Justin Lane/ EFE
Entre os fatores que pesam na decisão de investimento no exterior, estão a trajetória de queda dos juros só interrompida neste ano e a recente instabilidade política Justin Lane/ EFE

Em busca de segurança em tempos turbulentos, brasileiro nunca investiu tanto no exterior

No acumulado de 2021, busca por investimentos financeiros no exterior avança 44%, para US$ 61,6 bilhões; segundo especialistas, crise política ajuda a ampliar movimento

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2021 | 14h00

O dinheiro dos brasileiros está migrando cada vez mais para o exterior. Antes, o investimento além das fronteiras se resumia a compras de moeda, de ações listadas fora do País ou de uma casa em Miami, mas esse portfólio se sofisticou.

Entre os fatores que pesam nesse movimento, estão a trajetória de queda dos juros só interrompida neste ano e a recente instabilidade política. Segundo o Banco Central, o total de investimentos financeiros fora do País somou US$ 61,6 bilhões de janeiro a agosto, alta de 44% em relação ao fim de 2020. Nem o dólar valorizado esfriou essa procura por segurança.

“Investir no exterior deixou, há muito tempo, de ser uma proteção cambial. É uma diversificação”, comenta o responsável pela área de gestão de fortunas do BTG Pactual, Rogério Pessoa. Segundo ele, apesar de o mercado brasileiro estar a cada dia mais sofisticado, os EUA oferecem um leque de produtos muito maior. Hoje, o banco recomenda aos clientes muito ricos – com mais de R$ 10 milhões para investir – uma alocação de 30% no exterior. A média para esse público, hoje, está entre 15% e 20%.

Embora momentos turbulentos, como o da crise política, incentivem as pessoas a olhar para fora, o executivo do BTG diz que investimento sempre requer calma. “O importante, no fim do dia, é ter um portfólio balanceado.”

O Itaú Unibanco tem hoje cerca de 27% do patrimônio de seus clientes aplicados fora do Brasil. O diretor do Itaú Private Bank, Felipe Nabuco, diz que esse porcentual vem subindo por razões óbvias. “Nos últimos dez anos, o mercado internacional teve um desempenho bem melhor do que o daqui.”

Olhar no pequeno

A Avenue, corretora americana de ex-sócios da XP, bateu recorde de novas contas e hoje tem 350 mil clientes. “Hoje, o pequeno investidor pode ter acesso às mesmas opções da alta renda”, explica o sócio Alexandre Artmann

Além da fronteira

  • Como investir

Quem não é milionário também pode investir no exterior. Para isso, é preciso abrir uma conta em uma corretora (há algumas ligadas a bancos).

  • Como funciona

O investimento será feito pela Bolsa brasileira, mas via BDRs (Brazilian Depositary Receipts), que representam ações listadas nas Bolsas estrangeiras, como Apple ou Amazon, por exemplo.

  • Opções

Além dos BDRs, é possível investir nos ETFs, que são fundos de índices – eles replicam o desempenho de várias Bolsas mundo afora.

  • Câmbio

As ações originais são negociadas em dólar, por isso, as variações do câmbio impactam no preço dos BDRs, cotados em real.

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Disputa por ‘super-ricos’ acirra rivalidade entre bancos e plataformas

Cliente dos sonhos, investidor com mais de R$ 5 milhões é disputado palmo a palmo por instituições como XP, Itaú e BTG

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2021 | 14h00

Quem investe há mais tempo no Brasil sempre esteve acostumado a ganhar na renda fixa – cortesia dos altos juros. No entanto, com a taxa real perto de zero, em função da escalada da inflação, cada vez mais investidores muito ricos, com mais de R$ 5 milhões na carteira de investimento, estão buscando conselhos de gestores especializados para aplicar seu dinheiro. 

Excluindo os recursos alocados fora do Brasil, esses brasileiros têm nas mãos um total de R$ 1,8 trilhão em investimentos – volume que cresceu 9% em um ano, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima)

Com esses mais ricos buscando gestores e investimentos alternativos para garantir mais rentabilidade à carteira, as plataformas de investimento começaram a fortalecer sua estrutura de private banking. Além disso, houve um “boom” de casas independentes surgindo no mercado, o que gerou uma “dança das cadeiras” de executivos no setor. A corrida das instituições financeiras tem como objetivo não perder o “filé” da alta renda.

Apesar de a briga nesse mercado ter se acirrado, com plataformas querendo morder um pedaço cada vez maior, o Itaú Unibanco ainda consegue manter uma participação de 30%, com recursos administrados que estão muito próximos da marca de R$ 700 bilhões.

No acumulado do ano até agosto, o crescimento foi de 14,5% em relação ao total administrado em dezembro de 2020, frisa o diretor do Itaú Private Bank, Felipe Nabuco.

Para se proteger da concorrência – que inclui gigantes como a XP e o BTG, mas também casas especializadas –, o Itaú Private tem buscado diversificar sua oferta, segundo Nabuco. O executivo afirma que, até setembro de 2021, o banco já ampliou suas opções de investimentos em ritmo superior ao visto em 2019, ano em que teve recorde de lançamentos. 

No BTG Pactual, segundo o sócio do banco Rogério Pessoa, o valor sob custódia da área de atendimento privado dobrou em 12 meses, atingindo R$ 380 bilhões ao fim de junho. A meta do banco é chegar a R$ 400 bilhões até dezembro e bater os R$ 600 bilhões no ano que vem. 

Além do crescimento do mercado como um todo, Pessoa diz que parte do avanço é oriundo do movimento de aquisições que vem sendo realizado pelo BTG. “O cliente deixou de aplicar apenas em renda fixa e passou a tomar risco. Com isso, passou a demandar um aconselhamento um pouco mais profundo para as oportunidades”, afirma.

Patrimônio geracional

A prova de que esse mercado está crescendo está no fato de que mais executivos estão optando em abrir seus próprios multi family offices, como são chamadas as gestoras especializadas em gerenciar o patrimônio familiar dos clãs endinheirados.

Atenta a isso, a XP lançou um serviço de wealth services para esses escritórios no ano passado, fornecendo a plataforma para que os gestores de fortunas possam gerenciar o dinheiro das famílias que atendem. Hoje, já são 120 family offices conectados à plataforma da XP, conta o responsável pela XP Wealth Services, Rogério Carvalho.

“Esse mercado está muito aquecido, e há muitas conversas com banqueiros querendo entender melhor e montando um plano de negócios para atender os clientes”, comenta. A XP, que começou com R$ 10 bilhões em recursos sob custódia neste ano, já atingiu R$ 40 bilhões. A meta, segundo Carvalho, é alcançar R$ 100 bilhões no ano que vem.

Tributação

Quem está interessado em investir no exterior – seja com a ajuda de gestores, seja apenas abrindo uma conta em uma corretora – precisa estar atento à tributação, que muitas vezes costuma ser mais intensa do que por aqui. 

Diante do aumento de 44% na procura por investimentos financeiros internacionais no acumulado deste ano, o sócio do escritório Rolim, Viotti, Goulart, Cardoso Advogados, Luis Felipe de Campos, lembra que cada tipo de investimento realizado é tributado de uma maneira específica.

O investidor brasileiro que recebe dividendos de empresas no exterior, por exemplo, deve informar tais rendimentos à tributação via carnê-leão, seguindo a tabela progressiva até 27,5%. Caso esse investimento fosse realizado no Brasil, o recebimento de dividendos pagos por empresas sediadas no Brasil estaria isento da mordida do IR.

Quando o investimento for em ações, fundos ou outros investimentos no mercado financeiro, os rendimentos e ganhos de capital com a alienação dessas aplicações estarão sujeitos ao Imposto de Renda entre 15% e 22,5%, quando estiverem disponíveis para o investidor pessoa física brasileiro. 

“É importante mencionar que, caso o rendimento seja creditado, por exemplo, na conta do investidor e esteja disponível para saque, o investidor deve oferecer tal rendimento à tributação mesmo que não repatrie os recursos”, explica o especialista. 

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