Divulgação/Mercedes-Benz
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

'Políticos estão mais focados na eleição de 2022 do que em buscar solução para a crise'

Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil, diz que faltam ações coordenadas de combate à covid-19 entre governos federal, estadual e municipais

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2020 | 14h19

Fabricantes de caminhões foram as primeiros a reabrir fábricas depois de mais de um mês de paralisação por causa da pandemia do coronavírus e hoje todas as marcas do País estão em operação, embora de forma parcial. A maior delas, a Mercedes-Benz, retomou atividades na segunda-feira, com metade do seu pessoal.

Quando programou a volta ao trabalho, o presidente da companhia no Brasil e na América Latina, Philipp Schiemer, diz que havia expectativas de uma recuperação lenta, mas consistente, a partir do segundo semestre. Agora, contudo, ele vê grandes riscos de esse cenário não se confirmar. 

“A administração falha da crise está postergando a normalização da economia e, a cada dia que perdemos com esse descontrole, mais se agrava a situação”, diz o executivo. “O que falta são ações coordenadas e eficientes de combate à covid-19 entre governos federal, estaduais e municipais.”

O executivo ressalta que as empresas fizeram acordos de redução de jornada e salários e se comprometeram a manter empregos, mas há um limite. “Quanto mais tempo demorar para se encontrar uma saída para a crise, mais rápido vamos ver demissões e situações mais graves dentro das indústrias”. Para ele, os políticos estão mais focados nas eleições de 2022 em vez de sentar juntos e acharem soluções e estratégicas em comum.

Além disso, afirma Schiemer, o País vem perdendo ainda mais credibilidade entre os investidores. “O que havia sido conquistado com o início das reformas, como a da Previdência e a trabalhista, está sendo perdido”, afirma o executivo. Ele avalia o Congresso como “irresponsável” ao não dar sequência a questões como a do marco regulatório do saneamento básico, mas querer votar projeto de aumento salarial dos funcionários públicos.

“Parece que o País quer matar os pagadores de impostos e preservar os caçadores”, criticou. Schiemer lembra que a indústria é uma grande contribuinte, mas corre riscos diante da falta de financiamentos com juros acessíveis para cobrir a falta de caixa. Ele ressalta que o faturamento do setor caiu 80%, mas como as empresas precisam manter compromissos com fornecedores, funcionários e revendedores, há uma falta “brutal” de capital.

O setor negocia há mais de 40 dias com o Ministério da Fazenda, BNDES e bancos privados uma linha especial de crédito, “sem subsídio e sem dinheiro do governo”, segundo o presidente da Associação nacional dos Fabricantes de Veículos (Anfavea), Luiz Carlos Moraes. Como os bancos exigem garantias, a proposta é usar os R$ 25 bilhões em créditos de tributos que as empresas têm a receber dos governos federal e estaduais, mas há relutância em aceitar a proposta.

A Mercedes-Benz também congelou os investimentos que vinha fazendo em novos produtos e na melhora da segurança e da eficiência energética. O plano de R$ 2,4 bilhões a ser aplicado entre 2018 e 2022 já teve grande parte gasta, mas projetos a partir de 2021 serão reavaliados.

Burocracia até na solidariedade

Sempre crítico das dificuldades de se fazer negócios no País, Schiemer criticou a burocracia local até em momentos de necessidades urgentes, como a de respiradores para tratamento de pacientes com covid-19. Em parceria com o Instituto Mauá, a empresa desenvolveu aparelhos respiradores de baixo custo que estão sendo testados em hospitais da região do ABC, e já tem demanda para 500 unidades. 

“Temos capacidade para fazer 30 unidades por dia, mas aguardamos aprovação da Anvisa para iniciar a produção”, informa o executivo. “Menor burocracia aqui também seria útil para acelerar o processo.” 

A empresa também fez parceria com a fabricante de respiradores KTK que permitiu ampliar a produção diária da empresa de 3 a 5 unidades para 70 unidades. Outra ação em parceria com o Senai é o conserto de respiradores que estavam sem uso.

A atividade foi assumida também por várias outras empresas e foram recolhidos até agora 2,5 mil aparelhos em todo o País e 600 já voltaram a funcionar.

A empresa que produz caminhões e ônibus em São Bernardo do Campo (SP) e em Juiz de Fora (MG) e automóveis em Iracemápolis (SP) fez parceria com a escola de samba Rosas de Ouro e com o Sindicato de Costureiras do ABC para a produção de mais de 40 mil máscaras que estão sendo distribuídas aos funcionários e seus familiares, a pessoas carentes da região e a hospitais.

O grupo também montou um hospital de campanha no pátio da fábrica de São Bernardo preparado para atender casos de covid-19 entre os funcionários, inclusive com capacidade de fazer exames para detectar o vírus. “Isso ajuda a desafogar outros hospitais”, diz Schiemer.

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