Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bolsa sobe aos 119 mil pontos e dólar cai após divulgação de inflação americana

Índice de preços ao consumidor americano subiu 0,6% na passagem de fevereiro para março e resultado agradou investidores; por aqui, as questões orçamentárias continuam no radar

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 18h10

A folga nas taxas de rendimento dos títulos do Tesouro americano, em dia de divulgação da inflação de preços ao consumidor dos Estados Unidos, ajudou no bom desempenho da Bolsa brasileira (B3), em alta de 0,41%, aos 119.297,13 pontos nesta terça-feira, 1. Foi a primeira vez que o índice alcançou esse patamar desde meados de fevereiro. No câmbio, o dólar fechou a R$ 5,7176, em leve baixa de 0,08%.

Muito esperado pelo mercado desde ontem, a inflação de preços ao consumidor (CPI) dos EUA teve leve alta de 0,6% na passagem de fevereiro para março. O resultado veio pouco acima do estimado pelo Projeções Broadcast, que falava em aceleração de 0,5%. "A alta do índice foi mais intensa do que a leitura anterior, de 0,4%. Todos sabiam que os preços iam subir, e levará meses de aumentos significativos para que se tenha reação maior no mercado", observa em nota Edward Moya, analista da OANDA em Nova York. O indicador era monitorado de perto por investidores e é visto como um sinal de retomada da economia dos EUA.

A percepção, porém, é que o aumento não é o bastante para provocar uma mudança na política pró-estímulos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que já havia apontado anteriormente para a tendência de altas passageiras da inflação. Nesse cenário, o mercado de títulos do Tesouro americano cedeu, com a taxa de rendimento do papel com vencimento para dez anos em baixa de 1,619%, enquanto a do papel com vencimento para trinta anos cedeu 2,999%. A realização de um megaleilão também contribuiu para o resultado.

O movimento do mercado de títulos do Tesouro dos EUA é visto com atenção pelo mercado, que teme uma migração dos recursos. Se a economia americana estiver indo bem, a tendência é que os investidores retirem seus recursos dos índices acionários, opções mais arriscadas, para o mercado de títulos americanos, opções mais seguras e, dependendo da ocasião, até mesmo mais rentáveis.

Aqui, além das dúvidas sobre o Orçamento de 2021 e a situação fiscal, a pandemia ainda preocupa, com elevadas médias móveis de óbitos. "É provável que o mercado esteja esperando alguma clareza, e que talvez tenha embutido um prêmio esperando uma turbulência maior, agora sendo revisto", diz Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch. O quadro político, contudo, segue obscuro, em meio ao início formal do processo de criação da CPI da Covid, com a leitura do requerimento em plenário pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), hoje, abrindo prazo para que os partidos indiquem participantes.

Nesta terça-feira, como no dia anterior com poucos novos catalisadores para os negócios, prevaleceu  a busca por gatilhos que ajudassem a levar o Ibovespa um pouco mais adiante, na véspera do vencimento de contratos futuros. Assim, o destaque foi o setor siderúrgico, "com a alta de 3% do minério de ferro após a divulgação da balança comercial chinesa de março", aponta Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

Vale ON, que vem de máximas recentes, fechou a sessão em leve alta de 0,17%, a R$ 103,58, enquanto os ganhos no setor de siderurgia chegaram a 2,89% para Usiminas. Os bancos devolveram em parte os ganhos do dia anterior, com Santander em baixa de 1,24%. Na

ponta do Ibovespa, Lojas Americanas em alta de 9,31% no encerramento. Com ganho em torno de 1% para o petróleo na sessão, Petrobrás PN fechou em alta de 0,33% e a ON, estável. Na semana, o índice sobe 1,38%, ampliando a alta do mês para 2,28% - no ano, acumula ganho de 0,24%.

Câmbio

Após uma manhã de terça-feira volátil, o dólar firmou queda nos negócios da tarde, reduzindo o ritmo apenas perto do fechamento. O real e as moedas de emergentes foram beneficiadas pelo movimento de queda nas taxas de rendimento dos títulos do Tesouro americano. Mas o imbróglio envolvendo o Orçamento de 2021 persiste e segue limitando valorização maior do real. Com isso, a moeda americana não se sustentou abaixo dos R$ 5,70 durante os negócios, batendo rapidamente em R$ 5,66 na mínima do dia. Já o dólar para maio fechou em queda de 0,35%, a R$ 5,7245.

O sócio e fundador da gestora SPX Capital, Rogério Xavier, avalia que o Orçamento de 2021 é uma "cara de pau sem tamanho", ao reduzir despesas obrigatória e incluir emendas, mostrando total falta de compromisso fiscal em Brasília. "Pelo contrário, você está comprometido em piorar o fiscal, estourar o teto, criar novas despesas burlando o teto." Nesse ambiente, ele vê o câmbio seguindo pressionado, do nível atual para cima, e o investidor estrangeiro cada vez mais distanted o Brasil."

Neste ambiente de deterioração fiscal e com o tema persistindo no foco por muito tempo, o economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, Gustavo Arruda, avalia que não há muito espaço para valorização do real. "Pelas medidas mais tradicionais, nosso câmbio está bastante desvalorizado e acreditamos que tem espaço para valorização. Mas não acreditamos que isso vai acontecer no curto prazo", disse ele. Neste primeiro trimestre, a tendência é de câmbio muito ruim e suscetível a choques, para começar alguma melhora no segundo semestre, com o avanço mais rápido da vacinação e a atividade ganhando fôlego, avalia ele. O BNP prevê o câmbio a R$ 5,00 no final do ano.

Pesquisa do Bank of America com gestores e investidores de América Latina mostra que aumentou o temor com a situação fiscal do Brasil. Subiu para 63% dos entrevistados o total que vê a possibilidade de descontrole fiscal como o maior risco para o País neste momento. Na pesquisa feita em março, esse porcentual era cerca de 50%. Mas a expectativa é de avanço da vacinação e fôlego maior da atividade. Com isso, 75% dos participantes veem o dólar abaixo de R$ 5,60 em dezembro. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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