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Post sobre 5G apagado pelo deputado Eduardo Bolsonaro Reprodução

Eduardo Bolsonaro apaga publicação em que fala sobre 5G e 'espionagem chinesa'

Em postagem no Twitter, deputado destacava a adesão do Brasil ao programa Clean Network, capitaneado pelos Estados Unidos e que tenta barrar a tecnologia chinesa no 5G

Emilly Behnke e Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 17h24

BRASÍLIA - O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) apagou nesta terça-feira, 24, publicação nas redes sociais em que destacou a adesão do Brasil ao programa Clean Network sobre a tecnologia 5G. No texto apagado, o filho do presidente cita que a iniciativa é uma "aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China".

O tuíte, publicado na segunda-feira por volta das 20 horas, destacava que o programa Clean Network é de origem norte-americana. A publicação apagada acompanhava imagem que dizia que, com a medida, o Brasil "se afasta da tecnologia da China" e ainda que a "aliança Clean Network repudia iniciativas classificadas como atos de vigilância do governo chinês". O deputado fez uma série de tuítes sobre o assuntos, mas apenas o primeiro deles foi apagado.

Nos demais tuítes, Eduardo Bolsonaro citou, por exemplo, fala atribuída ao ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre o governo estar analisando "alertas geopolíticos" no âmbito da tecnologia 5G. "O programa ao qual o Brasil aderiu pretende proteger seus participantes de invasões e violações às informações particulares de cidadãos e empresas. Isso ocorre com repúdio a entidades classificadas como agressivas e inimigas da liberdade, a exemplo do Partido Comunista da China", escreveu Eduardo.

Nesta terça-feira, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, confirmou o nome de Carlos Baigorri como o relator do leilão do 5G na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O novo relator foi apresentado para o presidente Jair Bolsonaro.

O leilão é alvo de pressões internacionais, envolvendo a disputa entre o governo americano e a empresa chinesa Huawei. A companhia é líder no desenvolvimento do 5G, mas é acusada de ser trabalhar com o governo chinês. Em coletiva no Planalto, Fábio Faria negou que questões geopolíticas tenham sido tratadas na reunião com o presidente. 

A reunião também  teve a participação do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. Em março deste ano, o GSI listou os requisitos mínimos de Segurança Cibernética que devem ser adotados no estabelecimento das redes 5G de telefonia móvel. A instrução normativa foi publicada no Diário Oficial da União (DOU).

"O GSI participa porque se trata também de questão de segurança nacional. O GSI participa e participará, tem um papel fundamental", disse Faria. Questionado sobre um possível decreto presidencial para barrar a Huawei no País, Faria respondeu: "Ai você quer entrar em uma área que não é a minha".

Na coletiva, Faria informou que na semana que vem deverá se encontrar com "players europeus" e que em janeiro visitará a Ásia. A ideia é conhecer "mais de perto" as propostas internacionais para a rede 5G. Questionado sobre a publicação de Eduardo Bolsonaro relacionada à adesão do Brasil ao programa Clean Network para se afastar da "espionagem chinesa", o ministro evitou responder diretamente e rebateu: "Liga para o Eduardo (Bolsonaro)". Em seguida, encerrou a conversa com os jornalistas.

Novo relator do leilão 5G

 Servidor de carreira da Anatel desde  2009, Baigorri  assumiu o lugar de Vicente Aquino, relator original, que deixou o conselho diretor da agência com o vencimento do seu mandato no início do mês. A escolha foi feita por meio de sorteio. 

Na coletiva, Baigorri destacou que o leilão é "uma prioridade máxima" do governo e confirmou que este deve ocorrer até a metade do ano que vem. “A previsão é de ter o edital aprovado na Anatel no começo do ano que vem, sendo que a sessão de lances deve acontecer ao final do primeiro semestre. Esse é cronograma com que trabalhamos e vamos persegui-lo apesar de todos os desafios que se colocam à nossa frente”, disse Baigorri.

Além de Baigorri, também participaram do encontro com Bolsonaro o presidente do Conselho da Anatel, Leonardo Euler de Morais, e o conselheiro Emmanoel Campelo de Souza Pereira. “Esse deverá ser o maior leilão de direito de uso de radiofrequência da história do Brasil. Nós estamos trabalhando com uma abordagem que privilegia o compromisso de investimento em detrimento de uma abordagem meramente arrecadatória”, afirmou Euler.

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China reage a Eduardo Bolsonaro e diz que Brasil poderá 'arcar com consequências'

Para a diplomacia chinesa, o parlamentar 'solapou' a relação amistosa entre os países com declarações 'infames'; deputado acusou a China de espionar os governos por meio de sua rede 5G

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 21h44
Atualizado 25 de novembro de 2020 | 20h58

BRASÍLIA - A Embaixada da China em Brasília reagiu nesta terça-feira, dia 24, à acusação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, de que praticaria espionagem por meio de sua rede de tecnologia 5G. Pequim acionou o Itamaraty para reclamar de uma publicação de Eduardo nas redes sociais, posteriormente apagada por ele

Para a diplomacia chinesa, o parlamentar “solapou” a relação amistosa entre os países com declarações “infames”, e o Brasil poderá “arcar com consequências negativas”. Esse é o segundo atrito diplomático com a China criado pelo deputado, que é presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, por causa de militância virtual.

Na mensagem, Eduardo Bolsonaro fez menção à adesão simbólica do Brasil à Clean Network (Rede Limpa), iniciativa diplomática do governo Donald Trump para tentar frear o avanço de empresas chinesas no mercado global de 5G. O filho 03 de Bolsonaro, como é chamado pelo pai, celebrou o fato como um sinal de que o Brasil “se afasta da tecnologia da China”. “O governo Jair Bolsonaro declarou apoio à aliança Clean Network, lançada pelo governo Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China”, escreveu o parlamentar, nesta segunda-feira, dia 23. Ele também listou o Partido Comunista Chinês como “entidade agressiva e inimiga da liberdade”.

“Na contracorrente da opinião pública brasileira, o deputado Eduardo Bolsonaro e algumas personalidades têm produzido uma série de declarações infames que, além de desrespeitarem os fatos da cooperação sino-brasileira e do mútuo benefício que ela propicia, solapam a atmosfera amistosa entre os dois países e prejudicam a imagem do Brasil”, escreveu a embaixada, em nota. 

“Acreditamos que a sociedade brasileira, em geral, não endossa nem aceita esse tipo de postura. Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em  vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral. Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil.”

O programa de Washington tenta convencer governos estrangeiros - por meio de pressão política e até com oferta de financiamento - a somente permitir em suas redes 5G equipamentos de fornecedores não-chineses, que eles consideram “confiáveis”. O governo norte-americano acusa as empresas de origem chinesa, como Huawei e ZTE, de serem obrigadas a permitir acesso do governo comunista a suas redes, o que supostamente abriria uma brecha para vigilância. Os Estados Unidos trabalham para que Bolsonaro decrete o banimento da Huawei como fornecedora após o leilão do 5G previsto para 2021, o que ainda não foi decidido pelo Palácio do Planalto.

Segundo Pequim, a iniciativa do governo Donald Trump “discrimina a tecnologia 5G da China”. A empresa Huawei é uma das principais fornecedoras de estrutura de telecomunicações no Brasil, usada pelas maiores operadoras de telefonia, tendo por isso vantagens no entendimento de executivos do setor.  

“O governo chinês incentiva empresas chinesas a operar com base em ciência, fatos e leis enquanto se opõe a qualquer tipo de especulação e difamação injustificada contra empresas chinesas. Os EUA têm um histórico indecente em matéria de segurança de dados. Certos políticos norte-americanos interferem na construção da rede 5G em outros países e fabricam mentiras sobre uma suposta espionagem cibernética chinesa, além de bloquear a Huawei visando alcançar uma hegemonia digital exclusiva. Comportamentos como esses constituem uma verdadeira ameaça à segurança global de dados”, reagiu a China.

A diplomacia reativa orientada pelo presidente chinês Xi Jinping afirmou que as declarações de Eduardo Bolsonaro são “infundadas” e “prestam-se a seguir os ditames dos EUA no uso abusivo do conceito de segurança nacional para caluniar a China e cercear as atividades de empresas chinesas”. “Isso é totalmente inaceitável para o lado chinês e manifestamos forte insatisfação e veemente repúdio a esse comportamento. A parte chinesa já fez gestão formal ao lado brasileiro pelos canais diplomáticos”, informou o porta-voz da embaixada.

Parceiro brasileiro

É a segunda vez que a diplomacia chinesa reage a publicações de Eduardo Bolsonaro. Ele chegou a culpar o governo do país e o Partido Comunista Chinês pela pandemia da covid-19. Na ocasião, o embaixador Yang Wanming reagiu na rede social e disse que o deputado estava infectado por um “vírus mental”. Na ocasião, o chanceler Ernesto Araújo, porém, repreendeu a atitude do embaixador.

A embaixada chinesa citou dados da relação bilateral entre os países, como a condição de maior parceiro comercial de Brasília há 11 anos, e o fornecimento de materiais e compartilhamento de experiências durante a pandemia da covid-19. Entre janeiro e outubro, afirmou Pequim, as exportações brasileiras foram de US$ 58,4 bilhões, ou 33,5% do total de exportado pelo Brasil.

“As cooperações na telecomunicação e em outros setores foram construídas sobre bases sólidas e alcançaram avanços a passos largos. A China é um amigo e um parceiro do Brasil e que a cooperação bilateral impulsiona o progresso de ambos os países e traz benefícios para os dois povos”, afirmou a embaixada.

O deputado Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, disse que Eduardo é “irresponsável” e cobrou providências no Legislativo e no Judiciário. Crítico da ideologia na política externa bolsonarista, ele preside a Comissão de Agricultura na Câmara e vê riscos a produtores brasileiros que têm a China como principal mercado.

“Até quando vamos dar asas a esse irresponsável? O pior é que o pai nada faz.  Estão colocando em risco o País com essa ideologia insana. 5G e vacina chinesa. Os Bolsonaros vão perder ambas batalhas, pois perderam o instrutor de loucos chamado Trump, e a cada dia os Bolsonaros perdem credibilidade e apoio, tanto no Brasil, como no mundo”, reclamou Pinato. “Acho que chegou a hora de a Câmara dos Deputados e o STF tomarem providências urgentes. Não é crível que um deputado federal irresponsável e sem noção possa colocar em risco a já combalida economia do Brasil e ninguém faz nada para cessar as calúnias postadas contra nossa maior parceira comercial, a China.”

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