Beto Nociti/Banco Central
Beto Nociti/Banco Central

Mercado já prevê recessão em 2022 e taxa de juros ainda mais alta

Com a perspectiva de juros ainda mais altos e desmonte da regra do teto de gastos, bancos e consultorias falam em resultado negativo para o PIB; Itaú vê queda de 0,5%

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 19h57

Em meio a um cenário de alta dos juros e da tentativa de mudança do teto de gastos, que hoje representa a principal âncora fiscal do País, o mercado já não descarta a possibilidade de estagnação ou mesmo de um resultado negativo do PIB em 2022. Em relatório divulgado na segunda-feira, 25, a consultoria MB Associados reduziu sua projeção de 0,4% para zero. Já o Itaú Unibanco fala em queda de 0,5%, ante a estimativa anterior de crescimento de 0,5%.

Estimativas negativas também já aparecem no relatório Focus, uma compilação do Banco Central com as apostas do mercado para os principais indicadores do País. No relatório de segunda, a mediana para o PIB em 2022 recuou de 1,5% para 1,4% – quatro semanas atrás, estava em 1,57%. Mas, pela primeira vez, o piso das projeções foi de queda de 0,3%.

A mudança de direção ocorre depois das manobras do governo para rever a regra do teto de gastos e, com isso, abrir mais espaço para despesas em 2022 – quando o presidente Jair Bolsonaro vai disputar a reeleição. O governo diz que a mexida é necessária para assegurar o pagamento de R$ 400 por meio do Auxílio Brasil. O risco de descontrole de gastos, porém, levou os bancos a prever um aumento no ritmo de alta da Selic.

“Embora a discussão sobre dominância fiscal pareça exagerada no momento, é verdade que, sem uma âncora fiscal crível, a tarefa do BC de manter a inflação na meta se torna mais difícil”, afirma relatório assinado pelo economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita.

De acordo com o Itaú, o aumento da incerteza fiscal vai implicar risco país mais alto, maior depreciação do real, piores perspectivas para a inflação e, em última instância, uma taxa de juros neutra mais alta. 

“A política monetária funciona bem quando existe uma âncora fiscal. Com o presidente e o Congresso atuando em conjunto na direção do gasto e um ministro da Economia ausente, a âncora desaparece”, escreveu o economista-chefe da MB, Sergio Vale, que assina o documento.

Projeção

A Pesquisa do Projeções Broadcast indica que, de 42 consultorias e bancos consultados, 37 apostam em alta entre 1,25 e 1,5 ponto porcentual para a Selic, que hoje está em 6,25% ao ano, com repercussões negativas para a retomada do nível de atividade do País. O resultado será divulgado nesta quarta-feira, 27, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central

Esta é a aposta, por exemplo, de Bradesco, SulAmérica Investimentos e Credit Suisse. Mas casas como Itaú Unibanco, XP Investimentos e BNP Paribas esperam alta ainda maior – de 1,5 ponto, o levaria a taxa básica de juros para 7,75% ao ano. A sondagem mostrou ainda que o grosso do mercado já vê uma Selic de dois dígitos até meados do próximo ano, quando se prevê o fim do atual ciclo de aumentos. Neste caso, as projeções vão de 10% a até 12%. 

O pano de fundo para a piora das expectativas é a tentativa de governo e Congresso de mudar a regra do teto de gastos, que limita as despesas públicas à inflação. A alteração vai liberar cerca de R$ 83,6 bilhões do Orçamento do próximo ano, o que abre a possibilidade de aumentar o pagamento de benefícios sociais como o Auxílio Brasil e de emendas de parlamentares em pleno ano eleitoral.

“Há necessidade de uma postura mais ‘hawkish’ (jargão para se referir aos defensores de juros mais altos) do BC para coordenar as expectativas de inflação de 2022, tendo essa preocupação com a pressão no câmbio”, avalia o economista sênior do Banco MUFG Brasil, Mauricio Nakahodo, que elevou de 1 para 1,25 ponto a projeção de alta na Selic. Sua expectativa para o fim do ciclo subiu de 8,50% para 10,25%, taxa a ser atingida em março do ano que vem.

Nakahodo diz que há agora o risco adicional de movimentações no Congresso para outros gastos extrateto, algo que minaria ainda mais a credibilidade fiscal, impactaria o câmbio e exigiria reação mais intensa da política monetária.

Para o economista-sênior do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier, a saída de quatro secretários do Ministério da Economia referendou uma mudança de conduta do governo em relação ao teto de gastos e aumentou a presença de um risco fiscal nos cenários avaliados pelo Copom. O economista passou a prever três aumentos de 1,5 ponto porcentual da Selic a partir de outubro, que levariam os juros a 10,75% no fim do ciclo, em fevereiro. “Essa mudança de regime traz um risco de desancoragem substancial, caso não se observe uma reação do BC”, afirma Xavier.

“Entendemos que o Copom entrará em regime de contenção de danos e aumentará a taxa Selic em 1,5 ponto porcentual, para 7,75% ao ano em sua próxima reunião (nesta quarta-feira), seguido de outro aumento de 1,5 ponto na reunião de dezembro, e encerrará o ciclo com duas altas adicionais de 1,0 ponto porcentual, a 11,25% ao ano”, afirma o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita

/ Cícero Cotrim, Maria Regina Silva, Renata Pedini, Guilherme Bianchini, Cícero Cotrim e Mariana Gualter

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