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Mudanças importantes na indústria de aviação

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 03h00

O primeiro voo transatlântico completou, em junho deste ano, 100 anos. Conforme vimos aqui, John Alcock (1892-1919) e Arthur Brown (1886-1948) levaram 16 horas para ir da Terra Nova (Canadá) até a Irlanda. Cerca de vinte anos depois desse feito, os primeiros voos transatlânticos comerciais foram feitos pelos B-314 da Boeing, também conhecidos como “barcos voadores” (pois os pousos e decolagens ocorriam na água). O voo de Southampton (Inglaterra) para Nova Iorque (EUA) levava cerca de 30 horas e fazia três escalas.

O Douglas DC-4 (fabricado pela Douglas Aircraft Company em 1921, que em 1967 fundiu suas operações com a McDonnell Aircraft formando a McDonnell Douglas, que por sua vez tornou-se parte da Boeing em 1997) foi o primeiro avião a levar passageiros regularmente em voos transatlânticos: em 14 horas, você podia ir de Nova Iorque a Bournemouth (Inglaterra), com duas escalas. A inovação seguinte - a introdução do motor a jato no início da década de 1950 - reduziu os tempos de voo de forma significativa, popularizando definitivamente a aviação comercial de passageiros. Era possível voar de Nova Iorque a Paris em pouco mais de oito horas. Desde então, o tempo para chegar ao destino tanto dos voos regionais quanto internacionais não apresentou reduções significativas - exceto pelo uso, entre 1976 e  2003, do Concorde (fabricado pela estatal francesa Aerospatiale e pela British Aircraft Corporation). Essa extraordinária aeronave atingia velocidades supersônicas e tipicamente reduzia à metade o tempo de voo gasto por outros tipos de aviões.

Mas o custo para o meio ambiente de levar pessoas de um lugar para outro - seja de carro, caminhão, trem, navio ou avião - é elevado. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA - Environmental Protection Agency), o setor de Transportes respondia, naquele país, por praticamente 30% das emissões de gases de efeito estufa em 2017, com mais de 90% do combustível utilizado ainda sendo baseado em petróleo (como a gasolina ou o diesel).

Diversas medidas estão sendo estudadas para reduzir o impacto ambiental da indústria aeronáutica: utilização de materiais mais leves, introdução de novos tipos de combustíveis, atualização de rotas de voo em tempo real baseadas em segurança e otimização de consumo, instalação de painéis solares em grandes aeroportos (cujo consumo de energia diária equivale ao de uma cidade de cem mil habitantes) e modificações na aerodinâmica das aeronaves. A instalação de winglets - pequenas estruturas nas extremidades das asas - permitiu uma redução de aproximadamente 6% no consumo de combustível por voo, e estudos de novos layouts para as aeronaves (como o BWB - Blended Wing Body, algo como “Mistura de Asa e Fuselagem”) prometem reduções de peso de quase 15% e de utilização de combustível de quase 30%.

Mas há propostas mais arrojadas sendo discutidas. Voos de longa duração ou com elevado fluxo de passageiros podem ter, nas próximas décadas, suas rotas alteradas para passar pelo espaço. Certamente, há justificativas econômicas para isso, levando-se em consideração a quantidade de passageiros e o custo associado às viagens aéreas, bem como a substancial redução no tempo de voo - potencialmente tornando qualquer distância passível de ser coberta em uma ou duas horas. Evidentemente que antes disso acontecer, a segurança de voos que ultrapassem a linha de Kármán ainda precisa melhorar muito, com drástica redução nos problemas experimentados em todos os estágios da operação. 

Outra ideia com ares de ficção científica mas que está sendo considerada de forma prática é o “turismo espacial”. Em 2001, o mundo conheceu o primeiro turista espacial: por US$ 20 milhões, o multimilionário norte-americano Dennis Tito chegou à Estação Espacial Internacional (ISS) em uma cápsula da Soyuz. Os outros seis “turistas” tiveram suas experiências ao longo da primeira década deste século, mas desde 2009 não há mais vagas para amadores nos voos para ISS. A Virgin Galactic (de Richard Branson) já vendeu mais de setecentas passagens (entre duzentos e duzentos e cinquenta mil dólares cada) para futuros voos de seis passageiros que irão experimentar a sensação de gravidade zero e uma vista espetacular do nosso planeta, antes de retornar ao solo. A Blue Origin (de Jeff Bezos) também deve oferecer voos desta natureza em mais algum tempo.

Mas se por um lado a popularização do transporte de passageiros pelo espaço - seja como uma forma de inovação no mercado de aviação, seja como uma nova modalidade de turismo - ainda deve levar alguns anos para ocorrer, o mesmo não pode ser dito da revolução causada pelos nanossatélites na economia aqui embaixo. Esse será o tema de nossa próxima coluna. Até lá.

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