Wilton Junior/Estadão-03/02/2019
Após tragédia, Vale será ainda mais questionada sobre fatores ESG Wilton Junior/Estadão-03/02/2019

Sem bloco de controle, Vale deverá ser ainda mais cobrada

Com o fim do acordo de acionistas, minoritários ganham força e conselho de administração tende a ser mais independente

Mariana Durão e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h00

A partir do fim do seu acordo de acionistas, marcado para 9 de novembro, a Vale tende a ser ainda mais questionada sobre fatores ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em inglês), seja por acionistas minoritários, que passam a ter mais representatividade, seja porque deverá caminhar para ter um conselho de administração 100% independente.

O término do acordo libera as ações vinculadas ao bloco de controle. Embora tenha sido privatizada em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a empresa ainda tem entre seus principais acionistas entes ligados à máquina estatal, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

Em agosto, o BNDES vendeu R$ 8,1 bilhões em papéis não vinculados ao bloco de controle e sinaliza para novas vendas, já que a redução da carteira de ações é uma das metas da atual diretoria do banco de fomento. A janela de saída para os acionistas ligados ao governo é bem vista pelo mercado, por esvaziar qualquer risco de ingerência estatal sobre a Vale, numa espécie de “segunda privatização”.

O BNDES prepara ainda a venda das debêntures participativas da Vale, títulos que foram utilizados na época da privatização da mineradora, com um valor estimado de R$ 6 bilhões. O Bradesco BBI foi contratado como coordenador líder e a ideia é precificar esses papéis logo no início de 2021.

Para esse processo de venda, um pouco mais complexo, as debêntures serão listadas na Bolsa, como se fossem ações. Depois disso será realizada uma oferta pública. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Após tragédias, Vale reforça pauta ESG

Ainda sob o efeito Brumadinho, que faz suas ações valerem menos que as das rivais, mineradora quer reforçar agenda ambiental, social e de governança

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h00

RIO - Negociada com grande desconto frente às concorrentes australianas, ainda sob o efeito do rompimento da barragem em Brumadinho (MG) no início de 2019, e a um mês de se tornar uma empresa de capital pulverizado – “corporation”, no jargão do mercado –, a Vale tem procurado se mostrar afinada com as demandas dos investidores. Além de voltar a pagar dividendos, a mineradora deu uma guinada na comunicação, seara onde vem privilegiando a agenda ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em inglês).

Essa foi a tônica de seu último encontro anual com analistas e investidores, no mês passado. Além de explicar como pretende recuperar sua produção, a Vale focou em temas como segurança das operações, reparação do desastre de Brumadinho, metas de redução de carbono, diversidade e governança corporativa. Também vem atualizando a situação das barragens de rejeitos ao mercado.

Entre outras coisas, a mineradora lista como metas zerar as emissões de gases do efeito estufa de suas operações e no consumo de energia em 2050, duplicar o número de mulheres em seus quadros e adotar o chamado relatório integrado, que mescla informações financeiras e não financeiras.

A empresa fala em investir US$ 2 bilhões em projetos de baixo carbono. Anunciou, por exemplo, o uso de baterias de lítio para suprir a energia do Terminal da Ilha de Guaíba, no Rio, uma jogada que mesclou negócios (ao aproximar a empresa da Tesla, fabricante das baterias) e sustentabilidade.

Qualidade. Em outra frente, dá continuidade à estratégia “flight to quality” (voo para a qualidade), que consiste em elevar a qualidade do produto e criar uma espécie de portfólio “verde”. Dona do minério mais puro do mundo, o de Carajás (PA), a Vale quer que a participação de produtos premium – com maior teor de ferro e mais caro – salte dos atuais 84% para 90% no “futuro”.

Quanto melhor o minério, menor seu impacto em termos de emissões de gases. A estratégia faz sentido, já que a China, maior cliente da Vale, anunciou a meta de neutralidade de carbono até 2060.

“A Vale está enriquecendo o portfólio de produtos para melhor atender à crescente demanda da China por qualidade, desempenho ambiental e inovação em uma nova era”, afirma o diretor executivo de Ferrosos, Marcelo Spinelli, no recente lançamento de um centro de blendagem (mistura) de minérios na China.

O esforço começa a surtir algum efeito. Analistas passaram a mencionar as iniciativas de sustentabilidade em relatórios. Após o evento anual com investidores da mineradora, o Bradesco BBI destacou o compromisso da Vale em seguir melhorando sua performance ESG. A equipe do Santander apontou tendência de redução do desconto de 40% dado à Vale ante seus pares (BHP e Rio Tinto) por conta disso. Já a Moody’s elevou a nota de crédito da Vale porque as práticas ESG da mineradora “aumentaram a gestão de risco e supervisão de governança”.

“É muito claro para a Vale que ela transaciona com um desconto tão forte por conta de 25 de janeiro de 2019 (data do desastre de Brumadinho). Não há motivo operacional e financeiro para isso, o que torna o ESG um elemento chave neste momento”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Tempo

Apesar disso, o analista de mineração do Itaú BBA, Daniel Sasson, acredita que a virada de chave dos investidores não será imediata. A preocupação com fatores ESG na Vale cresce, diz ele, porque está ligada à sustentabilidade do negócio a longo prazo. Quem não atender a essa demanda será penalizado com maiores custos de captação e exclusão do portfólio de investidores globais, como já ocorreu com a Vale após Brumadinho. Os litígios com órgãos como o Ministério Público também pesam no preço das ações da companhia.

“A Vale está na direção correta e melhorou uma série de protocolos para deixar suas operações mais seguras, mas ainda leva tempo para isso se refletir na percepção dos investidores, especialmente estrangeiros, e na avaliação do mercado em relação ao valor da empresa”, diz Sasson.

O fundo de pensão britânico Church of England é um bom exemplo. A instituição vendeu suas ações da Vale após o desastre com a barragem de Brumadinho e, questionada pelo Estadão/Broadcast, informou que não pretende voltar a investir na companhia por enquanto.

O diretor de Ética e Engajamento do fundo, Adam Matthews, explica que essa decisão envolve a avaliação de um conjunto de fatores: a resposta da Vale a Brumadinho e Mariana, além da adoção do padrão global para barragens de rejeitos – estabelecido por pressão de investidores trilionários após o desastre – em todas as suas operações com transparência e passível de verificação independente. “A dimensão das reparações ainda é incerta”, afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.