Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

‘Empresas precisam brigar globalmente’, diz novo presidente da McKinsey

Para novo presidente da McKinsey, mesmo com o grande mercado local, companhias brasileiras têm de mirar o exterior

Entrevista com

Kevin Sneader, novo presidente global da McKinsey

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 04h00

As empresas brasileiras ainda têm muito trabalho a fazer para serem competitivas, e o melhor caminho para avançarem é concorrer no cenário global, diz o consultor Kevin Sneader, que assumirá a presidência mundial da McKinsey em julho. “As companhias brasileiras deveriam testar sua competitividade”, disse ao Estado, em sua primeira entrevista após ser eleito, por 560 sócios, para liderar a consultoria. Segundo Sneader, as empresas nacionais precisam investir em tecnologia para ganhar produtividade e o País, estudar maneiras para realocar os trabalhadores cujas atividades vão mudar ou até desaparecer em decorrência dos avanços digitais e robóticos.

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Uma das consultorias mais prestigiadas do mundo, a McKinsey tem entre seus clientes 90 das 100 maiores empresas globais, segundo a revista Forbes. O desafio de Kevin passará por conduzir a companhia em um período em que a velocidade das novas tecnologias altera o modo de trabalho da própria consultoria, além de lidar com os rastros de um escândalo político na África do Sul que atingiu o nome da empresa no ano passado. O caso, que resultou no fim dos contratos da McKinsey com a Coca-Cola naquele país e com três grandes bancos, envolveu a Trillian, parceira da consultoria acusada de receber pagamentos irregulares de uma concessionária elétrica estatal. “Aprendemos as lições, mas continuamos em frente”, afirmou Sneader.

Estamos enfrentando muitas mudanças no mundo: protecionismo, populismo, avanços tecnológicos. Quais os maiores desafios para as empresas hoje?

Clientes sempre fizeram perguntas sobre relações entre diferentes países, mas nunca perguntaram sobre essas questões. Agora, quando encontro com presidentes de empresas, eles estão interessados no que vai acontecer com o comércio global. Ao mesmo tempo, a tecnologia está mudando mais rápido do que antes. Apesar de tudo, temos de lembrar que o mundo vive um período único, com o maior nível de crescimento em 30 anos. Nesse contexto, há oportunidades. As empresas de sucesso prosperam nas rupturas, vão bem quando as coisas estão mudando porque é quando você pode pegar inovações e colocá-las no mercado. Esse é um ótimo momento para investir, alavancar tecnologia e ir a mercados onde não se está.

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Em geral, as empresas brasileiras são competitivas?

Elas têm trabalho a fazer, mas vejo o mesmo nas chinesas. O Brasil é diferente por ser autossuficiente. Mas, com a autossuficiência, também vem a noção de que talvez você não precise de um alto grau de competição doméstica. Essa é uma das razões para se entrar no cenário global, porque competir fora não apenas cria oportunidades, mas também força melhorias na produtividade. As empresas brasileiras deveriam testar sua competitividade.

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Tem algum país que poderia ser exemplo para o Brasil?

Se você olhar para as economias do sudeste asiático, encontrará um número de empresas que decidiram ir para o exterior mesmo tendo um mercado doméstico grande. Na Indonésia, há um grande número de empresas de setores em que o Brasil tem sucesso, como commodities, que foram para o exterior. Elas fizeram isso porque sabem que têm de forçar a própria produtividade. Esse é um exemplo, mas eu encorajaria as empresas a olharem para lugares tradicionais, onde vemos empresas líderes, como os EUA.

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Qual sua visão da economia e da política brasileira?

Se você elevar o crescimento da economia de 1,5% para 3%, isso colocará o País entre as cinco maiores economias em medida absoluta só por causa da escala. Pequenas mudanças fazem uma diferença gigantesca para quem mora no Brasil. Quero ser otimista em relação à economia por causa do tamanho da população. Os juros e a inflação em baixa criam oportunidade para a economia continuar avançando. Não vou comentar política.

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O que as companhias precisam fazer para enfrentar o desafio das novas tecnologias?

Elas têm de ver a tecnologia como oportunidade, não como ameaça. Não estamos prestes a ver as forças de trabalho completamente substituídas por robôs. Acreditamos que 5% das profissões podem desaparecer porque se pode automatizá-las. Entretanto, cerca de 30% das atividades de 60% de todos os tipos de trabalho também podem ser automatizados. As empresas que abraçarem (a tecnologia) vão ter uma enorme vantagem de produtividade. As que não o fizerem dependerão de mão de obra muito barata e é improvável que consigam ficar numa situação assim por muito tempo, porque a sociedade não permitirá.

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E os profissionais? Como eles devem se preparar para esse novo ambiente?

Precisam olhar os papéis que têm para entender o que vai mudar. Se o seu trabalho é pesquisar, essa pesquisa pode ser automatizada. Você tem de reconhecer isso e encontrar modos de adicionar valor. Ser capaz de interpretar a informação que vem das máquinas e aplicá-las com criatividade é uma tarefa muito difícil de se automatizar. A tecnologia é uma amiga. É preciso estar disposto a aprender a partir dela, mas não subestimar a criatividade, as artes e entender como será o lado subjetivo da vida no futuro.

Quando o sr. foi eleito, o ‘Financial Times’ criticou a escolha pelo fato de o senhor não representar diversidade em um momento que a empresa prega a importância dela. Qual sua resposta?

Quando entrei na empresa, em 1989, tinha saído da Universidade de Glasgow, não Oxford ou Cambridge. Cresci em Glasgow, não em Londres. Vim de uma minoria em Glasgow e nunca havia entrado em um avião até os 21 anos. Representava diversidade em 1989. Agora não represento e reconheço isso. Mas não esqueci de onde vim.

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Vocês estão enfrentando um grande escândalo na África do Sul. Por que isso aconteceu?

Há um limite do que posso falar sobre isso, porque estamos envolvidos em procedimentos de governo, mas vamos aprender muito dessa experiência e tomar atitudes para que isso não aconteça novamente.

Esse não é o primeiro escândalo envolvendo a McKinsey (Rajat Gupta, ex-presidente da consultoria, já foi preso por uso indevido de informação privilegiada e a empresa aconselhava a companhia de energia americana Enron, que faliu após denúncias de fraudes contábeis). O que você estão mudando na prática?

Existimos há quase cem anos e há alguns episódios dos quais não me orgulho. Fizemos muito para limpar esse caso e quero ter certeza de que o mantemos no contexto em que ocorreu. Aprendemos lições, mas seguimos em frente. Exemplos práticos: mudamos nossos procedimentos de risco e como lidamos como o setor público, estamos olhando abordagens que adotamos. Estou confiante de que esses procedimentos garantirão que isso não aconteça novamente.

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