Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

'Temos de agora até setembro para passarmos algo relevante no Congresso', diz ex-diretor do BC

Para economista, País precisa fazer avançar uma agenda econômica mínima, capaz de criar condições políticas para a aprovação de reformas mais profundas no próximo governo

Entrevista com

Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central

Gregory Prudenciano e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 13h00

Assumindo a postura dos "otimistas cautelosos" com a economia brasileira, o ex-diretor do Banco Central (BC), Tony Volpon, acredita que o País tem até setembro para fazer avançar no Congresso Nacional uma agenda econômica mínima, capaz de criar condições políticas para a aprovação de reformas mais profundas no próximo governo. Para ele, reformas amplas estão sem tempo para tramitação, espremidas, por um lado, pelas votações urgentes do Orçamento e da PEC Emergencial, e, por outro, pelo calendário eleitoral de 2022.

Atualmente estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG), nova boutique voltada para gestão de patrimônios familiares a partir de R$ 20 milhões, Volpon defende que há um alinhamento de interesses políticos em prol dessa "pauta mínima emergencial". Segundo ele, o governo exagerou no estímulo fiscal em 2020, o que teria ajudado a pressionar a inflação, e o BC corre risco de fazer o mesmo com o estímulo monetário caso não inicie, ainda no primeiro semestre, a normalização da taxa de juros. A seguir, os principais pontos da entrevista:

Temos novos presidentes na Câmara e no Senado, ambos de perfil mais governista, e que nos discursos iniciais sinalizaram com o avanço da agenda de reformas. Qual sua percepção sobre isso?

Eu diria que teremos de agora até setembro para passar alguma coisa relevante. A aprovação do auxílio de renda é um consenso em Brasília, vai caminhar de alguma maneira, fazendo uma coisa mais focada, menor, talvez até permanente, o que eu acho melhor e que implicaria em fazer uma combinação com outros programas sociais, e dentro do teto. Se sair assim, acho que vai ser uma notícia muito positiva para o mercado e vai ajudar a reancorar alguns mercados que estão meio perdidos, como câmbio e a parte longa da curva [de juros]. Tem que ter a PEC emergencial, alguma fusão da Emergencial com a do Pacto Federativo, senão não dá para fazer o "coronavoucher" dentro do teto. Essas propostas têm como natureza o congelamento de gastos, o que não é ideal. Eu gostaria de ver é mudança de regime de gastos, mudanças permanentes que tocam a maneira como aquele gasto é atendido. Essas PECs que estão rolando são mais importantes para prover uma ponte entre onde estamos agora e, depois das eleições do ano que vem, a posse do novo governo. Quando vier o novo governo vamos ter que repensar a PEC do teto, que não se sustenta no tempo em função do fato de que não conseguimos aprovar reformas que mudam o regime de gastos.

Você acredita que esse ano então é o mínimo necessário...

É o mínimo necessário para sobreviver, chegar de uma maneira ordenada e com estabilidade na próxima eleição, quando vamos discutir o que fazer. Na reforma tributária, pode sair algo bem menor, até porque não existe um consenso entre a equipe econômica e o Congresso. Paulo Guedes, não sei bem o porquê, nunca apoiou a ideia de termos um IVA nacional e fica insistindo em repaginar a CPMF. Eu concordo com ele em relação à necessidade de baixar a tributação da folha de pagamentos, mas a CPMF não é o melhor dos impostos. A reforma administrativa acho que não sai porque é um tema muito complexo, tem muita resistência e não há muito tempo, embora ache que é importante que se comece a discussão. Mas me parece que hoje há de fato um certo alinhamento de incentivo de vários players [políticos], parece que a coisa pode andar. Esse otimismo que estou expressando não é sobre transformar o Brasil, resolver tudo, é sobre essa pauta limitada, necessária. Estou otimista sobre isso, não sobre mais do que isso.

Você acha que a reforma administrativa não sai agora porque é complexa e nos falta tempo, mas a própria PEC emergencial tem muitos gatilhos relacionados aos servidores.

A PEC que está lá é improvável que seja a PEC que vai sair para votação. O Congresso brasileiro é reformista. Se organizado e liderado, ele consegue aprovar reformas. Já está contratada uma boa recuperação para esse ano, agora o governo tem que dar as condições para que essa coisa potencial se torne fato. Se a gente vai crescer 2% ou 4% será muito em função das respostas que Brasília vai dar. Pequim já está fazendo sua parte para a gente crescer 4%, a contribuição global vai ser muito boa, agora a gente precisa de contribuição doméstica e, obviamente, de um processo rápido de vacinação.

Como você vê o projeto de autonomia do Banco Central? O projeto que está na prioridade do governo e já foi aprovado no Senado é um bom projeto?

Acho um bom projeto e espero que saia, seria bom. Mas, sendo realista, lembro que é uma pauta que sempre está lá, mas não sai. Há uma certa resistência não declarada a entregar uma autonomia formalizada ao BC por parte da classe política como um todo. O BC já tem tido por muitos anos autonomia operacional, você tem que voltar para 2013, 2012 para ver um período de maior interferência mais aguda dentro da instituição. De lá para cá, acertando ou errando, as decisões foram feitas corretamente dentro da instituição.

O Copom deu um recado mais duro no último encontro, afirmando que já houve discussão sobre alta de juros. A inflação preocupa no Brasil?

Graças a Deus [o Copom deu um recado mais duro]. A inflação preocupa. Quando o BC colocou a taxa Selic em 2%, estava se discutindo uma queda de PIB de 8%, 10%, e o mercado e o BC achavam que talvez o País furasse o piso da meta de inflação. Mas a economia não caiu 9%, o País gastou 11% do PIB em impulso fiscal, gastou como gente grande, o que acabou contribuindo com uma alta da inflação. Houve uma conjuntura de recuperação global, especialmente na China, que impactou positivamente as commodities e, portanto, com desvalorização cambial, acabou impulsionando a inflação. E temos a perspectiva de recuperação, com reformas e vacinas. As previsões do FMI, que são normalmente conservadoras, apontam para o maior crescimento global em muitos anos. Então a pergunta que se coloca é a seguinte: dado o que sabemos hoje, precisamos ter taxa de juros negativa de 3% a 4%? Acho que a resposta claramente é não. O BC deveria começar um processo de normalização da taxa de juros. Se a taxa real de juros for para zero, ainda é extremamente estimulativa.

A taxa real de juros negativa tem impactado a economia?

Ter juros muito baixos também é ruim para a economia e para os mercados. Nossa taxa de câmbio está totalmente fora de controle, não conversa com fundamentos clássicos que a determinam, como os termos de troca e dólar globalmente. Tem uma questão fiscal que também está melhorando, porém nós vemos o câmbio teimosamente nesses valores das últimas semanas, ainda uma das piores taxas de câmbio de mercados emergentes. Hoje, as projeções de inflação estão perto da meta, mas precisamos ter cuidado, porque há muitos movimentos na economia global, e uma crise cuja natureza é muito diferente das anteriores. Eu argumentaria que há restrição de oferta e pode ter uma recomposição grande da demanda com a normalização da pandemia. Eu sou relativamente pessimista com a inflação em nível global.

Quando o BC deve começar o processo de alta de juros? A perspectiva mais negativa para o PIB do primeiro trimestre pode deixá-lo mais cauteloso no curto prazo?

Essa queda do PIB prevista para o primeiro trimestre é simplesmente um descasamento, com a piora da pandemia e o fim do auxílio, que devem melhorar ao longo do ano. Não deve nos assustar, o processo de recuperação ainda está programado. É sempre melhor o BC agir devagar, se antecipando, do que segurar e correr o risco de ter que ir mais rápido, prejudicando a recuperação da economia e sua credibilidade. Desconfio que talvez seja em maio, mas acredito que todos os elementos já estão na mesa [para alta de juro]. No segundo semestre, a coisa ficaria bastante arriscada, poderia ter um problema grande. Gostaria que fosse em março, mas pode ser em maio. E deve subir para uma faixa de 3,5% a 4,0% no fim do ano.

Nesse cenário, para qual patamar o câmbio pode ir?

Resolvendo a pendência da postura monetária e a incerteza fiscal, podemos pensar em certa apreciação do câmbio e em redução da volatilidade. Os modelos hoje sugerem uma faixa de R$ 4,50 a R$ 5,00.

E o auxílio emergencial foi exagerado?

Inicialmente, o auxílio seria de R$ 200, e depois foi elevado para R$ 600. Isso que foi ruim. O auxílio deveria ter sido de tal tamanho para manter a renda, não aumentá-la. Em um país que tem restrição fiscal como o Brasil, o tamanho do estímulo é importante. É totalmente justificado manter a renda para fazer a passagem da pandemia, mas gastar para aumentar a renda, em um país com restrição fiscal, me parece um erro.

Quanto o PIB deve crescer em 2021?

Entre 4,0% e 4,5% me parece viável, mas pode surpreender para cima. Não me surpreenderia se for 5%, se Brasília contribuir, porque Pequim já fez a sua parte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.