Amanda Perobelli/Reuters
Wilson Ferreira Junior, CEO da Eletrobras Amanda Perobelli/Reuters

'Para reforçar a mensagem de capitalização, Bolsonaro deve se envolver', diz Wilson Ferreira Júnior

Presidente da Eletrobrás renunciou ao cargo no domingo; em coletiva, Ferreira Júnior disse que faltou 'aumentar a capacidade de investimentos da estatal' e que sempre teve o apoio de Paulo Guedes e Bento Albuquerque

Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2021 | 23h46
Atualizado 25 de janeiro de 2021 | 19h48

RIO - Diante da dificuldade para aprovar a capitalização da Eletrobrás, o presidente da estatal, Wilson Ferreira Júnior., renunciou na noite de domingo, 24, ao cargo. Nesta segunda, 25, o executivo confirmou a sua ida para a presidência da BR Distribuidora, no lugar de Rafael Grisolia. Ferreira Júnior vai, porém, permanecer no Conselho de Administração da companhia de energia e se comprometeu a ficar no comando da empresa até 5 de março. A data da entrada na BR, porém, vai depender de se terá que cumprir quarentena, como ocorre com todo servidor público que vai para uma empresa privada. Em alguns casos, o período pode ser de até seis meses.

"O que ficou faltando fazer na Eletrobrás foi aumentar a capacidade de investimentos. Se eu não consigo ter uma perspectiva para o processo acontecer, a minha função fica perdida", disse a jornalistas em entrevista online, avaliando que o seu sucessor pode vir da própria empresa. “Temos quadro para isso”, afirmou. Ele informou, no entanto, que a administração da companhia pretende avaliar outros profissionais no mercado, por meio da contratação de uma consultoria de headhunter.

Ferreira Júnior assumiu a presidência da Eletrobrás em 2016, com a missão de capitalizar a principal holding do setor elétrico. A companhia é responsável por 40% da geração de energia elétrica do País e quase metade das linhas de transmissão. Na época, a empresa registrava alto endividamento e sucessivos prejuízos, o que foi revertido pelo executivo. ao longo das mudanças visando à capitalização.  O quadro de empregados foi reduzido: saiu de  26 mil pessoas para 12 mil em 2020.

O projeto de lei de capitalização da Eletrobrás enfrentou desde o início a resistência de parlamentares. Sofreu novo revés no fim da semana passada. Foi quando o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que concorre à presidência do Senado, afirmou que a venda da empresa não era prioridade da Casa. Diante do impasse, Ferreira Júnior. afirmou em coletiva online, horas após a renúncia, que o processo se tornará ainda mais difícil nos próximos anos, com a proximidade das eleições.

O executivo afirmou ter tido o apoio dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque. Destacou, porém, que para o processo avançar seria desejável maior participação do presidente Jair Bolsonaro. "Para ter o reforço dessa mensagem (de capitalização), é importante que Bolsonaro se envolva", afirmou.

A politização da venda da Eletrobrás foi o principal fator da saída de Ferreira Júnior, na opinião do professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudo do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo ele, a fragilidade política do governo está impedindo a venda da estatal, e a vaga deixada por ele deve ser ocupada por algum membro do Centrão. O grupo parlamentar, conservador e de baixa nitidez ideológica, se aproximou mais do governo no ano passado.

“Ele (Ferreira Júnior) percebeu que o cenário de privatização é só o campo político, que ele não domina; quem entrar não vai levar a privatização à frente porque perde apoio político", explicou o pesquisador. Para ele, o ministério da Economia, que apoiava a venda, também está fragilizado e sem um programa para seguir.

Para Castro, o fato de a privatização ter entrado na esfera política indica que não será levada adiante, "à medida da própria fragilidade do governo, que vai ter que buscar apoio, fazer alianças".

Para a economista, advogada e sócia do Sérgio Bermudes Advogados, Elena Landau, o processo de privatização da Eletrobras começou errado e a saída de Wilson não muda nada no processo. Ex-diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ela avaliou que o principal erro foi dar ao Congresso o poder de escolher o modelo de capitalização. Agora, ela avalia que a venda ou será enterrada ou o governo vai pagar caro para pela aprovação dos parlamentares.

"O processo foi errado desde o início, porque deu ao Congresso Nacional o poder de definir o modelo, isso nunca aconteceu na privatização. Só tinha que pedir ao Congresso para incluir de volta no PND (Programa Nacional de Desestatização), não tem que discutir tudo com o Congresso", disse Landau.

A notícia da renúncia pegou o mercado de ações em pleno feriado do aniversário de São Paulo. As ações já haviam caído na sexta-feira com a declaração de Pacheco, mas podem perder mais na abertura do pregão de terça-feira.

"É mais uma notícia bem negativa e no cômputo, no olhar frio, tende a pesar negativamente para o papel. O fluxo de notícias tem sido bem desafiador para a Eletrobrás e vai precisar de uma visão de muita boa vontade e de longo prazo para o investidor, porque vamos ter volatilidade no curto prazo", disse o analista técnico da Ativa Investimentos, Marcio Loréga.

A saída do executivo fez os papéis da empresa despencarem na Bolsa de Nova York. As ADRs (recibos de ações) dos papéis ON da Eletrobrás fecharam com queda de 11,76% em Nova York, a quinta maior da Bolsa americana, após chegaram a cair quase 15%. As ADRs dos papéis preferenciais recuaram 8,5%. Nos últimos cinco dias, os ADRs da estatal acumulam queda de 23,5% em Wall Street.

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Wilson Ferreira Junior vai assumir presidência da BR Distribuidora

Executivo vai deixar comando da Eletrobrás no dia 5 março; notícia da renúncia ao cargo não foi bem recebida pelo mercado, pelo entendimento de que este é um sinal de que a venda do controle da estatal está mais distante

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 11h24
Atualizado 25 de janeiro de 2021 | 19h04

O executivo Wilson Ferreira Junior, que anunciou no domingo, 24, sua saída do comando da Eletrobrás a partir de 5 de março, vai presidir a BR Distribuidora, no lugar de Rafael Grisolia. O anúncio formal de sua contratação será feito pela maior distribuidora de combustíveis do País ainda nesta segunda-feira, 25, em fato relevante.

Ferreira Junior estava desde 2016 na Eletrobrás e era um grande defensor de sua privatização. No mercado, sua saída não foi bem recebida, pelo entendimento de que este é um sinal de que a venda do controle da estatal à iniciativa privada está ainda mais distante. As ações da estatal registram forte queda em Nova York. No Brasil não há negociação nesta segunda na B3, por causa do feriado em São Paulo.

A BR Distribuidora, que tem a Petrobrás como principal acionista, foi privatizada há dois anos, quando a petroleira vendeu, em dois momentos, sua participação em oferta na bolsa de valores. A Petrobrás deverá, ainda no primeiro semestre do ano, vender uma fatia adicional da BR, também por meio de uma oferta na bolsa. Hoje, ela possui uma fatia de aproximadamente 37%.

A escolha de Ferreira Junior para a BR foi com o olhar na reestruturação da companhia, algo visto como natural após sua privatização. Um dos desafios será conduzir a empresa para uma menor dependência dos combustíveis fósseis. 

Em fato relevante divulgado pela Eletrobrás no fim da noite de domingo, a empresa citou que o executivo renunciou alegando motivos pessoais. Ainda não há um sucessor indicado.

O anúncio da renúncia de Ferreira chamou ainda mais atenção porque ocorreu dias depois de o candidato à  presidência do Senado apoiado pelo governo Bolsonaro, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), dizer que a privatização da Eletrobrás não seria um foco da sua gestão.

A BR contratou em agosto do ano passado a consultoria de recursos humanos Egon Zehnder para a busca de um substituto a Grisolia, executivo que ajudou a conduzir a abertura de capital da BR. O convite a Ferreira, comentou uma fonte próxima à companhia, foi feito em dezembro do ano passado e prontamente aceito pelo executivo. 

A reunião da Comissão de Ética Pública (CEP) que analisará se existe conflito para a ida de Ferreira à BR e que definirá se será preciso o cumprimento de quarentena está marcada para a quinta-feira, dia 28. Os planos iniciais da BR era de fazer o anúncio da contratação do executivo apenas no dia seguinte, na sexta-feira. 

A contratação de Ferreira contou com o apoio da Petrobrás, que tem pressa para vender  mais uma fatia que possui na BR. Um dos entraves até aqui para a venda é o preço da ação. A Petrobrás só fará esse desinvestimento quando o papel estiver acima de sua última venda, em 2019, ou seja, R$ 24,50. Na última sexta-feira, a ação da BR estava em R$ 20,90.

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Governo diz que saída de presidente da Eletrobrás não altera agenda de 'desestatizações'

Wilson Ferreira Júnior, que renunciou ao cargo, continuará no conselho de administração da empresa

Marlla Sabino e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 14h24

BRASÍLIA - O presidente da Eletrobrás, Wilson Ferreira Júnior, continuará no conselho de administração da empresa mesmo após deixar a direção da companhia, informou em nota o Ministério de Minas e Energia (MME) nesta segunda-feira, 25. O comunicado afirma que o executivo continuará "dando sua contribuição para a melhoria da gestão e governança da empresa". Ele renunciou ao cargo na noite de domingo, 24, alegando motivos pessoais e ficará no posto até 5 de março. 

O Ministério da Economia também se manifestou. Em nota, reiterou que a agenda de “desestatizações” vai continuar. “Considerando que ele está à frente da Eletrobrás há quase cinco anos, a pasta é grata pelos serviços prestados e segue com o programa de desestatizações do governo. Em nada, isso interfere.”  

Ferreira Júnior estava à frente da Eletrobrás desde julho de 2016, quando foi nomeado pelo então presidente Michel Temer. Convidado para tocar uma agenda de redução de custos e de melhoria de gestão, ele é um dos principais defensores da proposta de privatização da estatal.

A venda de empresas públicas foi uma das promessas de campanha de Bolsonaro, mas, até agora, ela não avançou e enfrenta resistência no Congresso. Uma proposta foi enviada ao Congresso em novembro de 2019, mas está parada desde então - não há relator nem comissão especial.

Ao comentar a saída do executivo, o MME evitou usar a palavra “privatização” e optou por “capitalização”, ou seja, a venda de ações na Bolsa com a consequente redução na participação da União no controle. A pasta informou ainda que a agenda de redução de custos e de aprimoramento da estratégia de sustentabilidade da Eletrobras será mantida.

“O governo federal entende que a capitalização da Eletrobrás é essencial e necessária para a recuperação de sua capacidade de investimento. Com a capitalização, a Eletrobrás se tornará uma corporação brasileira de classe mundial, com capital pulverizado, focada em geração, comercialização e transmissão de energia elétrica, tornando-se uma das maiores empresas de geração renovável do mundo”, diz a nota do MME. 

O anúncio da renúncia do executivo aconteceu três dias depois de o candidato à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), sinalizar, em entrevista ao Estadão/Broadcast, que a privatização da Eletrobrás não seria prioridade em sua gestão e que era contra o “entreguismo sem critério”. Ele declarou que não se comprometeria com prazos e que é um processo de longo e apurado estudo. 

Após as declarações de Pacheco, que tem apoio do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e conta com a simpatia de Bolsonaro na disputa, as ações da companhia despencaram no mercado. O presidente Jair Bolsonaro não falou sobre o tema e os ministros do MME, Bento Albuquerque, e da Economia, Paulo Guedes, também não se pronunciaram.

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