Rebecca Conway/The New York Times
Rebecca Conway/The New York Times

Cuecas e camisetas dão sinal de alarme para a economia da Índia

Medida de desaceleração da atividade econômica era citada por Alan Greenspan, ex-presidente do banco central dos EUA; governo indiano minimizou extensão da crise, dizem especialistas

Vidu Goel, The New York Times

08 de outubro de 2019 | 11h00

TIRUPUR, ÍNDIA - Quando Alan Greenspan dirigia uma consultoria, ele usava as vendas de roupas de baixo masculinas como guias para saber quais os rumos da economia. Ele acreditava que, em tempos complicados, os homens deixavam de comprar novas roupas de baixo (que afinal ninguém via) antes de parar de comprar outras coisas. Por esse parâmetro, a Índia está atravessando uma crise séria. “As vendas caíram 50%”, disse Jeffrin Moses, mostrando as caixas de cuecas de algodão e camisetas regata atulhando as prateleiras da loja Tantex em Tirupur, sul da índia, o maior polo de malharia do país.

Não é só roupa de baixo. As vendas de carros despencaram 32% em agosto, a maior queda em duas décadas, e os fabricantes advertem que poderão demitir 1 milhão de operários. Já os clientes reclamam de preços altos e lutam para conseguir financiamento em emprestadores ariscos. A Macrotech, uma grande agência imobiliária que chegou a se associar ao presidente Donald Trump na construção de uma torre residencial em Mumbai, acaba de demitir 400 funcionários ante a baixa procura por novas casas.

Famílias estão evitando comprar até os populares biscoitos Parle, obrigatórios no desjejum dos indianos. Elas se voltam para produtos ainda mais baratos, feitos por fabricantes locais, segundo Mayank Shah, executivo das indústrias Parle. Shah informou que as vendas de seus biscoitos caíram 8% e, se a tendência de queda continuar, a empresa poderá cortar até 10 mil empregos.

As perspectivas futuras da Índia são ainda afetadas pelo desaquecimento da economia global, pela recente alta dos preços petróleo e pelas batalhas comerciais de Trump – uma delas, com a Índia.

Na semana passada, o governo indiano, após passar meses ignorando as evidências de desaquecimento, finalmente admitiu a gravidade do problema, anunciando um repentino corte de impostos para todas as empresas e incentivos adicionais para a indústria manufatureira.   

O primeiro-ministro Narendra Modi se reuniu com Trump em Houston, Texas, para tentar resolver disputas comerciais entre os dois países.  

 Até o ano passado, a Índia, com seu 1,3 bilhão de habitantes, era a que crescia mais rapidamente entre as grandes economias mundiais, com 8% ou mais ao ano. Agora, o governo calcula um crescimento em torno de 5%, ao mesmo tempo em que o desemprego chega a 8,4% e continua aumentando, segundo o Centro de Monitoramento da Economia Indiana.

Os percalços econômicos da índia, em parte derivados de problemas internos como o mau desempenho da agricultura, ameaçam outros países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina, já castigados tanto pelo enfraquecimento da economia global quanto pelos conflitos comerciais de Trump. “A Índia é potencialmente um termômetro”, disse Per Hammarlund, estrategista-chefe do departamento de mercados emergentes do banco sueco SEB. “Ela sinaliza a tendência econômica do momento, que é de menos crescimento neste ano que no ano passado.”

Com investidores globais se refugiando na segurança do dólar, a rupia indiana e outras moedas de mercados emergentes estão se desvalorizando acentuadamente. Isso encarece a importação de energia, produtos eletrônicos e equipamentos industriais. O ataque no mês passado a duas refinadoras sauditas, que levou às alturas o preço do petróleo, revelou quão vulneráveis são a Índia e outros países em desenvolvimento a fatores externos fora de seu controle.  

Como a China e a Indonésia, a Índia enfrenta as consequências de excessivos empréstimos encorajados pelo Estado. No caso da Índia, o abuso de maus empréstimos bancários somou-se à recente inadimplência de financeiras, o que reduziu o crédito para consumidores e empresas.

Decisões políticas do governo central e de governos estaduais indianos agravaram a recessão, segundo economistas e líderes empresariais.

Fabricantes de veículos, por exemplo, foram atingidos por um golpe triplo: novos padrões de segurança e emissão de carbono elevaram o custo dos carros; nove Estados aumentaram os impostos sobre a venda de veículos; e bancos e financeiras que financiavam concessionárias e 80% das vendas de carros se viram paralisados pelo encolhimento do crédito. “Tudo isso provocou uma profunda depressão no setor automobilístico”, disse R. c. Bhargava, presidente da Maruti Suzuki, a maior fabricante indiana de carros.

Alguns fabricantes estão  pedindo ao governo que reduza os impostos para compra de carros novos ou retire de circulação veículos antigos que consomem muito combustível, aceitando carros velhos como parte do pagamento de novas unidades.

Governo Modi ignorou sinais de desaceleração

O premiê Modi foi criticado no primeiro mandato por ignorar as evidências iniciais do desaquecimento da economia. Em maio, após ser eleito por maioria avassaladora, muitos economistas esperavam que ele lançasse um pacote de estímulo ao crédito no curto prazo e se dedicasse a solucionar antigos problemas, como empobrecimento rural e reforma agrária. Em vez disso, Modi desferiu um golpe na economia com um inesperado aumento de impostos para investidores estrangeiros, provocando a desvalorização de ações e títulos indianos. A rupia balançou.

Mais recentemente, o governo Modi admitiu a necessidade de providências. Além do corte de impostos, a ministra das Finanças, Nirmala Sitharaman, prometeu recentemente que o governo aumentaria a ajuda aos fabricantes de veículos e investiria mais em infraestrutura. A ministra também orientou bancos governamentais a concederem mais empréstimos. O governo ainda recuou nos novos impostos para investidores.

A indústria têxtil, que emprega 45 milhões de pessoas e é a segunda maior empregadora da Índia depois da agricultura, representa bem os problemas do país. Numa tarde do início de setembro, o mercado de Tirupur, com vendas no atacado, excedentes de estoque e roupas com pequenos defeitos estava deserto. O lojista Moses disse que nessa época do ano donos de lojas e distribuidores costumam vir de toda a Índia para fazer grandes encomendas de camisas, calças, vestidos e tecidos antes da estação nacional de festas, de setembro a novembro. “Mas até agora eles não vieram”, disse Moses. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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