Wilton Júnior/Estadão
Apesar de impressionantes, valores pagos ao atual presidente da Petrobrás estão abaixo da média do mercado. Wilton Júnior/Estadão

Criticada por Bolsonaro, remuneração de presidente da Petrobrás está dentro da realidade de mercado

Salário médio dos presidentes das principais empresas da Bolsa foi de R$ 11,3 milhões ao ano em 2019 - nesse mesmo período, Roberto Castello Branco ganhou R$ 2,7 milhões, um quarto do valor médio

Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 05h00

RIO - Apontada como excessiva pelo presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira, 22, a remuneração – quando se soma salários fixos com bônus e outros benefícios – do comando da Petrobrás pode chamar atenção quando comparada com os demais cargos do serviço público e, principalmente, com os ganhos médios do brasileiro, mas parece comum ou até abaixo da média no mundo corporativo.

O salário médio dos presidentes de companhias abertas que compõem o Ibovespa – ou seja, as principais empresas do mercado – foi de R$ 11,3 milhões ao ano em 2019. Principal executivo da Petrobrás, Roberto Castello Branco ganhou R$ 2,7 milhões naquele ano, um quarto do valor médio. Em bases mensais, a remuneração média dá um salário de R$ 940 mil por mês, enquanto o presidente da Petrobrás ganhou “apenas” R$ 226 mil ao mês.

No fim de 2019, a remuneração média do trabalhador brasileiro, entre formais e informais, foi de R$ 2,3 mil por mês, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados sobre executivos de alto escalão são de levantamento do especialista em governança corporativa Renato Chaves, ex-diretor da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil (BB). Os valores foram levantados em outubro, nas informações que as empresas abertas são obrigadas a passar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado. As empresas precisam informar a remuneração anual total da diretoria, discriminando o valor mais baixo e o mais alto – o mais alto, quase sempre, é o do presidente.

O levantamento de Chaves incluiu 71 companhias. Quando ordenadas conforme a maior remuneração paga ao presidente, a Petrobrás fica na posição 58. Entre as dez empresas que pagam melhor seus presidentes, se destacam os bancos – Itaú, Bradesco e Santander estão entre as dez.

Para Marcelo Apovian, sócio da consultoria global especializada em recrutamento de executivos de alto escalão Signium, não parece que os valores de remuneração do presidente da Petrobrás estejam fora da realidade do setor de petróleo e gás, na média global. “A remuneração do primeiro nível e segundo nível está adequada com valor de mercado”, afirmou Apovian.

A título de comparação, o presidente da BP recebe o equivalente a R$ 11,8 milhões (1,5 milhão de libras) por ano, enquanto o presidente da Shell teve remuneração anual de R$ 64,7 milhões (9,9 milhões de euros) em 2019. 

Remuneração excessiva

Segundo o especialista, a remuneração dos executivos de alto escalão varia conforme o setor. Tradicionalmente, setores cujas margens de lucro são mais apertadas pagam menos. É o caso do varejo de supermercados, exemplificou Apovian. O setor de petróleo e gás, globalmente falando, paga bem a seus executivos de alto escalão, porque é um “negócio que precisa ter pessoas boas e a margem (de lucro) permite pagar bem”, disse o consultor.

Chaves, que levantou os dados sobre remuneração, avalia que o montante pago pela Petrobrás está dentro do normal para uma companhia estatal com ações em Bolsa. Por outro lado, o especialista em governança corporativa vê excessos nos salários médios pagos aos altos executivos do País.

“A remuneração de presidentes de companhias no Brasil é excessiva, quase sempre descolada de seus resultados e extremamente desigual em relação às dos demais funcionários”, diz Chaves.

O levantamento de Chaves comparou a remuneração do presidente de cada companhia com o salário médio pago aos funcionários como um todo. No caso extremo, o presidente ganha 600 vezes mais do que a média da empresa. No quesito desigualdade, a petroleira está entre aquelas com menores diferenças, com oito vezes. Isso porque a remuneração média de todos os empregados da petroleira foi de R$ 332 mil por ano em 2019, conforme o levantamento de Chaves. São R$ 27,6 mil por mês.

Conforme dados sobre 2019 de um relatório do Ministério da Economia, as estatais brasileiras pagam salários médios de até R$ 31,3 mil, sem contar as diretorias executivas, bem acima do salário médio de R$ 2,3 mil por mês.

Sócio da empresa de recrutamento de executivos Palafita Consultoria, Rafael Meneses chamou atenção para a crítica feita por Bolsonaro à adoção do trabalho remoto por Castello Branco desde o início da pandemia da covid-19.

“A declaração preocupa porque mostra um certo desalinhamento com o que vem acontecendo no mercado de trabalho. As pessoas podem produzir efetivamente o que se espera delas no home office. Não acredito que seja diferente com o presidente da Petrobrás”, disse o consultor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Intervenção de Bolsonaro derruba Bolsa e faz estatais perderem R$ 113,2 bilhões

Exigência na troca do comando da Petrobrás feita pelo presidente da República e o receio de intervenções ainda maiores fizeram a B3 ter a maior queda desde abril de 2020; na máxima do dia, o dólar chegou a bater em R$ 5,53

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 05h00
Atualizado 23 de fevereiro de 2021 | 07h15

A intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás, com a exigência de troca no comando da petroleira e reclamações sobre a alta no preço dos combustíveis, provocou forte turbulência no mercado financeiro e acabou respingando nas demais estatais. O risco de um intervencionismo maior e adoção de medidas populistas fizeram as ações das três principais estatais do País (Petrobrás, Banco do Brasil e Eletrobrás) perderem R$ 113,2 bilhões em dois dias – o que equivale a quase o valor de um BTG Pactual, segundo dados da consultoria Economática.

Só na Petrobrás (incluindo parcela da BR Distribuidora) a queda foi de R$ 99,6 bilhões. As ações da empresa, que já tinham caído quase 8% na sexta-feira, despencaram 20,48% (ON) ontem e podem manter o desempenho negativo nos próximos dias. Pelo menos seis casas rebaixaram a recomendação para as ações e reduziram o preço-alvo da companhia para os próximos 12 meses. No Banco do Brasil, o valor de mercado recuou R$ 12,6 bilhões em dois dias e, na Eletrobrás, quase R$ 900 milhões.

Nesse cenário, com as principais ações do Ibovespa em queda, a B3 recuou 4,87% no pregão de ontem, a maior queda para um único dia desde 24 de abril do ano passado, quando o ex-ministro Sérgio Moro deixou o governo em meio a denúncias de tentativa de intervenção do presidente na Polícia Federal. A Bolsa paulista perdeu quase 6 mil pontos e fechou em 112.667 pontos – o menor patamar desde 3 de dezembro. 

O dólar também sofreu com o mau humor dos investidores e subiu 1,27%, para R$ 5,45. Na máxima do dia, chegou a bater R$ 5,53, o que exigiu atuação do Banco Central (BC) para acalmar os ânimos. No total, vendeu US$ 3,6 bilhões e ajudou a dar certo alívio à moeda. Outro efeito das incertezas com a indicação do general Joaquim Silva e Luna para o comando da Petrobrás foi o avanço do contrato de credit default swap (CDS), que mede o risco do País. O CDS subiu 11% em relação ao fechamento de sexta-feira, para 163,25 pontos.

Na opinião de especialistas, o discurso de Bolsonaro nos últimos dias fez lembrar as medidas de intervenção adotadas pela ex-presidente Dilma Rousseff no setor elétrico em 2013 e que provocaram prejuízos bilionários para as empresas e toda a sociedade. Pior: jogou por terra mais uma promessa feita durante a campanha eleitoral. 

“Para o mercado, a decisão do presidente é uma decepção. A agenda de privatização não foi adiante, e a anticorrupção também não”, diz o presidente da RB Investimentos, Adalbero Cavalcanti. Do ponto de vista econômico, diz ele, a alta do dólar por causa da turbulência financeira pode ter um reflexo inflacionário tão danoso quanto a alta dos combustíveis.

Na avaliação do economista da Tendências Consultoria Integrada, Silvio Campos Neto, todos esses ruídos geram um ambiente de imprevisibilidade e afetam as decisões de investimentos. Para ele, as preocupações surgidas nos últimos dias só devem se dissipar um pouco se houver algum avanço nas decisões sobre o novo auxílio emergencial. /RENÉE PEREIRA, LUÍS EDUARDO LEAL, CYNTHIA DECLOEDT e ALTAMIRO SILVA JUNIOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Política de preços da Petrobrás está blindada', diz conselheiro da estatal

Eleito por acionistas minoritários, Leonardo Antonelli diz que debandada de conselheiros e diretores executivos não é a melhor estratégia e pede por 'união'

Entrevista com

Leonardo Antonelli, conselheiro da Petrobrás

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 05h00

RIO - Um dos três conselheiros de administração eleitos por acionistas minoritários na Petrobrás, o advogado e ex-desembargador federal, Leonardo Antonelli, considera que mesmo com uma troca no comando da estatal a companhia está blindada no que tange à sua política de preços. O Estatuto Social da empresa prevê sua compensação caso ela seja convocada pela União a contribuir com o interesse público (neste caso, no controle da inflação). Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele explica que uma eventual mudança na política de preços deveria ser aprovada pelos acionistas em assembleia.

De acordo com o conselheiro, na reunião marcada para esta terça-feira, 23, será analisado o pedido do governo, enquanto acionista controlador da empresa, de convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para destituição do conselheiro e atual presidente da companhia, Roberto Castello Branco, com a recondução dos demais membros indicados pelo governo (controlador da estatal) pelo sistema de voto múltiplo - em que se atribui a cada ação tantos votos quantos sejam os assentos - e do novo integrante indicado pelo governo, general Joaquim Silva e Luna.

Embora reconheça espaço para a judicialização do caso por parte de acionistas minoritários, ele avalia que a medida não atende ao melhor interesse dos investidores e da companhia. Para Antonelli, uma debandada de conselheiros e da diretoria executiva também não é a melhor estratégia. "O momento é de união", diz.

Quais serão os próximos passos na troca de comando da Petrobras?

Tecnicamente compete ao Conselho de Administração apreciar o pedido formulado pelo controlador, através de ofício do Ministério de Minas e Energia, de convocação de uma AGE (Assembleia Geral Extraordinária) para destituição do conselheiro Castello Branco e recomposição dos indicados pelo Governo (controlador da estatal), com seu novo integrante general Silva e Luna. O Conselho decidirá se acolhe o pedido, por votação da maioria simples dos seus integrantes, ou se o rejeita, hipótese em que a legislação assegura ao detentor de mais de 5% das ações com direito a voto a fazê-lo, através da convocação direta de uma AGE.

A pauta da reunião do Conselho nesta terça-feira prevê algo além da análise do nome do general Silva e Luna?

Sob o ponto de vista da legislação, não me parece que caiba qualquer análise de eventual candidatura de quem quer que seja amanhã, pois há uma questão prejudicial: é necessário primeiro abrir-se vaga no Conselho para que se possa cogitar da eleição do general Luna.

O que acontece se o Conselho não referendar a indicação do controlador?

O rito é dúplice: primeiro tem que haver a convocação de uma AGE para os acionistas decidirem se destituem - ou não - membro de Conselho de Administração (Castello Branco). Após a própria AGE deve votar a indicação de um novo conselheiro. Depois desse rito, recomposto o CA, caberá a ele eleger, pela maioria simples de votos, o novo presidente da Petrobrás.

O governo tem mais de 50% das ações ON (com direito a voto) da Petrobras. Na prática é só uma questão de tempo para a aprovação do novo nome?

Exato. Essa é uma prerrogativa legal do controlador das sociedades anônimas: eleger e destituir o seu Conselho de Administração. A legislação não exige sequer que haja um justo motivo. Em tese, num ambiente normal, tomaria algo em torno de 45 dias.

Mudar o presidente da Petrobras significará necessariamente mudar a política de preços da estatal?

A política de preços da Petrobrás está prevista no seu Estatuto Social, o qual garante a compensação da companhia sempre que ela for chamada pela União para contribuir com o interesse público. Então, salvo melhor juízo, para que haja mudança nessa política, deveria haver uma nova Assembleia Geral Extraordinária onde os acionistas pudessem deliberar sobre a matéria. De acordo com o Estatuto Social, a companhia está blindada.

Chegou a ser ventilada uma debandada em massa dos conselheiros. Essa estratégia ajudaria a Petrobras?

Uma debandada de conselheiros e diretores não atende o melhor interesse da companhia. O momento é de união. De calma. E restabelecimento o mais rápido possível da confiança dos investidores na empresa, cujos números da atual gestão falam por si só.

Vários bancos já rebaixaram a recomendação dos papéis da companhia e houve perda de R$ 28 bi em valor de mercado somente na sexta-feira. O caso deve ser judicializado pelos minoritários?

Toda lesão ou ameaça de lesão de direito pode ser judicializada. Mas isso não atende ao melhor interesse dos investidores, nem da companhia. O que se precisa fazer é restabelecer o mais breve possível a normalidade. Essa briga é um perde perde.

A independência do board está em xeque?

Eu estou pronto para enfrentar todos os desafios que surgirem, respeitando as leis, os direitos dos acionistas e o melhor interesse da Petrobrás.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.