Marcos Müller/Estadão
Marcos Müller/Estadão
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Entenda esses ataques à chinesa Huawei

Em briga pela geopolítica mundial no século 21, China e Estados Unidos disputam o controle do 5G, que promete fazer com que tudo que funciona hoje pareça ultrapassado

Celso Ming e Guilherme Guerra, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 21h00

Na última quinta-feira, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, declarou que o Brasil rejeita o bloqueio à chinesa Huawei, como pretende o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Aí têm carga pesada e grandes interesses em jogo que vão mexer não apenas com relações entre potências, mas também com o futuro do dia a dia de cada um dos brasileiros. Daí por que é preciso entender do que se trata.

Entre as mais importantes escaramuças do conflito entre Estados Unidos e China está a corrida pelo controle da tecnologia de conectividade móvel de quinta geração, o 5G. Este é o miolo da nova disputa geopolítica pela hegemonia mundial no século 21.

Ao contrário dos seus antecessores (o 3G e o 4G), a nova versão da ferramenta promete fazer com que tudo que funciona hoje pareça ultrapassado, como inalar rapé, usar mata-borrão ou passar o escovão e encerar o chão da sala de jantar, tal qual se fazia antigamente.

O 5G deve começar a virar realidade a partir de 2020. E, pelo que promete, alimentará em escala comercial dispositivos móveis (celulares e tablets, dentre outros), casas inteligentes (com geladeira, fogão, alarmes de segurança, iluminação avançados), frotas de veículos autônomos, automação de fábricas inteiras e, até mesmo, cidades inteligentes. Tudo isso deverá conversar entre si, em tempo real, sem cabos e sem interrupções.

Quem primeiro obtiver sucesso no domínio dessa tecnologia terá enormes vantagens, além de poder exportá-la para o resto do mundo. A China tomou a dianteira nessa corrida em 2013, quando o governo do país formou um grupo de empresas privadas com o objetivo de alavancar os projetos. A líder nesse segmento é a Huawei, segunda maior fabricante de smartphones do mundo, com potencial para logo se tornar a primeira.

Para atrapalhar essa escalada, o governo Donald Trump não só impôs, em maio de 2019, restrições à comercialização de produtos da Huawei em território americano, mas, em dezembro passado, pediu que o Canadá prendesse Meng Wanzhou, diretora financeira da empresa e filha do fundador da companhia. A justificativa inicial apresentada para essa operação foi a de que a Huawei violou as sanções americanas aplicadas ao Irã. As restrições comerciais de Trump passarão a valer a partir de agosto e deverão prejudicar usuários e fabricantes de todo o mundo.

O especialista da consultoria Eurasia Group no Brasil Filipe Carvalho observa que a estratégia agressiva dos Estados Unidos se apoia agora na alegada necessidade de impor represálias a um governo autoritário que bloqueia o acesso dos seus cidadãos a redes sociais, como o Facebook, e ao mais famoso buscador da internet, o Google.

Também passou a ser usada como justificativa a suspeita de que a atividade da Huawei acabe por facilitar práticas de espionagem em outros países. A primeira denúncia nessa direção foi feita em agosto de 2018 pela agência de inteligência da Austrália. Com base em testes internos de segurança digital, o governo australiano decretou o banimento futuro dos equipamentos de infraestrutura 5G chineses.

As empresas europeias Ericsson (sueca) e Nokia (finlandesa) tentam uma corrida por fora pelo controle da tecnologia, mas ainda estão longe do nível já atingido pela concorrente asiática. Pelas mesmas razões, quando chegarem lá, essas e outras companhias de ponta do G5 também estariam em condições de obter informações privilegiadas sobre a vida das pessoas. Independentemente disso, para Carvalho, não há nenhuma prova clara de que a tecnologia 5G da Huawei coloque em risco a segurança de empresas, cidades e mesmo Estados.

Outros países da Europa, como Alemanha, França e Espanha, que Washington busca trazer para seu lado, parecem decididos a seguir em frente com a tecnologia da China, que fará a instalação do 5G também na Rússia e na Venezuela.

O Brasil ainda não tomou posição oficial nesse campo tão sujeito à bipolarização, mas as declarações do vice-presidente Hamilton Mourão mostram indisfarçável simpatia pela Huawei.

Para Carvalho, assim que perderem influência sobre a Europa, os Estados Unidos aumentarão sua atenção sobre a América Latina e tentarão pressionar o Brasil para também excluir a Huawei dos seus projetos de ponta. Atualmente, boa parte dos equipamentos de telecomunicações de 3G e 4G em uso no Brasil é fabricada pela Huawei. Essa é boa razão para acreditar que será difícil fazer uma troca de tecnologias quando da instalação de equipamentos 5G.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.