Tiago Queiroz/Estadão/20/03/2020
Por causa da pandemia de covid-19, o PIB brasileiro do primeiro trimestre registrou baixa de 1,5%. Tiago Queiroz/Estadão/20/03/2020

País entrou em recessão no primeiro trimestre, diz comitê da FGV

Segundo o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), expansão da economia brasileira durou 12 trimestres, do 1º trimestre de 2017 ao 4º trimestre de 2019

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2020 | 11h20

RIO – O Brasil entrou em recessão a partir do primeiro trimestre deste ano, informou nesta segunda-feira, 29, o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Já sob efeitos da pandemia de covid-19, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro do primeiro trimestre registrou baixa de 1,5% ante os três últimos meses de 2019, conforme os dados das Contas Nacionais Trimestrais, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) há um mês.

A simples retração do PIB num trimestre não basta para definir uma recessão. O PIB é apenas uma das dimensões e, na definição acadêmica, também é comum levar em conta o comportamento da atividade em relação a seu “potencial” (ou seja, o quanto uma economia pode crescer sem provocar desequilíbrios, como inflação), afirmaram ao Estadão os professores José Luís Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), e Eduardo Zilbermann, da PUC-Rio.

Para o Codace, recessão é “um período de queda generalizada na atividade econômica, com efeitos negativos sobre a maioria dos setores e pessoas em uma economia”, disse, por escrito, Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV e um dos membros do colegiado. Também pode ser uma “conjuntura de declínio da atividade econômica, caracterizada por queda da produção, aumento do desemprego, diminuição da taxa de lucros e crescimento dos índices de falências e concordatas”, na definição do economista Paulo Sandroni, no “Novíssimo Dicionário de Economia”.

Por isso mesmo, geralmente, os economistas levam tempo para definir quando uma recessão começa e termina. O próprio Codace só concluiu que o Brasil entrou em recessão a partir do segundo trimestre de 2014 em agosto de 2015, mais de um ano depois. O mesmo ocorre em outros países.

Só que com a crise da covid-19 é diferente. Após a retração de 1,5% no primeiro trimestre, as projeções de analistas do mercado financeiro apontam para um tombo em torno de 10% neste segundo trimestre sobre os três primeiros meses do ano. Em abril, a produção industrial despencou 18,8% ante março, enquanto as vendas no varejo recuaram 16,8% e o volume de serviços prestados, 11,7%. Para 2020 como um todo, as estimativas são de uma queda de 6,54% no PIB, no que será o pior desempenho anual da histórica econômica nacional, registrada desde 1901.

“Nessa crise, foi óbvio quando o meteoro chegou”, afirmou o economista Edmar Bacha, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG), integrante da equipe que criou o Plano Real nos início dos anos 1990 e membro do Codace.

Nos Estados Unidos, o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER, na sigla em inglês), instituto privado fundado em 1920 cujas definições dos ciclos econômicos são usadas pelo governo americano e no qual o Codace se inspira, também agiu mais rapidamente do que o usual. No último dia 8, soltou comunicado registrando o início de uma recessão nos Estados Unidos em março passado – a recessão do “subprime”, por exemplo, só teria a data de início, dezembro de 2007, confirmada pelo NBER em dezembro de 2008.

Ao decidir confirmar logo o início da recessão causada pela pandemia, tanto o NBER quanto o Codace foram mais rápidos do que economistas do mercado financeiro, que nem precisaram falar em “recessão técnica”. O jargão, comumente usado no “economês”, é definido, simplesmente, como a situação em que a variação do PIB trimestral registra duas quedas seguidas, sempre na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Apesar da definição aparentemente objetiva e de fácil entendimento, curiosamente, o termo passa longe dos estudos acadêmicos da teoria econômica e não é encarado como um conceito por pesquisadores. Segundo Oreiro, da UnB, não passa de uma “convenção”.

A origem do termo está numa tentativa, por economistas americanos, de identificar quando começa uma recessão. Em artigo de maio de 2008, publicado no site “CNN Money”, os economistas Lakshman Achuthan e Anirvan Banerji, cofundadores do Instituto de Pesquisa do Ciclo Econômico (ECRI, na sigla em inglês), chamam a ideia de “simplista”. Os autores identificam a origem da “recessão técnica” num artigo de 1974, de Julius Shiskin, que foi economista-chefe do Escritório do Censo dos Estados Unidos e professor da Universidade Rutgers.

Publicado no jornal “The New York Times”, o artigo procura oferecer uma lista de condições que “quase qualquer um pode usar” para definir uma recessão econômica. A primeira condição da lista é justamente registrar duas quedas trimestrais no PIB. Shiskin cita outras, mas “ao longo dos anos o resto das regras de alguma forma foi deixado de lado, sobrando apenas a ‘dois trimestres de PIB em queda’”, escrevem Achuthan e Banerji, chamando a lista de Shiskin de “regra de bolso” e, como tal, “está longe de ser perfeita”.

Tanto o artigo de 1974 quanto o de 2008 foram escritos em momentos em que informações conjunturais da economia americana sugeriam que uma recessão estava em curso – economistas e o público se preocupavam em confirmar a ocorrência. A ansiedade se justifica porque a determinação dos ciclos de recessão ou expansão da economia leva tempo, como mostra o trabalho tanto do NBER quanto do Codace.

Ao registrar o início da recessão atual no primeiro trimestre deste ano, o Codace aproveitou para refinar a datação dos ciclos anteriores – criado em 2004, o comitê analisou a economia brasileira desde o início da década de 1980. Assim, fixou o ciclo recessivo anterior ao atual entre março de 2014 e dezembro de 2016, passando por 11 trimestres, com um total de 33 meses. Assim, a recessão de 2014-2016 passou a ser a mais prolongada da história – a recessão de 1989 a 1991, que também passou por 11 trimestres, teve 30 meses, entre junho de 1989 a dezembro de 1991. Após revisões feitas pelo próprio IBGE, a recessão de 2014-2016 já não era a mais intensa da história.

Agora, apenas nos dois primeiros trimestres deste ano, a recessão da covid-19 poderá acumular a maior retração do PIB da história, com tombo de 11,9% nas projeções do Ibre/FGV.

 

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Vamos ter uma alteração estrutural da economia no pós-covid, diz Edmar Bacha

Integrante da equipe que criou o Plano Real disse que recuperação do Brasil será lenta, mas abrirá espaço para a questão da distribuição de renda do País e o aumento dos gastos públicos

Entrevista com

Edmar Bacha, economista

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2020 | 22h04

RIO - O economista Edmar Bacha, diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG) e integrante da equipe que criou o Plano Real, vê pouco espaço para uma recuperação rápida, em “V”, da economia brasileira, que entrou em recessão no primeiro trimestre deste ano, conforme o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Membro do órgão colegiado, Bacha acha que o mais provável é que o ritmo de recuperação da atividade estacione num platô, à medida que o impulso das medidas do governo for passando.

Embora seja favorável à discussão sobre a manutenção dos auxílios emergenciais via unificação dos programas de transferência de renda, Bacha ressalta o aperto dos gastos públicos no País, que exige reformas para liberar espaço para ampliar o investimento em políticas focadas na redistribuição da renda. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Estamos em meio à recessão, mas há espaço para recuperação em “V”?

Nos Estados Unidos, como reportou a Marcelle (Chauvet, professora da Universidade da Califórnia, integrante do Codace, na reunião da última sexta-feira, 26), foi feita uma pesquisa muito interessante com economistas sobre a forma da retomada. Já houve duas rodadas da pesquisa. Na primeira, a maior parte dos economistas colocou o “V”, e, agora, todo mundo mudou do “V”, para algo que começa com um “V” inclinado, mas logo depois atinge um platô. E essa questão do platô é fundamentalmente por causa do esgotamento dos impulsos fiscal e creditício que o governo está dando. Quando isso acabar, como vai ficar? Depois, do lado do vírus, tem a questão de que isso vai exigir uma realocação muito pronunciada da atividade econômica. O mundo pós-covid não vai ser o mesmo. Vai ser bastante diferente. A natureza da atividade econômica vai ser muito distinta, com setores que vão ser beneficiados e os setores que vão ser prejudicados. Vamos ter uma alteração estrutural, se não permanente, pelo menos prolongada na estrutura das atividades econômicas.

No caso do Brasil, o quadro é diferente, já que o espaço fiscal para manter medidas é menor?

Obviamente, o Brasil tem bastante menos espaço fiscal do que os países que têm moeda-reserva. (...) Com esse agravamento do quadro fiscal, estamos indo para uma relação dívida pública sobre PIB de 100%. Agora, se temos menos espaço fiscal, temos um pouquinho mais de espaço monetário. Os juros lá (nos países desenvolvidos) já estão em zero. Isso é uma questão complexa, que vai depender muito da capacidade que temos de reestabelecer o ânimo empresarial e a disposição dos consumidores a gastar.

Os impulsos ficais ajudam no consumo das famílias, não?

Nos Estados Unidos, por causa das transferências, houve uma retomada muito forte, praticamente no nível anterior, do consumo das classes mais pobres. O consumo que está retraído é o consumo dos 25% mais ricos, do pessoal que fugiu de Manhattan. Esse consumo vai voltar quando o medo passar. O curso do vírus é que vai determinar um pouco esse processo de retomada do consumo da parte mais substantiva do total. Embora seja menos gente (os 25% mais ricos), o poder de compra é muito maior.

Isso vai acontecer no Brasil ainda?

Com certeza. Não temos ainda esse tipo de dado. Nos Estados Unidos é um pouco mais fácil porque aqui as pessoas mais pobres ainda gastam em dinheiro. Isso é mais difícil de traçar.

Diante disso, deveríamos investir na manutenção dos auxílios emergenciais?

O ideal seria a gente encontrar um espaço fiscal para fazer uma ampliação do Bolsa Família. Esse é um tema que está em discussão muito ampla, tem propostas pipocando para todo lado, algumas mais fantasiosas, outras mais realistas. Há uma coisa emergencial, que é o prolongamento do auxílio, dado que o vírus não se abateu no período que estávamos com esperança que se abatesse. A outra questão é como será o formato mais ou menos prolongado desse processo.

O sr. é favorável a uma ampliação das transferências?

Acho importante, temos que discutir isso. Podemos fazer desta crise uma oportunidade para uma discussão séria sobre distribuição de renda no País.

É possível fazer isso sem reformas, como a administrativa e a tributária?

A alternativa a isso seria aumentar brutalmente os impostos, o que não é o caso. Já estamos com uma carga tributária, para nosso nível de renda, bastante alta. Temos que conseguir um jeito é de redistribuir o gasto. E tem que melhorar a qualidade dos impostos, obviamente.

Qual a consequência de continuar aumentando a dívida pública?

Isso seria autodestrutivo, porque a retomada depende do restabelecimento de um ambiente de negócios. As oportunidades estão aí. A do saneamento está sendo criada (com a aprovação, na semana passada, do novo marco regulatório para o setor). A questão é saber se o pessoal (os investidores) vai vir. Para vir, precisa ter confiança no ambiente de negócios e em tudo o mais. Num País que está com a dívida descontrolada, quem vai ser louco (de investir)?

Como fazer as reformas?

Vai ter que fazer uma redistribuição. Então, vai haver perdedores, sem dúvida. Não é fácil. Não é uma coisa para fazer do dia para a noite. Vai precisar de um debate amplo na sociedade, para ter uma avaliação muito clara para as pessoas do que se trata. Não vai chover dinheiro. Vamos tirar dinheiro de um lado e colocar no outro. É importante que esse debate seja bastante amplo, porque se depender só dos lobbies que pressionam o Congresso, não vamos chegar a lugar algum.

O sr. está mais pessimista ou otimista com os rumos da economia?

Estamos numa situação extremamente difícil. Normalmente, os períodos de expansão são muito mais prolongados do que os períodos recessivos. É uma característica do ciclo econômico tradicional. Agora, pega essa última leva. Tivemos um período recessivo, de 2014 a 2016, que é praticamente da mesma extensão (11 trimestres) que a expansão que tivemos até o ultimo trimestre do ano passado (de 12 trimestres). Só isso já é uma sinalização bastante clara da precariedade. A economia já estava andando de lado. Essa expansão não foi nada para ficar muito entusiasmado. A economia já não vinha bem das pernas. Precisamos ter um conjunto de mudanças muito substantivas para uma retomada mais vigorosa e para termos um espaço mais amplo para essa discussão dos sistemas redistributivos, que são tão importantes no Brasil.

As medidas dos países desenvolvidos podem beneficiar o Brasil com um crescimento global maior?

Já estamos nos beneficiando da retomada na Ásia. As exportações brasileiras para a Ásia estão indo muito bem, obrigado. Nesse sentido, sim, mas isso olhando para os próximos meses. A questão que se coloca mais à frente, pós-covid, é como vai ser essa reestruturação, a recomposição da economia mundial, toda essa questão do protecionismo e do papel das organizações internacionais. Isso vai depender muito do resultado das eleições (presidenciais) americanas (marcadas para novembro).

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