Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

A felicidade pode estar nos números: saiba como ela está sendo mensurada no trabalho

Empresas e startups focadas em tecnologia buscam utilizar inteligência artificial e análise de dados para medir a felicidade

Fernanda Vieira Bastos, Especial para o Estado

13 de julho de 2021 | 11h00

Dá pra medir felicidade? Apesar de ser um sentimento abstrato, uma sensação, ela vem sendo transformada em números e porcentagens por empresas de tecnologia. O tema, que ganhou força durante a pandemia, mostra que por meio de aplicativos e softwares, a felicidade pode ser um dos principais indicadores para a manutenção do bem-estar no ambiente de trabalho. 

A felicidade geral do Brasil, que vinha caindo desde 2013, teve queda de 0,4 pontos na pandemia, chegando a 6,1 em 2020, o menor índice da série histórica em 15 anos, segundo dados da pesquisa Bem-estar trabalhista, Felicidade e Pandemia, da FGV Social, publicada em junho de 2021. 

“Não é só uma questão de dinheiro no bolso. Há outros componentes relacionados à felicidade no trabalho e se o colaborador está bem e feliz, ele vai ser mais produtivo”, diz o coordenador da pesquisa da FGV Social, Marcelo Neri. Ainda segundo o levantamento, a situação da felicidade é pior para os mais pobres, diferentemente dos mais ricos que mantiveram o mesmo grau de satisfação com a vida. A distância entre extremos de renda sobe de 7,9% para 25.5%.

Em resposta aos dados, é crescente o número de empresas que começaram a revelar preocupações com a segurança psicológica do colaborador. De acordo com a pesquisa da Kenoby, startup de recrutamento e seleção, dos 488 profissionais de RH entrevistados entre fevereiro e março de 2021, 71,1% não têm uma área dedicada à saúde mental dos colaboradores na empresa, mas 35% pretendem investir em menos de um ano. 

Essa demanda foi percebida pela FairJob. A plataforma de humanização organizacional, que cresceu quase 300% apenas nos últimos seis meses, busca por meio de 63 perguntas para colaboradores e 56 para gestores, mensurar o grau de prosperidade dentro da empresa. Essa taxa, que descobre o nível de bem-estar dos colaboradores e identifica possíveis ajustes, cruza os dados do índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), do Net Promoter Score (NPS), que mede a experiência dos clientes, do EBITDA, que quantifica o lucro operacional da empresa, e das medidas de ESG focadas nas áreas ambiental, social e de governança da organização.

Com 11 empresas analisadas e 1200 pessoas mensuradas, o fundador da FairJob, Fernando Brancaccio, afirma que o aumento da confiança dos colaboradores é perceptível. “A pesquisa, que dura de 8 a 15 minutos, gerou um aumento na credibilidade da empresa na visão dos colaboradores. O cuidado e a preocupação com a segurança psicológica, estresse, saúde mental melhoram a confiança”, destaca.

A mensuração da felicidade é a cereja do bolo

Oito perguntas, dois minutos e está pronto o pulso de felicidade que é o resultado da taxa de felicidade e o da taxa de alinhamento com a cultura da empresa. Esta é a proposta da Fiter, empresa que lançou o seu software em dezembro de 2020 com o objetivo de utilizar a tecnologia de neurociência para impulsionar a felicidade no mercado de trabalho

Funciona assim: a Fiter analisa a cultura organizacional da empresa e desenvolve quatro perguntas com um foco maior no clima interno e outras quatro com base em estudos de neurociência. Após a construção das oito perguntas, os respondentes da pesquisa, que recebem o chamado pelo WhatsApp ou email, dão oito clicks para respondê-las. A pesquisa, feita uma vez ao mês, mostra a taxa do quão os respondentes se sentem felizes dentro da empresa e do quanto a empresa ‘conversa’ com os seus ideais e sonhos. 

“Quando a pessoa enxerga que está no cargo certo, que ela tem orgulho de trabalhar na empresa, que ela trabalha em um clima organizacional favorável e que ela se sente produtiva, ela consegue gabaritar a felicidade no ambiente de trabalho”, destaca Sérgio Amad, CEO da Fiter. 

Para atingir essas quatro dimensões da felicidade no trabalho, Sérgio esmiúça a ciência por trás do aplicativo. Elementos da neurociência,da psicometria, da programação neurolinguística, da psicologia clássica e da people track solution (PTS, sigla em inglês) foram utilizados para compor o algoritmo. Já são 30 mil usuários de 500 cargos diferentes em todos os estados do Brasil. 

Um deles é um praticante de crossfit na academia K30X em Goiânia. Ele quase desistiu de frequentar o centro de treinamento por conta da música tocada no ambiente. Essa reclamação foi colocada na medição da felicidade no aplicativo da Fiter e no mesmo dia o problema foi resolvido pelo sócio da academia, Danilo Khoury. “Esse é um comentário que nunca chegaria a mim, no máximo, somente uma pessoa ao lado dele ouviria. No mesmo dia, já entrei em contato com o aluno, conversamos e já mudamos a playlist da academia”, destaca.

  • Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo

O primeiro pulso de felicidade na K30X foi realizado dia 9 de junho, o segundo começou na última segunda-feira (05/07). Com foco nos 300 alunos do centro de treinamento, cerca de 75%, dos 77 que responderam a pesquisa, se sentem bem e felizes em praticar os exercícios na academia. O foco são os outros 25%, diz Danilo. “Percebemos com o pulso que falta o sentimento de pertencimento desses não tão felizes. Além disso, alguns acham que não são as pessoas certas para a realização da atividade e essa é a ideia que precisamos mudar”, enfatiza. 

“É a cereja do bolo”, diz Amelina Prates, diretora de operações na Adão Imóveis, sobre o software da Fiter. Fundada em 1983, a imobiliária do Goiás tem em sua essência o valor da felicidade, da paixão pelo trabalho. A empresa, que já chegou a demitir diretores por não terem uma liderança positiva, busca por meio de treinamento, capacitação, aulas e projetos interdisciplinares formar e desenvolver os colaboradores e gerar um sentimento de pertencimento e de felicidade no escritório. “As pessoas vivem picos e vales e procuramos dar sentido à caminhada. Queremos auxiliar a encontrar o propósito de vida, missão, valores, o que é importante para cada um”, ressalta. 

E para conseguir mensurar se todas as iniciativas estão funcionando, Amelina e Renata Borges, gerente de gestão de talentos, receberam a certificação da Fiter e, em 16 de julho, a empresa vai iniciar a medição mensal do pulso de felicidade dos funcionários. “É o uso da inteligência artificial para validar e auxiliar esse processo de entender como estão os nossos 900 funcionários. É a gestão da felicidade”, destaca Renata. 

Conhecer os funcionários é importante

É através dos dados também que a Fhinck procura conhecer os funcionários das empresas com as quais trabalha. Após 20 anos na área de melhorias de processos, o CEO, Paulo Castello, percebeu que os dados poderiam facilitar o entendimento de como as pessoas trabalham. “Estamos mapeando uma série de características invisíveis ao olho humano. A ferramenta desenha perfis de função diários”, enfatiza. 

O software desenvolvido pela Fhinck é instalado no computador e analisa as tarefas realizadas por cada profissional, assim como as rotinas, processos e interação entre os sistemas de forma não invasiva, sem capturar tela, conteúdo ou digitação. O colaborador não precisa preencher nenhuma pesquisa, a plataforma mapeia como ele trabalha diariamente e compara com outras pessoas para ver quais atividades demandam mais tempo e podem ser simplificadas. 

Em abril de 2021, a empresa de tecnologia implantou a plataforma para mapeamento da Síndrome de Burnout, que consegue identificar quem está próximo da linha limite para o esgotamento físico e mental. Algumas das variáveis são a falta de descanso entre as jornadas, a sequência extensa de reuniões, aspectos da legislação trabalhista, entre outras. A pesquisa foi realizada com 12180 colaboradores em diversos países. Destes, 846 estão em risco de Burnout e há uma média de 7% dos casos no Brasil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.