Tiago Queiroz/Estadão - 20/3/2020
Lojas fechadas na Rua 25 de Marços logo depois do início da quarentena em São Paulo. Tiago Queiroz/Estadão - 20/3/2020

Com efeito da pandemia, PIB do 1º trimestre recua 1,5%

Fechamento de indústrias e comércio após a adoção de medidas de isolamento social afetou tanto a produção quanto o consumo das famílias; é a maior queda desde o 2.º trimestre de 2015

Vinicius Neder, Daniela Amorim e Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 09h01
Atualizado 29 de maio de 2020 | 19h43

Correções: 29/05/2020 | 09h55

RIO - A pandemia de covid-19 atingiu em cheio a economia brasileira apenas nos últimos 15 dias do primeiro trimestre, a partir de meados de março, mas foi o suficiente para o Produto Interno Bruto (PIB) encolher 1,5% na comparação com o quarto trimestre de 2019, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 29. É a maior queda desde o 2.º trimestre de 2015, quando a economia encolheu 2,1%.

Já esperada por analistas – que também projetavam um recuo de 1,5%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast –, a queda deve ter sido apenas o primeiro passo do novo ciclo recessivo, já que o levantamento apontava, antes de o dado do primeiro trimestre ser conhecido, para um tombo de 11% neste segundo trimestre, levando o PIB de 2020 a encerrar 6,05% abaixo do de 2019, na maior queda anual da história. 

Com a adoção das primeiras medidas de isolamento social a partir da segunda-feira, 16 de março, um cenário de shopping centers e restaurantes fechados, aeroportos vazios e grandes cidades sem engarrafamentos apontava para uma economia parada, numa crise sem precedentes. Desde então, economistas vêm explicando que a crise é inédita porque derruba, em todo o mundo ao mesmo tempo, e com efeitos em cadeia, tanto a oferta de trabalho, afetando a produção, quanto a demanda, ou seja, a capacidade das famílias para consumir. 

Essa derrubada simultânea da oferta e da demanda foi vista nos dados do PIB do primeiro trimestre. Pela ótica da oferta, a indústria caiu 1,4% em relação ao quarto trimestre, enquanto o setor de serviços, que responde por 74% da economia, encolheu 1,6%. A alta de 0,6% no PIB da agropecuária, que pesa pouco no total, foi insuficiente para fazer a atividade econômica como um todo avançar.

“A agropecuária parece inerte à pandemia até agora, considerando também o segundo trimestre, com demanda forte da China”, afirma o economista Vitor Vidal, da XP Investimentos.

No lado da demanda, o consumo das famílias, componente de maior peso no PIB, encolheu 2% em relação ao quarto trimestre de 2019. De um lado, o isolamento social impediu, imediatamente, as pessoas de saírem para consumir. Por outro lado, o movimento tende a perdurar, à medida que empresas que viram seu faturamento tombar demitam mais e mais. Apenas no acumulado de março e abril, foram fechadas 1,1 milhão de empregos formais. Quando se considera também o trabalho informal, 5 milhões já perderam o emprego até abril

“É uma recessão muito forte, com queda de 7% no PIB (do ano) e desemprego de 16% a 18% (no fim do ano). Parou a economia, não tem jeito”, afirmou José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio.

Para mitigar os efeitos da recessão, desde o aprofundamento da crise, em março, economistas vêm concordando que o governo federal tem que gastar mais em medidas de apoio à renda das famílias, de ampliação do crédito e de apoio às empresas, pelo menos temporariamente. 

As divergências estão em torno da necessidade, ou não, de se ajustar o modelo de política econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes. Muitos são contra a ideia, especialmente os economistas que não veem espaço para ampliar os investimentos públicos, posição predominante no mercado financeiro.

Para Camargo, da Genial, a elevação de gastos para enfrentar a covid-19 deve ser temporária, ainda que a recuperação da economia após a retração no primeiro semestre seja lenta. Por causa da burocracia e dos controles do Tribunal de Contas da União (TCU), levaria pelo menos dois anos para investimentos públicos saírem do papel e não há espaço para isso no Orçamento.

Por isso, passado o pior da pandemia, é preciso voltar à agenda de reformas e de corte das despesas públicas, com manutenção do teto. Segundo Camargo, com reformas como a administrativa do Estado e a tributária, além de mudanças regulatórias na infraestrutura, como a aprovação do novo marco do saneamento básico, os investimentos privados virão. “Ainda tem dinheiro sobrando no mundo. Tem mais ainda com a crise. Se tiver oportunidades (no Brasil), vai ter investimento (estrangeiro)”, afirmou Camargo.

O abandono da agenda de reformas e a elevação de gastos, mesmo com investimentos, faria o crescimento do endividamento público seja visto como “insustentável”, o que aumentaria a desconfiança de investidores do mercado, elevando as taxas de juros cobradas nos títulos da dívida, deixando o dólar ainda mais caro e trazendo inflação, o que tenderia a estender a recessão, disse Camargo.

Na mesma linha, Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco Goldman Sachs, vê os temores em relação à dinâmica de gastos públicos e endividamento como um dos motivos para investidores estrangeiros ficarem de fora do País.

“Vemos o País numa situação muito complicada, com uma queda do PIB de 7% a 8% neste ano. E há bastante preocupação com a parte fiscal, que já estava numa situação muito frágil. Foi perdido muito tempo e não foram aprovadas as reformas”, afirmou Ramos, em entrevista ao Estadão/Broadcast. 

Por outro lado, há economistas defendendo o aumento dos investimentos públicos. Para Raul Velloso, consultor econômico especializado em finanças públicas, a crise imporá ao governo Jair Bolsonaro uma mudança no modelo de Guedes – “pró-redução” da dívida pública e “anti-investimento público”, baseado na redução do peso do Estado e na atração de capital privado, especialmente o externo, para fazer investimentos. “É hora de mudar o modelo, ponto. Se antes já havia razões para isso, agora tem mais”, diz o consultor.

Professor da Universidade de Brasília (UnB), o economista José Luís Oreiro também não vê saída para enfrentar a recessão fora do aumento dos investimentos públicos. Com comércio internacional em baixa por causa da covid-19 e a imagem do País arranhada por crises políticas e pelo enfrentamento errático da pandemia, não haverá impulso das exportações nem de investimentos estrangeiros. Com falência generalizada de empresas e o endividamento das que sobreviverem, tampouco haverá investimento privado, enquanto o desemprego elevado deverá seguir inibindo o consumo. 

“Por exclusão, só nos resta o investimento público. Ou é isso ou nada. Vamos passar uma década estagnados”, afirmou Oreiro.  / COLABORARAM RICARDO LEOPOLDO, THAÍS BARCELLOS E CÍCERO COTRIM 

Correções
29/05/2020 | 09h55

Diferentemente do publicado, a queda no PIB no primeiro trimestre de 2020 não foi a primeira desde 2017. No quarto trimestre de 2018, o PIB recuou 0,1%.

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Desastre da economia levará muito tempo para ser consertado

Um governo que cria uma crise por dia terá enorme dificuldade para colocar a atividade econômica nos trilhos

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 10h40

Se fosse um boletim escolar, seria muito embaraçoso levar para casa, para mostrar aos pais, o PIB brasileiro do primeiro trimestre. Praticamente só tem nota vermelha. Um azulzinho ou outro, como na agropecuária, que ainda se salvou em meio ao caos, subindo 0,6%, ou no consumo do governo, que teve alta de 0,2%. A indústria caiu 1,4%, os serviços tiveram queda de 1,6%, o consumo das famílias recuou 2%. Em suma, foi um desastre. E a pandemia do novo coronavírus ainda nem tinha dado as caras direito...

No segundo trimestre, esse dado certamente será bem pior. Já temos visto isso nos índices de atividade econômica relativos a abril – como  a inimaginável queda de 99,3% na produção de automóveis. E, para o ano, as projeções também são catastróficas. Tudo parece ainda muito mais uma tentativa de adivinhação, porque o cenário não está claro pra ninguém. Mas uma queda no PIB até superior a 10% está no radar. O que seria bem mais que a perda acumulada na recessão de 2014/2016. Usando a imagem do ano escolar, nem adiantaria estudar muito e tirar boas notas no segundo semestre. O ano já está perdido.

O que é necessário fazer agora é tentar encontrar caminhos para que, quando a pandemia deixar que as atividades voltem razoavelmente à normalidade, haja a recuperação mais rápida possível. Mas alguém acredita que isso será fácil  com esse governo que insiste em criar uma crise por dia, e às vezes até mais de uma?

A receita apresentada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, no início do governo, não prosperou. Quase um ano e meio após a posse de Jair Bolsonaro, o grande avanço foi a reforma da Previdência – nesse caso, muito mais mérito do Congresso que do Executivo. A reforma administrativa foi barrada pelo próprio presidente, receoso de comprar briga com o funcionalismo público. A reforma tributária, ninguém sabe, ninguém viu. As privatizações não aconteceram, tampouco as concessões.

O Brasil se vê às voltas com três crises simultâneas – de saúde, política e econômica – e demonstra praticamente nenhuma capacidade de lidar com elas. Parece que nós mesmos cavamos um buraco enorme e pulamos dentro dele sem levar as escadas. Agora, vamos ter de dar um jeito de sair. Mas, pelo jeito, vai ser um percurso longo e acidentado.

*Editor de Economia do Estadão

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Retrato velho de uma economia

O PIB do primeiro trimestre dá uma ideia do que deverá ser 2020; o País pode ter a pior recessão da história

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 10h27

O PIB do primeiro trimestre, infelizmente, é um retrato velho do que teremos pelo resto do ano. A covid-19 impactou negativamente apenas a parte final de março, fazendo com que os números não fossem ainda piores. Mas a abertura do PIB dá uma ideia do que deverá ser 2020.

Houve queda forte em outros serviços, basicamente itens relacionados a turismo e lazer, transporte, construção e indústria, especialmente na automobilística e essa deverá ser a tônica durante todo o ano. Alguns setores especialmente que pareciam que teriam um ano muito positivo, como petróleo e gás e atividade imobiliária, deverão amargar taxas negativas.

O preço muito baixo do petróleo não deve ser revertido este ano, impactando os investimentos da cadeia, além do setor de etanol. E a forte queda de emprego e renda afetará bens que dependem de crédito, como imobiliário e automóveis. Por outro lado, a agropecuária teve crescimento de 0,6% e deverá ser dos poucos setores, talvez o único, que apresentará bom resultado em 2020 pela manutenção das exportações de alimentos para a China.

A preocupação agora é com os números que virão. Essa provavelmente será a pior recessão da história. Se o PIB cair os 7,8% que esperamos será o pior resultado da série histórica.

As idas e vindas em relação a como lidar com a covid-19, com disputas entre Executivo e governos estaduais, impediu uma quarentena mais robusta, que nos permitiria sair mais cedo da mesma. Essas indefinições, mais do que qualquer outra coisa, cobrarão um preço adicional para o PIB que respingará no segundo semestre.

Enquanto Europa e Estados Unidos discutem a saída organizada agora, o Brasil vê o pico da doença em julho e uma volta muito lenta da atividade a partir daí. Por termos sido lenientes com a crise, o impacto econômico será mais difícil de ser contornado.

O impacto fiscal da crise levará a dívida bruta do Governo Central a números próximos de 95% do PIB no final do ano. Fazer novo ajuste fiscal no meio da saída de uma pandemia e de uma crise política longe de terminar deverá trazer consequências para o crescimento nos próximos anos. Pensar em um a política econômica de saída da pandemia precisa ser pensada o quanto antes, pois demandará um esforço político que o governo hoje não tem.

* Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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PIB do 1º tri traz sinais claros sobre atividades que sofrerão mais neste ano

Os efeitos mais claros da pandemia no PIB ainda estão por vir e devem aparecer no segundo trimestre e na forma de recuperação ainda modesta no terceiro trimestre

Alessandra Ribeiro, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 11h56

A queda no PIB do 1° trimestre reflete efeitos incipientes da pandemia sobre a atividade econômica, ainda que os movimentos já apontem a direção das atividades que sofrerão mais ou menos neste ano. Os impactos da pandemia sobre a atividade devem ficar mais claros no 2° trimestre, cujas estimativas iniciais sugerem retração ao redor de 10% na comparação trimestral.

A abertura do PIB dá sinais sobre setores que sofrerão menos no ano, inclusive, encerrando o ano com expansão, como é o caso da agropecuária, com destaque para a produção de soja e pecuária, e dentro do PIB industrial, a parte extrativa, com suporte advindo da produção de óleo e gás e mineração. 

Por outro lado, o segmento de serviços deve apresentar retração ainda maior nos próximos períodos, com destaque para aqueles ligados a famílias, que captarão não só impactos diretos do isolamento, mas principalmente a deterioração do mercado de trabalho, dado o aumento do desemprego e queda esperada para a renda.

Ainda em serviços, atividades ligadas a comércio, com destaque para bens duráveis como automóveis, sofrerão mais, dado que a demanda deve ficar mais focada em bens de primeira necessidade em detrimento de bens duráveis.

Na parte industrial, a construção civil e a indústria de transformação devem mostrar aprofundamento do movimento já observado no primeiro trimestre, diante do efeitos esperados para o setor imobiliário - queda nas vendas de imóveis e postergação das fases de construção de obras já lançadas – e, no segundo caso, impactos mais expressivos sobre a indústria automotiva e bens de capital.

Pela ótica da demanda, esse desempenho está ligado à retração mais expressiva esperada para consumo das famílias e investimentos. Neste sentido, a alta da formação bruta de capital fixo no primeiro trimestre deve ser relativizada, pois captou forte movimento de importação de bens de capital e plataforma de petróleo no início do ano que não se sustentará nos próximos períodos. 

Em suma, os efeitos mais claros da pandemia no PIB ainda estão por vir e devem aparecer no segundo trimestre e na forma de recuperação ainda modesta no terceiro trimestre. Os riscos, entretanto, pendem para o lado negativo, diante do quadro de saúde que deve se impor, requerendo atitudes mais drásticas das autoridades.

Além disso, o ambiente político potencializa os efeitos adversos ao sustentar o nível de incerteza elevado, o que penaliza ainda mais investimentos e consumo.

*Alessandra Ribeiro é economista e Diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências Consultoria.

 

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Segundo trimestre deverá ter queda recorde no PIB

A partir de abril, os efeitos das restrições de oferta e demanda resultantes das medidas de afastamento social serão fortemente sentidos na atividade econômica

José Ronaldo de C. Souza Jr*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 11h29

Os dados de PIB são sempre divulgados dois meses depois de terminado o trimestre. Ainda assim, geram grande interesse e costumam causar alterações nas previsões de PIB do ano corrente. Os dados divulgados nesta sexta-feira, 29, embora não deixem de ser relevantes, retratam um momento da economia que já parece um passado distante.

O crescimento de 4,3% dos investimentos (em relação ao primeiro trimestre de 2019) retratam um momento completamente diferente do atual. Apenas a partir da segunda metade de março, os efeitos da pandemia de covid-19 sobre a economia brasileira passaram se intensificar.

No PIB do segundo trimestre deste ano, porém, os efeitos das restrições de oferta e demanda resultantes das medidas de afastamento social serão fortemente sentidos. No mês de abril, de acordo com o Boletim de Acompanhamento Setorial da Atividade Econômica do Ipea, a indústria geral produziu 44,6% a menos que no mesmo período do ano passado. Na mesma base de comparação, o volume de vendas no conceito ampliado e a receita de serviços tiveram quedas de 44,5% e 26,7%, respectivamente. São quedas muito fortes e disseminadas, que tendem a causar uma queda recorde no PIB neste segundo trimestre.

Um dos destaques negativos foi a produção de automóveis, que caiu mais de 90% em relação a abril de 2019. As vendas de veículos, apesar de terem caído muito também, apresentaram perda menor, de 47%. Isso sugere que pode haver uma melhora marginal, na comparação com abril, já no mês de maio - como indica a melhora do consumo de energia do setor no mês.

Aliás, alguns setores que são grandes consumidores de energia, indústrias de metalurgia, de produtos de metal e de minerais não metálicos, também apresentaram aumento no consumo de energia já em maio.

No mês de junho, é possível que se inicie um processo de recuperação parcial de outros setores da economia. Porém, a reabertura dos setores hoje fechados total ou parcialmente tende a ser paulatina e deverá encontrar um consumidor cauteloso e com renda mais baixa e incerta.

* José Ronaldo de Castro Souza Júnior é diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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Com queda de 1,5% do PIB, Brasil fica em 15° em ranking de crescimento mundial

Expectativa da Austin Rating, responsável pela comparação, é que desempenho do País piore muito no segundo trimestre

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 12h59

RIO - As perdas provocadas pela pandemia da covid-19 na economia global melhoraram a posição do Brasil no ranking mundial, apesar da retração de 1,5% registrada pela economia brasileira de janeiro a março ante o quarto trimestre de 2019. Como os efeitos do novo coronavírus só chegaram ao País nas duas últimas semanas de março, o Brasil ficou na 15ª posição num ranking internacional de desempenho da atividade econômica com 44 países, compilado pela agência de classificação de risco Austin Rating.

Os dados do PIB brasileiro foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que anunciou nesta sexta-feira, 29, os resultados das Contas Nacionais Trimestrais.

O Brasil ficou logo à frente de países como México (-1,6% no primeiro trimestre de 2020 ante o último trimestre de 2019), Holanda (-1,7%), Israel (-1,8%), Dinamarca (-1,9%), Reino Unido (-2,0%) e Alemanha (-2,2%).

Epicentro da pandemia em um primeiro momento, a China ficou na penúltima posição na lista, com uma retração de 9,8% do PIB do primeiro trimestre na margem, atrás apenas da lanterninha Nigéria (-14,3%).

A França ocupou a 32ª posição do ranking, com retração de 5,8% da economia na mesma base de comparação. A Itália, também bastante afetada pela pandemia, ficou na 27ª posição, com queda de 4,7% do PIB. Já os Estados Unidos ficaram em 12º lugar, com recuo de 1,2% no PIB.

Apenas seis países do ranking cresceram no período de janeiro a março. O Chile (3,0%) ocupou a liderança, seguido por Índia (1,1%), Rússia (0,6%), Bulgária (0,3%), Romênia (0,3%) e Finlândia (0,1%).

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o Brasil deveria estar mais próximo dos países emergentes no topo da lista e não das economias que foram afetadas primeiro pela pandemia. "O Brasil demorou mais a sofrer os efeitos da pandemia, mas com apenas 15 dias de economia parada o PIB caiu 1,5% no primeiro trimestre. Imagina com dois meses", destaca.

A Austin revisou seus cálculos para baixo e já prevê uma retração de 10,1% para o PIB nacional no segundo trimestre ante o imediatamente anterior. A previsão, com isso, é que o País volte a ocupar uma posição pior no ranking internacional. Isso porque muitos países que hoje estão na lanterna, como a própria China, começam a retornar à normalidade.

"O País deve ter uma pancada maior que outros países no segundo trimestre e, muito provavelmente, ficar próximo da lanterna do ranking", prevê Agostini.

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Depois de queda no PIB, Guedes pede trégua durante a crise, senão o 'barco naufraga'

Recuo de 1,5% na atividade econômica de janeiro a março reflete apenas os primeiros impactos da pandemia do novo coronavírus

Anne Warth e Wagner Gomes, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 12h50

BRASÍLIA e SÃO PAULO - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que "depende de nós mesmos" determinar como será a reação da economia no pós-pandemia. Ele fez a declaração pouco depois de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 1,5% no 1º trimestre, na comparação com os três últimos meses de 2019.

Se referindo aos recentes conflitos do presidente Jair Bolsonaro com outros poderes, como o Judiciário, o ministro apontou que disputas são "naturais", mas defendeu trégua neste momento de crise, senão "o barco naufraga."

"É natural que nessa ansiedade, cada um ao seu estilo, um pise no pé do outro. E quem foi pisado vai empurrar de volta. Agora, acabou. Um deu o empurrão, tomou o empurrão de volta. Todo mundo remando para chegar na margem. Quando chegar na margem, começa a briga de novo. Pode brigar à vontade na margem. Se brigar a bordo do barco, o barco naufraga”, disse durante um seminário virtual.

Segundo Guedes, é "cretino atacar o governo do seu próprio País em vez de ajudar num momento como esse". Ele admitiu que existem erros, mas que o governo espera a ajuda de todos. "Ninguém quer apoio a erros. Erramos, nos critique, mas nos ajudem."

Ele apontou que há três opções para o pós-pandemia: a chamada retomada em forma de "V", que seria a mais rápida; a retomada em forma de "U", um pouco mais lenta; ou então a economia pode se comportar como na forma da letra "L" que, segundo o ministro, significa "cair e virar depressão.

“Só depende de nós. Só depende de nós. Pela terceira vez, só depende de nós", disse o ministro nesta sexta-feira, 29. "Prefiro ainda trabalhar com o 'V', pode ser um 'V' meio torto, caiu rápido e vai subir um pouco mais devagar, mas ainda é um 'V'.”

O resultado reflete apenas os primeiros impactos da pandemia do novo coronavírus e coloca o País à beira de uma nova recessão, uma vez que a expectativa é de um tombo ainda maior no segundo trimestre. “Precisamos de cooperação, colaboração, compreensão, solidariedade", afirmou.

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Adriana Fernandes
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PIB mostra que Guedes vai precisar muito mais do que gogó para coordenar retomada da economia

O ministro da Economia, Paulo Guedes parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia

Adriana Fernandes  , O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 12h09

O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos três primeiros meses do ano, divulgado nesta sexta-feira, 29, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a economia brasileira nem de longe estava “decolando” antes da pandemia do coronavírus.    

Sem surpresas, o instituto informou que a economia brasileira encolheu 1,5% no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao quarto trimestre do ano passado com cerca de um sexto do período afetado pelos efeitos da paralisação das atividades da pandemia no Brasil, a partir da segunda quinzena de março.

Como reconhece a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, em documento divulgado nesta sexta-feira para comentar o PIB, a economia apresentava “sinais” de retomada, após dados fracos de atividade no último trimestre de 2019. Eram, portanto, sinais ainda não consolidados, com os meses de janeiro e fevereiro marcados por “bons” resultados nos indicadores de arrecadação, mercado de trabalho e atividade. Nada excepcional a comemorar.

O ponto mais negativo foi a queda do consumo das famílias de 2% em relação ao quarto trimestre do ano passado – a primeira diminuição desde o último trimestre de 2016 e a maior retração desde 2001. Do lado positivo, a alta de 3,1% dos investimentos (FBCF), explicado pela SPE pela melhora que ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia. Consumo estava melhorando, e com queda de juros, parecia que ia continuar nessa toada positiva. Mas a economia ainda não tinha decolado da forma como o ministro fala. Muitos entraves a serem resolvidos e dificuldades da equipe econômica em emplacar a sua agenda depois da reforma da Previdência. 

Por praxe, ministros da economia têm que ser otimistas. Vender bem o seu peixe. No caso de Guedes, há também outra explicação. O desempenho fraco da atividade no último trimestre do ano passado já havia colocado pressão do Palácio do Planalto para a equipe de Guedes mostrar resultados.

Retomada lenta incomodava o presidente e o seu círculo de auxiliares mais próximos. A pandemia só amplificou esse debate, como já mostrado no episódio da disputa em torno do programa Pró-Brasil, para ampliar o investimento público em infraestrutura.

Quadro que tende a piorar com o impacto da pandemia mais forte no mercado de trabalho, diante do fracasso, em alguns casos, e da demora das linhas de crédito de socorro para as empresas.

Tudo isso deve acentuar a tensão entre Bolsonaro e governadores por reabertura mais rápida da economia, como já está acontecendo em muitos Estados. Mal feita, essa abertura pode atrasar ainda mais a recuperação da economia depois do tombo assustador do PIB que está contratado e por vir. 

Guedes tem dito que a economia vai crescer em “V” depois da pandemia e que gosta da imagem do pássaro ferido, que quer começar a voar e precisa das duas asas de novo. Vai precisar muito mais que palavras estimulativas desse tipo para coordenar o processo de recuperação com a responsabilidade que o cargo impõe.

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'Provavelmente, voltaremos ao nível pré-crise só na segunda metade da década', diz Mario Mesquita

Para economista-chefe do Itaú, desemprego será subestimado neste ano, pois pessoas não conseguirão sair para procurar vagas por causa do distanciamento social

Entrevista com

Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 13h59

Apesar de o primeiro trimestre ter sentido pouco a crise econômica decorrente da pandemia, dado que a quarentena começou a se impor apenas nas últimas semanas de março, o período concentrou alguns dos piores dias de atividade econômica que o País deverá registrar no ano.

“Em termos de PIB, o pior momento será o segundo trimestre. Em termos de medida de atividade de alta frequência, o fundo do poço foi no fim de março e início de abril”, diz o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita.

Segundo ele, é preciso aguardar o resultado do segundo trimestre para se confirmar a magnitude da recessão de 2020 - o Itaú projeta -4,5%. Para se recuperar desse recuo histórico, serão necessários anos, acrescenta. “Para atingir o nível que chegaria sem a pandemia, mantendo a trajetória de crescimento que tínhamos, provavelmente só na segunda metade da década”, afirma Mesquita. A seguir, trechos da entrevista.

Com exceção da última quinzena de março, a economia funcionou normalmente no primeiro trimestre. Essa queda de 1,5% no período significa que a atividade já estava em desaceleração ou ela é relativa a esses últimos 15 dias de março mesmo?

É difícil dizer. A gente começou a calcular o indicador de atividade diário no início da quarentena. Os indicadores que tínhamos até março apontavam para crescimento. Um crescimento modesto, em torno de zero, um pouquinho positivo. A economia não estava acelerando muito, mas, de fato, teve um baque forte a partir da segunda quinzena de março. O resultado veio em linha com o esperado. Acho que terá muito mais debate sobre o segundo trimestre, que aí vai ser decisivo para o PIB do ano.

Não dá então para dizer que essa queda de 1,5% está em linha com a retração esperada para 2020? Precisamos esperar o segundo trimestre?

Com certeza. Para o segundo trimestre, a gente espera queda do PIB de 10,6% e, com isso, fechamos o ano com 4,5% de queda. Mas tem outras instituições que estão projetando queda de 15%. Aí, a queda no ano fica mais na faixa de 6% ou 7%. Claro que todos os trimestres contam, mas a informação do segundo trimestre vai ser muito importante, dado que a gente espera que, no terceiro trimestre, já estejamos saindo do distanciamento social.

Vemos alguns países da Europa, como Espanha, que entraram um pouco antes da quarentena que nós, começando a reabrir as atividades. A ausência de uma quarentena mais robusta fará com que a atividade patine por mais tempo?

Para se ter uma normalização da atividade, é preciso entrar na fase de reversão da pandemia. Na medida em que uma quarentena mais restritiva acelera esse processo, você poderia ter uma retomada mais rápida caso tivesse adotado uma quarentena mais severa. Por outro lado, o impacto sobre a atividade econômica nesse período de quarentena severa também teria sido mais intenso. É difícil dizer qual estratégia é melhor do ponto de vista da economia. O que todos concordam é que a prioridade deve ser saúde pública. Diferentes países foram com diferentes estratégias. Países onde as famílias têm uma poupança maior têm capacidade de impor um distanciamento social mais intenso.

Qual o impacto da crise política na economia?

Tudo que traz incerteza é ruim para a atividade econômica. Instabilidade política, na medida em que torna o futuro da agenda de reformas e da condução das políticas econômicas mais incerto, também atrapalha a retomada.

Os Estados Unidos e a Europa estão com pacotes fiscais para impulsionar a recuperação econômica. Esse caminho é viável para o Brasil?

A gente já vai ter um déficit primário neste ano superior a 10% do PIB. Acho que o espaço fiscal está sendo usado. Na verdade, a gente nem tinha espaço. Mas me parece que, no Brasil, o peso da retomada ainda recai sobre a política monetária. A política monetária e o crédito serão os instrumentos para a recuperação. Segundo nosso indicador de atividade diária, o fundo do poço foi na virada de março para abril. Desde aí, a atividade veio se recuperando com idas e vindas. O indicador era 100 antes da crise. No pior momento, caiu para 55 e, agora, tem oscilado entre 65 e 75. Então, já houve uma recuperação. Para ter uma recuperação mais consistente, precisamos superar o distanciamento social, que, por sua vez, requer que a gente vire a curva da pandemia.

O número de novos casos de covid-19 ainda é crescente. A atividade diária não pode, portanto, votar ao fundo do poço?

Essa é uma preocupação. Mas a gente acha que, em termos de PIB, o pior momento será o segundo trimestre. Em termos de medida de atividade de alta frequência, o fundo do poço foi no fim de março e início de abril.

O sr. comentou que a recuperação terá de ser dar via política monetária. Será possível manter a taxa de juros baixa com o aumento do déficit fiscal? Só a política monetária dará conta de impulsionar a economia?

Para sair da crise, a gente tem de superar o distanciamento social, que requer progresso no combate à pandemia. Isso é a primeira condição. A política monetária vai ajudar na medida em que ela der algum alívio financeiro para famílias, empresas e governo, para quem tem dívida. Ela estimula de certa forma o consumo, mas, para isso, é preciso que as pessoas possam consumir além do online. Na política fiscal, a gente já vai ter um aumento da dívida acima de 90% do PIB, o que é muito para um país como o Brasil. Se vamos conseguir manter a taxa de juros baixa, acho que precisamos, em algum momento, recolocar a política fiscal nos trilhos. Ninguém é contra expansão fiscal em 2020, dada a necessidade de combater os efeitos da pandemia, mas, se isso se estende muito para 2021, vamos ter dificuldade de recolocar a política fiscal nos trilhos e aí vai ficar mais difícil manter taxa de juros baixa.

Qual é o cenário para o mercado de trabalho?

Essa é uma das consequências mais complicadas dessa crise. A taxa de desemprego vai subestimar a real deterioração do mercado de trabalho, porque, para a pessoa contar como desempregada, ela tem de estar procurando emprego. No momento em que você tem regras de distanciamento social, muita gente não consegue procurar emprego. Esse contingente não vai aparecer na estatística de desemprego. O desemprego provavelmente vai continuar subindo até, talvez, a metade ou o fim do terceiro trimestre.

É possível prever algo de mais longo prazo? Quanto tempo o País deve levar para voltar ao nível pré-pandemia, que já não era muito bom?

Ao nível pré-covid, a expectativa é que volte em meados de 2022. Agora, para atingir o nível que chegaria sem a pandemia, mantendo a trajetória de crescimento que tínhamos, provavelmente só na segunda metade da década. Pode acontecer algum choque positivo, que a economia comece a crescer mais, as reformas comecem a ter mais efeito. Mas, olhando tendência, com certeza não antes de 2022, 2023, provavelmente depois disso.

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Os recados do primeiro trimestre

2020 está condenado e todo cuidado é pouco para não comprometer o futuro

Zeina Latif*, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2020 | 19h39

Nem se superou a recessão anterior - o PIB ao final de 2019 ainda se encontrava 3,2% abaixo do nível pré-crise de 2014-16 - e o País se defronta com a mais grave recessão da história.

O encolhimento de 1,5% no PIB do primeiro trimestre não é pouco, pois o isolamento social iniciou-se apenas no dia 23 de março nas principais regiões do País - ainda que antes disso as incertezas no cenário já prejudicassem a atividade.

O resultado confirma que a economia vinha em um ritmo de quase estagnação, na verdade desde o final do ano passado. Não é correto afirmar que havia um crescimento robusto contratado que foi inviabilizado pela pandemia.

Era esperada uma aceleração modesta do PIB, com o consumo e o investimento (demanda) reagindo aos juros mais baixos, mas não a produção industrial (oferta), devido à baixa produtividade e reduzida competitividade de seus produtos.

A julgar pelo primeiro trimestre, o segundo será um desastre, com possível queda de dois dígitos, algo sem precedentes. Vale lembrar que na dura recessão recente, a contração acumulada foi de 8,1%.

As perspectivas para o segundo semestre são incertas, mas não convém alimentar grandes expectativas, mesmo com o fim do isolamento.

Não se trata de tirar a economia da “tomada” e religa-la rapidamente. Longe disso. A crise deixa sequelas. Abala a saúde financeira de consumidores e empresas, bem como os fundamentos da economia, principalmente pela brutal deterioração das contas públicas.

Além disso, o potencial de crescimento do País – definido pela qualidade e a quantidade de capacidade instalada, mão de obra e infraestrutura – que já era baixo, em torno de 1%, será adicionalmente impactado pela queda do investimento e pelo despreparo da mão de obra e das empresas  para a nova realidade digital.

A agricultura ajuda, mas não é “puxadora” de PIB. O dólar forte poderá elevar a rentabilidade de exportações e contribuir para reduzir a importação, mas seu efeito de curto prazo é recessivo - aumenta a dívida em dólar das empresas e os preços de insumos e máquinas.

2020 está condenado. Todo cuidado é pouco para não comprometer o futuro.

*CONSULTORA E DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP

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