Ivone Perez
Ivone Perez

'Inflação alta em junho já era esperada pelo mercado', diz economista

Para André Braz, pesquisador do Ibre/FGV , resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 1,26% em junho foi um 'repique transitório'

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 19h10

O economista André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor  (IPC) apurado pela instituição, considera o resultado da  inflação oficial do País em  junho, que atingiu 1,26%, mais que o triplo do mês anterior (0,40%), um  “repique transitório”.

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A explosão do IPCA em junho refletiu a combinação dos efeitos da greve dos caminhoneiros, a pressão dos preços administrados e a desvalorização do real em relação ao dólar. Pelas pesquisas semanais que realiza para apurar o IPC-S, ele diz que há evidências de desaceleração dos preços ao consumidor.

Por isso, o economista acredita que esse repique registrado em junho deve se dissipar neste mês. Para julho, Braz  espera que a inflação fique abaixo de 0,30% e, no ano, pode ir 4,2%, no cenário mais pessimista. Mesmo assim deve ficar abaixo do centro da meta de 4,5%. A seguir trechos da entrevista.

O resultado do IPCA surpreendeu?

Não surpreendeu. Foi um resultado alto, mas já era esperado pelo mercado. A mediana das projeções estava entre 1,27% e 1,28% e o resultado veio muito em linha o que se esperava. O número nesse patamar foi alcançado por conta, primeiro, dos efeitos da greve, que se estendeu através da cadeia de carnes e alimentos in natura. Houve também a desvalorização cambia, que afetou os preços de grandes commodities, como soja e milho, que são ração para suínos e aves. Houve também a alta dos combustíveis, afetados pelo câmbio, e também bandeira vermelha para a tarifa de energia elétrica. O resultado do IPCA de junho refletiu  alta do câmbio, a greve dos caminhoneiros, efeitos de preços administrados e efeitos sazonais do período,  como o aumento do preço do leite.

Na sua avaliação a inflação desacelera neste mês ou a tendência é de alta daqui para frente?

A inflação já está voltando. A expectativa é que a taxa recue fortemente em julho.

Mesmo o câmbio no atual patamar?

O pass-through (repasse) cambial está muito contido, porque estamos com uma economia muito fraca e desemprego elevado. Por isso, não há muito fôlego para repasse, a não ser para gasolina, commodities. Mas para bens duráveis, como os  eletroeletrônicos, está mais complicado repassar alta de custos neste momento. Não tem demanda para o preço atual, o que dirá para um preço mais alto.

Não preocupa essa explosão da inflação em junho?

Não. A nossa estimativa de inflação para o ano avançou, é claro. Mas está abaixo de 4,5%, que é a meta. O nosso número, provisório ainda, para a inflação deste ano está em 4,2%. O nosso número otimista é em torno de 4%. Já em julho vamos ter um inflação abaixo de 0,30%, quem sabe. Em agosto, a inflação vai continuar muito baixa, pelas contas que estamos fazendo. Isso tudo não vai passar de um repique no mês de junho, por conta de todos esses fatores que aconteceram ao mesmo tempo.

Mesmo com os preços administrados num patamar elevado em 12 meses, o sr. não espera uma inflação elevada daqui para frente?

Não, porque do outro lado temos a alimentação que acumula no ano uma inflação muito baixa. Isso ajuda a compensar esse destaque de preços administrados. Mesmo que eles subam um pouco em julho, como energia elétrica em São Paulo, ou haja novas pressões da própria gasolina, ainda vai sobrar espaço para ter uma inflação abaixo da meta. Isso porque a parte agrícola ajudou muito. Mesmo tendo esse repique de alimentos em junho, ele não foi suficiente para tirar de uma vez só tudo que se acumulou de uma oferta mais generosa desde 2017. Estou projetando para o ano uma inflação de, no máximo, 4,2%. Antes chegamos a ter 3,3% e 3,5%. Mas com a desvalorização do câmbio e a própria trajetória que os preços administrados tomaram, essa distância do centro da meta diminuiu.

Os serviços foram um  destaque muito baixo na inflação acumulada em 12 meses...

Os serviços são o reflexo dessa economia mais fraca. O preço dos serviços é muito persistente, demora muito para reagir. No período do início de menor crescimento, eles rodaram muito acima do IPCA. O IPCA estava desacelerando e eles se mantinham acima de 7%. E repentinamente, nos últimos 12 a 15 meses, os serviços começaram a ceder finalmente porque a economia não está reagindo. Aquele colchão que o consumidor tinha, que garantiu o consumo, como seguro desemprego, verbas rescisórias e algumas economias, já foi embora. Ele não pode mais contar com seguro desemprego, não tem nenhuma reserva financeira, então, infelizmente, o que sobra é cortar gastos mesmo. Por isso, o preço dos serviços não tem espaço para avançar.

Mas os IGPs (Índices Gerais de Preços) estão pressionados . Iss não poderia ser uma indicação de inflação mais alta no varejo?

Apesar de os IGPs estarem acumulando uma variação mais forte do que o IPCA, eles também vão começar a ceder. Os IGPs  vão  desacelerar e encontrar o caminho do IPCA. Não devem desacelerar tanto quanto o IPCA, porque têm inflações de outros segmentos, que irão perder fôlego de forma mais lenta, mas vão desacelera também.

Por causa da demanda mais fraca?

Uma parte sim. Demanda mais fraca represa o apetite por aumento de preços. Também porque no período mais à frente vamos ter uma variação cambial um pouco menor. Uma boa parte da variação cambial foi captado. Então, não há novas desvalorizações fortes no radar. Os preços  devem ficar mais estáveis e a inflação média dos IGPs tende a recuar.

Com essa perspectiva do mercado interno, que é de desaceleração da inflação nos próximos meses, na sua avaliação, o Banco Central (BC) poderia voltar a cortar juros?

Acho que cortar o BC  não vai por outras incertezas. A própria taxa de câmbio está oscilando muito, é um período pré- leitoral. Isso traz alguma insegurança. Mas, sem dúvida BC não aumentaria a taxa, de forma alguma, porque não haveria razão para isso, dada a trajetória recente dos preços, após o fechamento do IPCA de junho. Como fazemos acompanhamento semanal, os números já mostram uma desaceleração da inflação.

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