FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

‘Até reabrindo a economia, a recuperação é muito lenta'

Para Arthur Kroeber, China não sairá da crise como principal líder global

Entrevista com

Arthur Kroeber, fundador da consultoria Dragonomics

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 16h19

Após a queda de 6,8% no PIB no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2019, a China deve demorar para se recuperar - assim como ocorrerá com a maioria das economias do mundo após a pandemia da covid-19 -, segundo o americano Arthur Kroeber, fundador da consultoria especializada em economia chinesa Dragonomics. Uma evidência disso é que hoje, seis semanas após começar a reabrir sua economia, a China tem apenas 40% de seus pequenos negócios operando. “A China está rodando entre 80% e 90% do nível de sua atividade normal. Voltar aos 100% pode levar meses. A mensagem é que, até se você começar a reabrir a economia, a recuperação é muito lenta”, diz.

Segundo Kroeber, essa crise deve deteriorar ainda mais a relação entre China e  Estados Unidos. Ao contrário do que alguns analistas têm previsto, porém, Kroeber não vê a China emergindo da pandemia como principal líder global. “O país deve ganhar prestígio e credibilidade depois de mostrar que é eficiente. É um ganho, mas não mudará a relação de poder entre China e EUA”. A seguir, trechos da entrevista.

O PIB da China no primeiro trimestre do ano veio em linha com o que o sr. esperava?

Sim. A questão agora é quão rápido isso vai melhorar. As perguntas principais são se a China conseguirá fazer o setor dos pequenos e médios negócios voltar e quão pesada será a queda das exportações nos próximos meses. As exportações chinesas para a Europa e os EUA, que compram metade das vendas internacionais da China, podem cair entre 20% e 40%. Isso seria muita coisa, mas ainda não temos certeza.

Já há números para saber qual a situação da China depois de março, quando a economia começou a reabrir?

A China está rodando entre 80% e 90% do nível de sua atividade normal. Isso não parece tão ruim, mas há dados que sugerem que apenas 40% dos negócios pequenos voltaram. A China basicamente parou todas as suas atividades há três meses. Depois de seis semanas, começou a reabrir algumas coisas e, outras seis semanas depois, ainda está rodando entre 10% e 20% abaixo do nível econômico normal. Voltar aos 100% pode levar vários meses. A mensagem básica é que, até se você começar a reabrir a economia, a recuperação é muito lenta. 

EUA e Europa devem ter quedas no PIB do segundo trimestre da mesma magnitude que a China teve agora?

Nos EUA, poderia ser pior, porque, numa crise como essa, o gasto do consumidor cai. Enquanto o consumo é cerca de 45% do PIB na China, nos EUA, fica ao redor de 70%. Por outro lado, quase toda a China ficou de quarentena, e nos EUA isso está sendo mais flexível. Mas, de forma geral, podemos esperar, sim, uma queda parecida nos EUA e nas principais economias da Europa. 

O sr. falou em outras entrevistas que o estímulo monetário e fiscal chinês tem sido tímido se comparado com o de 2008 e 2009. Podemos ver um aumento nos próximos meses?

Muitas das atividades chinesas serão focadas nos próximos dois ou três meses. No curto prazo, vai haver uma intensificação dos estímulos e isso vai ser positivo. Mas o tamanho desses esforços será bem menor do que vimos em 2008, porque a dívida do país aumentou muito até 2016 e o governo tenta agora controlá-la.

Que mudanças devemos esperar para o comércio e as organizações internacionais após essa crise?

Há um argumento que diz que a crise prova que a globalização é um grande problema, que é preciso fazer mais coisas em casa e se proteger. O outro argumento, com o qual concordo, é que você precisa ter cooperação global e que instituições internacionais ajudam a gerenciar uma pandemia internacional. Nessa linha, é preciso de cadeias de fornecimento que não sejam muito fragmentadas, pois, se cada país tiver sua própria rede de fornecimento, alguns países terão muito, outros muito pouco e conseguir as coisas em alguns lugares vai ser difícil e caro. Haverá um grande debate em relação a isso, não estou prevendo para onde as coisas vão. 

O anúncio de que os EUA não vão mais financiar a OMS não indica que estamos caminhando para uma menor colaboração?

Isso é muito difícil de prever. O que vejo nos EUA é um governo federal controlado por um nacionalismo econômico, com essa visão protecionista, aliado a um lobby forte de segurança nacional. Mas, contra isso, você tem uma comunidade empresarial muito forte, que investe na globalização e não está interessada em colaborar com uma agenda totalmente protecionista. Haverá uma discussão entre esses grupos, mas não podemos prever o que vai acontecer. 

Podemos prever como será a relação entre EUA e China depois disso tudo?

Isso sim, porque está piorando e vai ficar ainda pior. Há uma briga para controlar a narrativa. Os EUA estão ocupados em levantar essas narrativas de que a culpa da epidemia é da China ou da OMC, e isso é apenas um discurso para desviar a atenção da incompetência de resposta dos EUA. Parecido com isso, na China, o governo tem uma narrativa de que fez tudo pelos cidadãos e que é maravilhosos, o que também subestima os erros graves que cometeu antes de dar uma resposta ao vírus. Há muita pouca coordenação entre os dois países no nível mais alto, apesar de haver coordenação entre os Estados em termos de fornecimento de produtos médicos. Mas acho que a visão linha dura dos EUA é de aproveitar essa oportunidade para reforçar a ideia de que a China não é confiável. E, na China, eles estão pensando: ‘tudo bem, isso enfatiza que não temos de focar tanto em cooperação com os EUA’. Se você olhar a campanha presidencial, Trump quer fazer com que Biden pareça mais fraco quando o assunto é China . Então, o papel que a China terá na campanha é o de uma força negativa. Por isso, a relação entre os países vai piorar. Isso é preocupante, porque, se você quer mais coordenação global e cooperação, EUA e China têm de liderar esse caminho. 

Isso muda se Trump perder a eleição?

Se (Joe) Biden ganhar, não deve haver muita ênfase em guerra comercial e tarifas. Haverá mais uma tentativa para balancear segurança nacional e interesses econômicos, mas não sei  se ele será capaz de reverter a situação atual. Haverá uma mudança de estilo e provavelmente um esforço para estabelecer cooperação em algumas áreas, como mudança climática. A relação pode parar de piorar, mas a melhora deve ser modesta.

Muitos analistas acham que a China pode se tornar um líder global depois dessa crise, dado que respondeu melhor ao vírus. O sr. concorda?

Não. Temos de olhar a crise financeira, em que basicamente o sistema financeiro americano colapsou e levou grande parte do mundo com ele. Nesse período, a China se saiu bem. Muita gente previu um declínio dos EUA e que, em dez anos, a China teria mais poder e seria líder global. Dez anos depois, os EUA continuaram sendo uma economia maior e, de longe, mais poderosos que a China. Claro que a China teve ganhos, mas foram moderados. Agora deve ocorrer algo parecido. Inicialmente, a China parece estar indo muito bem, conseguiu controlar as coisas, enquanto os EUA parecem estar no caos. O sistema americano é muito dinâmico e resiliente. Depois de um período confuso, ele descobre como colocar as coisas de volta aos trilhos, enquanto a China é fundamentalmente mais rígida. Mas, claro, a China deve ganhar um pouco mais de prestígio e credibilidade depois de mostrar que seu sistema é eficiente. É um ganho para a China, mas não muda a relação de poder entre os dois países.

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