Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Bolsa fecha em queda e dólar vai a R$ 5,30 após confusão no Congresso americano

Apoiadores pró-Trump invadiram o Capitólio nesta quarta e interromperam a cerimônia que reconheceria a vitória de Joe Biden; em resposta, o Ibovespa perdeu os 120 mil pontos

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 09h20
Atualizado 06 de janeiro de 2021 | 21h14

Uma confusão no Capitólio americano, com manifestantes pró-Donald Trump invadindo o prédio no dia da cerimônia que certificaria a vitória do presidente eleito, Joe Biden, levou a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, a inverter o sinal e fechar com queda de 0,23%, aos 119.100,08 pontos, após subir forte na maior parte do pregão desta quarta-feira, 6. A informação também afetou os ganhos das Bolsas de Nova York e pressionou o dólar, que teve alta de 0,80%, a R$ 5,3024.

Com a confusão, o resultado do Ibovespa foi do triunfo à decepção. Desde cedo, o índice subia forte, perto dos 121 mil pontos (120.924,32 pontos), em um novo recorde histórico, com a chance dos democratas conquistarem também o controle do Senado americano, diante das votações que se encaminham para um fim no Estado da Geórgia. O resultado segurou também os ganhos do mercado de Nova York, com Dow Jones S&P 500 fechando em altas de 1,44% e 0,57% cada, bem longe das máximas do dia, enquanto o Nasdaq terminou com baixa de 0,67%. 

Ainda assim, a percepção é de que o ruído tende a ser passageiro, uma vez expirado o atual mandato presidencial, em 20 de janeiro, em vista também da disposição manifestada hoje por Biden de "tentar trabalhar com pessoas de ambos os partidos". Contudo, a mobilização da Guarda Nacional e os relatos de que o tumulto deixou feridos (inclusive a bala) acendem luz amarela para a transição política no país. Diante das cenas, Washington decretou toque de recolher a partir das 20h de Brasília.

O quadro de fundo, econômico, ainda é favorável. "O cenário externo dá suporte aos ativos de risco, inclusive nos emergentes, com o mercado precificando hoje de maneira bem agressiva mais estímulos fiscais nos EUA", diz Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez. "No curto prazo, o principal fator de risco é a extensão desta retomada de lockdown, caso os fechamentos venham a se alongar neste primeiro trimestre."

"A economia americana puxa todo o resto, o que se reflete neste otimismo visível na Bolsa e especialmente nas commodities, os ativos que mais estão se beneficiando desta recuperação", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos. "Os investidores estão se posicionando para novas altas nos preços (das commodities) ao longo de 2021 e a manutenção da tendência de alta das ações, em especial do setor siderúrgico e de Vale, que está próxima da marca histórica de R$ 100,00", diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Nesta quarta-feira, Vale ON fechou em alta de 2,81%, à frente de Petrobrás PN e ON, com 0,10% e 0,99%.

Destaque também para ganho de 4,95% em Gerdau PN (na ponta do Ibovespa na sessão), de 4,11% em Usiminas (segunda maior alta do dia) e CSN, de 4,05%. Entre os bancos, Bradesco PN subiu hoje 3,12%, com Itaú PN em alta de 2,77% e a Unit do Santander, de 2,48%. Na face contrária do Ibovespa, B2W, com queda de 6,93% e Lojas Americanas, com 5,74%.

Por aqui, sem o auxílio emergencial à população mais pobre, e com indefinição sobre a vacinação, o risco maior é o de que, caso não se supere a disputa política sobre a imunização, o crescimento de 3% a 3,5% esperado para o PIB neste ano venha a ficar comprometido, aponta Lucci, da BGC. "Quanto mais demora houver na vacinação, mais lenta e atrasada será a retomada, contaminando diretamente o PIB para 2021", observa.

Câmbio

O câmbio teve novo dia de forte volatilidade, que só se reduziu após o Banco Central fazer intervenção no mercado. Com o real muito descolado de seus pares emergentes, por conta de incertezas domésticas, principalmente com a questão fiscal, da vacinação da população contra a covid-19 e da declaração de Jair Bolsonaro que o País está "quebrado", o BC vendeu US$ 500 milhões em novos swaps (que equivale a venda de dólares no mercado futuro) no meio da tarde, sua primeira ação do tipo em 2021.

Com o leilão, a moeda americana passou a operar abaixo de R$ 5,30, mas o movimento perdeu força perto do fechamento, com a invasão de manifestantes pró-Donald Trump no Capitólio. Para o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, o mercado de câmbio está muito volátil e tende a seguir assim, na medida em que há uma série de incertezas domésticas, que têm limitado a queda do dólar aqui. Dúvidas se acumulam sobre o compromisso do Planalto com o teto de gastos, a volta do auxílio emergencial, as eleições na Câmara e no Senado e o processo de vacinação contra a covid, que avança em outros países, mas não aqui.

Conforme o processo de vacinação ganhe corpo no Brasil e a questão fiscal fique mais clara, Cruz destaca que o real pode se valorizar, aproveitando a tendência de enfraquecimento do dólar no mercado internacional. Hoje, mesmo após a tensão política em Washington, o dólar caiu ante a maioria dos emergentes, com a visão de que um Congresso na mão dos democratas pode acelerar medidas de estímulo fiscais no país. A RB vê chance de o dólar cair a R$ 4,80 ao final do ano, mas para isso é preciso firmeza fiscal do governo./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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