Werther Santana/Estadão
Proposta do governo para o Auxílio Brasil pegou os investidores de surpresa nesta terça-feira. Werther Santana/Estadão

Empresas perdem R$ 152,1 bilhões em valor na Bolsa após manobra do Auxílio Brasil

Proposta estudada pelo governo envolve um benefício de R$ 400, mas com R$ 100 sendo pagos fora do teto de gastos; Petrobras, Ambev e Bradesco estão entre os maiores perdedores

Maiara Santiago e Luís Eduardo Leal, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 20h48

A possibilidade de o governo utilizar recursos fora do teto de gastos para bancar parte do Auxílio Brasil pegou os investidores de surpresa nesta terça-feira, 19, e fez as ações listadas na Bolsa brasileira (B3) amargarem uma perda de R$ 152,1 bilhões em valor de mercado. Os dados são da consultoria Economatica, que fez o levantamento a pedido do Estadão.

A empresa que teve a maior perda em valor de mercado é a Petrobras, com uma redução de R$ 17,89 bilhões. As ações ordinárias e preferenciais da companhia recuaram 4,37% e 4,89% cada. A petroleira é seguida da Ambev, com desvalorização de R$ 7,5 bilhões, Bradesco (R$ 6,2 bilhões) e Santander Brasil (R$ 6,2 bilhões). Hoje, o principal índice de ações do País, o Ibovespa, terminou o dia em baixa de 3,28%, aos 110,6 mil pontos - no maior recuo desde 8 de setembro

O impacto foi sentido também no câmbio, com o dólar em alta de 1,33%, a R$ 5,5938 - no maior valor desde 15 de abril. Diante do mau humor do mercado, o Ministério da Cidadania adiou, indefinidamente, a apresentação do Auxílio Brasil, que estava marcada para às 17h de hoje. 

A proposta responsável por azedar o humor dos investidores foi antecipada na noite de segunda-feira, 18, pelo Estadão/Broadcast. A ideia do governo é conceder um benefício de R$ 400 até o fim de 2022, mas parte desse valor, mais precisamente R$ 100, viria de recursos fora do teto de gastos. Caso se confirme, o arranjo representaria uma vitória para a ala política do governo.

Porém, o clima piorou de vez ao longo da tarde, diante da informação de que a despesa com o programa social que ficará fora do teto de gastos pode ter seu valor fixado em uma PEC. A equipe econômica trabalha para conter os danos, na tentativa de limitar a despesa extrateto a R$ 30 bilhões, enquanto o Palácio do Planalto considerava esse valor ainda "em aberto".

"Brasília parece ter encontrado a chave do cofre. O mercado está preocupado com a falta de disciplina para manter o teto ou, se realmente passar disso, que as despesas 'extrateto' com o auxílio não fiquem muito além dos R$ 30 bilhões indicados", diz Scott Hodgson, gestor de renda variável na Galapagos Capital, acrescentando que o valor de R$ 400 ressurgiu sem aviso prévio, como uma "fênix renascida das cinzas".

"O furo parcial do teto é uma preocupação grande. Mas não é só o que está sendo falado hoje. Existe os risco de execução quando isso for debatido no Congresso", afirma o sócio e gestor da Galapagos Capital, Sergio Zanini, que chama atenção para o fato de que pela primeira vez, se viu o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), falar explicitamente contra o teto dos gastos, em prol da população.

Fora a questão fiscal, o mercado também vê o risco de a proposta resultar em novas baixas na equipe de Paulo Guedes - o que inclui a saída do próprio ministro da Economia do governo Bolsonaro. Isso porque, embora o gasto seja temporário, vai contra a preservação do teto, algo que vinha sendo defendido pela pasta.  

"Pode colocar quem você quiser como ministro da Economia que o resultado não vai ser diferente. Entramos em um processo político e eleitoral", diz Zanini, da Galapagos, que assim como o mercado, vê a proposta como uma aposta do governo Bolsonaro para as eleições de 2022.

Veja quais foram as dez empresas que mais perderam valor em Bolsa nesta terça-feira:

  • Petrobras: 17,89 bilhões
  • Ambev: R$ 7,5 bilhões
  • Bradesco: R$ 6,21 bilhões
  • Santander Brasil: R$ 6,20 bilhões
  • Itaú Unibanco: R$ 5,7 bilhões
  • Vale: R$ 4,6 bilhões
  • Banco do Brasil: R$ 4,5 bilhões
  • Weg: R$ 4,2 bilhões
  • Grupo Natura: R$ 3,8 bilhões
  • Magazine Luiza: R$ 3,6 bilhões

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ministério da Cidadania cancela anúncio do Auxílio Brasil que estava marcado para hoje

Proposta é que benefício seja em média de R$ 400 em 2022; parte desse valor, R$ 100, seria contabilizada fora do teto de gastos

Eduardo Gayer, Eduardo Rodrigues, Lorenna Rodrigues e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 12h42
Atualizado 19 de outubro de 2021 | 17h24

BRASÍLIA - O Ministério da Cidadania cancelou o evento de lançamento do Auxílio Brasil, que estava marcado para as 17 horas desta terça-feira, 19. A informação foi repassada à reportagem pela assessoria de imprensa da pasta. Ainda não há uma nova data para o anúncio oficial do programa.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, o governo pretendia lançar nesta terça-feira o programa assistencial para substituir o Bolsa Família com valor de R$ 400 em 2022, ano em que o presidente Jair Bolsonaro buscará a reeleição. Parte desse valor, cerca de R$ 100, seria contabilizado fora do teto de gastos, em uma vitória da ala política do governo sobre a equipe econômica e gerando repercussão negativa na equipe do ministro Paulo Guedes. O valor extrateto é estimado em R$ 30 bilhões.

A notícia de que a equipe econômica cederia à ala política afetou o humor do mercado financeiro durante todo o dia e levou a Bolsa de Valores ao seu menor nível desde março. A proposta é vista como derradeira para o teto de gastos, regra fiscal criada em 2016 para servir de âncora para a trajetória dos gastos públicos e que entrou em vigor no ano seguinte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Para bancar auxílio de R$ 400, equipe econômica prevê R$ 30 bilhões fora do teto

Arranjo final sobre benefícios temporários foi acertado em reunião tensa do presidente Jair Bolsonaro com ministros e prevê gasto total de cerca de 90 bilhões

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 09h56
Atualizado 19 de outubro de 2021 | 11h40

BRASÍLIA - A equipe econômica prevê uma despesa de R$ 30 bilhões fora do teto de gastos para bancar um dos auxílios temporários e garantir um benefício total de R$ 400 à população de baixa renda em 2022, ano de eleição. O arranjo final acertado pelo presidente Jair Bolsonaro prevê um gasto total com benefícios sociais (Auxílio Brasil e parcelas temporárias) de cerca de R$ 90 bilhões.

O martelo foi batido numa reunião tensa, que começou no fim da tarde de segunda-feira, 18, e durou mais de quatro horas, com as presenças de Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes (Economia), João Roma (Cidadania), Ciro Nogueira (Casa Civil), Flávia Arruda (Secretaria de governo) e Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência), além do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho do presidente.

Vencidos pelo grupo político, Guedes e sua equipe trabalharam na tentativa de “contenção de danos” ao incluir uma parcela do auxílio temporário, de R$ 100, dentro do teto de gastos, a regra que limita o crescimento das despesas à variação da inflação. Esse auxílio vai servir como uma renda para bancar o gás e a energia mais elevados, incorporando o espírito de propostas que já têm sido aprovadas pelo Congresso.

No entanto, outra parcela, também próxima dos R$ 100, ficará fora do teto. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, o trabalho agora é para garantir que esse gasto extrateto fique dentro dos R$ 30 bilhões acertados. A equipe econômica ainda vê risco de novas investidas para tentar elevar esse valor - e um dos motivos é o apetite de parlamentares por emendas, o que requer espaço dentro do Orçamento.

O anúncio do novo arranjo dos auxílios pode ser feito ainda nesta terça-feira, 19, por Bolsonaro, após tratativas com a cúpula do Congresso Nacional. Uma primeira medida provisória (MP) deverá ser editada entre esta terça e quarta-feira, 20, prevendo o auxílio temporário de R$ 100 que fica dentro do teto de gastos, com custo de cerca de R$ 24 bilhões.

Para a parcela fora do teto, a proposta de emenda à Constituição (PEC) dos precatórios será alterada permitindo essa exceção. Essa parcela só poderá ser lançada depois de aprovada a PEC.

Relatos da reunião obtidos pelo Estadão/Broadcast apontam que Guedes e seus auxiliares ficaram completamente isolados na defesa do teto de gastos, numa discussão pesada com as lideranças políticas presentes na reunião.

Várias opções foram apresentadas, inclusive deixar todo o auxílio de R$ 400 fora do teto de gastos para abrir espaço para emendas parlamentares no Orçamento de 2022. Para conter o dano, estratégia foi buscar incluir o máximo dos recursos do programa dentro do teto de gastos com a nova MP do Auxílio Brasil temporário. O objetivo é carimbar o quanto antes esse espaço dentro do limite de despesas para evitar mais despesa extrateto. 

Desenho

Como revelou o Estadão/Broadcast, a ideia é pagar o Auxílio Brasil nos valores que cabem hoje no Orçamento do programa (R$ 35 bilhões) a 17 milhões de famílias. Parecer do Ministério da Cidadania aponta que esse valor médio seria de R$ 194,45, mas ainda pode mudar conforme o público do programa. Não haverá reajuste nos valores pagos pela política social permanente.

Além dessa parcela, haverá duas complementações. A primeira delas será um repasse de R$ 100 para todos os beneficiários do Auxílio Brasil, já a partir de novembro. O gasto com esse adicional ficará entre R$ 24 bilhões e R$ 25 bilhões e estará dentro do teto de gastos.

A segunda parte é um outro repasse, que ficará em média em R$ 100, também para o público do Auxílio Brasil, e será pago a partir de dezembro. Essa parcela ficará fora do teto de gastos, e o governo trabalha para travar seu custo em R$ 30 bilhões. Segundo uma fonte, a parcela fora do teto vai variar conforme a necessidade da família, sendo maior para quem estiver recebendo menos. Por isso, o valor exato para cada beneficiário pode ser menor ou maior que os R$ 100 médios.

O objetivo do governo é proporcionar um benefício próximo dos R$ 400 para as famílias. Todos os pagamentos extras ocorrerão até dezembro de 2022. Nesse novo arranjo, os beneficiários que hoje estão no auxílio emergencial, mas ficam de fora do Auxílio Brasil, deixarão de receber os repasses do governo no fim deste mês.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bastidores: auxílio de R$ 400 com parte fora do teto pode provocar novas baixas na Economia

Mesmo que gasto seja temporário, proposta vai contra o que vinha sendo defendido pelo Ministério da Economia; em reunião com Bolsonaro, Guedes e sua equipe ficaram isolados na briga pela manutenção da regra fiscal

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 12h09

BRASÍLIA - O arranjo financeiro aprovado pelo presidente Jair Bolsonaro para levar o valor médio do novo programa social Auxílio Brasil a R$ 400 até o fim de 2022 pode provocar novas baixas na equipe econômica.

Por enquanto, os principais auxiliares do ministro estão focados na contenção de danos, após a ala política do governo impor uma derrota à equipe econômica e emplacar um desenho do auxílio com uma parte (R$ 100) fora do teto de gastos, a regra que limita o avanço das despesas à inflação. Mesmo que o gasto seja temporário, a medida vai contra o que vinha sendo defendido pelo Ministério da Economia.

Em várias reuniões, o secretário Especial de Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, deixou claro que não assinaria nenhuma medida que envolvesse a edição de créditos extraordinários, que ficam fora do teto de gastos.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, Funchal pode ser o primeiro a deixar o cargo depois do envio da mensagem modificativa do Orçamento de 2022.

O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, tem evitado tocar no assunto nas conversas com interlocutores, tamanha é a frustração com o desfecho das negociações. Na reunião de segunda-feira, 18, Guedes e sua equipe ficaram isolados na briga pela manutenção do teto, o que sempre foi defendido pelo ministro em seus discursos. A reação dele ainda é considerada uma incógnita, apesar de assessores terem negado no último fim de semana que ele vá deixar o governo. No mercado, a pergunta que está sendo feita é se Guedes ficará no cargo.

O secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, que é funcionário de carreira do órgão, também é um dos mais descontentes com a decisão de pagar parte do auxílio fora do teto.

A tarefa agora da equipe é evitar que esse buraco no teto se amplie até o envio da mensagem modificativa do projeto de Lei Orçamentária de 2022. Essa mensagem terá as mudanças acertadas na reunião de segunda do presidente Jair Bolsonaro com ministros.

A área econômica ainda vê riscos elevados de o Congresso deixar todo o auxílio fora do teto de gastos durante a tramitação no Congresso da proposta de emenda à Constituição (PEC) dos precatórios. Essa PEC, enviada originalmente para tratar do pagamento de dívidas judiciais do governo, será o veículo para permitir a flexibilização da regra do teto em favor do Auxílio Brasil.

Como revelou o Estadão/Broadcast, o valor fora do teto é estimado em R$ 30 bilhões pelo Ministério da Economia. A mudança é vista como derradeira para o teto de gastos, criado em 2016 para servir de âncora para a trajetória dos gastos públicos e que entrou em vigor no ano seguinte.

Apesar da dura disputa política que se travou nos últimos meses, os auxiliares de Guedes, ainda acreditavam que poderiam conter o avanço da ideia de ter novos gastos fora do teto, com o argumento de que não se justificaria mais a edição de crédito extraordinário para bancar o novo programa social. Esse tipo de crédito do Orçamento, cujas despesas ficam fora do teto de gastos, só pode ser usado em casos de imprevisibilidade e urgência, o que na avaliação dos técnicos não se justifica nessa fase de retomada da economia, com avanço da vacinação da população contra a covid-19.

Há uma preocupação adicional com o aumento da inflação e do dólar que podem ocorrer com a decisão de fazer esse auxílio com parte do gasto fora do teto.

No momento, a estratégia é seguir monitorando os eventuais desvios que possam aumentar os recursos do auxílio fora do teto, como querem os líderes políticos. Os congressistas querem ampliar as emendas parlamentares no Orçamento de 2022.

Depois da revelação dos detalhes do acordo pelo Estadão/Broadcast na noite de segunda, os juros futuros e as taxas dos papéis do Tesouro dispararam em reação ao acordo, que deixou claro para investidores que o governo e Centrão completaram uma guinada populista para deixar o presidente e seus aliados competitivos nas eleições do ano que vem.

O anúncio acontece na semana de apresentação do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, que tem provocado um estrago na imagem do presidente e do seu governo. Em momentos de outras derrotas dentro do governo, Guedes foi perdendo os seus auxiliares, como Salim Mattar, Paulo Uebel e presidentes do Banco do Brasil e da Petrobras.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Auxílio fora do teto eleva risco de mudança na equipe econômica, diz ex-secretário do Tesouro

Segundo Carlos Kawall, 'quem está em cargo de confiança não fica em governo em que acha que está fazendo coisas erradas'; ele acredita que proposta abre brecha para que mais despesas fiquem fora da regra fiscal

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 11h36

Uma eventual ampliação de benefícios para a população de baixa renda com parte dos recursos fora do teto de gastos, como vem sendo discutido pelo governo, seria muito negativa e, no limite, aumenta as chances de mudanças na equipe econômica, inclusive do ministro da Economia, Paulo Guedes, segundo o ex-secretário do Tesouro Nacional e diretor da ASA Investments, Carlos Kawall.

"Há os limites da equipe econômica. Quem está em cargo de confiança não fica em governo em que acha que está fazendo coisas erradas. No limite, pode gerar uma mudança da equipe econômica. Sem querer ser dramático, está cada vez mais parecido com o momento do governo Dilma de saída do Levy (Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda)", diz, acrescentando que as mudanças, no limite, poderiam abarcar o ministro Guedes.

Kawall ainda afirma que autorizar parte do benefício fora do teto de gastos abre a brecha para que mais despesas não sejam limitadas pela inflação. Como revelou o Estadão/Broadcast, a ideia é complementar o benefício contido no orçamento atual do Bolsa Família com uma parcela de R$ 100 dentro do teto e uma de, em média, R$ 100, fora da regra que limita o crescimento das despesas à inflação. Na parcela extrateto, o governo trabalha para travar seu custo em R$ 30 bilhões.

"Coloca o risco de não parar por aí. O que garante que não vai ser R$ 60 bilhões, R$ 90 bilhões ou R$ 100 bilhões fora do teto, como muita gente tem defendido, caso houvesse prorrogação do auxílio emergencial em 2022. O valor de R$ 30 bilhões é expressivo, mas, do ponto de vista da política, há quem entenda que é baixo", diz.

Em um contexto de piora fiscal, Kawall avalia que o "leilão de dólar nunca vai conseguir evitar piora do mercado". O economista lembra que o Banco Central anunciou o leilão de dólar à vista para esta manhã antes das notícias negativas sobre o desenho do Auxílio Brasil. "O leilão já estava dado. Com as notícias negativas, o dólar, mesmo assim, está subindo, na contramão das moedas emergentes. Por mais que o BC faça, com incerteza fiscal, não tem como segurar."

Kawall ainda acrescenta que a mensagem do Banco Central na política monetária é de que vai aumentar a taxa básica de juros da economia ao ritmo de 1 ponto porcentual até ficar satisfeito para convergência da inflação à meta. "O que está sendo sinalizado na área fiscal afeta negativamente o balanço de riscos e pode sugerir Selic acima de 9%, que é o nosso cenário base."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Deixar fora do teto parte das despesas com benefícios acaba com a regra, diz Felipe Salto

Para o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado, medida entra na linha da 'contabilidade criativa'

Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 10h40

A proposta de incluir no Auxílio Brasil o pagamento de uma parcela de R$ 100 fora do teto de gastos entra na linha da contabilidade criativa e acaba com a regra fiscal como concebida, avalia o diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, Felipe Salto.

"A proposta acaba com o teto de gastos como concebido em 2016. Seria uma medida na linha da contabilidade criativa, em que, na iminência de dificuldades para se cumprir o teto, muda-se a regra, retirando-se despesas do limite constitucional", afirma.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, a equipe econômica prevê uma despesa de R$ 30 bilhões fora do teto de gastos para bancar um dos auxílios temporários e garantir um benefício total de R$ 400 à população de baixa renda em 2022, ano de eleição. O arranjo final acertado pelo presidente Jair Bolsonaro prevê um gasto total com benefícios sociais (Auxílio Brasil e parcelas temporárias) de cerca de R$ 90 bilhões.

Para Salto, a ideia de fatiar o valor do benefício, com uma parte fora do teto, ecoa o abatimento de gastos selecionados da meta de resultado primário entre 2008 e 2014. Segundo o diretor da IFI, o objetivo real da medida é flexibilizar a regra para abrir espaço para emendas e gastos pulverizados em um ano eleitoral.

Ele nota que um aumento do Bolsa Família a R$ 300, com 17 milhões de famílias atendidas, geraria um custo adicional anualizado de R$ 27 bilhões em 2022 em relação ao Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) do ano que vem. O gasto, estima, poderia ser viabilizado dentro do teto pela redução de despesas discricionárias (R$ 114,8 bilhões para R$ 104,0 bilhões, o mínimo para evitar uma paralisação do governo) e pelo tratamento dos precatórios do Fundef fora do teto, com um espaço de mais R$ 16 bilhões.

"O problema é que não se deseja a saída dentro das regras do jogo. O objetivo, claramente, é abrir um espaço muito maior. Com a medida dos precatórios, a PEC do governo relatada pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), o espaço aberto no teto, no ano que vem, seria de R$ 48,6 bilhões. Sobrariam recursos para emendas de relator-geral, essa prática preocupante que ganhou corpo nos últimos anos, ferindo os princípios basilares constitucionais do processo orçamentário: impessoalidade e transparência, fundamentalmente", afirma. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Dólar fecha no maior valor desde 15 de abril com Auxílio Brasil fora do teto; Bolsa cai 3,3%

Moeda subiu 1,33% hoje, de olho em proposta do governo de conceder benefício de R$ 400 em 2022, mas com R$ 100 sendo pagos fora do teto de gastos; Ministério da Cidadania adiou anúncio do programa

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 11h00
Atualizado 19 de outubro de 2021 | 22h41

O mercado local voltou a amargar perdas nesta terça-feira, 19, diante da informação de que o governo considera utilizar recursos fora do teto para bancar os custos com programas sociais. Perto do final do pregão, o Ministério da Cidadania adiou, indefinidamente, o anúncio do Auxílio Brasil, que estava marcado para às 17h de hoje - mesmo assim, os ativos foram penalizados. O dólar fechou em alta de 1,33%, a R$ 5,5938 - no maior valor desde 15 de abril. A Bolsa brasileira (B3) teve baixa de 3,28%, aos 110.672,76 pontos - no maior recuo desde 8 de setembro.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, o governo pretendia lançar nesta terça-feira o programa assistencial para substituir o Bolsa Família com valor de R$ 400 em 2022, ano em que o presidente Jair Bolsonaro buscará a reeleição. Parte desse valor, cerca de R$ 100, seria contabilizado fora do teto de gastos, âncora fiscal do País. 

O caldo entornou de vez ao longo da tarde diante da informação, apurada pelo Estadão/Broadcast, de que a despesa com o programa social que ficará fora do teto pode ter seu valor fixado em uma PEC. A equipe econômica trabalharia na contenção de danos, na tentativa de limitar a despesa extrateto a R$ 30 bilhões, enquanto o Palácio do Planalto considerava esse valor ainda "em aberto".

  

A decisão, que representa uma vitória da ala política do governo, porém, poderia levar a novas baixas no Ministério da Economia, já que, embora o gasto seja temporário, vai contra o que vinha sendo defendido pela pasta.  

Também ecoavam nas mesas de operação as declarações de ontem do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que não se pode "pensar só em teto de gastos e responsabilidade fiscal" em detrimento da população - lidas como uma senha para abandono da regra fiscal pela classe política. Para piorar, a reforma do Imposto de Renda, tida como uma das fontes de financiamento do Auxílio Brasil, sofreu um duro golpe após o relator da proposta no Senado, Angelo Coronel (PSD-BA), afirmar que não tem data para apresentar seu parecer

Além disso, a reunião da comissão especial da PEC dos precatórios prevista para hoje às 14h, foi adiada para amanhã. A aprovação da PEC abriria, em tese, espaço para compatibilizar um Auxílio Brasil maior com o respeito à âncora fiscal.

Em uma escalada contínua, o dólar chegou a tocar na casa de R$ 5,61, ao registrar máxima de R$ 5,6123, alta de 1,66%, logo após à 16h. Mais cedo, o Banco Central vendeu US$ 500 milhões à vista, mas o alívio no câmbio foi passageiro. O dólar para novembro subiu 1,31%, a R$ 5,5980.

Operadores notaram nova onda de zeragem de posições à medida que se aproximava o horário do anúncio formal do Auxílio Brasil, às 17h. A febre compradora amainou após o Ministério da Cidadania cancelar o evento de lançamento do programa, com a moeda americana perdendo o fôlego e chegando a ser negociada momentaneamente abaixo da linha de R$ 5,58. O movimento, porém, foi pontual.

Seja qual for o desfecho da proposta, analistas e operadores ouvidos pelo Estadão/Broadcast são unânimes em afirmar que o governo vai abandonar, mesmo que informalmente, o teto de gastos. As consequências são uma piora das condições financeiras, cuja consequência é a formação de uma espiral negativa para a economia: alta do dólar, deterioração das expectativas de inflação, maior aperto monetário e redução do crescimento.

O sócio e gestor da Galapagos Capital, Sergio Zanini, afirma que a "sinalização do governo é muito negativa" e ressalta que o mercado em nenhum momento trabalhava com a hipótese de um Auxílio Brasil no valor de R$ 400. "O furo parcial do teto é uma preocupação grande. Não é só o que está sendo falado hoje. Existe os risco de execução quando isso for debatido no Congresso", afirma Zanini, chamando a atenção para o fato de que pela primeira vez se viu o presidente da Câmara "falar explicitamente" contra o teto dos gastos.

Para Zanini, tendo em vista o que está sendo proposto com o Auxílio Brasil e os sinais da classe política, já não fará diferença para a precificação dos ativos domésticos se houver novas baixas na equipe econômica e até mesmo a eventual saída de Paulo Guedes do governo, como chegou a ser ventilado em certo momento do dia. "Pode colocar quem você quiser como ministro da Economia que o resultado não vai ser diferente. Entramos em um processo política e eleitoral", diz o gestor da Galapagos.

Diante da deterioração do ambiente fiscal, Zanini diz que o BC tem pouco a fazer, já que um choque de juros poder agravar ainda mais a percepção sobre a dinâmica das contas públicas. "Ele está tentando neutralizar parte relevante dos fluxos de saída com as intervenções. Mas a realidade é que o fundamento econômica está piorando e isso tem impacto no câmbio", diz.

Em evento do Banco JP Morgan, o diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, disse que as intervenções da autoridade monetário no mercado de câmbio não vão mudar "de maneira nenhuma" e que "o nível do câmbio não importa e nem o impacto nas projeções de inflação". Kanczuk reconheceu que o BC tem dificuldades em entender os motivos por trás da depreciação do real.

Bolsa

O Ibovespa teve uma terça-feira que se assemelhou ao 8 de setembro, quando o mercado começava a colocar no preço a volta do ex-presidente Lula à política, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Diante do impasse em torno do Auxílio Brasil, o índice nem se quer mirou o positivo, se distanciando do bom desempenho de Nova York, com Dow Jones em alta de 0,56%, o S&P 500, de 0,74%, e o Nasdaq, de 0,71%. Nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se comprometeram em usar os instrumentos necessários para conter alta de preços, se for preciso.

Aqui, pressionado pela aguda percepção de risco fiscal, que pode colocar em questão a lealdade de parte da equipe econômica à agenda de reeleição, com rumores sobre possíveis baixas no quadro técnico, a referência da B3 chegou a mostrar perda de 3,92% no pior momento da tarde, aos 109.947,21 pontos. Na semana, o índice tem perda de 3,47%, no mês, de 0,28%, e no ano, de 7,01%.

Entre as ações de maior liquidez, mesmo com o desempenho positivo do petróleoPetrobras puxou a fila de perdas, com a PN em queda de 4,89% e a ON, de 4,37% no fechamento, enquanto Vale ON mostrava perda de 1,15%, as siderúrgicas, de até 3,05% para Usiminas PNA, e as de grandes bancos chegavam a 4,91%para Banco do Brasil ON, refletindo a aversão ao risco fiscal que se impôs desde cedo na sessão. 

Apenas uma ação da carteira teórica conseguiu se desgarrar do mal-estar geral: GetNet registrou ganho de 17,88%, após estrear ontem tanto na B3 como no Ibovespa. /ANTONIO PEREZ, LUIS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.