Dida Sampaio/Estadão - 22/10/2021
Dida Sampaio/Estadão - 22/10/2021

Guedes: 'Não pedi demissão em nenhum momento'

Em coletiva de imprensa ao lado de Bolsonaro, ele afirmou que não vai deixar ninguém passar fome para 'tirar 10 no fiscal'; presidente disse que tem 'absoluta confiança' no ministro

Thaís Barcellos, Lorenna Rodrigues, Eduardo Gayer e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 13h01
Atualizado 22 de outubro de 2021 | 17h09

BRASÍLIA - Em meio à crise gerada pelas mudanças no teto de gastos e debandada na equipe econômica, o presidente Jair Bolsonaro foi ao Ministério da Economia na tarde desta sexta-feira, 22, demonstrar apoio ao ministro Paulo Guedes, que, apesar de especulações, vai permanecer no governo. 

Guedes negou que tenha pedido demissão, em meio às manobras no teto para bancar o Auxílio Brasil de R$ 400 e a posterior saída de secretários. "Trabalho para um presidente democraticamente eleito, bem intencionado. Estou errado em não pedir demissão porque vão gastar R$ 30 bilhões a mais? Estou fazendo o que de errado? Peço compreensão. Vamos trabalhar até o fim do governo."

O ministro disse ainda que, em nenhum momento, Bolsonaro insinuou algo semelhante, ou seja, a sua demissão. Segundo Guedes, ele soube, que, quando estava nas reuniões do FMI, houve "uma movimentação política no Brasil" para retirá-lo do cargo. "Não falo que são ministros fura teto, existe uma legião de fura teto", disse, admitindo que é uma regra restritiva.

Com a polêmica do teto de gastos e as especulações sobre a permanência de Guedes no ministério, a Bolsa de valores chegou a cair 4,5% nesta sexta e o dólar bateu em R$ 5,75, mas passou a cair depois do encontro do ministro com Bolsonaro. 

Em coletiva de imprensa ao lado de Guedes, Bolsonaro afirmou que o ministro entende "as aflições que o governo passa" e que tem confiança absoluta nele. O presidente repetiu que a economia voltou em 'V' e que não quer "colocar em risco nada no tocante à economia". "A economia está ajustada, não existe solavanco ou descompromisso."

Paulo Guedes afirmou que a intenção era fazer um programa social de R$ 300 dentro do teto de gastos, com a reforma do Imposto de Renda. "Já tínhamos o (novo) Bolsa Família pronto quando fomos atingidos pelo meteoro (dos precatórios)", disse. "Perdemos fonte (de recursos) porque a reforma do IR não avançou no Senado."

Ele disse que é "natural que a política queira furtar o teto e gastar mais", mas que está de olhos nos limites. "Isso não é uma falta de compromisso, é uma coisa muito ponderada." 

O ministro afirmou que o teto de gastos é "um símbolo", mas que não pode deixar ninguém passar fome para "tirar 10 no fiscal". "A solução de R$ 600 era nota 4 na economia, fura teto. A solução de R$ 300 estava nota 10 na técnica, mas 5 na política." Segundo o ministro, faltou tolerância com a equipe econômica que tenta conciliar a solução técnica fiscal com o amparo aos mais vulneráveis.

Guedes citou que o aumento do Bolsa Família a R$ 400 é compreensível e não será questionado em momento em que há aumento de preço de comida e gás. E minimizou o gasto com o benefício para atender os caminhoneiros anunciado por Bolsonaro, que vem sofrendo com a alta de combustíveis. "Estamos falando de pouco mais de R$ 3 bilhões para ajudar caminhoneiros. O Brasil roda em cima do modal rodoviário, é subsidiar quem carrega a comida."

'A verdade vos libertará'

Apesar de tentar defender a manobra no teto de gastos para viabilizar o Auxílio Brasil de R$ 400 em 2022, Guedes enfatizou que a ideia não partiu da equipe econômica. O ministro citou uma frase muito usada por Bolsonaro para sinalizar que a mudança na regra fiscal partiu da ala política do governo.

"A verdade vos libertará. A ideia de mexer no teto veio de outro lugar. A preferência da economia era manter o teto e pedir uma autorização para gastar um pouco mais, ali ao lado. Mas, tecnicamente (a mudança no teto), é defensável", admitiu.

O ministro reconheceu falhas de comunicação da equipe econômica, mas reclamou da pressão da ala política por mais recursos quando ele estava fora do Brasil, na reunião do G20.

"Houve de certa forma uma pressão, e seria melhor isso acontecer mais organizadamente. Seria melhor que nós da Economia já tivéssemos conseguido acertar a coisa antes. Se quando eu estivesse fora a ala política não pressionasse por recursos", desabafou. "Mas gostaria de agradecer ao presidente Bolsonaro pela confiança e ao relator da PEC dos precatórios, deputado Hugo Motta, por ter feito o trabalho dentro do espírito original da proposta."

Novo secretário

Já foi confirmado que Esteves Colnago vai assumir a secretaria de Tesouro e Orçamento a pós a saída de Bruno Funchal. A tendência é que o novo secretário monte sua equipe em acordo com Guedes e escolha o novo secretário do Tesouro. Os cargos fiaram vagos depois da debandada ocorrida na pasta após perder para a ala política a disputa interna no governo pela manutenção do teto de gastos. 

Pediram exoneração do cargo Funchal e sua adjunta, Gildenora Dantas, e também o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, e seu adjunto, Rafael Araujo.

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