Julien de Rosa/Reuters
Julien de Rosa/Reuters

'O presidente falou mesmo, e a mulher (do Macron) é feia mesmo', diz Guedes

Mais tarde, em comunicado, o ministro pediu desculpas pela fala; Guedes reclamou do que chamou de excesso de atenção para as falas e os 'modos' de Jair Bolsonaro

Idiana Tomazelli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 16h33
Atualizado 05 de setembro de 2019 | 22h29

FORTALEZA – O ministro da Economia, Paulo Guedes, reclamou do que chamou de excesso de atenção para as falas e os “maus modos” do presidente Jair Bolsonaro, enquanto, segundo ele, o País tem tido progressos na área econômica. Ele reconheceu que Bolsonaro chamou a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, de feia e concordou com a afirmação. “A mulher é feia mesmo”, disse. Mais tarde, em comunicado, o ministro pediu desculpas pela fala.

A declaração de Guedes arrancou risos da plateia de empresários em um evento em Fortaleza, promovido pelo portal Poder360 e pelo grupo de comunicação Jangadeiro. Em seguida, o ministro disse que “não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado”. Antes, Guedes havia ironizado a imprensa, dizendo que os “maus modos” do presidente são retratados como “ruídos”.

Ele defendeu o jeito espontâneo do presidente. Segundo Guedes, há políticos com "bons modos" e "péssimos princípios". O ministro respondia a uma pergunta da plateia de empresários do Nordeste. O questionamento era se o jeito de Bolsonaro criava uma espécie de cortina de fumaça para que os demais integrantes do governo trabalhassem. "Se fosse uma técnica, seria genial", disse Guedes, arrancando risos da plateia.

O ministro, em seguida, explicou que esse era o jeito do presidente. Para Guedes, o fato de ele ter sido sempre assim e ter conquistado quase 60 milhões de votos na última eleição mostra que os brasileiros "demandavam" esse tipo de autenticidade.

Guedes citou uma série de avanços, segundo ele, nas privatizações, reforma da Previdência e no mercado de gás brasileiro. Porém, para ele, os holofotes são direcionados a outros temas. “Estou vendo progressos, mas a preocupação é com o pai da Bachelet e com a mulher do (Emmanuel) Macron”, disparou o ministro.

O ministro acredita que as críticas deveriam se voltar ao presidente da França, pois Macron “está querendo fazer uma intervenção porque chamaram a mulher dele de feia. Olha só que coisa horrível. Quer dizer que se alguém chamar sua mulher de feia você pode fazer uma intervenção internacional em quem chamou sua mulher de feia?”.

Após o evento, quando falava que o Brasil desejava receber investimentos chineses, americanos, franceses e de outros países, o ministro foi questionado se a fala sobre a primeira-dama francesa não provocaria mal-estar. “O que que eu tenho a ver com a opinião (de Bolsonaro) sobre a primeira-dama francesa?”, disse.

Sobre sua própria declaração concordando com o presidente, Guedes devolveu a pergunta, questionando se o jornalista estava ali minutos antes. “Você viu que nós estávamos brincando, nos divertindo, falando que o presidente é uma pessoa com bons princípios e às vezes na forma de falar ele extrapola, brinca.”

O ministro disse também que “é mentira” que o Brasil esteja queimando suas florestas. As queimadas na Amazônia colocaram o País na mira das críticas internacionais e foram o pano de fundo para a troca de farpas entre Macron e Bolsonaro.

“Falaram que nós estamos queimando a floresta. Isso é mentira. Quem sabe ele brincou e falou assim... Ah, entendeu, eu não vou justificar nada, só estou dizendo o seguinte. Somos brasileiros, falaram que estamos queimando a floresta, quando a média de incêndios está exatamente a mesma há 15 anos. Então por que estão dizendo que ele está queimando a floresta?”, disse o ministro.

Pedido de desculpas

Quase cinco horas depois da fala sobre a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, o Ministério da Economia divulgou um pedido público de desculpas. Segundo a pasta, o ministro fez uma “brincadeira” durante palestra para empresários em Fortaleza.

“O ministro Paulo Guedes pede desculpas pela brincadeira feita hoje em evento público em Fortaleza (CE), quando mencionou a primeira-dama francesa, Brigitte Macron”, diz a pasta em nota à imprensa. “A intenção do ministro foi ilustrar que questões relevantes e urgentes para o País não têm o espaço que deveriam no debate público. Não houve qualquer intenção de proferir ofensas pessoais”, afirma o comunicado.

Mais cedo, Guedes reclamou do que chamou de excesso de atenção para as falas e os "modos" do presidente Jair Bolsonaro, enquanto, segundo ele, o País tem tido progressos na área econômica.

Relembre

Em um post no Facebook em que falava da Amazônia, um dos seguidores da página do presidente postou uma montagem com duas fotos. Na imagem de cima, Brigitte Macron aparece atrás do marido e, na de baixo, o Bolsonaro aparece com a primeira-dama brasileira, Michelle Bolsonaro, à frente. Ao lado das fotos, há um texto dizendo “Entende agora pq Macron persegue Bolsonaro?” A página do presidente da República respondeu ao seguidor com “não humilha cara. kkkk

Brigitte Macron, de 66 anos, é mulher do presidente francês Emmanuel Macron, de 42 anos. Os dois se conheceram quando Brigitte tinha 39 anos e Macron, 15 - ela era professora dele. O casal está junto há 12 anos.

O presidente francês lamentou os comentários "extremamente desrespeitosos" de Bolsonaro  sobre sua mulher e disse que espera que os brasileiros tenham rapidamente um presidente que "se comporte à altura" do cargo

Caso Bachelet

A ex-presidente do Chile e atual alta-comissária para Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, em entrevista em Genebra, na Suíça, havia dito que o “espaço democrático” no Brasil estava encolhendo. “Nos últimos meses, observamos (no Brasil) uma redução do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições impostas ao trabalho da sociedade civil.”

Em resposta, Bolsonaro atacou a alta-comissária e o pai dela, Alberto Bachelet, que foi morto pela ditadura de Augusto Pinochet. “(Bachelet) Investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos)”. Disse ainda que o Chile “só não é uma Cuba” por causa do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende em 1973, e que “deu um basta à esquerda” no país, “entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época”, referindo-se a Alberto Bachelet. Michelle também foi torturada no regime Pinochet.

As declarações tiveram repercussão na imprensa chilena. E até o presidente chileno, Sebastián Piñera, aliado de Bolsonaro, disse que não compartilha da “alusão feita a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, num assunto tão doloroso quanto a morte de seu pai”.

A diplomacia chegou a discutir a divulgação de um comunicado, mas, diante do amplo rechaço de setores de esquerda e direita no Chile, Piñera optou por um pronunciamento. “É de público conhecimento meu compromisso permanente com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em todo tempo, lugar e circunstâncias”, disse.

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