Por que o chocolate está cada vez mais caro no mercado mundial
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que o chocolate está cada vez mais caro no mercado mundial

Crescimento do consumo na China e pragas em lavouras de cacau pressionam o preço do produto e assustam casais que pretendem comemorar o Valentine's Day, neste sábado, 14

Economia & Negócios

13 Fevereiro 2015 | 09h58

Chocolate escuro com ameixa japonesa em confeitaria de Nova York: preços mais caro no Valentine's day (AP)

Chocolate escuro com ameixa japonesa em confeitaria de Nova York: preços mais caro no Valentine’s Day (AP)

THE NEW YORK TIMES

Mais do que nunca, os doces beijos do dia dos namorados sairão caro este ano. Ao menos se depender dos chocolates.

O preço do cacau, principal ingrediente da maioria dos chocolates, aumentou bastante no ano passado, obrigando os produtores a aumentar os preços e encolher as porções. De acordo com os analistas, a principal causa é o crescente apetite pelo chocolate na China e em outros mercados asiáticos – particularmente do tipo escuro, que é feito com mais cacau.

“O principal fator na alta do preço é a crescente demanda por cacau na Ásia, embora essa tenha sido bastante forte na Europa e América do Norte”, disse Edward George, diretor de pesquisa em soft commodities do EcoBank.

Outro fator é o harmattan, vento seco e cheio de poeira que começou a varrer os principais países produtores de cacau da África Ocidental em dezembro, início da temporada ideal de colheita do cacau. O harmattan foi pior do que o habitual esse ano.

Os pés de cacau também foram atacados pela vassoura de bruxa e monilíase, fungos que podem causar sérias perdas. O preço médio em dólares por tonelada de cacau era US$ 2.921,05 no mês passado, de acordo com a Organização Internacional do Cacau.

Isso representou pequena alta em relação ao ano anterior – mas manteve-se abaixo do auge observado em agosto – US$ 3.270,27 -, que refletia o temor que o Ebola pudesse prejudicar a colheita de cacau na África.

Várias das maiores empresas de chocolate se recusaram a fazer comentários a respeito dos efeitos do alto preço do cacau para suas atividades. Mas Hershey, Mondelez International e a suíça Lindt & Sprüngli, dona da Russel Stover, aumentaram seus preços em até 8% no ano passado para compensar o custo do cacau. A alta nos preços da Hersheys afetou todos os produtos da empresa.

Loja de chocolates enfeitada para o dia dos namorados nos EUA: preços assustam (AP)

Loja de chocolates enfeitada para o dia dos namorados nos EUA: preços assustam (AP)

“Assim como outras empresas da indústria do chocolate, a L&S teve de fazer ajustes de preços ocasionais em alguns produtos durante 2014 para absorver parte dos desafios no custo da matéria prima – ainda que tentemos inicialmente compensar por tais desafios com aumentos no volume e na eficiência”, disse a diretora de comunicações corporativas da Lindt & Sprüngli, Sylvia Kälin, via e-mail. A fabricante dos chocolates M&Ms e Milky Way, Mars, também anunciou planos de aumentar os preços. Sylvia disse que, até o momento, os consumidores não puniram a empresa pela alta nos preços.

Dados da firma de pesquisa de dados de consumo Nielsen indicam os aumentos nos preços. Embora a quantidade de chocolate comprada pelos americanos no ano passado tenha aumentado 1,2%, chegando a quase 1 milhão de toneladas, o valor pago pelo chocolate teve alta de 2,6%, chegando ao total de Us$ 13,6 bilhões.

A Mondelez, dona de diversas marcas que usam chocolate, como Cadbury, Milk e Lu, não teve tanta sorte. Ela foi a primeira a aumentar os preços na primeira metade do ano passado, e os varejistas europeus se recusaram a jogar seu jogo. Isso levou ao que a diretora executiva da Mondelez, Irene Rosenfeld, descreveu em agosto numa conference call como “disputas prolongadas e perdas de distribuição no curto prazo”.

George, o analista de commodities, disse que a reação foi surpreendente. “Várias empresas ficaram chocadas ao ver que os consumidores simplesmente procuraram chocolate mais barato, ou pararam de consumir o produto”, disse ele.

Em seguida, a empresa causou certa indignação no final do ano ao anunciar que não produziria mais as moedas de chocolate – embora isso não tenha sido nada diante das queixas do mês passado, quando a empresa disse que faria ajustes na fórmula dos Cadbury’s Creme Eggs (nos EUA, os Creme Eggs são feitos pela Hershey e, por isso, não serão afetados).

A Mondelez anunciou que a casca dos ovos de chocolate não seria mais feita com o Cadbury Dairy Milk, usando em vez disso “um tradicional leite achocolatado Cadbury padrão”, de acordo com a porta-voz da Mondelez, Valerie Moens. O achocolatado Dairy Milk possui alto teor de leite, e o preço do leite aumentou bastante no ano passado.

Consumidora em loja de chocolates de Tóquio: preços em alta no Valentine's Day (AFP)

Consumidora em loja de chocolates de Tóquio: preços em alta no Valentine’s Day (AFP)

A Mondelez também reduziu de seis para cinco o número de Creme Eggs por embalagem. Embora a Mondelez tenha indicado um preço um pouco mais baixo pela embalagem menor, os varejistas determinam o preço final. E, essa semana, a Mondelez anunciou que venderá uma versão mais fina de suas barras de chocolate orgânico Green & Black, na esperança de dar aos consumidores uma opção de preço mais baixo.

Em reunião trimestral com analistas na quarta feira, a Mondelez anunciou que US$ 1,6 bilhão de sua renda decorreu dos preços mais altos, principalmente por causa do alto preço do cacau.
Mas isso não foi o bastante para compensar o custo mais alto da commodity empregada porque os preços mais altos levaram as vendas a cair.

Analistas de investimento pressionaram Irene, questionando sua estratégia. David Driscoll, do Citi Research, disse que a quantidade de chocolate vendida pela empresa na Europa no ano passado teve queda de “mais de 10%” e outras empresas pareciam não ter sofrido tanto. “Por que esses concorrentes não estão seguindo a tendência?”

“A realidade é que alguns de nossos concorrentes multinacionais demoraram um pouco mais para responder com preços mais altos, e isso jogou certa pressão sobre nós”, disse Irene. Ela disse esperar que os preços mais altos da concorrência alcancem os da Mondelez durante o primeiro semestre do ano. “Sem dúvida, a diferença é maior do que gostaríamos que fosse”, disse ela. “Vamos manter o rumo atual.”/Tradução de Augusto Calil

Leia também:

O chocolate vai acabar, alerta o maior fabricante do mundo

Chocólatras entram em desespero com a notícia sofre fim do chocolate

Surto de ebola faz o preço do cacau disparar

 

Mais conteúdo sobre:

Chocolate