Felipe Rau/Estadão
Pátio da Localiza ao lado do Terminal Barra Funda, em São Paulo; companhia tem frota de 323,3 mil carros  Felipe Rau/Estadão

União de Localiza e Unidas cria gigante de R$ 50 bi, mas terá de enfrentar o Cade

Anúncio foi bem recebido por investidores, mas nova companhia vai concentrar 65% do mercado de aluguel de veículos, afetando a concorrência; se negócio for adiante, Localiza terá 76,8% do capital da empresa

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 10h43

As empresas de locação de veículos Localiza e Unidas anunciaram nesta quarta-feira, 23, um acordo de fusão que pode dar origem à maior companhia do segmento no mundo, com valor de mercado de cerca de R$ 50 bilhões, segundo cálculos da Economática. O negócio, no entanto, precisa passar pela aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o maior desafio apontado por analistas para a operação, além de receber o sinal verde dos acionistas dos dois lados.

Com o anúncio, as ações ordinárias (com direito a voto) da Localiza registraram a maior alta do Ibovespa (13,97%). O papéis da Unidas, que não fazem parte do índice da B3, se valorizaram ainda mais: 17,27%.

“Com a combinação dos negócios complementares das partes, prevemos a criação de uma companhia referência mundial em mobilidade a partir da oferta de aluguel de veículos, gestão de frotas corporativas e carros por assinatura”, disse o presidente da Localiza, Eugênio Mattar, em entrevista ao Estadão/Broadcast

Questionado sobre o futuro das marcas, Mattar afirmou que ainda não há uma decisão. “Entendemos que ambas são individualmente fortes e reconhecidas por clientes. As companhias permanecerão independentes até a obtenção das aprovações necessárias para a operação. Com isso, serão definidas as estratégias para cada linha de negócio”, explicou.

Caso o negócio seja aprovado, os acionistas da Localiza vão deter aproximadamente 76,8% do capital social total e votante da nova empresa e os acionistas da Unidas passariam a ser donos, em conjunto, de cerca de 23,15%. O Bradesco BBI calcula que, combinadas, as empresas podem captar R$ 5 bilhões em sinergias entre seus negócios, a maior parte em descontos na compra de carros.

Tamanho

Juntas, as duas empresas terão quase 470 mil veículos, praticamente a metade da frota administrada pelas locadoras no Brasil no fim de 2019, de 998 mil, segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA). Em 2019, o País contava com 10.812 empresas de locação.

Segundo cálculos de Alexandre Kogake, da Eleven Financial, a nova empresa terá 65% do mercado brasileiro de aluguel e 29% do mercado de frotas, isso sem considerar as franquias. Para o analista, ainda é cedo para tirar alguma conclusão. “Por enquanto as companhias continuarão trabalhando de forma independente”, lembrou.

Na visão de Marcel Zambello, analista da Necton Corretora, há um risco regulatório alto, porque o Cade pode impor pesadas restrições à união devido ao tamanho da empresa combinada em um mercado ainda fragmentado. “O Brasil ainda tem muitas locadoras pequenas, com frotas de 30 carros. O risco Cade é grande.”

Em relatório, analistas do Santander reforçaram a mesma opinião. “Juntar as duas maiores do setor representa uma pá de cal na competição”. A equipe destacou que a notícia é ruim para outra empresa do segmento listada na Bolsa, Movida, que pode ter dificuldades para crescer. Fontes do Cade ouvidas pelo Estadão/Broadcast em caráter reservado apontaram que o negócio pode levar a uma concentração muito alta em alguns mercados e, a princípio, é preocupante. 

Internacionalização

De acordo com analistas e especialistas, o foco da Localiza com a operação está no mercado externo. Em agosto, a empresa anunciou o fim da parceria com a Hertz, que entrou em recuperação judicial nos Estados Unidos nesse ano, em função do impacto da pandemia. 

O aceno internacional fica mais forte com as características da Unidas. A empresa hoje tem como um dos sócios a Enterprise Holdings, com cerca de 8% das ações. A Enterprise, a maior de seu setor do mundo, opera mais de 1,5 milhão de carros e tem duas outras marcas no Brasil, a National Car e a Alamo.  Além da janela para a expansão, o acordo com a Unidas ajudaria a Localiza a reforçar seus negócios em países como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai.

Em teleconferência, o presidente da Unidas, Luis Fernando Porto, traçou um panorama ousado para o futuro. “O nosso sonho é sermos referência global em soluções de mobilidade”, disse. Ele destacou que esse ainda é um mercado de baixa penetração no Brasil e que o novo grupo apostará na tecnologia para crescer. Antes da crise, o segmento de locação apresentava taxas de crescimento de 15% ao ano./CRISTIAN FAVARO, NIVIANE MAGALHÃES, MATHEUS PIOVESANA, BETH MOREIRA E LORENNA RODRIGUES

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Fusão Localiza/Unidas concentra mercado e pode ter problemas no Cade

Os debates no conselho sobre o caso ainda não foram iniciados, já que a operação ainda não foi notificada ao Cade

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 17h43

BRASÍLIA - A fusão das locadoras de veículos Localiza e Unidas, anunciada nesta quarta-feira, 23, deve enfrentar problemas para ser aprovada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Fontes do órgão ouvidas pelo Estadão/Broadcast em caráter reservado apontaram que o negócio pode levar a uma concentração muito alta em alguns mercados e, a princípio, é preocupante.

Os debates no conselho sobre o caso, no entanto, ainda não foram iniciados, já que o acordo foi divulgado nesta quarta-feira e a operação ainda não foi notificada ao Cade. Pela lei da concorrência, o Cade tem que analisar previamente operações feitas por grandes empresas, como as duas locadoras de automóveis, ou seja, a fusão no Brasil só pode se concretizar após o aval do conselho. O órgão tem até 240 dias após ser comunicado para julgar o negócio, prazo que pode ser prorrogado por mais 90 dias.

A tendência é que a fusão Localiza/Unidas seja analisada não só levando em consideração o mercado nacional, mas também a concentração gerada nos principais municípios brasileiros e também em aeroportos. Foi assim na compra da Hertz pela Localiza, anunciada em 2016.

Na época, a operação foi aprovada pelo Cade sem restrições porque o entendimento foi que havia outras concorrentes para fazer frente à líder de mercado Localiza, entre elas a Unidas, comprada agora pela empresa. O Cade avaliou não só o negócio de locação de veículos, como o de terceirização de frotas e de venda de veículos usados.

Nesta quarta-feira, 23, as duas empresas anunciaram a intenção de uma fusão mediante a incorporação das ações da Unidas pela Localiza. Caso a operação seja concretizada, o valor de mercado consolidado será de R$ 48 bilhões.

O grupo terá frota consolidada de quase de 470 mil veículos e presença em países como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai.

Caso aprovado, os acionistas da Localiza vão deter aproximadamente 76,8% do capital social total e votante da nova empresa e os acionistas da Unidas passariam a ser donos, em conjunto, de cerca de 23,15%.

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