Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Na fila do desemprego, brasileiro topa qualquer oportunidade de trabalho

Mesmo após o fim da recessão, mercado de trabalho ainda não dá sinais consistentes de recuperação e desemprego subiu em 14 Estados no primeiro trimestre

Douglas Gavras e Clara Rellstab, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 10h33

Todos os dias, antes das sete da manhã, uma fila começa a se formar em um dos corredores principais da estação de metrô do Brás, na região central da capital paulista. Entre os passageiros que saem apressados dos trens, dezenas de desempregados esperam atendimento em um posto estadual de emprego, onde se cadastram em busca de uma oportunidade de trabalho.

Mesmo após o fim da recessão — oficialmente encerrada em 2017 —, o mercado de trabalho ainda não dá sinais consistentes de recuperação. No primeiro trimestre, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE) apontam que a taxa de desocupação no 1º trimestre de 2019 foi de 12,7%, 1,1 ponto percentual acima do trimestre anterior (11,6%).

Nesta quinta-feira, 16, o IBGE divulgou que o desemprego cresceu em São Paulo e em mais 13 Estados, com destaque para o Amapá, onde a taxa chegou a 20%. A pesquisa também mostra que 5,2 milhões de pessoas procuram trabalho há mais de um ano.

Os dados da Pnad Contínua apontam ainda que a taxa de subutilização do primeiro trimestre é a maior dos últimos sete anos em 13 das 27 unidades da federação. Essa taxa leva em conta os trabalhadores que estavam desocupados e os que trabalhavam uma quantidade insuficiente de horas.

Na fila do desemprego, a situação complicada do mercado de trabalho e a falta de perspectiva de melhora são temas recorrentes. Sem conseguir recolocação, os trabalhadores dizem acreditar que a situação piorou nos últimos meses e que conseguir uma vaga ainda é um objetivo distante.

A seguir, algumas dessas histórias.

Marcos Calixto Ribeiro, de 28 anos, sabe que a crise no mercado de trabalho ainda é grave, mas não esperava ficar desempregado este ano. Ele perdeu o emprego há cinco meses, quando o restaurante em que era auxiliar de cozinha faliu e, desde então, mal consegue ser chamado para entrevistas. "Pelo menos, minha mulher está trabalhando, o que já ajuda um pouco nas contas."



Vera Lúcia Barbosa, de 54 anos, tenta voltar ao mercado de trabalho há seis meses. Ela, que trabalhou como empregada doméstica por 18 anos para uma mesma família, tinha se tornado auxiliar de limpeza de uma metalúrgica, quando deixou o emprego doméstico. Ficou na empresa por mais de um ano. "Mas a crise acabou reduzindo a produção da fábrica e me mandaram embora. Agora, topo o que aparecer. Com a família dependendo de mim, não dá para ficar escolhendo muito."



Sérgio Roberto Araújo, de 37 anos, procura um emprego fixo desde 2016. Encanador, ele trabalhava na construção de edifícios comerciais e residenciais na Grande São Paulo, até que a recessão abalou o setor de construção e ele ficou sem emprego. "Por sorte, minha mulher e meus dois filhos estão trabalhando, mas tudo ainda está muito devagar. Na semana passada, comemorei quando fui chamado para a primeira entrevista de emprego em anos."



O auxiliar de serviços gerais Robson dos Santos, de 28 anos, procura por uma vaga desde 2017. Pela primeira vez, ele deixa seu currículo em um Posto de Atendimento ao Trabalhador na Grande São Paulo, enquanto faz planos: "Acabei de me mudar de Aracaju (SE) para São Paulo. As coisas lá estão ainda mais difíceis para quem não tem emprego. Nos últimos anos, perdi renda, mas não perco a esperança."



Waldenura de Andrade acaba de se mudar de Manaus para São Paulo. Aos 46 anos, ela trabalhou por quase uma década em uma fábrica de motores de ar-condicionado. Com a recessão, os pedidos caíram e a empresa teve de demitir. "Não pensei duas vezes, reuni a família e mudamos de cidade. Agora, busco qualquer oportunidade de trabalho que me deixe começar a faculdade de radiologia."



Geni do Nascimento Fernandes, de 57 anos, era cozinheira em um hospital de São Paulo e procura por uma recolocação há mais de um ano. "Pode ser para trabalhar em uma cozinha de novo ou como vendedora de loja. O que aparecer vai ser bem-vindo."



Felipe Lima, de 26 anos, está há uma semana procurando emprego. Ele, que fez um curso de gestão de negócios, trabalhava como supervisor operacional em uma empresa. "Meu último emprego pagava menos do que uma pessoa com as minhas funções costuma ganhar. Tenho família, sabe como é."



Afonso Maciel Neto, de 30 anos, procura emprego há três meses, desde que deixou de atuar como lavador de carros. "Já fiz muitas coisas antes de ser lavador de carros. Mas até um emprego simples, como esse último, está difícil de arranjar."



Sérgio Leite, de 18 anos, procura seu primeiro emprego em um momento em que até as vagas para iniciantes sumiram. Ele, que concluiu o ensino médio, agora tenta terminar um técnico de química, em busca de uma oportunidade melhor. "Vim até o posto dois dias seguidos e bati na trave. Mas hoje vai, tem que dar certo."

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