em Bolsa podem não ir muito bem. 

Qual é o melhor investimento na renda fixa

Dentre os ativos de renda fixa, existem aqueles que são isentos de Imposto de Renda e outros que não. Para comparar em pé de igualdade esses investimentos, existe no mercado financeiro o “gross up”, que consiste em calcular o retorno de um investimento isento ao embutir uma alíquota de Imposto de Renda fictícia. Assim, é possível comparar os itens que anteriormente não seriam comparáveis por causa de suas características distintas. 

Por exemplo: qual investimento é melhor durante o período de 365 dias, uma LCI que rende 94% do CDI e é isenta de Imposto de Renda ou um CDB que rende 115% do CDI no mesmo intervalo, mas em que há uma taxa de IR a ser paga? 

Lembrando que as aplicações seguem uma tabela regressiva do Imposto de Renda. Quem retira o dinheiro aplicado antes de 180 dias paga um imposto de 22,5%. De 181 a 360 dias, a alíquota cai para 20%. De 361 a 720, fica em 17,5%. E, acima de 720 dias, 15%.

A fórmula utilizada para fazer o gross up é a seguinte: Rendimento com gross up = Rendimento bruto/ (1 - Imposto de Renda).

Sempre lembrando em transformar os números em decimais. Basta dividir por 100. 

Por exemplo, para comparar uma LCI que rende 94% do CDI e é isenta de Imposto de Renda com um CDB que rende 115% do CDI (ambos com vencimento daqui a 365 dias).

Rendimento com gross up da LCI = 0,94/ (1 - 0,175)

Rendimento com gross up da LCI = 1,139 x 100 (para transformar em porcentagem)

Rendimento com gross up da LCI = 113,9% da CDI 

Portanto, nesse caso, mesmo o CDB não sendo isento, ele traz um retorno maior que a LCI. 

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Está começando a pintar um cenário em que a Selic não vai chegar a 12%', diz Tony Volpon

Para o economista, a desaceleração da economia nos últimos meses indica que o Banco Central não deverá elevar a taxa básica de juros acima de 12% no ano que vem

Márcia De Chiara - O Estado de S.Paulo

O economista Tony Volpon, estrategista-chefe da WHG (Wealth High Governance) e ex-diretor do Banco Central (BC), acredita que o limite para alta da taxa básica de juros, a fim de conter a inflação, seja 12%. Apesar de boa parte do mercado indicar que o BC deva colocar os juros nas alturas, o economista observa que, por causa dos resultados dos últimos indicadores – PIB (Produto Interno Bruto), vendas no varejo, produção industrial –, o ritmo de desaceleração da atividade está mais rápido do que o esperado.

“Colocar os juros em 13% só piora a recessão”, afirma o ex-diretor do BC. Ele lembra também que só uma pequena parcela da alta dos juros já teve impacto na atividade. “Tem um caminhão de juros para jogar na cabeça da economia”, alerta. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Para Tony Volpon, o Banco Central 'errou muito e teve azar'. Foto: Amanda Perobelli/Estadão - 27/7/2017

Até quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deve subir os juros para conter a inflação?

Continua após a publicidade

Chegamos a precificar uma Selic a 14%. Mas parece que estamos tendo uma desaceleração da economia mais rápida do que o mercado estava prevendo. Temos uma sequência de dados da atividade econômica bem fracos, inclusive as vendas do varejo que foram um show de horror, o resultado do PIB do terceiro trimestre, produção industrial. Acho que as expectativas de crescimento para este ano e o próximo devem cair de novo nas próximas versões do Boletim Focus. Esse é um elemento novo que deveria impactar o que o BC irá fazer na primeira reunião d e 2022. Agora está começando a pintar um cenário em que a Selic não vai chegar a 12%. Acredito que a última alta de juros ocorra na reunião de fevereiro e o ciclo se encerre com uma taxa entre 11% e 12%, mas não acima de 12%.

A fraqueza da economia vai ajudar na redução da inflação?

Certamente ajuda. Não há ciclo monetário de desinflação sem a contribuição da atividade menor, porque pega na demanda. A inflação de hoje é fruto de coisas que aconteceram seis meses atrás. E qual foi o passado que levou a uma inflação de 11%? No passado, o BC colocou os juros em patamar negativo, algo que nunca tinha feito propositadamente desde o início do Plano Real. Deixou o câmbio se desvalorizar fortemente. Fez tudo isso num período em que ficou claro que teríamos uma rápida reabertura da economia global com a chegada da vacina em outubro de 2020. E o BC só mexeu nos juros em março de 2021.

O BC errou?

Errou muito e teve azar. Teve crise hídrica, a bagunça fiscal que começou em janeiro e se estendeu por quase o ano inteiro, o câmbio desvalorizou muito. A economia brasileira estava crescendo fortemente porque houve a reabertura e as pessoas estavam com mais dinheiro no bolso, além da pressão nos preços das commodities. Quando a gente olha hoje, o que vai ser a inflação em seis meses? Os juros já não são mais negativos e devemos ter uma taxa real indo para 6% ou 6,5%. O câmbio nominal tem ficado quase no mesmo patamar o ano inteiro. Nas commodities, há preços subindo e caindo. E a economia está desacelerando fortemente. As pessoas com muito menos dinheiro por conta da corrosão da renda pela inflação e redução das transferências fiscais. É um movimento contrário ao que houve no ano passado. O ano que vem será 5% mesmo de inflação, mas 2023 tem uma eleição no meio.

Então, o que está acontecendo?

O mercado está expressando uma opinião política ao elevar a expectativa de inflação para 2023. Ele está dizendo o que deve acontecer na eleição deve ter efeito negativo sobre a inflação. Isso pode até ser verdade. Mas é preciso ter um pouco de cuidado. O BC não é agência política. O BC cometeu aquele erro no passado e agora está em busca da credibilidade perdida. Tem um monte de gente falando que tem de colocar os juros nas alturas. A partir dos dados conhecidos, parece que estamos caminhando para uma recessão. Então, colocar os juros em 13% só piora a recessão, em busca da credibilidade perdida. Esse não é o papel do BC.

Agora a questão é de dosagem dos juros?

Sim. Ninguém está discutindo que o juro não tenha que subir. Da mesma maneira que o BC errou na dosagem baixando 2%. Juro de 2% era justificado quando se achava que não haveria vacina. Mas quando veio a vacina não era mais justificável. O BC não pode cometer agora o erro com o sinal trocado.

Quando o sr. acha que a inflação volta para a meta?

Acho que em 2023. Obviamente, estou pressupondo que o resultado eleitoral não seja um desastre total. Quando as condicionantes da inflação viraram ao contrário, como estão virando agora, a inflação fica artificialmente alta por causa da inércia. Mas quando a inércia se desgasta e o BC fica segurando os juros, a inflação desaba. Acho que vai acontecer isso em 2023. Movimento semelhante ocorreu em 2015 e 2016 e a inflação desabou em 2017. Mas não estou dizendo que em 2023 a inflação vá ficar abaixo da meta como em 2017.

O intervalo entre a alta dos juros e o impacto na economia real é de cerca de seis meses, então uma parte dessa alta de juros dos últimos meses não se manifestou?

Não se manifestou, por isso o cenário é meio preocupante. Estamos vendo a desaceleração da atividade em dezembro. E, em tese, estamos pegando um pouquinho da alta do juro, quando ele foi de 2% para 2,75%. Tem um caminhão de juros para jogar na cabeça da economia. O impacto dos juros sobre a economia começa em seis meses e pode se estender até dois anos. Esse aumento de juros pode prejudicar a economia em 2023. A gente acha que 2023 pode ser recessivo, mas tem uma eleição no meio. Por outro lado, se o mercado e a economia real se preocuparem menos com resultado eleitoral e um eventual provável ganhador da eleição disser coisas certas, como os preços dos ativos caíram muito, então um pouquinho de expectativas positivas no fim do processo eleitoral poderá salvar 2023.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Alta de preços desorganiza economia brasileira e empobrece a população

Mesmo sem ser uma hiperinflação, IPCA na casa dos 10% prejudica a atividade econômica e afeta diferentes segmentos; investimentos, supermercados e até mesmo as escolas já sentem os efeitos da inflação

Márcia de Chiara - O Estado de S.Paulo

A inflação atingiu patamares que não se viam desde 2015, e passou a marca dos 10% (mais exatamente 10,73%, pelo IPCA-15 de novembro). Para quem viveu a época da hiperinflação, nas décadas de 80 e 90, isso não pode nem parecer muito. Mas não é um número trivial. A inflação alta desorganiza toda a economia. Para combatê-la, é necessário subir os juros, o que prejudica a atividade econômica.

O descontrole inflacionário tem efeitos em todos os setores, mas atinge principalmente o bolso das pessoas. Isso porque há um descompasso entre a correção dos preços e da renda. No mês passado, por exemplo, 70% dos acordos salariais fechados tiveram reajustes abaixo da inflação, aponta o Boletim Salariômetro, da Fipe.

Alimentos da cesta básica estão mais caros desde o ano passado, penalizando especialmente as famílias de baixa renda. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Continua após a publicidade

Economistas especializados em inflação ressaltam que a situação atual ainda está longe do descontrole e da perda de referência de preços que ocorreu no período de hiperinflação. “A inflação hoje está mais persistente do que galopante”, diz o coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), André Braz.

Disparada

IPCA-15 teve o maior resultado para novembro desde 2002

Para Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe, a perda de referência seria o primeiro sinal de hiperinflação, o que não é o caso atual. “Hoje o consumidor tem referência de preços”, diz. “O que ele não tem é renda para suportá-los.” Veja abaixo exemplos de como a inflação alta afeta o dia a dia das pessoas:

  • Investimentos perdem para a inflação:

Inflação em alta pode até significar maiores rendimentos nas aplicações financeiras, porque o remédio usado para conter os preços é o juro alto. No entanto, como se percebeu nos últimos meses, é difícil para quem tem dinheiro para aplicar conseguir ganhar da inflação. Os ganhos em renda fixa, em geral, repõem apenas parcialmente as perdas. E investimentos em renda variável, como ações, se tornam muito mais arriscados em uma economia desorganizada, característica dos períodos inflacionários.

  • Tarifas mais caras: 

Cerca de metade da inflação dos últimos 12 meses ocorreu por conta da energia elétrica e dos combustíveis. Gastos com energia ou gás de cozinha podem até ser reduzidos, mas dificilmente são substituídos pelas famílias. A perspectiva é que o fim, previsto para maio, da bandeira “escassez hídrica”, dê pelo menos um alívio nessa despesa. A bandeira especial foi criada e adotada este ano, e acrescenta uma tarifa extra cobrada nas contas de luz.

  • Combustível nas alturas:

A alta do dólar e das cotações do petróleo no mercado internacional provocaram um choque nos combustíveis. O preço médio do litro gasolina subiu de R$ 4,409 para R$ 6,744, de novembro de 2020 a novembro deste ano, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em alguns postos do País, o valor chegou a quase R$ 8. Já o litro do óleo diesel subiu de R$ 3,515 para R$ 5,359 no mesmo período. É um aumento que afeta diretamente as famílias que dependem do carro próprio e desequilibra o orçamento. Além disso, as empresas são prejudicadas em razão do maior custo do transporte, que acaba repassado para o preço final dos produtos e serviços. 

  • Reajustes das escolas: 

Depois de muito tempo sem aumento por causa da pandemia ou com pequenas correções, as escolas preparam reajustes entre 7% e 10%, em média, para o ano que vem, segundo pesquisas do setor. Dirigentes de escolas dizem que há espaço para negociação, mas alegam pressões de custos e argumentam que fizeram investimentos pesados em tecnologia para se adaptar ao ensino a distância.

  • Preço salgado no supermercado:

Tidos como os grandes vilões da inflação em 2020, os alimentos da cesta básica continuam em alta. Entre janeiro e outubro, o custo da cesta subiu em todas as capitais, segundo o Dieese, com aumentos de até 20%. O impacto maior recai nas famílias de menor renda, que gastam quase a totalidade do orçamento com alimentos. 

  • Renegociação de aluguéis:

Os aluguéis tinham tudo para uma explosão muito maior, porque o indexador usado nos contratos geralmente é o IGP-M, que acumula alta de quase 18% em 12 meses até novembro. No entanto, os reajustes ficaram em 6,17%  em 12 meses até outubro, até abaixo do IPCA cheio, de 10,67% no período. Sinal de que há espaço para negociação entre inquilinos e proprietários.

  • Juros do financiamento imobiliário:

Com inflação sob controle e juros em trajetória de queda, a Caixa lançou, em 2019, um financiamento imobiliário atrelado ao IPCA. A linha trazia condições melhores que as de outros financiamentos tradicionais. Mas, com o IPCA na casa dos 10%, esse crédito se transformou numa grande armadilha para quem o contratou. O resultado é que as concessões de financiamentos nessa modalidade praticamente desapareceram.

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Fábio Alves: Não há como o Banco Central trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia

Para parte do mercado, um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem

Fábio Alves* - O Estado de S.Paulo

Depois da leve queda no PIB do terceiro trimestre e um recuo da produção industrial em outubro, enquanto o mercado esperava aumento, uma parcela de analistas e investidores passou a criticar com mais veemência o ritmo do aperto monetário do Banco Central.

O argumento dessa corrente do mercado é de que um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem. Mais ainda: que a desaceleração da atividade econômica já conseguiria fazer parte do trabalho da política monetária para arrefecer a inflação.

Só para lembrar: o PIB do terceiro trimestre caiu 0,1% ante o segundo trimestre, jogando a economia em recessão técnica. Isso seria já suficiente para o BC rever a magnitude do aperto monetário em curso?

Continua após a publicidade

Mesmo com a economia desacelerando, a inflação acumulada em 12 meses seguirá em dois dígitos até março de 2022. Foto: Beto Nociti/Banco Central

A resposta é não. Apesar do resultado negativo, a composição do PIB do terceiro trimestre ainda mostra fontes de pressão à inflação, com o crescimento forte dos setores de consumo, de serviços e de gastos do governo em julho, agosto e setembro.

Um exemplo foram os chamados “outros serviços”, que englobam atividades como bares, restaurantes, hotéis, educação privada, saúde e serviços de beleza, e tiveram alta de 4,4% no terceiro trimestre em comparação com os três meses anteriores.

São os setores mais sensíveis à política monetária. E o esforço que o BC deveria estar fazendo é evitar que os preços dos bens não comercializáveis, como os do setor de serviços, subam tanto em 2022 para acomodar uma desaceleração dos preços que sofreram um choque com a pandemia.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o mercado projeta inflação de 10,18% neste ano e de 5,02% em 2022, um estouro do teto da meta por dois anos consecutivos. Para a decisão do Copom hoje, a esmagadora maioria dos analistas espera alta de 1,5 ponto porcentual da taxa Selic, para 9,25%.

Mesmo com a economia desacelerando, a inflação acumulada em 12 meses seguirá em dois dígitos até, ao menos, março do ano que vem. Isso porque ainda ocorrem repasses da inflação passada ao redor de 8%, 9%, como mostram os dissídios salariais monitorados pela Fipe. Ou seja, a velocidade de queda da inflação devido à inércia poderá ser lenta.

Uma das maneiras que o BC poderá quebrar esse processo seria tentar valorizar o câmbio via diferencial de juros maior, pois, com a Selic a 7,75%, o dólar segue ao redor de R$ 5,60. O ruído político e a piora na percepção do risco fiscal tornam esse trabalho mais difícil. Mas, infelizmente, não há como trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

Tudo o que sabemos sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.