Renato S. Cerqueira/Futura Press
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Como investir na Bolsa de valores de forma consciente e sem sustos

Estagnação da Selic e alta da Bolsa atraiu brasileiros antes seguros na renda fixa a se aventurar pela renda variável, mas é preciso ter cuidado com riscos nas compras e vendas de papéis

Paulo Roberto Netto, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 17h26

A estagnação da taxa Selic em 6,5% ao ano e as boas expectativas do mercado em relação à economia levou brasileiros antes seguros em investimentos de renda fixa a buscar lucros na renda variável, como a Bolsa de valores. A rentabilidade das ações pode atrair, mas é preciso ter cuidado com os riscos e as negociações envolvidas na compra e venda de papéis.

Em primeiro lugar, é preciso esquecer a imagem de corretores de valores pendurados no telefone aos gritos durante os pregões, os dias de negociações do mercado financeiro. Hoje, as transações são feitas exclusivamente pela internet.

Outro ponto importante é conhecer qual é o seu tipo de investidor: se prefere correr mais ou menos riscos e se busca lucros a curto ou a longo prazo. Ter o conhecimento básico do próprio perfil e do funcionamento da Bolsa é essencial para evitar sustos no futuro.

O que é e como funciona a Bolsa de valores?

A Bolsa de valores é o mercado onde se comercializam ações de diversos setores, títulos públicos e de renda fixa, moedas, commodities e outros tipos de investimentos.

No Brasil, ela é conhecida como B3, fusão da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&FBOVESPA) com a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip). É a quinta maior bolsa de mercados de capital do mundo e está localizada em São Paulo (SP).

As operações realizadas na B3 são supervisionadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Economia.

O que são ações e para que servem na Bolsa de valores?

Ações são "pedaços" de uma empresa que são vendidos e comprados na Bolsa de valores. Esses papéis são um meio utilizado pela companhia para captar recursos financeiros para investir em si mesmas. O investidor que adquire um desses "pedaços" se torna sócio da empresa, com direito a receber uma parcela do lucro da mesma.

Em linhas gerais, quanto mais ações um investidor possui, maior será a participação dele na empresa. Em alguns casos, é possível ter direito a voto em assembleias.

Qual a diferença entre ações ordinárias e ações preferenciais na Bolsa?

As ações ordinárias, identificadas pela sigla ON, dão direito a voto em assembleias, mas, na maioria dos casos, não garantem direito a veto. Elas são indicadas a investidores que desejam ser ativos nas decisões das empresas que investem ou buscam obter lucro com a venda da ação após a valorização do papel.

As ações preferenciais, as PN, concedem preferência aos investidores na distribuição dos lucros da empresa, os dividendos. Por essa razão, é destinada a quem deseja receber dinheiro no longo prazo. A legislação brasileira obriga as empresas com ações na Bolsa a distribuir pelo menos 25% dos lucros aos acionistas.

Como investir na Bolsa de valores?

O primeiro passo antes de entrar de cabeça na B3 é escolher uma corretora de valores para abrir uma conta. A instituição financeira será a responsável pela administração de sua carteira de investimentos e por providenciar o Home Broker, ferramenta utilizada para a compra e venda de ações e monitoramento do mercado.

Antes de decidir, leve em conta alguns fatores: as taxas cobradas pela corretora, o serviço de atendimento e assistência ao cliente e os selos de qualificação da B3. Uma recomendação dos especialistas é cobrar relatórios de análises de empresas com capital aberto na Bolsa e realizar demonstrativos com projeções.

Para abrir uma conta na corretora, são necessários os mesmos documentos de identificação exigidos para abrir uma conta bancária, como comprovante de residência e identidade. Dependendo da instituição, mais documentos podem ser cobrados. 

É preciso preencher um formulário de aplicação, o API. A sigla é do inglês Application Programming Interface, que busca identificar o modelo de investimento mais adequado a cada perfil de cliente.

Quais taxas são cobradas?

Existem três cobranças envolvidas nas operações na Bolsa: a corretagem e a taxa de custódia, ambas cobradas pela corretora de valores, e o emolumento.

1. A corretagem é o valor pago à corretora nos momentos de compra e venda de ações. Cada instituição financeira tem seus próprios planos e algumas são isentas, mas geralmente seguem a dinâmica de corretagem fixa (é cobrado um único valor independentemente do número de ações que são compradas ou vendidas) ou a corretagem variável (cujo valor depende da ordem de compra ou venda a ser realizada).

2. A taxa de custódia é cobrada mensalmente cobrada pela B3 e pode ou não ser repassada pela corretora como "custo de manutenção" da conta bancária atrelada à carteira de investimentos. Ela cobre os gastos operacionais das ações na Bolsa, mas não é obrigatória. Algumas corretoras isentam os clientes ou cobram um valor correspondente ao número de compra ou venda de ações feitas durante o mês.

3. Diferente das anteriores, o emolumento é cobrado pela B3 a partir de um porcentual calculado sobre as ações negociadas, a liquidação e o Imposto Sobre Serviço, o ISS. O pagamento é obrigatório e o valor é de 0,032472% sobre o valor da operação (operações comuns) e 0,024032% para até 4 operações (operações day trade, compra e venda de ações no mesmo dia).

Qual o valor mínimo para investir na Bolsa?

Não existe um valor mínimo. Se uma empresa decidir vender uma ação ao preço de R$ 1, você pode adquirir o papel por esse valor. No entanto, é preciso ficar atento às taxas cobradas pelo serviço, como a corretagem. Em um exemplo prático, pode não ser tão positivo adquirir essa mesma ação de R$ 1 se a taxa de corretagem cobrada for de R$ 10.

Normalmente, as ações são vendidas em lotes fechados de 100, mas é possível comprar papéis avulsos no mercado fracionário.

Como investir na Bolsa com pouco dinheiro?

De acordo com o professor Michael Viriato, do Insper, o investidor com pouco dinheiro deve buscar os fundos negociados em Bolsa e fundos de investimentos em ações. "Assim, você consegue, de uma única forma, pulverizar a sua carteira", afirma. 

Se mesmo assim o investidor quiser ir para o mercado de ações, deve focar em começar com apenas duas. O motivo seria a dificuldade em acompanhar a fundo todas as movimentações necessárias para tomar boas decisões.

"Não tem como a pessoa física achar que vai conseguir fazer melhor (que um analista de mercado) quando se tem menos acesso, está acompanhando por pouco tempo e sozinho", disse.

A professora Myrian Lund, da Fundação Getulio Vargas, recomenda ao investidor que não adquira muitas ações logo no começo, mas pelo menos compre papéis de quatro empresas, preferencialmente de setores diferentes. "Se uma sobe e a outra cai, você começa a melhorar a sua relação risco-retorno", disse.

Segundo Myrian, os investidores sem tempo para acompanhar o mercado podem optar por fundos de investimentos com resultados acima do Ibovespa, o índice da B3.

"Esses fundos são distribuídos por corretoras pois são geridos por pequenos gestores, responsáveis só por isso. Por isso, o ganho deles depende dessa performance", afirma. "Já um banco trabalha de forma mais conservadora, acompanhando o Ibovespa. Então, se for para entrar em um fundo de banco, é preferível entrar direto na Bolsa."

Em todos os cenários, é recomendado ao investidor ter uma reserva de emergência, espécie de poupança de segurança com uma quantia entre 6 a 12 meses de ganhos mensais, para se resguardar de imprevistos.

 

Quais são os riscos de investir na Bolsa de valores?

As operações na Bolsa são mais arriscadas que os investimentos de renda fixa, nos quais se recebe o valor investido com juros a longo prazo. Por ser um ambiente dinâmico, a desvalorização de uma ação pode trazer prejuízo ao investidor desatento, assim como a falta de conhecimento sobre quais ações valem a pena adquirir.

O primeiro risco a ficar atento é a desvalorização do ativo, algo que pode ocorrer se a empresa passar por um período de mau desempenho, queda nos lucros ou redução nas expectativas de crescimento econômico da companhia.

Fatores externos também podem provocar quedas no preço dos papéis. No começo deste ano, por exemplo, as ações da Vale caíram 24,5% no primeiro pregão após o desastre de Brumadinho (MG), levando à perda de R$ 71 bilhões em valor de mercado. Foi a maior perda registrada em um só dia na história da Bolsa brasileira, ocasionada pelo desastre que deixou mais de 180 pessoas mortas e mais de 120 desaparecidas após o rompimento de uma barragem.

Outro risco que merece atenção é a liquidez, ou a facilidade de negociação de uma determinada ação. Empresas grandes e multinacionais vendem ações conhecidas como "Blue Chips" ou de "Primeira Linha". Elas são de grande liquidez e as mais procuradas pelos investidores por serem mais fáceis de vender ou comprar.

Abaixo delas estão as ações de "Segunda Linha", de empresas boas, mas com riscos maiores que as de Primeira Linha. Os papéis de "Terceira Linha", por sua vez, possuem pouca liquidez. Nesse caso, o investidor pode até comprar a ação em um preço mais baixo, mas poderá enfrentar dificuldades para vendê-la caso desista do papel.

A recomendação para evitar cair nessa armadilha é olhar quais ações são mais vendidas no mercado fracionário - aquele que permite a compra avulsa de ações. Outra dica é evitar o mercado derivativo. "São mercados sofisticados, pois a volatilidade é muito maior. Ele pode te dar muito ganho, mas também uma perda bem grande", afirma Myrian Lund.

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