Tiago Queiroz/ Estadão
Nubank aposta em inclusão e educação financeira Tiago Queiroz/ Estadão

Por novas contas, vale de marketing digital a indicação de amigo

Fintechs oferecem brindes, produtos, educação financeira e assistência profissional para os ‘sem banco’

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

As estratégias das fintechs para alcançar clientes do interior do Brasil têm empoderado clientes que até bem pouco tempo atrás estavam no grupo dos “sem banco”. Para alcançar essa população, que pode somar 34 milhões de pessoas, as empresas apostam em produtos de educação financeira, brindes, conteúdo nas redes sociais e profissionais especializados.

No C6, banco criado em 2018 e que tem 9 milhões de clientes, a estratégia é usar um modelo híbrido de distribuição tanto para pessoa física quanto jurídica. Presente em 100% dos municípios, a instituição tem mais de 600 consultores e agentes espalhados pelo País para atender empresas e vender crédito consignado para pessoas físicas. 

Além disso, o banco aposta no marketing digital nas redes sociais e nos meios de comunicação para chegar até locais menos acessíveis, diz o sócio-fundador do banco, Luiz Marcelo Calicchio. “Não temos estratégia para desbancarizados, mas para chegar a pessoas que estão em locais menos acessíveis”. Ele destaca que o banco tem uma grande oferta de produtos para esses futuros clientes.

A Neon, com 12 milhões de clientes, quer apostar em campanhas físicas (em ponto de ônibus e relógio de rua, por exemplo) para atrair clientes. “Estamos atrás de um público que não tem serviço ou que é sub-bancarizado. Quanto mais saímos das grandes cidades, mais temos isso”, diz a vice-presidente de produtos, design, marketing e negócios, Paula Martinelli. O banco, que também está em todos os municípios do País, aposta no “member get member”, em que clientes indicam amigos e ganham benefícios. 

Com 40 milhões de clientes, o Nubank, maior banco digital do País, também fincou sua marca nos 5.570 municípios brasileiros. Uma das estratégias foi apostar num blog de educação financeira – lido por 50 milhões de pessoas no ano passado – e em conteúdos nas redes sociais, como LinkedIn e Tik Tok. “A inclusão financeira vem junto com a educação financeira. Desde 2013, já incluímos 3,8 milhões de pessoas que nunca tiveram acesso aos serviços financeiros”, diz Christianne Cannavero, diretora de ESG do Nubank.

Além dos bancos independentes, as instituições tradicionais também têm avançado nesses locais por meio de suas fintechs. O Next, do Bradesco, não tem uma estratégia específica para cidades do interior, mas já está presente em todos os municípios do País. O banco tem mais de 5,4 milhões de clientes. 

No Iti, do Itaú, não há estratégia geográfica para inserção de pessoas no sistema financeiro. Criado em novembro de 2020, o braço digital do maior banco privado do País tem 7,8 milhões de clientes. “Hoje há uma agenda no Brasil de muita inclusão bancária, de oferecer mais serviços para a população”, diz Fabio Licere, sócio de serviços financeiros da KPMG. 

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Fintechs desbravam interior do País atrás de clientes ainda ‘sem banco’

Com atrativos como tarifa zero e praticidade de transações, bancos digitais miram os quase 44% de municípios do Brasil desprovidos de agência, assim como localidades menos urbanizadas, e buscam os 16 milhões de brasileiros sem conta-corrente

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Letícia Carolina Ribeiro Santos mora na Aldeia de Xandó, numa reserva de índios Pataxós, em Caraíva. Ali, distante 740 quilômetros da capital baiana, Salvador, a população sobrevive do turismo, da pesca e do comércio de artesanato indígena. O local não tem agência bancária, e a internet ainda é via rádio. Apesar disso, aos 19 anos, Letícia comemora a abertura de sua primeira conta corrente digital. Em menos de um dia, sem precisar ir a um banco, ela abriu a conta e já começou a usar.

“Antes era um transtorno. Meu salário era depositado na conta da minha mãe, e tinha de ir até Porto Seguro para pegar o dinheiro”, diz a indígena, que trabalha como barback – assistente de barman. Hoje, ela faz tudo por meio do aplicativo no celular. Muitos dos pagamentos são feitos por meio de Pix, diz Letícia, que conheceu o banco digital C6 por meio do irmão Paulo Ribeiro dos Santos, que também tem conta digital.

Como os irmãos Pataxós, moradores de pequenas cidades do interior estão aderindo aos bancos digitais para entrar no mercado bancário. Com o atrativo de tarifa zero e facilidades na abertura de contas, essas instituições estão criando novas estratégias para conquistar esse público, que ficou muito tempo à margem do sistema bancário.

Atualmente, 44% dos 5.570 municípios do Brasil não têm agência bancária. Esse número pode aumentar com a política de fechamento de agências pelos grandes bancos. Segundo dados do Sindicato dos Bancários de São Paulo, de dezembro de 2014 para cá, foram encerradas as atividades de 5.265 agências no País. E outros fechamentos devem vir pela frente, sobretudo após a pandemia e a maior familiaridade da população com o mundo online.

Calcula-se que hoje o País tenha mais de um smartphone por habitante e, ao mesmo tempo, cerca de 16 milhões de pessoas sem conta em banco. Outros 17,7 milhões têm acesso precário ao sistema bancário, segundo o Instituto Locomotiva. Juntos, eles movimentam cerca de R$ 347 bilhões por ano – um mercado que tem saltado aos olhos dos bancos digitais.

“Onde há pessoas com dificuldade de acesso aos serviços financeiros, há oportunidade de negócios”, diz Bruno Magrani, presidente da Zetta, associação de empresas de serviços financeiros digitais. Segundo ele, por ter uma estrutura enxuta, as fintechs conseguem atender até a população de baixa renda, já que não cobram tarifas. “Para uma parcela da população é caro pagar R$ 20 ou R$ 30 por mês de manutenção de conta e R$ 10 a R$ 15 em transferências.”

Estratégia

Para alcançar essa população, cada um tem adotado uma estratégia diferente. “Mas nenhum banco digital nasce sem alguns pontos básicos”, diz o sócio da PwC Brasil, Eduardo Alves. Esses itens, afirma ele, são a ausência de tarifas, cashback, programa de fidelidade, educação financeira e simplicidade. E ele tem razão. A estudante Selena Freitas, de 22 anos, foi atraída para o banco digital Neon pelos “mimos” dados ao atingir algumas metas.

“Eles têm alguns desafios. Quem fizer mais depósitos, por exemplo, e ficar entre os dez primeiros, ganha presentinhos, como camiseta, agenda, caneta e adesivos”, conta Selena, que até então não tinha conta. Ela foi indicada ao banco pelo namorado, que recebeu um cashback de R$ 20 pela apresentação. 

Selena mora em Cachoeira Dourada (GO), cidade de 8 mil habitantes com uma agência bancária do Bradesco. Ela conta que conhece várias pessoas do município que estão optando pelas fintechs por causa do custo baixo. Em casa, por exemplo, ela conseguiu convencer os pais a virarem clientes digitais. “Meu pai manteve a conta tradicional, mas minha mãe abriu pela primeira vez e também gosta de participar dos desafios.”

Na avaliação de Sergio Costantini, diretor-geral da Mambu no Brasil – fintech alemã de soluções para o setor bancário –, a investida dos bancos digitais em pequenas cidades não fará só a inclusão financeira dessa população, mas também a inclusão digital. Portanto, é preciso melhorar o acesso à rede e ampliar a cobertura no País.

O pataxó Paulo Ribeiro Santos concorda. Atendido por conexão via rádio, em Caraíva, ele conta que a internet é boa enquanto o tempo está bom. “Basta chover que cai tudo”, diz ele. Apesar disso, está satisfeito com a conta digital e já indicou a opção para várias pessoas. 

Segundo Costantini, se no passado o sinônimo de crescer no sistema bancário era abrir agências, hoje é ter mais tecnologia. Ou seja, antes a capilaridade de um banco vinha por meio de agências espalhadas pelo País. A partir de agora isso vai ocorrer pela inovação.

Para Magrani, da Zetta, além da internet, a questão cultural também é outra barreira aos bancos digitais. “Ainda tem gente que tem hábito de ir a uma agência bancária para resolver a vida financeira. Precisamos continuar investindo em comunicação para mostrar que muitos serviços já podem ser realizados de forma digital.”

Samira Mansur, moradora de Barão de Juparanã, no Rio, entendeu essas facilidades e, embora mantenha conta no banco tradicional, tem feito a maioria das transações pelo banco digital. “Uso a conta antiga para receber e também por causa do cheque. Aqui na cidade muita gente ainda usa essa forma de pagamento”, diz ela, destacando que paga R$ 40 de tarifa. Na cidade, de 5 mil habitantes, não há agência bancária nem Correios. Contadora e vendedora de semijoias, ela usa a conta digital para gerar boletos e fazer Pix. “O melhor: não pago nada.”

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