Claudio Belli/Brasilprev
Claudio Belli/Brasilprev

Com primeira mulher no comando, Brasilprev vai diversificar investimentos

Ângela Assis quer diminuir concentração de ativos em renda fixa da empresa, que tem 2,3 milhões de clientes, e também investir em educação financeira

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

A nova presidente da Brasilprev, Ângela Beatriz de Assis, primeira mulher a ocupar o posto, assume com o desafio de diminuir a forte concentração dos mais de R$ 300 bilhões sob a gestão da empresa em ativos de renda fixa. A mudança vem em meio aos juros baixos que, na visão dela, são o "novo normal" e vão permitir uma economia mais "evoluída".

Para além da diversificação dos investimentos, ela vê urgência no reforço da educação financeira dos clientes e quer preparar a empresa, líder em previdência privada, para navegar em mar aberto, ampliando um radar que hoje mira só a base de clientes do Banco do Brasil. “Com juros baixos, poderemos ter, de fato, uma economia mais evoluída, com melhor distribuição de riquezas. Temos de entender que esse será o novo normal”, diz Ângela ao Estadão/Broadcast, na primeira entrevista após a nomeação ao cargo. “Mesmo o cliente mais conservador vai ter de entender que terá de assumir um pouco de risco para rentabilizar seu patrimônio.”

Esse é um desafio importante, diz, considerando o tamanho da Brasilprev, que tem 2,3 milhões de clientes e mais de R$ 300 bilhões em ativos sob gestão – o que lhe garante a liderança do mercado, com fatia de 30%. O cenário de pandemia, que mantém a volatilidade nos mercados e volta e meia assusta os investidores, aumenta a responsabilidade. Nos ativos geridos, segundo ela, há muita concentração na renda fixa.

“Temos muito mais trabalho e necessidade de comunicação com nossos clientes do que os outros players em razão do nosso tamanho, que nos dá muitas vantagens, mas também desafios”, afirma. No quesito investimentos, o foco da gestão, diz Ângela, será de continuidade.

Primeira mulher a comandar a Brasilprev desde sua fundação, em 1993, ela já estava na atual diretoria, que iniciou processo de diversificação do portfólio da empresa diante da queda dos juros. O movimento tem sido feito aos poucos e com cautela, afirma, mas já apresenta resultados. A proporção do patrimônio líquido da companhia em multimercados, fundos que combinam diferentes estratégias, é de 12,3% ante 9,3% no ano passado. Em 2018, não chegava a 6%.

"Estamos olhando muito de perto o que está acontecendo. Quando se tem uma carteira tão grande quanto a nossa, não se consegue nem é positivo fazer mudanças muito drásticas", explica a executiva. "Vamos continuar nesse mesmo ritmo."

Ela também defende um reforço na educação financeira e previdenciária dos brasileiros.  Um dos planos da sua administração, antecipa, é ampliar uma iniciativa da empresa com um dos sócios, o norte-americano Principal Group (com o Banco do Brasil), ao lado da escola de negócios Trevisan. Juntos, têm um projeto para levar educação financeira a escolas e associações de bairro.

Para Ângela, ampliar a educação financeira é uma necessidade não só para a base de varejo, mas em todas as escalas da sociedade brasileira - incluindo os endinheirados. Ela explica que ainda há muitos investidores que se assustam com a oscilação das cotas dos fundos multimercados e sacam seus recursos no pior momento, amargando prejuízos. Em outubro, esse temor se confirmou. Diante da variação negativa na renda fixa em alguns dias, muitos investidores preferiram sacar - gerando resgates bilionários na indústria. "É a pior decisão. Nessa hora, a gente vê que temos que evoluir bastante com a educação financeira", reforça.

Para 2021, Ângela espera que as notícias continuem positivas diante do avanço de uma vacina contra a covid-19, com o Brasil podendo se beneficiar por ter sido atingido pela pandemia após a Europa e Estados Unidos, que já enfrentam a segunda onda. Mas a executiva chama atenção para a necessidade de reformas que coloquem o Brasil no trilho fiscal. "Não vamos ter um primeiro trimestre tão forte, mas podemos ter um ambiente de negócios mais regular", prevê.

Ela também quer anunciar no próximo ano a ampliação dos canais de distribuição da Brasilprev, aliando-se a fintechs e a outros bancos além do BB. As conversas, conta, estão em andamento. Sua diretoria, que tocava marketing e comunicação, já havia montado uma área para estruturar o negócio e a ideia é incrementá-lo em 2021.

Na frente digital, reforçada na pandemia, o objetivo de Ângela, que vê nos mundos físico e online estratégias complementares, é não só o de gerar mais negócios com o BB como aliado, mas também o de usar a tecnologia para educar o cliente, principalmente aquele que corre para o saque no momento de desespero. Após um aperfeiçoamento do aplicativo para que ele esclareça os impactos da retirada de recursos, 55% dos clientes que simulam o resgate não vão em frente.

Com quase três décadas no conglomerado, ela é a segunda mulher promovida pelo atual presidente do BB, André Brandão, que tem defendido a necessidade de ir além nos projetos de equidade de gênero da instituição e, de fato, nomear mulheres. Além dela, a gerente Santuza Bretas foi promovida à diretora de Tecnologia do banco.

"Sem dúvida nenhuma, há muito espaço para as mulheres assumirem posições de CEOs. Uma gestão de mulheres e homens contribui mais para um ambiente harmônico, de diferenças", afirma. "Não faltam candidatas qualificadas, mas um olhar com atenção."

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