CBIE
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) CBIE

Bolsonaro demite Silva e Luna da Petrobras e indica Adriano Pires para presidência da estatal

Para a presidência do conselho de administração da estatal, o governo Bolsonaro indicou Rodolfo Landim, que também é presidente do Flamengo; os nomes precisam do aval da assembleia de acionistas, que está marcada para 13 de abril

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 17h29
Atualizado 29 de março de 2022 | 09h20

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. Sob fritura há semanas desde a explosão de preços dos combustíveis com a guerra na Ucrânia, o general da reserva do Exército, estava há apenas um ano no cargo. Será substituído  pelo diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

A escolha de Pires foi interpretada com uma sinalização pró-mercado financeiro, cujos investidores cobram a manutenção da política de reajuste de preços da Petrobras, que segue a tendência dos preços do mercado internacional.

O nome foi costurado pelo próprio ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que trabalha pela adoção de um subsídio temporário do governo para diminuir a alta de preços dos combustíveis, considerada o "calcanhar de Aquiles" do presidente Jair Bolsonaro nas eleições deste ano. Com a entrada de Pires, a proposta de subsídio, que é rejeitada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ganhar fôlego.

O presidente Bolsonaro tem sido apontado como culpado pela população pelos altos preços e gasolina e ensaiou um movimento, após a disparada de preços do petróleo, de intervenção de preços da Petrobras. Por isso, ainda há desconfiança de que Bolsonaro vá continuar pressionando.

Segundo apurou o Estadão, a diretoria atual da empresa gosta das posições de Pires. A transição deve ser suave. Nesse primeiro momento, a expectativa é que não haja tantas mudanças como ocorreu, no ano passado, na troca de Roberto Castello Branco por Silva e Luna. A leitura inicial é de que ele vai continuar com a política de preços de paridade internacional e que o presidente com a troca “fez mais um showzinho para o eleitorado” com os ataques à ação da estatal de olho nas eleições.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, que foi indicado para a presidência do conselho administrativo da empresa, era também cotado, mas foi preterido por resistências ao seu nome. Landim era visto por integrantes da empresa da indústria de óleo e gás como alguém que estaria disposto a “fazer tudo”, inclusive aceitar uma intervenção do governo nos preços, como defende integrantes do governo nos bastidores. 

Pires, que também é articulista do Estadão, tem defendido o subsídio e se manifestado contrário ao projeto 1474, que trata de preços de combustíveis e prevê fundo de amortização dos preços, já votado no Senado e em tramitação agora na Câmara. Mas permanece certo ceticismo de que ele conseguirá segurar a pressão do presidente para intervir nos preços em ano eleitoral .

A confirmação da saída de Silva e Luna, que já era dada como certa há pelo menos 10 dias em Brasília, como mostrou o Estadão no dia 17 de março, coincidiu com a decisão tomada no mesmo dia em que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, entregou o cargo ao presidente.

Ribeiro é investigado por suspeita de envolvimento com pastores que cobravam propina para intermediar recursos para escolas, como revelou o Estadão. Essa tentativa de tirar o foco de uma notícia negativa é uma estratégia já usada pelo presidente Bolsonaro em outros momentos de pressão ao longo dos mais de três anos de mandato na Presidência.

Os nomes de Pires e Landim precisam ser aprovados pela assembleia de acionistas no dia 13 de abril. O mandato do atual presidente da Petrobras vai até março de 2023, mas isso não impede a substituição. Com a queda, Luna e Silva deve deixar de ganhar um salário anual em torno de R$ 2,9 milhões (R$ 223 mil por mês), segundo dados do Ministério da Economia. De acordo com as regras atuais, o presidente da estatal pode receber até 13 salários de bônus caso todas as metas sejam atingidas.

O desconforto do presidente com a alta de preços e a falta de ação atribuída à Petrobras pavimentou a queda de Silva Luna. O general da reserva do Exército foi alçado à presidência da Petrobras em abril do ano passado no lugar de Roberto Castello Branco com a expectativa de aliados de que faria mudanças na política de preços.

Bolsonaro se irritou com com Silva e Luna pelo 'timing' no anúncio do mega-aumento dos combustíveis neste mês. A Petrobras pratica a chamada paridade de preços, ou seja, paga pelo produto o preço cobrado no mercado internacional e, por isso, repassa eventuais altas para refinarias, o que leva ao aumento de preços para o consumidor final.

Na quinta-feira, 10, diante do aumento na cotação do petróleo no mercado internacional, reflexo da guerra na Ucrânia, a Petrobras anunciou reajuste de 18,8% para a gasolina e de 24,9% para o diesel.

No dia seguinte, o Congresso aprovou e Bolsonaro sancionou um projeto que faz alterações na tributação sobre os combustíveis para tentar aliviar a alta de preços. Para Bolsonaro, o impacto da aprovação do projeto foi "mitigado" porque a Petrobras fez o anúncio do mega-aumento antes.

"Olha só, eu tenho uma política de não interferir. Sabemos das obrigações legais da Petrobras e, para mim, particularmente falando, é um lucro absurdo que a Petrobras tem num momento atípico no mundo. Então, não é uma questão apenas interna nossa", disse Bolsonaro, no sábado. "Então, falar que eu estou satisfeito com o reajuste? Não estou satisfeito com o reajuste, mas não vou interferir no mercado", completou o presidente.

Se confirmada pelo conselho, esta será a segunda vez que Bolsonaro muda o comando da Petrobras. Em fevereiro do ano passado, o presidente demitiu Roberto Castello Branco, também em um momento em que o preço dos combustíveis impactava sua popularidade.

Cronologia

  • 8 de janeiro - Em entrevista ao Estadão, Silva e Luna disse que os preços dos combustíveis não podem ser gerenciados pelo governo. “O que regula o preço é o mercado”, afirmou. “Ainda há pessoas que consideram, por desinformação ou outro motivo, que a Petrobras deva ser responsável pela redução de preço. Ela não tem condições de fazer isso.”
  • 3 de fevereiro - Em evento da a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), Silva e Luna afirmou que a estatal precisava praticar preços de mercado e se comportar como uma empresa privada, até porque não conseguia atender todo o mercado brasileiro de combustíveis com suas refinarias, que operam com ociosidade de cerca de 20%.
  • 7 de março - Com os preços do combustíveis já defasados no mercado interno, Bolsonaro defendeu rever política de preços da Petrobra. "Se repassar tudo, aumento será de 50%", disse afirmou o presidente em entrevista à Rádio Folha de Roraima. Ações da estatal caem 7% no mesmo dia.
  • 10 de março - A Petrobras anuncia um aumento no preço da gasolina em 18,8% e do gás de cozinha em 16,1%; diesel sobe 24,9%, o que aumenta ainda mais o desgaste de Luna e Silva.
  • 15 de março - Descontente, Bolsonaro era aconselhado pelos principais ministros a manter Silva e Luna à frente da Petrobras para não fazer uma troca "sem efeito algum". Dias antes, o vice-presidente, Hamilton Mourão, com quem Bolsonaro mantém hoje uma relação distante, disse que Silva e Luna "aguentaria a pressão" e ficaria no cargo.
  • 16 de março -  Bolsonaro diz que soube com antecedência de megarreajuste de preços, o que contraria as diretrizes da empresa e sua relação com o mercado.
  • 17 de março -  O presidente começa a procurar nomes para substituir Silva e Luna, mas trata de despistar. “Não posso nem vou interferir na Petrobras. No governo do PT, muita coisa errada foi feita na Petrobras”, afirmou o presidente durante o lançamento do Programa Renda e Oportunidade.
  • 21 de março - Em entrevista à Jovem Pan, presidente negou interferência na Petrobras. No mesmo dia,  Bolsonaro abandonou uma entrevista coletiva improvisada em frente ao Palácio da Alvorada ao ser questionado se pretende trocar o comando da empresa.
  • 28 de março - Bolsonaro decide demitir Silva e Luna.

     

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Adriano Pires já criticou populismo e disse que Brasil deveria torcer por petróleo a US$ 200

Novo presidente da Petrobras tem argumentos vão na linha oposta do que defende a equipe de Guedes; Pires é a favor de usar dividendos da estatal para criar um fundo de estabilização que proteja o mercado doméstico de grandes flutuações internacionais

Célia Froufe, Marlla Sabino e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 20h27

BRASÍLIA e RIO - Personagem há muito conhecido no setor de energia e que sempre orbitou em torno da Petrobras, Adriano Pires foi confirmado nesta segunda-feira, 28, como indicação do presidente Jair Bolsonaro para ser o novo presidente da estatal, substituindo Joaquim Silva e Luna. O presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), e articulista do Estadão, já foi sondado outras vezes para cargos de menor escalão na Petrobras e também teve seu nome entre os apontados para chefiar o Ministério de Minas e Energia (MME) já no atual governo.

De fala fácil e muito contundente, é difícil imaginar como será o trabalho de Pires dentro da estatal, depois que dois presidentes já deixaram o cargo após a insatisfação notória de Bolsonaro em relação à política de preços da empresa. Não só porque Pires já criticou diversas vezes as tentativas de mudar essa política, chamando-as de populistas, mas, principalmente, porque seus argumentos vão na linha oposta do que defende a equipe econômica liderada por Paulo Guedes

Pires, por exemplo, se diz favorável ao uso de dividendos da Petrobras para criar um fundo de estabilização que proteja o mercado doméstico de períodos de grandes flutuações dos preços internacionais - como no momento, em função da invasão da Ucrânia pela Rússia. Ele já defendeu também a possibilidade de se conceder subsídios em períodos de crise, instrumento que a equipe econômica praticamente em coro refuta, alegando que se tratariam de benefícios para a classe média e média alta do País, quando são os mais pobres os mais necessitados.

Ainda sobre o mercado internacional, Pires já chegou a defender que o preço do barril fosse cotado no dobro do nível atual, em torno de US$ 100. "A gente deveria torcer para o petróleo ir a U$ 200 porque o petróleo passou a ser uma grande fonte de arrecadação para o Brasil", argumentou o presidente do CBIE há um mês, durante uma live realizada pela FPE Debate.

Pelo raciocínio exposto pelo agora novo presidente da Petrobras, o Brasil estaria agora "no mesmo time" da Arábia Saudita, um grande produtor e que fez sua riqueza por meio do petróleo. A saída para minimizar para o consumidor os impactos diretos nos preços da gasolina e do botijão de gás, segundo ele, seria separar parte desse aumento de receitas. "Aí a gente teria que pegar o dinheiro dessa arrecadação e fazer política pública para enfrentar esses momentos que são muito momentâneos e são períodos de excepcionalidade."

Formado em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro nos anos 1980, Pires tem mestrado em planejamento energético e doutorado em Economia Industrial pela Université de Paris. Nos anos 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foi superintendente na recém-criada Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No ano 2000, criou com sócios o CBIE, especializado em consultoria do setor de petróleo e gás natural.

Com mais de 40 anos de experiência no setor de energia, Pires teve uma forte atuação na criação de um mercado livre de gás natural no Brasil e sempre foi favorável ao mercado livre de energia, o que leva a crer que dificilmente o economista acabaria com a política de paridade de preços de importação (PPI), alvo das maiores críticas de Bolsonaro.

Segundo a Ativa Investimentos, o nome de Pires agrada o mercado justamente por este perfil técnico, e que não romperia com as transformações operacionais e financeiras que vêm sendo executadas na companhia desde a metade da década passada.

"Embora a decisão seja igual à tomada um ano atrás, quando o Executivo decidiu não reconduzir Castello Branco e indicar o general Silva e Luna à presidência da Petrobras, os desdobramentos do fato para as ações de hoje se deram de forma bem mais contidos. Isto acontece pela hora pela qual a notícia foi divulgada e pelo mercado já trabalhar há semanas com a possibilidade da mudança ser executada", disse o analista da Ativa Ilan Arbetman.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Leia os artigos de Adriano Pires, novo indicado do governo para comandar a Petrobras

Atual diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pires foi indicado pelo governo para substituir Silva e Luna no comando da Petrobras

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 21h13
Atualizado 29 de março de 2022 | 11h24

O economista Adriano Pires, indicado pelo governo federal para a presidência da Petrobras, já deixou claro, em artigos publicados no Estadão, onde é colunista, ser favorável à adoção de um fundo de estabilização para reduzir os preços dos combustíveis e ajudar, principalmente, a população de baixa renda. 

“O aumento do preço do petróleo e de todas as demais fontes de energia já vem trazendo elevação da inflação e, consequentemente, alta nas taxas de juros. O mais grave é que as grandes vítimas disso são as camadas de baixa renda da sociedade”, escreveu, em 19 de fevereiro.

Segundo Pires, o fundo de estabilização poderia ser criado usando, “por dois anos, os recursos do próprio setor de petróleo, como os dividendos da Petrobras e os royalties”. Esse dinheiro seria utilizado para reduzir os preços em momentos emergenciais. A criação de um fundo de estabilização foi aprovada no Senado, mas está parada na Câmara. 

Nesse aspecto, Pires vai contra o Ministério da Economia. Para a equipe econômica, a conta de estabilização é “inefetiva e cara”. Antes da aprovação do projeto no Senado, fontes ouvida pelo Estadão/Broadcast diziam que o fundo é de difícil implementação e, ainda que fosse possível um aporte pela União, o valor teria pouca eficácia para reduzir o preço de combustíveis, que é ditado pelo mercado.

Em artigo publicado em 5 de fevereiro, Pires escreveu também que o fundo de estabilização seria uma solução de longo prazo. “No curto prazo precisamos ter um ICMS reais/litros calculado com prazos mais longos do que os atuais 15 dias; no médio prazo, esperar a valorização do real ante o dólar; e no longo prazo, ter um fundo de estabilização ou um novo imposto como política estrutural de redução da volatilidade”.

Ele ressaltou a importância do câmbio para a formação dos preços. “Para ter uma ideia da importância do câmbio, caso a taxa de câmbio hoje fosse R$ 4,50, os preços da gasolina e do diesel seriam reduzidos em algo como 14%. Primeira conclusão: a taxa de câmbio tem sido uma grande vilã, igual ou pior do que o preço do petróleo.” 

Levando-se isso em consideração, ele pode assumir a Petrobras em um momento mais favorável. No início de fevereiro, a moeda americana estava cotada por volta dos R$ 5,30. Nesta terça-feira, 29, a cotação é de R$ 4,74, bem mais próximo dos R$ 4,50.

Veja a seguir alguns textos de Adriano Pires publicados no Estadão.

Tudo o que sabemos sobre:
PetrobrásAdriano Pires

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.