Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Puxada por energia, prévia da inflação fica em 0,72% em julho, a maior para o mês desde 2004

IPCA-15 desacelerou em relação a junho, quando ficou em 0,83%, mas acumula alta de 8,59% no acumulado em 12 meses

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 09h18
Atualizado 23 de julho de 2021 | 14h56

RIO e SÃO PAULO - O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15), uma prévia do indicador oficial de inflação, avançou 0,72% em julho, maior variação para o mês desde 2004, informou nesta sexta-feira, 23, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 12 meses, a alta acumulada é de 8,59%.

Como esperado, a conta de luz, mais cara por causa da crise hídrica, foi a principal vilã da inflação, mas especialistas chamaram a atenção para a pressão dos serviços. Para analistas, o IPCA-15 de julho indica para uma inflação mais elevada e pode levar o Banco Central (BC) a elevar o ritmo de alta na taxa básica de juros (Selic, hoje em 4,25%).

Segundo o economista Leonardo França Costa, do ASA Investments, em meio ao processo de flexibilização nas medidas para conter o contato social por causa da pandemia de covid-19, era esperada a recomposição dos preços de serviços, mas havia dúvida se esse movimento ocorreria em um momento em que os bens industriais, pressionados pelo dólar elevado e pelo encarecimento de insumos, passariam por um alívio.

“O que o IPCA-15 (de julho) mostrou é que vai ser junto. Foi horroroso”, diz França Costa, acrescentando que a projeção do banco para o IPCA fechado deste ano, de 6,20%, tem viés de alta.

O IBGE não calcula um agregado dos preços de serviços no IPCA-15 - apenas nas leituras dos meses fechados no IPCA -, mas, nas contas do Banco BV, eles ficaram 0,71% mais caros em julho. Em junho, o índice de serviços no IPCA-15 tinha sido de 0,30%, ainda nos cálculos do Banco BV.

Para Raphael Rodrigues, economista do Banco BV, parece que os problemas da cadeia industrial - como a falta e o encarecimento de insumos - deverão demorar mais a se resolver do que a normalização do setor de serviços, com o avanço da vacinação já produzindo efeitos.

“Isso é especialmente relevante porque são coisas estruturais, ao contrário de commodities ou de alimentação, que dependem muito do clima. (Serviços e bens industriais) São preços estruturais que falam muito sobre o estado da economia, tanto que compõem o núcleo de inflação. São preços relevantes para a política monetária”, afirmou Rodrigues.

Desde que começou a subir a Selic, em março, o BC fez três altas de 0,75 ponto porcentual. Rodrigues ainda espera nova alta de 0,75 ponto na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, em agosto, mas outros analistas já veem razões para uma elevação de 1,0 ponto.

“Realmente, (a alta da Selic) deve ser 1,0 ponto. O IPCA de julho deve subir 0,90%”, disse França Costa, do ASA Investments.

Para João Leal, economista da gestora Rio Bravo, a alta na inflação de serviços seria o principal motivo para o Copom acelerar o ritmo de alta na Selic para 1,0 ponto na reunião de agosto. O economista João Fernandes, da gestora Quantitas, mantém a previsão de ajuste de 0,75 ponto nos juros, mas vê probabilidade entre 30% e 40% de um aperto mais forte pelo BC.

“O Copom vai olhar o IPCA-15, porque tem um quadro qualitativo ruim, puxado por serviços, que é o componente mais importante para a política monetária”, disse Fernandes.

Por outro lado, na visão da economista do Banco Original Lisandra Barbero, a inflação mais pressionada em julho já estava no cenário do BC. Ela mantém a expectativa de mais uma alta de 0,75 ponto na Selic em agosto.

“Nas últimas reuniões, o BC chegou a cogitar a possibilidade de elevar a Selic em 1,0 ponto, mas essa elevação do ritmo de alta está condicionada a fatores que não mudaram tanto. As pressões continuam, mas a surpresa não tem sido grande o bastante para justificar o aumento do ritmo”, disse Barbero.

Se a inflação de serviços preocupa, a principal responsável pela alta do IPCA-15 de julho foi a suspeita de todos, a conta de luz. A energia elétrica ficou 4,79% mais cara, contribuindo com 0,21 ponto da alta de 0,72% no agregado.

Isso já era esperado por causa do reajuste da bandeira vermelha - taxa adicional na conta, para compensar o acionamento de usinas termelétricas, com custo de geração mais elevado -, já anunciado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), como estratégia do governo federal para enfrentar o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. A partir de 1º de julho, a bandeira vermelha 2, em vigor em junho e julho, ficou 52% mais cara.

Também era esperado um arrefecimento na alta de preços de combustíveis, que desaceleraram a 0,38%, ante os 3,69% registrados no IPCA-15 de junho - mesmo assim, a gasolina subiu 0,50% em julho e acumula alta de 40,32% em 12 meses, informou o IBGE. Por outro lado, as passagens aéreas ficaram 35,64% mais caras, ante a queda de 5,63% registrada na leitura de junho.

Já os preços da alimentação subiram 0,49%. Os alimentos consumidos no domicílio aceleraram de 0,15% em junho para 0,47% em julho, com destaque para o leite longa vida (4,09%), o frango em pedaços (3,09%), as carnes (1,74%) e o pão francês (1,81%). Alguns itens com deflação evitaram uma alta maior: permanecem em queda os preços da cebola (-15,94%), da batata-inglesa (-14,77%), das frutas (-1,33%) e do arroz (-1,14%). / VINICIUS NEDER, THAÍS BARCELLOS, CÍCERO COTRIM e GUILHERME BIANCHINI

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