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Bolsa de NY tem maior queda em sete anos

Investidores temem que a inflação saia do controle na maior economia do mundo, levando a uma alta mais acelerada dos juros

Cláudia Trevisan, correspondente, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2018 | 18h25

O temor de que a economia americana entre em uma fase de superaquecimento provocou pânico nesta segunda-feira, 5, no mercado acionário dos EUA, que fechou com a maior queda em pontos da história. O movimento de venda acentuou perdas registradas na sexta-feira e se espalhou por Bolsas na Europa, Ásia e América Latina. Sob esse efeito, em São Paulo, o Ibovespa - com as principais ações em negociação na B3 - acompanhou a queda de seus pares em Nova York, porém, em ritmo um pouco mais contido. O índice fechou em baixa de 2,59%, aos 81.861,08 mil pontos.

Em termos porcentuais, o tombo no exterior foi o maior desde 2011 e anulou os ganhos obtidos pelos investidores em 2018. O índice Dow Jones sofreu a maior perda diária em pontos da história, ao ceder 4,60%, aos 24.345,75 pontos. O S&P 500 recuou 4,10% e o Nasdaq fechou em baixa de 3,78%. Ao longo do pregão, o Dow Jones chegou a despencar mais de 6%.

O grande temor do mercado é que a maior economia do mundo enfrente pressões inflacionárias que levem o Federal Reserve a aumentar a taxa de juros em ritmo mais acelerado que o gradualismo projetado por Janet Yellen e seu sucessor, Jerome Powell, que tomou posse ontem.

Dados sobre emprego divulgados na sexta-feira, 2, pelo governo mostraram uma alta de 2,9% no salário-hora pago aos trabalhadores americanos, impulsionada pela queda do desemprego a 4,1% e um aperto do mercado laboral. Em dezembro, o Congresso aprovou corte de impostos de US$ 1,5 trilhão, que equivale a um estímulo fiscal no momento em que a economia está com pleno emprego e crescimento superior a 2,5% anualizados.

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“É possível que a reforma tributária leve a um superaquecimento. A economia está crescendo a um ritmo próximo de sua capacidade e o desemprego está em 4,1%”, disse Michelle Meyer, economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch. Segundo ela, esse é o cenário que os investidores passaram a contemplar a partir de sexta-feira.

Até então, a narrativa predominante era a de que o corte de impostos levaria ao aumento de investimentos e produtividade, o que garantiria um longo período de crescimento sustentável sem pressão inflacionária, observou Meyer. “Nós ainda não sabemos qual será o impacto da reforma tributária e qual dessas duas possibilidades vai se concretizar.” A economista ressaltou que não há indícios de que a inflação sairá de controle e manteve sua previsão de que haverá três altas de juros neste ano, cada uma de 0,25 ponto porcentual. Sua estimativa é de que o PIB crescerá 2,7%.

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Julia Coronado, fundadora da MacroPolicy Perspectives, também não vê ameaças inflacionárias no horizonte. “Não acredito que a pressão de preços vá colocar em xeque a alta gradual de juros”, avaliou. Coronado disse que o mercado acionário estava movido por expectativas não realistas em relação ao impacto do corte de impostos e que uma correção era necessária.

Gasolina no fogo. A economista, que trabalhou durante oito anos para o board de governadores do Fed, também vê a possibilidade de que a reforma tributária provoque superaquecimento da economia, mas observou que ainda é muito cedo para chegar a uma conclusão definitiva sobre seu impacto. Mas alguns analistas já deram seu veredicto: “Nós estamos colocando tremenda quantidade de gasolina no fogo”, disse ao New York Times Rick Rieder, da gestora de investimentos BlackRock.

Em entrevista que concedeu na sexta-feira à CNBC, Yellen afirmou que a cotação das ações estava “alta” e manifestou preocupação com preços no mercado imobiliário. “É uma bolha ou está muito alto? Isso é muito difícil dizer. Mas é uma fonte de certa preocupação que a valorização de ativos esteja tão alta”, disse a ex-presidente do Fed em seu último dia no cargo.

Juros em ascensão encarecem o preço do dinheiro para empresas e aumentam o que os consumidores têm de desembolsar por financiamentos, com potencial impacto negativo sobre a expansão econômica.

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Além de inflação, os investidores estão preocupados com o aperto de liquidez promovido pelo Fed depois dos anos de expansão monetária que se seguiram à crise global de 2008. O banco central americano está reduzindo a quantidade de bônus do Tesouro dos EUA que tem em carteira.

Brasil. Por aqui, segundo analistas, a correção dos ganhos acumulados no primeiro mês de 2018 é menos acentuada porque ainda há motivos que dão sustentação às perspectivas mais otimistas na cena doméstica, muito embora assuntos como a reforma da Previdência estejam parcialmente precificados.

Perto do fechamento da sessão, o índice à vista da Bolsa brasileira acompanhou uma sequência forte de mínimas em Wall Street e perdeu, inclusive, o patamar dos 82 mil pontos. O índice fechou em baixa de 2,59%, aos 81.861,08 mil pontos, na mínima do dia. Ainda assim, neste ano, o Ibovespa acumula ganhos de 7,15%.

"Vamos acompanhar a tendência das bolsas americanas, em baixa ou alta, mas a magnitude vai ser diferente", disse Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial. Segundo ele, o mercado acionário dos Estados Unidos passa por um processo de desalavancagem (de redução de endividamento) e isso acaba contaminando globalmente.

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Para o Brasil, no entanto, ele diz que esse efeito é menor uma vez que o Ibovespa não acompanhou todo o ciclo de alta do mercado americano e, também agora, não deve seguir em todo o ajuste.

Fabricio Estagliano, analista-chefe da Walpires Corretora, complementa afirmando que o recuo é limitado também pela expectativa sobre a cena doméstica, que ainda é positiva e diante da safra de bons resultados nos balanços que estão sendo divulgados.

Para os dois analistas, a cena doméstica contou pouco hoje. Com a agenda vazia de notícias mais relevantes, as declarações de integrantes do governo e de políticos em torno do andamento da Reforma da Previdência foram monitorados. 

"Ainda estamos diante das mesmas notícias e essa falta de novidade corrobora para um cenário negativo", ressaltou Figueredo, que acredita que o tema ganhe fôlego e impacto no mercado após o Carnaval, para quando foi marcada a discussão na Câmara da proposta.

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Da carteira de ações mais negociadas da bolsa, chamadas por blue chips, as preferidas dos estrangeiros no Brasil sofreram na sessão desta segunda. As ações ON e PN da Petrobrás foram impactadas pela forte queda das cotações do petróleo no mercado futuro e encerraram em baixa de 4,50% e 4,66%, respectivamente. No setor financeiro, os recuos mais fortes foram notados nas units do Santander (4,07%), Itaú Unibanco PN (3,51%) e Banco do Brasil (2,98%). 

3 perguntas para Silvio Campos Neto, economista-chefe da Tendências Consultoria

1. O mercado foi pego de surpresa pelo que aconteceu em Nova York na segunda-feira?

Não. Os preços dos ativos subiram muito nos últimos dias e qualquer notícia não tão boa seria o gatilho para uma correção. No caso, foram os dados de emprego nos Estados Unidos. Não acho que essa correção vá longe.

2. Qual o impacto esperado no mercado brasileiro?

Parte da queda de Nova York já foi absorvida pelo Ibovespa. O Brasil é muito impactado com o exterior. Eu recomendo cautela para o investidor agora.

3.O que poderia reverter essa tendência de queda das bolsas internacionais nos próximos dias?

Tudo vai depender do banco central americano. Se ele vier a público e sinalizar que não vai aumentar os juros de maneira tão forte, o investidor deve se acalmar. Vamos acompanhar. /Renato Jakitas.

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