Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Márcia De Chiara e Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Carmen Victolo não planejava chegar assim aos 58 anos. Desempregada desde 2014, ela mora com os pais de mais de 90 anos e depende da aposentadoria deles para bancar despesas básicas. Dois cursos superiores e pós-graduação não foram suficientes para levá-la de volta ao mercado e restituir o salário que ganhava como coordenadora de marketing. “Virei teúda e manteúda dos meus pais”, brinca, tentando dar leveza ao seu drama pessoal.

Mais pobres dependem mais de aposentados 

Inadimplência de idosos foi a que mais cresceu em dois anos

Como Carmen, pelo menos 10,8 milhões de brasileiros dependem da renda de idosos aposentados para viver. Só no último ano, o número de residências em que mais de 75% da renda vem de aposentadorias cresceu 12%, de 5,1 milhões para 5,7 milhões. O estudo feito pela LCA Consultores a pedido do Estado considera domicílios onde moram ao menos uma pessoa que não é pensionista ou aposentada, e que abrigam um total de 16,9 milhões de pessoas, incluindo os próprios aposentados.

Essa dependência sempre foi mais forte no Nordeste, que nos governos do PT viu benefícios como aposentadorias e Bolsa Família crescerem mais que a renda do trabalho. O desemprego, no entanto, está levando mais lares, em outras regiões do País, à mesma situação. No Nordeste, a fatia da Previdência na renda das famílias passou de 19,9% em 2014 para 23,2% em 2017. No País, foi de 16,3% para 18,5%, aponta a consultoria Tendências.

“À medida que o mercado de trabalho demora para se recuperar, as aposentadorias acabam ganhando espaço no orçamento familiar”, diz Cosmo Donato, economista da LCA e responsável pelo estudo.

Nos domicílios em que mais de 75% da renda vem da aposentadoria, o número de desempregados é quase o dobro da média do País. O metalúrgico aposentado Antonio Alves de Souza, de 72 anos, sustenta, com uma renda de R$ 3 mil, três filhos desempregados de 26, 32 e 36 anos. Eles não moram juntos, mas fazem todas as refeições e tomam banho na casa de Souza. Quando falta dinheiro para pagar as contas, também é ao pai que os três recorrem. “Se a renda fosse só para mim e para minha mulher dava para quebrar o galho, mas não tem jeito, tenho de ajudar porque eles não conseguem emprego.”

Esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Na Espanha, no período mais agudo da recessão recente, economistas chegaram a chamar os idosos espanhóis de heróis silenciosos da crise, por bancarem financeiramente filhos e netos desempregados e evitarem, em certa medida, um colapso social. Familiares chegaram a tirar aposentados de asilos para garantir uma renda.

“No Brasil, os avós estão virando arrimo de família”, diz o médico Alexandre Kalache, especialista em longevidade. “Eles estão absorvendo o impacto do desemprego e da instabilidade econômica.” A consequência, segundo Kalache, é perversa. “A geração que hoje depende dos pais pode ter dificuldade para se aposentar. Em breve, serão eles os idosos. E sem renda.” / COLABOROU NAIANA OSCAR

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Márcia De Chiara, Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

A superdependência de pensões e aposentadorias cresce mais entre os mais pobres. De 2016 para 2017, o número de domicílios em que esses benefícios respondem por mais de 75% da renda avançou 22%, para quase 942 mil residências, entre as famílias da classe E, que ganham até R$ 625 por mês. Considerando todas as classes, a alta foi de 12%. 

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Esse aumento é maior para os mais pobres porque nesse grupo o desemprego e a informalidade também são maiores. E, normalmente, a renda com atividades informais é inferior a um salário mínimo, que é o parâmetro das aposentadorias e pensões. O metalúrgico aposentado Antonio Alves de Souza, por exemplo, que ajuda os três filhos desempregados, diz que a esposa faz bicos como faxineira. Antes da crise, ela chegava a ganhar cerca de R$1 mil por mês e hoje consegue tirar pouco mais de R$ 200. Isso fez crescer o peso da sua aposentadoria na renda da família.

A maior dependência do orçamento familiar das aposentadorias e pensões é confirmada pela pesquisa da consultoria Kantar Worldpanel, que visita 11,3 mil domicílios para saber de onde vem a renda que o brasileiro gasta com despesas básicas. Em 2014, as aposentadorias e pensões respondiam 17,8% da renda familiar e o salário por 62,8%. 

No ano passado, a parcela das aposentadorias e pensões tinha subido para 21,1% enquanto a da renda de salário, recuado para 57%. “A fatia do salário na renda diminuiu ao longo da crise por causa do desemprego”, diz Maria Andréa Ferreira Murat, diretora da consultoria. 

Nas casas em que há superdependência da renda dos aposentados, a taxa de desemprego é quatro vezes maior que a média nacional, segundo dados da LCA Consultores com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-Contínua), do IBGE. Em 2017, a taxa de desemprego dessa população estava em 52,3%, ante 12,6%, que é a média do País. Também o número de desempregados que vivem nessas residências é quase o dobro da média nacional.

“Se o filho ou o neto perde o emprego, o idoso se sente na obrigação de abrir os braços e acolher”, diz o médico e especialista em longevidade, Alexandre Kalache. “Quando ele pensa que vai aproveitar a vida, o ninho volta a ficar cheio de novo.” 

Para Verônica e Miguel Victolo, de 94 e 92 anos, ter a filha única em casa novamente, mesmo que sem renda, não tem sido um problema. Carmem Victolo, de 58 anos, mora com os pais desde que se separou do marido e está desempregada há quatro anos. “Ela é o nosso anjo da guarda”, diz a mãe, que ganhou uma parceira para assistir a novelas. O pai também não se importa. “Minha obrigação de pai é cuidar dela. Vou sustentá-la até o fim da minha vida.”

Boa parte da renda mensal da família, de R$ 4,5 mil, é consumida pelo condomínio e pelos remédios do casal. Carmen usa com cautela o dinheiro da rescisão para pagar o carnê do INSS e garantir a aposentadoria. Ela tem procurado emprego nos últimos anos, mas as propostas que aparecem não correspondem ao seu perfil profissional ou não são suficientes para pagar um funcionário que pudesse cuidar dos pais. “Acreditava que voltaria logo ao trabalho, mas cada vez mais pessoas estavam sem emprego”, diz. Carmen tem duas graduações, em Rádio e TV e em Marketing, além de uma pós-graduação em Orçamento Público. 

Na avaliação do economista Cosmo Donato, da LCA, o número de lares cuja renda é superdependente de aposentadorias e pensões deve continuar crescendo enquanto o desemprego se mantiver em níveis elevados e as vagas de trabalho abertas forem informais.

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Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

A inadimplência dos idosos, a faixa etária que provavelmente reúne o maior número de aposentados, não é a mais elevada do País, mas foi a que mais cresceu nos últimos dois anos.

+ Número de lares que dependem da renda de aposentados cresce 12% em um ano

Em maio deste ano, 34,5% dos brasileiros com mais de 61 anos de idade estavam com contas atrasadas, segundo levantamento nacional da Serasa Experian. É um resultado menor do que a média da população brasileira, de 39,9%, porém maior do que o registrado para essa faixa etária dois anos atrás.

Mais pobres dependem mais de aposentados 

“O idoso não é mais inadimplente do que adulto maduro”, diz o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. Entre os que têm entre 26 e 30 anos de idade, por exemplo, 45,3% estavam inadimplentes em maio deste ano.

No entanto, Rabi observa que nos dois últimos anos houve uma inversão no comportamento da inadimplência desses dois grupos. A fatia de adultos maduros inadimplentes caiu e a de idosos subiu. O calote dos idosos, que era 32,1% em maio de 2016, atingiu 34,5% no mesmo mês deste ano, uma alta de 2,4 pontos porcentuais. Já o calote dos adultos maduros entre 26 e 30 anos saiu de 47,5% em maio de 2016 para 45,3% em maio deste ano, um recuo de 2,2 pontos porcentuais.

Segundo Rabi, o número de idosos inadimplentes aumentou nesse período por causa da crise. “Muitos deles tomaram crédito para socorrer as famílias em dificuldades”, explica o economista.

O primeiro passo dos idosos aposentados é buscar o crédito consignado, aquele financiamento que tem juro menor do que a média de mercado, cujo desconto é feito diretamente do benefício da aposentadoria.

“Mas como a recessão está demorando a passar, os idosos continuam sendo pressionados pelos familiares a buscarem mais crédito”, diz Rabi. Ocorre que, pelas regras do crédito consignado o aposentado ou pensionista da Previdência pode comprometer, no máximo, 35% do seu benefício líquido, isto é, após o desconto de impostos, com a prestação.

Muitos, diz Rabi, tomam créditos consignados até o limite possível e, com isso, a renda encurta muito. A saída é buscar dinheiro para fechar as contas do mês nas linhas de crédito tradicionais em bancos e financeiras, onde as taxas de juros são de mercado. O resultado é que muitos acabam ficando inadimplentes.

O aposentado Gustavo Baade, de 82 anos, fez um empréstimo consignado para pagar dívidas. Mensalmente é descontado do seu benefício bruto de R$ 1.200 mais de R$ 100. “Com o desconto da prestação do consignado, a minha aposentadoria não chega a R$ 1 mil”, diz. Ele está pagando o empréstimo e diz não estar inadimplente. A idade, segundo ele, dificulta a aprovação de outros financiamentos. / M.C.

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