Ben Margot / AP Photo
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Bem-vindo ao bairro: nos EUA os estádios estão se mudando para o centro das cidades

Três anos após parceria para acabar com um centro comercial quase vazio, Sacramento é uma cidade que renasceu

Keith Schneider, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2018 | 05h00

SACRAMENTO - Horas antes do Sacramento Kings jogar sua partida de abertura em casa, na NBA em outubro, Vivek Ranadivé ficou na varanda do novo escritório da equipe, no quarto andar do Downtown Commons, de US$ 1 bilhão. Ele viu os fãs do basquete entrarem em massa no Golden 1 Center, de um ano. Sorriu ao ver os hóspedes nadando na piscina da cobertura do novo hotel Kimpton Sawyer, de 250 quartos. Abaixo dele, a praça aberta ao nível da rua era toda animação.

“Este lugar estava morto, há quatro anos”, disse Ranadivé, referindo-se ao centro de Sacramento, a capital do estado mais populoso do país. Como muitas cidades, o núcleo urbano de Sacramento precisava ser repensado. “Poderíamos jogar uma bola de boliche e não acertar ninguém”, disse ele.

Não mais. Três anos depois que Ranadivé, o dono do Kings, fez uma parceria com a cidade para acabar com um centro comercial quase vazio e, um ano depois, abriu a arena e áreas comuns de um mais de 92 mil metros quadrados, Sacramento é uma cidade que renasceu.

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O número de empregos no centro aumentou 38%, segundo o Downtown Sacramento Partnership, grupo para o desenvolvimento econômico da cidade. No último ano, 27 novas lojas se instalaram e outras 23 devem ser abertas este ano. Há tanta atividade no setor de construção que a cidade decidiu contratar mais de 20 novos funcionários para processar os formulários e alvarás de construção.

E Sacramento não é a única. Em todo o país, em mais de uma dúzia de cidades, os centros da cidade estão sendo remodelados, pois os empreiteiros abandonam os subúrbios para combinar as novas arenas esportivas com espaços de uso misto para residências, varejo e escritórios. Os novos projetos estão alterando a fórmula financeira que previa a construção de estádios e arenas, circundando-os não mais com ociosos estacionamentos em vastas áreas do subúrbio, mas com lojas, escritórios e residências geradores de receita e capazes de amortizar a dívida pública usada para ajudar a construir tais locais.

Em São Francisco, a equipe de beisebol dos Giants está se preparando para construir empreendimento de uso misto de US$ 1,6 bilhão na orla marítima, ao sul do parque AT&T, onde a equipe jogou desde 2000. Haverá moradia para 1.600 pessoas e mais de 92 mil metros quadrados de espaço para varejo e escritórios.

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A alguns quarteirões de distância, o Chase Center, o novo lar do Warriors da NBA, está em construção contando com financiamento privado. E, assim como em Sacramento, a arena de 18 mil lugares, que será inaugurada no próximo ano, ancora um empreendimentol de uso comercial e de varejo de US$1 bilhão, 11 acres e 63 mil metros quadrados e o parque San Francisco Bayfront, de quase 6 hectares.

Em Columbus, Ohio, a Nationwide Realty Investors construiu o Arena District, de 75 acres, de US$ 1 bilhão, com uma Arena do NHL (sede dos Blue Jackets), cercada por 1.030 apartamentos, 185 mil m² de espaço comercial para 80 empresas, um estádio de beisebol de ligas menores, restaurantes e lojas. Em Cincinnati, Banks, um novo distrito de uso misto de US$ 1 bilhão, surgiu na linha costeira do rio Ohio entre os estádios de beisebol e futebol da cidade. Em Inglewood, Califórnia, uma obra de uso misto de US$ 3,8 bilhões e 298 acres atualmente em construção incluirá um estádio para a NFL, financiado por capital privado a ser compartilhado pelos Los Angeles Rams e os recém-chegados Los Angeles Chargers.

E em Detroit, a Little Caesar’s Arena, de US$ 863 milhões e 19.500 lugares, que abriga o Pistons e as Red Wings, abriu no verão passado, no meio do Distrito de Detroit, um bairro de uso misto com 50 quadras, avaliado em US$ 1,2 bilhão.

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A explosão de obras de áreas de uso misto como estas é devida, em parte, ao renascimento econômico urbano americano. A população das cidades cresceu mais rapidamente de 2010 a 2016, que a dos subúrbios, revertendo uma tendência de 60 anos que se iniciou em 1950, de acordo com dados do recenseamento. E as cidades - e não os subúrbios - são agora os geradores primários do crescimento econômico da nação, de acordo com pesquisas compiladas pela Reserva Federal.

“É o chamado ‘efeito de uma milha quadrada’", disse Bruce Katz, especialista em desenvolvimento urbano da Brookings Institution. “O centro e as áreas próximas possuem um grande valor em uma área geográfica relativamente pequena”.

Durante anos, a popularidade dos times ou sua importância econômica foram usadas pelos donos desses times para forçar os governos a construírem novos estádios junto às rodovias, incluindo os serviços públicos necessários para operá-los. Ameaçavam mesmo transferir seus times se não fossem atendidos.

Um estudo de 2016 da Brookings Institution considerou que 45 estádios e arenas para os quatro principais esportes profissionais - futebol, baseball, basquete, hóquei - foram construídos ou renovados nos Estados Unidos de 2000 a 2014 a um custo de quase US$ 28 bilhões. Desse total, US$ 13 bilhões foram financiados publicamente com títulos isentos de impostos.

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Mas os projetos anteriores que fracassaram, em particular na década de 1990, apontaram para o risco potencial desses investimentos. “O que sustentava tais negócios era a ideia de que grandes subsídios públicos para uma instalação autônoma manteria a equipe em ação e incentivaria a atividade econômica”, disse Roger Noll, professor emérito de economia na Universidade de Stanford.

“As catástrofes financeiras convenceram as cidades e os moradores de que os subsídios multimilionários para estádios autônomos são um desperdício”.

Os especialistas em projetos urbanos também levantaram suas vozes em oposição ao modelo antigo. Observaram que o generoso financiamento para estádios públicos ignorava quase todas as facetas do desenvolvimento imobiliário sólido, como a localização. Os EUA estavam produzindo uma série de arenas isoladas nos subúrbios e no campo, rodeadas por estacionamentos gigantes, muitos dos quais estavam ociosos a maior parte do tempo. /Tradução de Claudia Bozzo

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