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E agora, a economia?

Falta saber qual é a verdadeira disposição do governo e do Congresso para evitar a forte deterioração das finanças públicas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 20h02

O que esperar da economia brasileira quando alguma coisa está mudando no mercado global, possivelmente para melhor, e quando, enfim, chegou a vacina, mais lenta do que se espalha a covid-19, mas chegou?

A posse de Joe Biden na presidência dos Estados Unidos, marcada pelo apelo à unidade, já afasta certo número de incertezas. Apesar do novo surto da pandemia, que pode voltar a exigir isolamento social, a economia americana deve contar com novo pacote de ajuda, de US$ 1,9 trilhão. Não se sabe o quanto de desidratação poderá sofrer no Senado americano. Ainda assim, será substancial. Dentro de mais alguns meses deverão ser aprovados investimentos em infraestrutura, em tecnologia e em produção de energia limpa. Ao longo da campanha eleitoral, Biden prometeu que esses investimentos seriam de US$ 2 trilhões no total.

A política protecionista e xenófoba do ex-presidente Trump deverá ser substituída pela volta ao multilateralismo e por mais respeito aos imigrantes. Depois da queda de 4,4% em 2020, o PIB dos Estados Unidos neste ano projeta recuperação de 4,0%. Será fator de alavancagem de negócios no mundo.

A China, que assume a condição de segunda mais importante locomotiva do mundo, fechou 2020 com um avanço de 2,3% e trabalha com a estimativa de um avanço do PIB neste ano superior a 6,0%. Na área do euro, a expectativa é de crescimento de 5,1% e, no Japão, de 2,3%.

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Nos demais países industrializados, também aumenta o dispêndio público. Os juros estão muito próximos de zero por cento ao ano ou são negativos em termos reais. É uma paisagem que sugere procura robusta por mais energia (e também mais petróleo) e matérias-primas (commodities). Pesam dois fatores altamente negativos: o desemprego e a nova força do vírus. Não há nenhuma garantia de que a recuperação da atividade econômica proporcione a reabertura da maioria dos postos de trabalho fechada durante a pandemia. As empresas parecem ter passado a operar com mais uso de tecnologia e com menos pessoal.

Apesar da falta de coordenação das políticas de saúde, o Brasil conta, enfim, com uma vacina, o que não deixa de ser importante avanço sobre a situação anterior, em que nem com a aprovação da Anvisa se podia contar. O atual reparte da vacina para o Brasil é altamente insuficiente, situação que exige processo mais demorado de imunização para obtenção de eficácia sanitária.

Mas há outras variáveis a levar em conta. Pelos relatórios da Organização Mundial da Saúde, há hoje nada menos que 237 vacinas em desenvolvimento, das quais pelo menos 15 em seu terceiro estágio. É de esperar que, dentro de mais alguns meses, a oferta mundial crescerá, o que aumenta a probabilidade de imunização mais rápida da população do mundo e do Brasil.

As incertezas ainda são enormes, embora haja melhores condições do que há seis meses, para um desempenho razoável da economia do Brasil.

Afora isso, do ponto de vista da melhora do ambiente de negócios e de criação de empregos, falta saber qual é a verdadeira disposição do governo e do Congresso do Brasil de acelerar a obtenção de vacinas e de aprovar as reformas de modo a garantir o equacionamento do sério problema, o da forte deterioração das finanças públicas.

CONFIRA

» Juros podem subir

A principal decisão comunicada nesta quarta-feira pelo Copom não foi a manutenção dos juros básicos (Selic) em 2,0% ao ano. Foi o aviso de que o tal “forward guidance” deixou de existir. Trata-se da intenção do Banco Central de manter indefinidamente os juros onde estão. Se, pelo aumento da inflação, os juros não podem continuar assim, o Banco Central terá de avaliar a cada reunião o balanço de fatores positivos e negativos da economia. Ou seja, passa o sinal de que os juros devem subir.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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