Mercado de luxo se recupera rápido da pandemia e vende até o dobro de 2019

Mercado de luxo se recupera rápido da pandemia e vende até o dobro de 2019

Sem poder viajar para o exterior por causa das restrições impostas pela pandemia, brasileiros com alta renda têm consumido mais em shoppings com produtos sofisticados

Bruno Villas Bôas e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 14h00

Blusa Balmain com blazer Paulo Camargo. Calça Mixed e sandália por Alexandre Birman. Bolsa Chanel. O “look do dia” que a médica carioca Andreia Frota, dona de uma clínica especializada em injeções faciais frequentada por famosos e endinheirados na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, usa para trabalhar não raramente custa mais de R$ 10 mil. Ela faz parte de um grupo de brasileiros que, impedidos de viajar para o exterior por causa da pandemia de covid-19, passaram a gastar bem mais com produtos de luxo por aqui.

 É uma tendência que se reflete nos números. A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) calcula que as vendas nos centros comerciais em geral estavam 16% menores na semana de 12 a 18 de julho, em relação ao mesmo período de 2019, antes da pandemia – o que evidencia que o varejo como um todo ainda luta para se recuperar do baque sofrido no ano passado. Enquanto isso, os shoppings de luxo comemoram dados bem diferentes e colocam planos de expansão em marcha.

A JHSF, empresa do shopping Cidade Jardim, do Catarina Fashion Outlet e de outros empreendimentos voltados para a altíssima renda, apurou vendas 50% maiores com lojistas nos meses de maio, junho e julho, em relação ao mesmo período de 2019. Entre as marcas internacionais, o crescimento chega a superar 100% em relação ao período pré-pandemia.

Robert Harley Bruce, diretor-presidente da JHSF Malls, diz que o consumidor de alta renda é ansioso por tendências e novidades. “Inegavelmente, o segmento descolou do restante da economia”, avalia.

A concorrência vive cenário parecido. No maior grupo de consumo “premium” do setor no País, o Iguatemi, as vendas tiveram “ritmo de Natal” a partir de maio, após a segunda onda da pandemia, conta Cristina Anne Betts, diretora financeira e de relações com investidores da empresa. Na primeira reabertura do setor, no ano passado, os consumidores retornaram aos shoppings ainda reticentes – passavam pouco tempo nos centros comerciais, que operavam em horário restrito. 

Nesta reabertura de 2021, porém, o cenário foi diferente. “Os consumidores estão mais acostumados com os protocolos de segurança. Além disso, retornaram para a vida cotidiana: não estão mais na casa de praia ou de campo, estão nas próprias casas, com os filhos frequentando a escola presencialmente. É um quadro de mais normalidade que contribui para o consumo de artigos de luxo”, diz Cristina, que a partir de janeiro se tornará CEO do Iguatemi, substituindo Carlos Jereissati.

Segundo fontes do setor ouvidas pelo Estadão, a vantagem para os shoppings se configura porque esse público não está gastando apenas perto de casa o dinheiro que deixaria nos outlets ou lojas de luxo lá fora, mas também parte do que seria destinado a outros itens ligados ao turismo, como restaurantes e passeios. 

A médica carioca Andreia diz que, com o real desvalorizado, passou a ser desnecessário esperar uma viagem para comprar o item de luxo que pode ser consumido hoje. “O dólar e o euro mais altos reduziram a vantagem de comprar as marcas diretamente no exterior. Não faz mais tanta diferença”, afirma a médica, frequentadora do shopping Village Mall, o principal de marcas de luxo no Rio e vizinho a seu consultório. “É melhor ir na Chanel aqui do lado do que consumir numa viagem.”

Tudo o que sabemos sobre:
shopping centereconomiacomércio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Shoppings ‘classe A’ retomam expansões

JHSF vai ampliar Catarina Outlet e erguer um novo empreendimento na Faria Lima

Bruno Villas Bôas e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 14h00

Para dar conta do apetite do brasileiro endinheirado por marcas famosas, as principais redes de luxo do País correm para trazer novidades para o consumidor. Com as vendas bem acima do patamar pré-pandemia, as companhias começam a tirar expansões de projetos antigos e até a planejar a construção de novos empreendimentos, apostando na recuperação da economia nos próximos anos.

 Depois de abrir recentemente uma unidade da francesa Balenciaga, o Iguatemi vai inaugurar, no Shopping JK, a primeira loja da badalada marca italiana Golden Goose. Já a JHSF, do Cidade Jardim, trouxe nada menos do que 11 marcas novas ao Brasil desde o início da pandemia, como Balmain e Emilio Pucci. Até o fim ano, virão mais duas novidades made in Italy: a sapataria Fratelli Rossetti e a alfaiataria Brioni, cujos ternos – que já foram usados pelo personagem James Bond, da franquia 007 – saem por R$ 22 mil em lojas online. 

Atualmente, a JHSF está em processo de expansão da operação do Catarina Fashion Outlet, que tem lojas de desconto de grifes como Gucci, Armani Exchange, Hugo Boss, Burberry e Ermenegildo Zegna. Localizado na Rodovia Castelo Branco, na cidade de São Roque (SP), o shopping vai ganhar mais 24 mil metros quadrados de área bruta locável (ABL) até 2022, em sua terceira expansão desde que foi inaugurado, em 2014. Em três anos, a operação vai dobrar de tamanho.

Segundo Robert Harley Bruce, diretor-presidente da JHSF Malls, a operação do Catarina seguirá focada em outlets de alto luxo, com mais marcas internacionais e opções de lazer. Mas a expansão não para por aí. Depois de inaugurar a CJ Shops – empreendimento de 60 lojas que lembra os luxuosos magazines europeus, na rua Haddock Lobo, no bairro paulistano dos Jardins –, a empresa também prepara um empreendimento semelhantes, o CJ Faria Lima, para atender o público que trabalha na região corporativa mais valorizada de São Paulo.

Consultor especializado em marcas de luxo e ex-líder da operação da Louis Vuitton por aqui, Carlos Ferreirinha diz que o avanço do segmento ocorre de forma alinhada com o crescimento de vendas de carros e imóveis de alto padrão. Ele lembra que existe dinheiro “empoçado” no topo da pirâmide social, ou seja, recursos que deixaram de fluir para serviços, como hotéis de luxo. “São muito elementos acelerando esse mercado, e não apenas em São Paulo.”

Aos poucos, as marcas de luxo que desembarcam por aqui não se resumem apenas a grifes facilmente identificáveis. À medida que o mercado cresce, começam a chegar empresas que cobram caro por produtos de nicho que não são conhecidos pela maioria da população. É o caso da italiana de moda masculina Sease, que desembarcou no CJ Shops e tem como argumento de venda o uso de tecidos tecnológicos e sustentáveis, obtidos a partir de fibras naturais.

Para facilitar a vida das marcas que querem apostar no Brasil, mas que ficaram ressabiadas após a recessão de 2015 e 2016, que obrigou várias gigantes a deixar o País com prejuízos, a JHSF expandiu seu braço de gestão de grifes. Ou seja: muitas marcas estão chegando em regime de parceria.

Rio.

A disparada do consumo de luxo alcançou também o mercado carioca. No Village Mall, empreendimento do grupo Multiplan na Barra da Tijuca, clientes de sandália e saidinha de praia – e uma bolsa Prada a tiracolo – têm puxado o ritmo de recuperação. 

O shopping conta com grifes como Tiffany & Co., Gucci, Burbery, Valentino e Dolce&Gabanna. Gabriel Palumbo, diretor regional da Multiplan, diz que as marcas de luxo venderam seis vezes mais no segundo trimestre de 2021, frente ao mesmo período de 2020, e superam o período pré-pandemia. 

Palumbo concorda que a limitação de viagens internacionais contribui para a aceleração das vendas de produtos de alto padrão. Ele acrescenta que, no caso do Village Mall, o bom desempenho foi ajudado pela reabertura de restaurantes de alta gastronomia, ainda no ano passado. “Os restaurantes ofereceram de volta um espaço para as pessoas se reencontrarem”, disse o executivo.

O Village Mall pretende anunciar nos próximos meses a chegada de mais duas marcas de luxo, mas evita antecipar quais serão esses nomes. “Temos sido procurados por vários operadores de marcas internacionais. As m

Tudo o que sabemos sobre:
investimentoeconomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.