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Com dólar fortalecido, moedas tendem a desvalorizar em todo o mundo

Taxas de juros e risco global faz investidores olharem para Tesouro americano com mais expectativa

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2022 | 04h00

Desde abril de 2021, o dólar vem se fortalecendo. No início, o movimento ocorreu devido à expectativa de que o Fed faria apenas uma pequena elevação da taxa de juros, e se acentuou quando, finalmente, a autoridade monetária reconheceu que a demanda superaquecida exigia aumento maior

O fortalecimento do dólar pulverizou a previsão de que, com as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia, o dólar rapidamente deixaria de ser moeda reserva. Pelo menos por enquanto, o que ocorre é o oposto. O aumento do risco global leva os investidores a sair dos ativos de maior risco, derrubando as Bolsas ao redor do mundo e elevando a demanda pelo ativo sem risco – os títulos do Tesouro dos EUA. A busca pela qualidade leva ao aumento da demanda por treasuries, o que reduz suas taxas de juros, impedindo que estas reflitam corretamente a expectativa de aumento da taxa dos fed funds.

Como um dólar mais forte significa moedas mais depreciadas de todos os demais países, estes terão de combater inflações ainda mais altas. A consequência é um aperto adicional das condições financeiras ao redor do mundo, o que acentua a desaceleração do crescimento mundial.

Finalmente, com preços denominados em dólares, transações financiadas e liquidadas em dólares, os preços de commodities caem com o fortalecimento do dólar. É isso que indica a elevada correlação negativa entre o dollar index e o índice CRB de commodities. O celebrado “superciclo de commodities”, entre 2002 e 2008, não veio apenas do crescimento do PIB da China, mas também da enorme e longa valorização do dólar. 

Quais são as consequências para o Brasil? A mais recente depreciação do real, que o levou de R$ 4,60/US$ em abril para R$ 5,40/US$ na última semana, se deve apenas em parte ao fortalecimento do dólar. A depreciação acumulada nos dois últimos meses só não supera a de países em crise e vem ocorrendo com o aumento das cotações do CDS brasileiro de 10 anos, que já atingiu 400 pontos e que reflete o aumento dos riscos fiscais. 

Resultados fiscais dependem das receitas tributárias. Somente tivemos resultados fiscais melhores em 2021 e 2022 em virtude de um aumento de receitas, que foi maior nos Estados do que na União, devido à sua maior sensibilidade aos preços do petróleo e das commodities em geral. Se estiver correto na minha avaliação, assistiremos em 2023 a uma piora no desempenho das receitas, limitando o espaço para os gastos. Não é um quadro animador para quem se preocupa com os riscos fiscais e seus efeitos.

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