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A forte recuperação do PIB
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Celso Ming
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A forte recuperação do PIB

Apesar da política desastrada e negacionista do governo federal, a economia brasileira vai demonstrando inesperada resiliência à pandemia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 19h02

Há 15 dias espalhava-se a impressão de que a atividade econômica do Brasil vinha com mais vigor do que a esperada. Agora, já não é apenas impressão. Há sinais fortes de crescimento do PIB neste ano mais perto dos 5% do que dos 4%.

A primeira surpresa veio dia 13, com a divulgação do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), a chamada prévia do PIB, que apontou recuperação de 2,3% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com os três últimos meses do ano passado, na série com ajuste sazonal, bem acima da esperada. Foi a senha para que os analistas refizessem suas apostas de crescimento para perto dos 4%. 

Na semana passada, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sugeriu que novos indicadores acenam para um avanço por volta dos 4%. Mas os analistas já estão revendo para cima essa projeção. Nesta quinta-feira, por exemplo, o Itaú Unibanco avisou que passou a trabalhar com um incremento do PIB da ordem de 5%. Nas próximas semanas, o Boletim Focus do Banco Central estará registrando essa alta também entre os mais de 70 analistas que até agora não iam além dos 3,52%.

O ministro da EconomiaPaulo Guedes, ligou seu alto-falante para alardear o que vem repetindo desde meados do ano passado: “Olhem a recuperação em V que...”. Tomara que ele esteja carregado de razão. Mas, independentemente disso, convém avaliar os fatores que vêm favorecendo a retomada e os riscos espalhados pela pista, que podem atrapalhar os novos planos.

A impressionante recuperação da economia mundial é vento em popa também no desempenho da economia brasileira, porque favorece as exportações. Os Estados Unidos devem crescer neste ano 6,0%. A China, segunda grande usina econômica do mundo, vai para 8,5%. E a União Europeia, 4,1%. (Veja a tabela). Volume nunca visto de estímulos fiscais (projetos de investimentos públicos e privados) e monetários (despejo de moeda pelos grandes bancos centrais) empurra a economia mundial. Empurrão não menos importante está sendo dado pelo forte ritmo de vacinação nos países líderes. É fator que aumenta o atraso sanitário dos países mais pobres, mas lança empresas e a população dos países centrais para a atividade econômica.

O agronegócio é beneficiário da onda de demanda de commodities. Embora o valor da renda do agro ainda não passe dos 6,8% do PIB, a energia transmitida aos serviços ligados ao setor é importante na recuperação.

E tem a vacina. Apesar da confusa política sanitária do governo Bolsonaro, já há no Brasil perto de 45 milhões de vacinados, pelo menos com a primeira dose. São 14 milhões os que já se recuperaram e podem ser considerados relativamente imunizados. E há aqueles que já tiveram a doença, mas não apresentaram sintomas e que já têm anticorpos. Uma avaliação rigorosa não garante imunidade para estes, mas são números indicativos de que mais gente antes entocada começa a ser liberada para voltar ao trabalho.

Um terceiro fator que ajuda a explicar o novo ritmo é a nova rodada de auxílio emergencial, de R$ 43 bilhões, que deve favorecer o consumo de quase 46 milhões de brasileiros.

Mas os riscos não podem ser desprezados. Ninguém sabe se o Brasil continua vulnerável a outras ondas de contaminação, especialmente com a multiplicação de novas variantes do coronavírus – para as quais faltam dados sobre se têm cobertura das vacinas.

Mais produção vai exigir mais consumo de energia elétrica num momento de grave crise hídrica. Mesmo com o acionamento das usinas de fontes térmicas, não se podem descartar apagões em certas regiões do País. Além disso, as tarifas do quilowatt-hora tendem a disparar e alimentar a inflação.

O desemprego recorde, que atingiu 14,8 milhões no primeiro trimestre deste ano, é outro limitador da demanda e da produção. Quem imagina que o avanço do PIB, por si só, criará postos de trabalho ignora que as empresas podem voltar à plena carga, mas com menos pessoal, porque aprenderam a operar mais enxutas e trataram de aumentar os investimentos em tecnologias poupadoras de mão de obra.

Em todo o caso, apesar das vítimas em gente (já são perto de 460 mil mortos) e em empresas quebradas, e apesar da política desastrada do governo federal, a economia brasileira vai demonstrando inesperada resiliência à pandemia. E essa é a melhor notícia.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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