Daniel Teixeira/Estadão
Ao final do ano, será seguro dizer que teremos encerrado o ciclo econômico da pandemia, se ela não voltar a se agravar. Daniel Teixeira/Estadão

Próximos meses serão decisivos para o PIB no pós-pandemia; leia análise

Diminuição das incertezas domésticas requer amplo esforço de coordenação em várias áreas, incluindo o equacionamento dos desafios fiscais

Fernando Honorato Barbosa*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 16h47

Após três trimestres de forte expansão, o PIB mostrou certa acomodação (-0,1%). Os estímulos à economia vêm diminuindo; a indústria sofre escassez global de suprimentos; a agropecuária se ressente da seca; o consumo desacelera diante da inflação e parte importante do efeito da reabertura da economia já foi incorporado aos dados, capturado na expansão do setor de serviços. Logo, a estabilidade do PIB não surpreende.

Olhando para o fim deste ano, os dados de arrecadação federal, crédito e geração de empregos mostram que a economia voltará a se expandir, devendo encerrar 2021 com crescimento ao redor de 5,2%. Ao final do ano, será seguro dizer que teremos encerrado o ciclo econômico da pandemia, se ela não voltar a se agravar, e trataremos, então, da velocidade de crescimento “regular” do País.

A respeito dessa velocidade, 2022 deve mostrar uma expansão entre 1,5% a 2,0%, parecida com as taxas anuais observadas antes da pandemia. O impulso global será menor e tanto a política fiscal como a monetária serão menos expansionistas. Por sua vez, o emprego, que está defasado em relação ao PIB, e o uso da poupança formada durante a pandemia, da ordem de 21% do PIB, apoiarão a expansão da renda e do consumo das famílias.

É possível, entretanto, observarmos uma recuperação mais intensa no médio prazo. As reformas dos últimos anos - trabalhista, previdenciária, teto de gastos, lei do saneamento e autonomia do Banco Central - podem destravar investimentos. Isso é particularmente verdade diante da redução do endividamento das empresas nos últimos trimestres e da vitalidade do mercado de capitais.

Para isso, é preciso que as incertezas domésticas sejam dirimidas. Isso requer um amplo esforço de coordenação em várias áreas. Do ponto de vista econômico, essa coordenação requer equacionamento dos desafios fiscais e manejo dos riscos da pandemia e energéticos. Se bem endereçados, esses temas possuem capacidade de reduzir a inflação e acelerar o crescimento. Os próximos meses serão decisivos para dar visibilidade a esse quadro e ao ritmo de expansão do PIB no “pós-pandemia”.

*DIRETOR DE PESQUISAS E ESTUDOS ECONÔMICOS DO BRADESCO

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PIB fica abaixo das previsões e recua 0,1% no segundo trimestre

Economistas esperavam crescimento de 0,2%; com reabertura das atividades, setor de serviços conseguiu avançar 0,7%

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 09h09
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 13h08

RIO - A trajetória de recuperação da economia brasileira, após o tombo causado pela covid-19 em 2020, passou por um soluço no segundo trimestre. O Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os produtos e serviços produzidos na economia em determinado período) registrou ligeira queda de 0,1% em relação ao primeiro trimestre, informou nesta quarta-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado veio abaixo das estimativas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que, na maioria, esperavam crescimento de 0,2%. O intervalo das projeções ia de queda de 0,3% a alta de 0,7%.

No primeiro trimestre, a economia surpreendeu e o PIB cresceu 1,2% sobre os três últimos meses de 2020. No início do ano, a retomada foi puxada por atividades voltadas para a exportação, como a agropecuária e a indústria extrativa, enquanto a demanda interna foi mais morna.

De abril a junho, o comportamento da economia foi mais parecido com o “normal”. O setor de serviços, que responde por pouco mais de 70% da economia, avançou 0,7% sobre o primeiro trimestre, puxando a atividade econômica, pelo lado da oferta. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias, com peso de cerca de 60% no total do PIB, ficou estável.

 

Por trás dessa dinâmica, está o fato de que, apesar do recrudescimento da pandemia, que registrou números recordes de mortes em março e abril, as medidas de restrição ao contato social afetaram menos o funcionamento dos negócios do que se imaginava inicialmente.

O setor de serviços abriga algumas das atividades econômicas mais afetadas pelas restrições, como bares, restaurantes, casas de show, salões de beleza, cinemas, hotéis e transporte de passageiros. 

Uma marca da crise causada pela covid-19 foram os efeitos desiguais sobre a economia. Na retomada ao longo do segundo semestre do ano passado, a demanda por serviços muito específicos - como os de tecnologia da informação (TI) e de intermediação financeira - e por bens - alimentos, remédios, eletrodomésticos e material de construção, por exemplo - cresceu acima da demanda por esses serviços mais atingidos. 

Segundo a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a simples “normalização” do funcionamento dos serviços já garante um crescimento econômico “automático”. Ou seja, mesmo com a crise ainda no radar, o desemprego elevado e o aumento da pobreza, basta retirar as restrições ao consumo desses serviços para que a demanda cresça em alguma medida e, com ela, a atividade econômica como um todo.

“A pergunta é quão rápida está sendo a normalização dos serviços”, diz, lembrando que as restrições à mobilidade das pessoas na passagem de março para abril, quando algumas cidades apertaram as medidas contra a pandemia, tiveram um impacto menor do que no início da pandemia. “A despeito da pandemia e das dificuldades, a economia se normaliza. Uma hora, a sociedade se cansa, as empresas e os trabalhadores se adaptam. E as restrições ficam mais pontuais sobre o turismo e o entretenimento”, completa a economista.

O comportamento mais “normal” da economia no segundo trimestre não quer dizer que os problemas causados pela covid-19 ficaram para trás. A desorganização geral das cadeias globais de produção da indústria, marcada por gargalos no transporte marítimo e encarecimento do frete e pela escassez e encarecimento de insumos básicos, como microchips, puxou a retração de 0,2% no PIB da indústria na comparação com o primeiro trimestre.

 

 

Embora a indústria extrativa, que reúne atividades exportadoras, como a produção de minério de ferro e de petróleo e gás, tenha avançado 5,3%, a indústria da transformação amargou perda de 2,2%, também na comparação com os três primeiros meses do ano. Essa atividade reúne a fabricação da maioria dos bens, como automóveis, cuja produção é uma das mais afetadas pela escassez de chips importados da China

Ainda no lado da oferta, o PIB da agropecuária, que tinha sido um dos motores do crescimento no primeiro trimestre, na esteira da safra recorde de soja, recuou 2,8% no segundo trimestre. A seca no centro-sul do País afetou diretamente a produção de milho, segunda cultura mais importante da agricultura nacional, mas esse efeito tenderá a ser ainda maior no segundo semestre.

“Os problemas estão mais à frente agora, com o cenário crítico de aumento da inflação e, consequentemente, dos juros, e a crise hídrica, que impõem riscos crescentes à retomada”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

O PIB do segundo trimestre mostrou que esses problemas já estão mostrando suas garras, mesmo que se agravem ao longo do segundo semestre. A inflação e a alta dos juros já pesaram sobre o desempenho do consumo das famílias no segundo trimestre, segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis. Apesar da retomada do pagamento do auxílio emergencial para as famílias mais pobres, a inflação pressionada pesou mais.

“Não é que o efeito tenha sido nulo, porque há várias coisas afetando em conjunto, mas, quando olhamos a massa salarial real na comparação interanual, ela está caindo”, afirmou Palis.

A “massa salarial” representa toda a renda do trabalho das famílias e indica a capacidade de consumo da população. Ela pode cair tanto por causa de salários menores (se quem está trabalhando passa a receber menos) quanto por causa de perdas de emprego (se, numa família em que duas pessoas trabalham, uma delas perde o emprego, o rendimento deverá cair mesmo que o salário da outra pessoa seja mantido ou até aumente).

No segundo trimestre, a massa salarial encolheu 1,7% na comparação com um ano antes. Isso mesmo com o número de pessoas trabalhando tendo crescido 5,3%, o que sinaliza para a geração de 4,4 milhões de vagas, entre formais e informais. Só na passagem do primeiro para o segundo trimestre, foram 2,1 milhões de empregos a mais, incluindo formais e informais. Só que, na comparação com o quarto trimestre de 2019, antes da pandemia, são 6,8 milhões de pessoas a menos ocupadas

 

 

Segundo Palis, mesmo esse aumento de vagas tendo ocorrido em postos de trabalho informal, que tradicionalmente pagam salários mais baixos, “o efeito da inflação é bastante relevante”. “A inflação tem impacto bastante relevante no consumo das famílias”, afirmou.

Os dados do IBGE mostram ainda que a recuperação do consumo das famílias ao longo da retomada da economia desde o segundo semestre do ano passado não foi suficiente para retomar os níveis de antes da pandemia. No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias ainda estava 3,0% abaixo do nível registrado no quarto trimestre de 2019, antes da pandemia, e 1,6% abaixo do nível do primeiro trimestre de 2020, quando a covid-19 chegou ao País.

O aumento da inflação também tem a ver com a estiagem. Embora, no último ano, os preços de alimentos e de bens industriais venham acumulando reajustes, mais recentemente, a conta de luz tem sido a principal vilã.

A falta de chuvas deixou os reservatórios das usinas hidrelétricas, que respondem por boa parte da eletricidade no País, nos níveis mínimos históricos, afetando a geração de energia e exigindo o acionamento de usinas térmicas na capacidade máxima. O custo mais elevado das térmicas é repassado ao consumidor, por meio de taxas extras nas contas de luz. O quadro é tão grave que o governo federal elevou até mesmo o valor da taxa extra máxima cobrada nas contas

Só que os problemas na geração de energia podem ir além da conta de luz mais cara. Vale, da MB Associados, vê a possibilidade de racionamento de energia e o risco de blecautes no fim do ano. Nesse caso, a restrição atingiria a economia pelo lado da oferta. Indústrias teriam que cortar o ritmo de produção e negócios como bares e restaurantes teriam mais um obstáculo para seu funcionamento normal, para além das medidas que evitam aglomerações de pessoas por causa da covid-19. O cenário de Vale está tão negativo que inclui até mesmo uma retração no PIB do quarto trimestre, o que deixaria o crescimento econômico de 2021 abaixo de 5,0%.

Silvia Matos, do Ibre/FGV, inclui a crise hídrica - que afeta a produção de alimentos e o setor elétrico, causando tanto uma inflação “muito forte” quanto restrições para a indústria -, a desorganização das cadeias globais de produção e a falta de capacidade fiscal do governo para gastar mais com políticas de transferência de renda para os mais pobres numa lista de “problemas” a atrapalhar a retomada. Mesmo assim, a economista diz que não tem uma “visão catastrófica”. Aquele crescimento “automático” com alguma “normalização” dos serviços estaria garantido em 2021. Os problemas bateriam mesmo no crescimento de 2022.

“A economia reage, mas desacelera com esse bando de restrição. Assim, o crescimento fica baixo”, afirma.

Para o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), o cenário é mais negativo. O efeito da inflação sobre a renda das famílias pode atrapalhar o consumo a ponto de suplantar o impulso positivo com a “normalização” do setor de serviços, como já começou a ocorrer no segundo trimestre. Para ele, a normalização em relação à pandemia já vem ocorrendo após o pico da segunda onda, em abril. Embora haja dúvidas sobre uma eventual terceira onda provocada pela variante Delta do novo coronavírus, a “crise de energia” trará os problemas.

“Mesmo que a terceira onda não venha, há o choque de oferta negativo da crise de energia, que vai manter inflação rodando em 8%. Isso significa corrosão do poder de compra dos trabalhadores. Como não tem recuperação do emprego, a massa salarial vai cair”, diz Oreiro.

Segundo o professor, nesse quadro, não tem como o consumo das famílias crescer no segundo semestre. Assim como Vale, da MB Associados, o professor espera crescimento econômico abaixo de 5,0% neste ano.

“O cenário externo também vai ficar mais complicado no quarto trimestre, com ‘tapering’ (a retirada de estímulos monetários introduzidos para mitigar a crise da covid-19) e inflação ainda alta nos Estados Unidos. Isso vai desvalorizar o real (ou seja, aumentar o valor do dólar) e gerar uma perda de confiança tanto do empresariado quanto do consumidor”, diz o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal. “E ainda tem a variante Delta (do novo coronavírus), que pode atrapalhar.” / COLABORARAM CÍCERO COTRIM e GUILHERME BIANCHINI

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Presidente do BC diz que resultado do PIB vai fazer projeções para o ano caírem 'um pouquinho'

De acordo com o IBGE, a atividade econômica do segundo trimestre recuou 0,1% em relação ao primeiro trimestre do ano

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 09h34
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 11h49

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, admitiu nesta quarta-feira, 1º, que o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre veio “um pouquinho” mais fraco do que o que mercado esperava, mas em linha com a projeção do órgão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB recuou 0,1% em relação ao primeiro trimestre do ano

“Provavelmente devemos ter uma revisão um pouquinho para baixo nas projeções do PIB para o ano corrente. A gente já tinha um número de crescimento para 2021 um pouco abaixo do previsto pelo mercado”, afirmou, em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

O resultado veio abaixo das estimativas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que, na maioria, esperavam crescimento de 0,2%. O intervalo das projeções ia de queda de 0,3% a alta de 0,7%. 

Campos Neto avaliou que o desempenho da agropecuária, que recuou 2,8%, e dos investimentos, que diminuíram 3,6%, vieram abaixo do previsto. Ele afirmou, no entanto, que não viu o resultado nos detalhes ainda. 

 

 

“O importante é a gente crescer o máximo possível e criar um ambiente favorável de credibilidade para os negócios, na medida em que avançamos com as reformas e com a mensagem da estabilidade fiscal”, disse.

Para ele, a pior coisa para o crescimento economia é uma inflação descontrolada. “Uma inflação descontrolada é um imposto perverso, principalmente para as pessoas de baixa renda. Também um surto muito grande de desorganização da cadeia produtiva, pois uma inflação muito alta dificulta o planejamento de longo prazo dos investidores”, completou.

 

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Alexandre Calais: Mais um PIB medíocre nos espera no fim do governo

Mesmo que economia cresça 5% este ano, será, mais uma vez, um 'voo de galinha'

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 10h28

O gráfico trimestral da economia brasileira terá mais uma barrinha vermelha. O PIB do segundo trimestre do ano caiu 0,1%, enquanto os especialistas esperavam uma alta de 0,2%. Mais uma vez, efeito da pandemia do coronavírus. Mas o número negativo no trimestre nem chega a ser uma novidade. É uma tônica da economia brasileira já há bastante tempo - desde 2018, é o quarto trimestre com PIB em queda. Os "voos de galinha" são uma constante, e assim nós vamos acumulando décadas perdidas, desde os anos 1980 - de péssima lembrança -, com alguns intervalos de crescimento e esperança no meio.

O resultado divulgado nesta segunda-feira pelo IBGE não deve alterar muito as projeções de crescimento da economia para o ano. Por enquanto, o que se aponta é algo como 5% de aumento, um pouco mais, um pouco menos. Boa parte disso, porém, é efeito estatístico, a recuperação da queda de 4,1% no ano passado. As discussões, na verdade, já estão muito mais concentradas em 2022. O ano em que realmente saberíamos se a recuperação em 'V' alardeada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, teria realmente força para se sustentar.

 

 

Não parece ser o caso. O Boletim Focus, do Banco Central, ilustra esse quadro. Em dezembro, a expectativa do mercado para o crescimento do PIB em 2022 era de 3,5%. No último boletim, esta semana, essa projeção já havia caído para 2%. E mesmo esse número já é considerado muito otimista. Para muitos analistas, o cenário mais factível é algo mais perto de 1%. E, a depender do desenrolar de algumas variáveis, não seria nem possível mais descartar uma queda do PIB.

O que aconteceu para essa deterioração das expectativas? A questão fiscal, sem dúvida, é um ponto fundamental. Há meses pairam no ar indicações de que o teto de gastos - a regra que limita o crescimento dos gastos do governo ao aumento da inflação - será rompido, de alguma forma. E o teto é a única âncora fiscal que resta, é o único indicativo de que o governo será responsável com o dinheiro que arrecada de cada um de nós. Se esse último dique se romper, a confiança, principalmente dos investidores externos, sofrerá um abalo difícil de se consertar.

Nesse sentido, a antecipação do calendário eleitoral claramente não ajuda em nada. Temos um presidente há tempos em campanha aberta pela reeleição, apesar de faltar ainda bem mais de um ano para a votação. E o temor de todo mundo é como conciliar responsabilidade nos gastos públicos com a necessidade de benesses eleitorais capazes de reverter uma queda forte de popularidade, como a que vem sendo constatada. Não há fórmula mágica. 

A apresentação do projeto do Orçamento para o ano que vem mostra que as expectativas poderiam estar melhores. As contas apresentadas pelo próprio governo apontam que todos os gastos estariam contemplados, não fossem as necessidades eleitorais. Uma das obsessões do presidente é aumentar o valor do Bolsa Família, mas isso não cabe no Orçamento. Para cumprir essa vontade, só dando um jeitinho, como deixar para depois o pagamento de precatórios - desobedecendo, no fundo uma ordem judicial de pagamento de dívidas. É uma pedalada, que vai deixar um buraco ainda mais gigantesco nas contas para as próximas administrações. Um descontrole que poderia ser evitado.

Há uma tempestade perfeita no horizonte. A inflação, persistentemente alta, corrói a renda e prejudica, ainda mais, os mais pobres. Para combatê-la, o Banco Central sobe os juros, retirando o estímulo de uma economia já combalida. O desemprego segue em patamar muito alto, e, sem recuperação firme da economia, os empregos simplesmente não voltam. O cenário internacional começa a ficar um pouco mais turvo, com dúvidas sobre o ritmo da recuperação global. E temos agora entre nós uma crise hídrica que pode culminar num racionamento de energia. No final de quatro anos de governo, teremos acumulado mais um período de crescimento medíocre. E seguimos à espera de um projeto de País que consiga nos tirar dessa armadilha da qual, às vezes, temos a impressão de que nunca conseguiremos escapar.

*EDITOR-COORDENADOR DE ECONOMIA

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Com queda no PIB, Economia diz que 'mais relevante que número de crescimento, é analisar qualidade'

Atividade econômica recuou 0,1% no segundo trimestre, mas o ministério avalia que o País tem tido recuperação mais rápida que outros países

Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 11h26

BRASÍLIA - Apesar do encolhimento de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre do ano, o Ministério da Economia avaliou que o País tem tido uma recuperação econômica mais rápida que outros países e destacou que "mais relevante do que observar o número do crescimento é analisar a sua qualidade", que, segundo a pasta, vem sendo puxado via setor privado desde o terceiro trimestre de 2020, com aumento do investimento e da poupança.

"Diante desse resultado, constata-se que o Brasil tem recuperado a atividade econômica de forma mais rápida do que outros países. Na amostra de mais de 30 países e grupos da OCDE que já divulgaram seus resultados trimestrais, o Brasil apresentou desempenho do PIB acima da média no resultado interanual e no acumulado em 4 trimestres. No acumulado em 4 trimestres, o Brasil supera países desenvolvidos como o Reino Unido e Alemanha e em relação aos emergentes, fica atrás apenas da China e do Chile", cita nota da Economia divulgada nesta quarta-feira, 1º. 

 

"O resultado negativo ocorreu no trimestre em que houve o maior número de mortes por covid e com efeitos setoriais relevantes. Porém, mais relevante do que observar o número do crescimento, é analisar a sua qualidade", acrescenta a pasta, ressaltando que reformas pró-mercado e medidas de consolidação fiscal estão sendo aprovadas e que são elas as bases para o crescimento sustentável do País no longo prazo.

O ministério comandado por Paulo Guedes disse que são cinco os principais fatores positivos para a atividade no segundo semestre: maior crescimento global; investimento financiado pelo setor privado; aumento da taxa de poupança; mercado de crédito e de capitais em expansão e recuperação do emprego formal e informal com a vacinação em massa. No entanto, "a não continuidade da consolidação fiscal, o recrudescimento da pandemia e o risco hídrico" se mostram como principais riscos à recuperação esperada.

O texto da Economia ainda destaca que a vacinação em massa tem possibilitado fortalecimento dos serviços, setor que contribuiu para o bom desempenho no primeiro semestre, quando a economia surpreendeu e o PIB cresceu 1,2% sobre os três últimos meses de 2020. "Projeta-se continuidade do bom desempenho do setor de serviços ao longo deste ano e, espera-se que o setor industrial volte a contribuir positivamente a partir do 3T21, devido à expectativa dos industriais de maior demanda."

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Queda de 2,8% no PIB da agropecuária é a maior desde o 1º trimestre de 2019

Clima desfavorável afetou principalmente a produção de milho safrinha e resultado do segundo trimestre já provoca mudanças nas projeções para o restante do ano

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 11h43
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 13h37

RIO - A queda de 2,8% no Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária no segundo trimestre ante o primeiro trimestre de 2021 foi o pior desempenho dessa atividade desde o primeiro trimestre de 2019, quando houve um recuo de 2,9% ante o quarto trimestre de 2018. 

Na comparação com o segundo trimestre de 2020, o PIB da agropecuária mostrou alta de 1,3%, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 1º, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O PIB geral recuou 0,1% na comparação com o trimestre anterior. 

 

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o desempenho do setor no resto do ano será afetado por condições climáticas desfavoráveis. Problemas como seca e geada, que prejudicaram a produção do milho safrinha, já pesaram sobre o resultado de abril a junho e devem se fazer presentes também nos últimos trimestres. 

"Para o segundo semestre, o clima é a maior preocupação. Acompanhamos com receio os possíveis impactos do clima sobre a safra 2021/22 com seca no Centro-Oeste e a questão hídrica dos reservatórios, que vai aumentar o custo de produção especialmente de aves e pecuária de leite", disse ao Estadão/Broadcast o coordenador do Núcleo Econômico da CNA, Renato Conchon.

Nesse cenário, a CNA vai revisar para baixo a expectativa de crescimento para o acumulado do ano. A entidade esperava alta de 2,3% no PIB do setor ante 2020, agora a previsão deve ficar próxima ao reportado em 2020, de 2%. "Ainda haverá crescimento, mas veremos desaceleração ante a alta de 3,3% do primeiro semestre. Não será um corte significativo. Devemos ter um resultado similar ao de 2020", antecipou Conchon. 

Segundo ele, a perspectiva considera um arrefecimento no PIB do setor no terceiro trimestre e uma retomada no quarto trimestre. Entre os produtos que devem contribuir positivamente para o desempenho do setor nos dois últimos trimestres deste ano, Conchon citou a estimativa de boa safra de trigo e o aumento na produção de carnes. Este último fator vai depender do câmbio, das exportações e do consumo interno das proteínas.

Quanto ao segundo trimestre do ano, Conchon avaliou o avanço de 1,3% ante o mesmo período do ano passado como positivo, embora tenha sido inferior às expectativas iniciais. "A alta poderia ser maior, caso não houvesse os efeitos climáticos adversos. Começamos a observar os impactos por clima no primeiro trimestre com atraso na safra de verão, o que se agravou no segundo trimestre com seca e geadas que prejudicaram a safrinha de milho", explicou o coordenador da CNA.

Em contrapartida, bons resultados com a produção de soja, arroz e carnes compensaram a retração do milho no desempenho da agropecuária no trimestre. "A atividade pecuária teve resultado significativamente positivo com maior produção puxada pela firme demanda internacional", acrescentou.

Mesmo com o crescimento menor do que inicialmente previsto para o ano, a agropecuária tende a aumentar sua participação no PIB total do País este ano, prevê a CNA. No ano passado, o PIB do setor contribuiu com 6,8% do PIB nacional. "Este ano deverá crescer para acima de 7% e tende a chegar a 8% em 2022", projeta Conchon. 

O sócio diretor da consultoria MB Agro, José Carlos Vannini Hausknecht, também já projeta quedas a partir do terceiro trimestre, na comparação com 2020. "Os números do segundo semestre do ano serão marcados pelos efeitos da seca em culturas como a cana-de-açúcar, o café, mas, sobretudo, o milho", disse. 

A consultoria revisou sua projeção para o PIB da agropecuária no acumulado de 2021: se antes era esperada estabilidade no indicador, agora a previsão é de queda de 1% em relação ao ano passado. Segundo Hausknecht, o bom desempenho da soja não vai ser suficiente para compensar os resultados que virão nos próximos dois trimestres.

"A soja teve um desempenho muito positivo neste ano, mesmo com os atrasos na colheita. Outra atividade importante, mas que não tem ido muito bem, é a pecuária bovina. Com a redução no volume de abates, é um setor que limitou o crescimento do PIB no trimestre, mas deve fechar o ano no zero a zero", acredita Hausknecht. / DANIELA AMORIM, VINICIUS NEDER, BRUNO VILLAS BÔAS, JULIANA MARTINS e ISADORA DUARTE

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Brasil cai para 28º lugar em ranking do crescimento do PIB; países no topo vacinaram mais cedo

Levantamento da agência classificadora de risco Austin Rating mostra que o País perdeu nove posições no ranking do primeiro para o segundo trimestre 

Bruno Villas Bôas, Daniela Amorim e Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 11h56
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 16h58

RIO - Países que iniciaram mais cedo o processo de vacinação da população ocupam as primeiras posições no ranking de crescimento econômico da agência classificadora de risco Austin Rating. A avaliação é do economista-chefe da agência, Alex Agostini, que elaborou o ranking a partir do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) dos países do segundo trimestre.

O levantamento mostra que o Brasil perdeu nove posições no ranking de ritmo de crescimento econômico na passagem do primeiro trimestre para o segundo trimestre deste ano, caindo para a 28ª. Nesta quarta-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o PIB brasileiro do segundo trimestre recuou 0,1% frente aos três meses anteriores.

A lista foi liderada por países europeus, como Portugal (4,9%), Reino Unido (4,8%), Letônia (4,4%), Áustria (4,3%) e Islândia (4,2%). Segundo Agostini, isso reflete o avanço da vacinação nos países, além das medidas econômicas adotadas para enfrentamento dos impactos da pandemia. No primeiro trimestre, o topo do ranking era ocupado pelos países asiáticos. 

“A chamada segunda onda da covid-19 afetou países da Europa mais no ano passado. No Brasil, afetou no segundo trimestre, com o lockdown, ainda que parcial, realizado em maio e junho. A quebra da safra, claro, também afetou o PIB brasileiro. Mas não foi só isso. O lockdown afeta o consumo das famílias, que ficou estável no segundo trimestre, e responde por parte da queda do PIB da indústria”, diz Agostini.

Ele lembra que a vacinação demorou para começar no Brasil. “Isso não é uma crítica ao governo Bolsonaro, nem a favor do governo Doria. O ponto é que, quando a vacinação demora a entrar, existe um efeito direto na confiança das famílias, do consumidor, do empresário, do investidor. Não se sabe quando o momento crítico vai ser superado”, disse Agostoni, acrescentando que a preocupação agora é como a variante Delta do coronavírus pode afetar essas expectativas. 

Pelas expectativas do último boletim Focus, divulgado pelo Banco Central na segunda-feira, 30, o PIB brasileiro vai crescer 5,22% em 2021. Para Agostini, o número não chega a ser motivo de comemoração. Ele lembra que o mundo vai crescer na faixa de 6% em 2021 e os demais membros do Brics - acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - devem avançar ainda mais, próximo dos 7%.

“O grande desafio do Brasil vai ser crescer acima de 3% em 2022, um ano eleitoral, com politização forte e manifestações. É um ano em que a taxa básica de juros, a Selic, estará em um nível maior do que o atual e que teremos um risco de fornecimento de energia”, afirma Agostini, que prevê crescimento de 2,4% do PIB brasileiro em 2022.

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Guedes diz que resultado do PIB mostra economia 'de lado', mas insiste em volta em 'V'

Atividade econômica recuou 0,1% no segundo trimestre, mas o ministro afirmou que o Brasil está crescendo novamente, "porque não nos deixamos abater" 

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 14h19

BRASÍLIA - Apesar da queda no Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2021, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reafirmou nesta quarta-feira, 1.º, que a economia “voltou em V”, recuperando-se da recessão provocada pela pandemia de covid-19. Segundo ele, a queda mostra que a economia ficou “praticamente de lado”, ou seja, praticamente estável.

“Diziam que eu estava em universo paralelo quando eu dizia que Brasil ia voltar em V”, disse o ministro durante o lançamento da agenda legislativa da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo. “A economia voltou em V, estamos crescendo novamente. Hoje saiu um dado (PIB), é praticamente de lado. Como foi -0,05%, arredondou para -0,1%. Se fosse -0,04% era zero”, afirmou. 

"Não podemos nos deixar abater. Conversa derrotista, que Brasil não vai crescer, vai parar... Isso só depende de nós. Brasil voltou em V porque não nos deixamos abater. Podemos crescer bastante no ano que vem", afirmou o ministro, embora a maior parte de uma centena de instituições financeiras consultadas pelo Banco Central espera expansão de 2% do PIB no ano que vem. Alguns economistas preveem, inclusive, número menor. "Se vai ser 2%, 3%, 4% (o crescimento em 2022), depende de nós", disse.

Guedes disse ainda que o segundo trimestre do ano foi o “mais difícil”, devido ao novo pico de casos e mortes pela covid-19 e seus impactos na economia. Nesse período, vários locais voltaram a impor restrições à circulação e reforçaram a adoção de medidas de distanciamento social.

Segundo o IBGE, o PIB registrou ligeira queda de 0,1% no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano. O resultado veio abaixo das estimativas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam na média um crescimento de 0,2%.

No primeiro trimestre de 2021, a economia havia surpreendido com um aumento de 1,2% no PIB na comparação com os três últimos meses de 2020. A retomada do início do ano foi puxada por atividades voltadas para a exportação, como a agropecuária e a indústria extrativa, enquanto a demanda interna foi mais morna.

Apesar do desempenho negativo da economia entre abril e junho, o Ministério da Economia avaliou em comunicado divulgado mais cedo que o País tem tido uma recuperação econômica mais rápida que outros países. “Mais relevante do que observar o número do crescimento é analisar a sua qualidade", disse a pasta. A Economia também destacou que a recuperação vem sendo puxada pelo setor privado, com aumento de investimentos e poupança.

O ministério citou ainda “a não continuidade da consolidação fiscal, o recrudescimento da pandemia e o risco hídrico” como os principais riscos à recuperação esperada nos próximos meses. O governo espera um crescimento de 5,3% neste ano, seguido de uma alta de 2,51% no PIB do ano que vem.

Guedes ressaltou que, apesar do recrudescimento da pandemia no segundo trimestre do ano, o governo “manteve responsabilidade fiscal”. “Brasil enfrentou desafio extraordinário, mas pagando custos”, disse. “Não faltou dinheiro para saúde, mas mantivemos compromisso de controle das despesas”, afirmou.

O ministro disse ainda que o governo tem seguido a agenda proposta desde o início da gestão e mantido a interlocução com empresários. Ele reconheceu que “é uma agenda difícil”, mas afirmou que há avanços e repetiu que o Congresso é “reformista”. “Não perdemos a bússola, todas as reformas estão integradas”, afirmou. 

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Conflito político é 'tiro no pé' e prejudica a recuperação do PIB, diz economista

Para Armando Castelar Pinheiro, do Ibre/FGV, o PIB deve ser favorecido pela retomada do setor de serviços com o avanço da vacinação, mas a agenda política joga contra a economia

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 14h48

O economista Armando Castelar Pinheiro avalia que a economia brasileira ainda conta com condições favoráveis para crescer em 2021, mas os conflitos políticos e as incertezas geradas por reformas em discussão no Congresso são um “tiro no pé” contra a recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) nesta segunda metade do ano. 

Em entrevista ao Estadão, Castelar afirma que o avanço da vacinação favorece o crescimento de parte do setor de serviços, que ainda está com um nível de atividade menor do que em 2019. Mas essa recuperação ocorre de forma mais turbulenta por causa da agenda política.

“A gente criou uma agenda extemporânea, por causa da política, com muito conflito entre poderes, e por causa de uma agenda do Congresso que gerou muita incerteza. A gente deu um tiro no pé. Era para estar sendo um terceiro trimestre de sorrisos, de boas notícias, das empresas se preparando para uma recuperação cíclica”, diz Castelar, que é pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). “Até politicamente parece fazer pouco sentido. Seria muito melhor do ponto de vista político para o governo ter uma recuperação mais significativa da economia.”

O economista diz que o resultado mais fraco do PIB no segundo trimestre, com uma pequena retração de 0,1%, mostra que a economia brasileira ainda sentia os efeitos da segunda onda da pandemia, que prejudicou a atividade principalmente no mês de abril. A seca e as geadas também fizeram o setor agropecuário ter um resultado mais fraco, o que também afetou o resultado do PIB. Castelar, no entanto, continua otimista em relação ao crescimento da economia este ano, por causa do impulso da vacinação para o setor de serviços, desde que os conflitos políticos não atrapalhem. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Como o sr. viu o resultado do segundo trimestre do PIB, com essa queda de 0,1%? Surpreendeu de alguma forma?

A mensagem central de estabilidade foi confirmada. Essa era a expectativa. Foi uma queda de 0,05%, número que acaba ajustado para 0,1% quando se usa apenas uma casa decimal. No fundo é uma estabilidade. 

O que explica esse resultado?

O segundo trimestre foi um período difícil porque pegou o auge da segunda onda. Durante uma época, se chegou inclusive a ter um receio de uma queda do PIB. Nesse ambiente da segunda onda, não foi um resultado ruim. E também foi um período marcado por seca e geadas, o que acabou prejudicando o resultado da agropecuária. Se não tivesse um resultado ruim da agropecuária, o PIB poderia ter sido positivo. 

O que mais lhe chamou a atenção no resultado?

Tem algumas histórias que se mantiveram em relação aos outros trimestres e outras que são novas. O que se manteve é que o resultado mostra que consumo das famílias ainda está retraído. Ele ficou parado no segundo trimestre. Quando se olha a perspectiva mais ampla, o consumo das famílias ainda ficou 3% abaixo de onde estava no final de 2019. Ainda não teve uma recuperação, ao contrário do PIB, que está basicamente 0,1% abaixo (de 2019). O consumo das famílias não se recupera por conta da pandemia. E há também uma taxa de poupança muito alta. Está em 20,9% no segundo trimestre, que é a maior em 22 anos. O PIB continua limitado pela pandemia, porque as pessoas ainda não saem e isso afeta o nível de emprego, da renda e da capacidade de consumo das famílias. Essa é uma história contínua que se espera que seja superada com a vacinação. 

E quais são as histórias novas?

Primeiro, a construção veio bem. Isso reflete muito o aumento do crédito. Os dados do Banco Central mostram um crescimento de 22% nas concessões de crédito para pessoa física, e de 6% para pessoa jurídica. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, teve um aumento de quase 100% - 96% para pessoa jurídica e 97% para pessoa física. Aumentou muito o crédito imobiliário nesse segundo trimestre. E isso possivelmente ajuda a explicar o resultado bom da construção. E possivelmente ajuda a ter uma perspectiva positiva para a construção à frente, porque obviamente isso não se desenrola num trimestre apenas e se mantém. 

Algo mais foi positivo no resultado, na sua visão?

Outro resultado que veio bastante positivo é que o crescimento foi puxado por serviços. Esse é o setor que mais está sofrendo por causa do consumo das famílias mais baixo. Os dados mostram uma alta de 2,1% no segmento de 'outras atividades de serviços', uma área que pega mais de perto serviços pessoais, desde trabalho doméstico, cabeleireiro, restaurante. Essas atividades estão 7,2% abaixo do nível do fim de 2019. E as atividades de administração, defesa, saúde e educação pública estão 4,5% abaixo. É isso que na verdade está fazendo o PIB ficar ainda no nível do final de 2019. Está havendo uma recuperação, mas permanece nesse patamar ainda bastante retraído. 

A vacinação favorece o crescimento desses setores e da economia este ano? 

Vejo com certo grau de otimismo. Esses são setores que devem se recuperar no terceiro trimestre e ainda mais no quarto trimestre, com a vacinação. Os indicadores da pandemia estão retrocedendo bastante. Quando se exclui esses dois setores -- outras atividades e educação e saúde pública --, vemos que o resto está relativamente bem em relação ao último trimestre de 2019. Tem uma pequena exceção de transporte, que ainda tem 1% de queda, por causa do transporte público que ainda sofre com a pandemia. De modo geral, o PIB ainda reflete a segunda onda da pandemia. Não fosse isso, teria uma economia com um desempenho melhor e particularmente refletindo positivamente no mercado de trabalho. São atividades que empregam muito. 

O que esse resultado indica para a recuperação da economia neste ano e em 2022?

Tem duas forças que estão se posicionando para o pós-pandemia. Uma delas é a vacinação. Os números reforçam a importância da vacinação e da redução do número de mortes e casos (de covid-19) como uma força que vai fazer a economia melhorar pelo consumo das famílias e (o crescimento) desses outros serviços. É uma força que vai estar jogando a favor no pós-pandemia. E, obviamente, tem forças que jogam contra. Tem uma política monetária mais restritiva (com o aumento da taxa básica de juros, a Selic); tem uma política fiscal que tende a ser mais restritiva no ano que vem com a redução do auxílio emergencial e os gastos que são extra-teto; e o aumento do risco político, que pode bater com mais força no investimento. A tendência no segundo semestre é prevalecer o efeito da vacinação e uma certa volta quase à normalidade. No ano que vem, talvez a gente veja essas outras forças (negativas) mais fortes, explicando um crescimento mais baixo em 2022. O mercado hoje em dia prevê um crescimento de 2%, mas alguns já projetam 1,5%. 

Os riscos político e fiscal preocupam os mercados. Ainda mantém a visão de que a economia vai ter um crescimento cíclico nessa segunda metade do ano?

Acredito que a gente ainda está dando muito tiro no pé. Nesse terceiro trimestre era para ser um trimestre de otimismo, de uma recuperação mais forte. E a gente criou uma agenda extemporânea, muito por causa da política, com conflito entre poderes, e que agora atrai o meio empresarial. E por causa de uma agenda do Congresso que gerou muita incerteza. A gente deu um tiro do pé. Era para ter sido um terceiro trimestre de sorrisos, de boas notícias, das empresas se preparando para uma recuperação cíclica. Entendo que a gente ainda vai ter essa força da recuperação. Quando se olha esses setores que ainda estão muito abaixo de 2019, o efeito da vacinação pode trazer um ganho fácil de recuperação. Acho que isso ainda vai acontecer. Mas que a gente está fazendo de uma forma mais difícil, sim, está fazendo. É difícil de explicar por que a gente fez isso. Até politicamente parece fazer pouco sentido. Seria muito melhor do ponto de vista político para o governo ter uma recuperação mais significativa da economia. Mas eu continuo acreditando (numa recuperação). Estou mais otimista que a mediana do mercado. 

Isso não prejudica a expectativa de recuperação?

Os números do segundo trimestre confirmam a narrativa de que continua havendo esse espaço (para o crescimento da economia). Começa a haver uma reação. Há uma poupança muito alta, que tende a cair aos padrões históricos, o que significa que esse valor vai virar consumo. Os problemas das cadeias globais que afetam a indústria aos poucos estão sendo resolvidas, o que pode ajudar. A indústria poderia estar indo melhor se não fossem essas restrições. Mas isso está sendo resolvido. A gente tem um espaço para ter uma segunda metade do ano bastante positiva, gerando algum dinamismo via maior renda do trabalho para ter um 2022 também bom. Agora, é muito risco político. É muita proposta no Congresso sem a devida preparação. Isso não ajuda. Atrapalhou muito o terceiro trimestre. É difícil entender. O cenário era bom para o governo. A pandemia retrocedendo, e a economia se recuperando. Mas, por alguma razão, não pareceu suficiente. Esses conflitos não ajudam na recuperação da economia.

 

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