REUTERS/Carlos Barria
REUTERS/Carlos Barria

Azevêdo alerta que guerra comercial já é uma realidade política

Para OMC, retaliações podem sair de controle. “Um ciclo de retaliações é a última coisa que a economia mundial precisa”, alertou Azevêdo.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 07h27

GENEBRA - O comércio mundial irá registrar um aumento em 2018 de 4,4%, bem acima do esperado. Mas, diante da guerra comercial que ganha força, as retaliações podem sair de controle e acabar afetando a economia mundial e qualquer tipo de previsões. O alerta é da Organização Mundial do Comércio (OMC), que apresentou nesta quinta-feira, 12, seus números anuais. 

Para o diretor-geral da entidade, o brasileiro Roberto Azevêdo, tecnicamente a guerra comercial ainda não começou, já que algumas das medidas anunciadas por governos ainda não foram implementadas e o diálogo continua. “Politicamente, acho que já estamos vendo o começo disso (guerra comercial)”, admitiu. “É isso o que peço aos membros que possamos evitar”, disse. 

+ Comércio exterior se recupera, mas Brasil cai em ranking da OMC

O desempenho de 2018 ficará abaixo da média registrada em 2017, com 4,7%. Mas, ainda assim, é considerada como positiva. Os números, porém, não consideram ainda a guerra comercial, já que os economistas da entidade admitem que não tem como saber o que vai ocorrer e quantos produtos serão afetados. Para 2019, a expectativa é de que ocorra uma perda de força nos fluxos comerciais, com uma expansão de 4%. A média ficará abaixo da tendência histórica desde 1990, mas ainda está acima do que foi registrado nos fluxos comerciais depois da crise financeira de 2008. 

+ Guerra comercial desembarca nos tribunais da OMC

Mas diante da perspectiva de uma guerra comercial entre as maiores economias do mundo, a OMC alerta que os riscos são reais. 

“O crescimento comercial forte que vemos hoje será vital para um crescimento econômico, recuperação e apoio à criação de empregos”, disse Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC. “Mas esse progresso importante pode ser rapidamente minado se governos recorrerem a políticas comerciais restritivas, especialmente um processo de retaliações mútuas que poderia levar a uma escalada que não poderia ser administrada”, alertou. 

“Um ciclo de retaliações é a última coisa que a economia mundial precisa”, insistiu. “Os problemas comerciais nos países membros da OMC seriam melhor tratados se fossem lidados de forma coletiva”, disse. “Eu apelo a governos para que mostrem cautela e resolvam suas diferenças por meio do diálogo e um engajamento sério”, disse. 

+ Guerra comercial entre EUA e China abre mais espaço para a soja brasileira

Nas últimas semanas, a proliferação de barreiras comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump levou parceiros como a China a prometer respostas duras e retaliações. Pelo menos US$ 100 bilhões em fluxo de comércio seriam afetados. 

Segundo Azevêdo, a realidade é que, mesmo com medidas ainda não aplicadas, há indícios de que as hostilidades já começam a afetar ordens de importação em março. Para ele, o risco é “sério” e a situação poderia fazer a “recuperação econômica sair dos trilhos, colocando em risco empregos”. 

+ China vai retirar as barreiras, afirma Trump

Para o brasileiro, com uma economia globalizada, serão os mais pobres que sofrerão mais com uma crise comercial. “Ela vai afetar mesmo aqueles que não estão envolvidos diretamente”, disse.

Resultados. Em 2017, a OMC indicou que a expansão do comércio foi a maior desde 2011, levada por um maior consumo e investimentos. O resultado ficou bem acima do que a própria OMC estimava, com um crescimento projetado de apenas 3,6%. Em termos de valores, a expansão foi de 10,7% nas exportações.  

Para 2018 e 2019, porém, a entidade admite que os riscos de fazer previsões foram elevados de forma importante desde que medidas protecionistas passaram a vigorar. As barreiras, segundo a OMC, criam “incertezas para empresas e consumidores” e poderiam gerar um “ciclo de retaliações que poderia pesar na produção e comercio mundial”. 

Mudanças nas políticas monetárias de países ricos e tensões geopolíticas também poderiam representar riscos.  Diante das incertezas, os economistas da OMC acreditam que o fluxo comercial terá uma expansão em volume entre 3,1% e 5,5%.

+ ‘Disputa entre EUA e China é briga de cachorro grande’

Na avaliação da entidade, “a onda crescimento de um sentimento anti-comércio e a vontade de governos de aplicar medidas restritivas” podem barrar essa expansão.  Segundo os economistas, a “escalada de políticas restritivas poderiam levar a um resultado fora dessa faixa”.  

“Medidas recentes têm sido aplicadas a um amplo número de produtos fornecidos por um grande número de países, com contra-respostas já prometidas”, disse. “Um ciclo de escala de retaliações ainda pode ser evitado se negociações conseguirem evitar uma tensão. Mas isso não está garantido”, disse. 

+ Guerra comercial entre EUA e China abre mais espaço para a soja brasileira

Para 2018 e 2019, os países emergentes devem ter um melhor resultado em termos de expansão de exportações e importações. Enquanto as economias ricas devem registrar um crescimento de 3,8% nas vendas, a taxa entre os emergentes deve ser de 5,4%. 

“Entretanto, a atividade econômica também deve ser afetada pelas barreiras comerciais, o que poderia resultar em cenários mais negativos”. Para 2018, a perspectiva ainda é de uma expansão do PIB mundial de 3,8%.     

+ Brasil negocia cotas para exportar aço para os EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.