Suki Dhanda
Para Daniel Susskind, mudança profunda no trabalho. Suki Dhanda

Pandemia acelera a automação 'fracionada' do mercado de trabalho

Covid-19 ajudou a impulsionar a automação de parte do trabalho, o que especialistas consideram mais pernicioso que a substituição total do humano pela máquina

Felipe Laurence, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

A pandemia do novo coronavírus trouxe uma série de mudanças em 2020. Além das mais de 150 mil vítimas da doença, o isolamento forçado que ocasionou o fechamento da economia resultou em uma recessão e mais de 14 milhões de desempregados, de acordo com o IBGE. Especialistas apontam, ainda, que a rápida digitalização das empresas acelerou um outro processo que já vem acontecendo há algum tempo, a automação do trabalho. Mas desta vez, o processo chega com força pela primeira vez aos chamados white collar jobs, trabalhos considerados mais técnicos.

“É sabido que a automação sempre avança com mais força em situações de recessão econômica onde as empresas precisam conservar caixa e cortar custos”, diz Daniel Susskind, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e autor do livro A World Without Work (Um Mundo Sem Trabalho, em tradução livre). “Então minha impressão é que, sim, esses processos estão sendo acelerados, e as características desta pandemia estão causando uma mudança profunda no que é trabalho e como podemos viver em um mundo sem emprego para todo mundo.”

Susskind explica que há diferentes tipos de automação do trabalho. Uma é a substituição de uma pessoa por uma máquina, como vem acontecendo nos setores industrial e agrícola, onde a automação já acontece há décadas. Outra é o que ele chama de automação fracionada, e é a que ganhou força nesta pandemia. “Estamos vendo a automação acelerada de funções dentro de um trabalho, uma tarefa que você fazia manualmente antes da pandemia foi digitalizada”, comenta, dizendo que este tipo de automação é mais perniciosa porque não é o “apocalipse robô” que todos imaginam quando pensam em automação.

Pedro Albuquerque, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), realizou estudo em 2019 onde apontava que 54% das profissões formais no Brasil têm alto potencial de automação até 2026. “Mas não é bem assim, as pessoas focaram muito na manchete”, comenta. “Quando abrimos os dados vemos que esses 54% são na verdade tarefas que discriminam uma determinada ocupação e podem ser automatizadas”, fala Albuquerque, completando que também vê uma aceleração nos processos de automação com a pandemia.

“Uma dinâmica nova que estamos vendo esse ano e que não existia quando fizemos o estudo é que agora os próprios trabalhadores estão automatizando tarefas para otimizar seu tempo”, comenta o professor da UnB, apontando que as tarefas adicionais que o home office trouxe, como cuidar da casa e dos filhos, criou essa necessidade. “Historicamente a automação vem de cima para baixo, e agora vemos essa automação por conta própria.”

Albuquerque e Susskind concordam que a automação fracionada do trabalho traz problemas no médio prazo de deterioração da renda do trabalhador e não necessariamente sua substituição total por uma máquina. “Vamos supor que 40% das suas funções sejam automatizadas, há o perigo de o empregador ver e chegar à conclusão que não é necessário pagar 100% do seu salário se você desempenha só 60% das tarefas”, alerta Albuquerque.

Susskind teme que, com o fim das políticas de auxílio dos governos, o movimento de demissões aumente e a substituição de pessoas por máquinas se intensifique. “Muitos dos desafios que ponderei em meu livro, que pensava que só veríamos daqui muito tempo, sem trabalho para todo mundo, aconteceram agora com a pandemia”, diz. “Vimos uma pequena amostra não só dos desafios que vamos enfrentar com a automação nos próximos anos, mas também como vamos responder a isso.”

Barreiras de aceitação

Os especialistas consultados pelo Estadão acreditam que uma das causas para a aceleração da automação na pandemia é uma mudança de paradigma na relação das pessoas com a tecnologia. “Os consumidores estão tendo uma maior predisposição em ter uma relação com as empresas por canais digitais, os funcionários são obrigados a operar pela via da tecnologia”, fala Ricardo Basaglia, diretor-executivo da consultoria de RH PageGroup no Brasil.

Para Pedro Albuquerque, da UnB, há uma queda de barreiras no que as pessoas achavam aceitável ser automatizado ou não. “Hoje você precisa fazer uma consulta médica remotamente se não é caso de urgência, você precisa assistir aulas a distância e essas são mudanças comportamentais que não serão desfeitas com o fim da pandemia.”

Segundo Basaglia, um sinal de alerta para saber se sua profissão será automatizada ou não é pensar: quando você sai de férias seu substituto realiza suas tarefas com a mesma precisão que você? “Se a resposta for sim, grandes chances do seu emprego estar na linha de frente da automação.”

As mudanças comportamentais causadas pela pandemia, falam os especialistas, vão invariavelmente causar uma redução de força de trabalho para priorizar quem desempenha tarefas mais cognitivas e que tragam valor para a empresa. “Estamos vendo uma otimização do fluxo de trabalho por conta da pandemia que vai prestigiar quem conseguir se adaptar e também quem desempenha funções essencialmente humanas”, define o pesquisador da UnB.

Ricardo Basaglia gosta de citar o paradoxo de Moravec, articulado pelo engenheiro austríaco Hans Moravec nos anos 1980, quando perguntado sobre quais são as profissões blindadas da automação. “Tarefas que nós achamos complicadas são facilmente resolvidas por máquinas e as que achamos simples os computadores não conseguem resolver”, o que inclui, diz ele, tarefas exigem habilidades emocionais.

Tempo para tarefas 'humanas'

As chamadas “soft skills”, ou habilidades comportamentais, serão extremamente importantes para o trabalhador neste contexto de automação do mundo do trabalho. Cleber Castro, cofundador da edtech Walk Skills e ex-Great Place to Work Brasil, acredita que uma vez que a tecnologia substituir funções operacionais, vai sobrar tempo para o profissional buscar inovação, ser criativo e trazer o lado humano que efetivamente geram valor para uma empresa.

“Nós percebemos que ainda há um déficit muito grande de oferecimento, por parte das empresas, de ferramentas para seus funcionários realizarem um aprimoramento nas suas habilidades comportamentais e que isso pode vir a ser um problema”, comenta Castro. A plataforma de cursos criada pela Walk Skills oferece ensino de soft skills como liderança, resiliência, gestão emocional, empatia nas relações, comunicação assertiva, e outras que a edtech detectou como essenciais para o trabalhador do futuro.

O futurologista britânico Ian Pearson aponta um outro caminho. Ele vê que o isolamento forçado causado pela pandemia pode criar uma renovação do sentimento de empatia nas pessoas, “salvando”, ao menos que temporariamente, trabalhos que ele via na linha de frente da automação. “Vejo que vamos sair dessa pandemia com um anseio maior por contato humano e não vamos querer continuar nestes ambientes estéreis de atualmente”, prevê. “Em um bar, hotel ou no supermercado, não vamos querer ser atendidos por um robô, acho que depois do que estamos vivendo vamos querer conversar com alguém.”

Daniel Susskind tem uma leitura otimista para o futuro do trabalho, no que envolve as mulheres. “Se você perceber bem, muitos dos trabalhos que vão sobreviver à automação hoje são realizadas predominantemente por mulheres, como enfermagem, tarefas domésticas, que nunca receberam a devida importância por serem considerados funções menores, na visão dos homens”, comenta.

“Uma das minhas esperanças é que, nesse mundo com menos trabalho, tenhamos a oportunidade de corrigir essa percepção e dar a importância devida a trabalhos que socialmente são tão importantes.”

O que vem por aí

  • Profissões que podem ser automatizadas:

1. Atendente de call center

Atendimentos por meios eletrônicos, como WhatsApp ou chatbots (conversas com robôs), dispensam a necessidade de um humano pelo menos na fase inicial do atendimento.

2. Professor aulista

O professor não precisará apresentar o mesmo conteúdo em diversas turmas; pode fazer isso de forma digital. Com isso, o trabalho do professor vai ser muito mais como tutor do aluno.

  • Profissões que podem surgir:

1. Especialista em serviços sanitários

Mais do que ser um profissional de limpeza, ele vai garantir que determinado ambiente esteja livre de vírus e possíveis infecções, uma vez que isso será mais demandado de empresas.

2. Coach

Com uma maior automação, profissionais que capacitem outros nas habilidades comportamentais (as chamadas soft skills) terão importância cada vez maior e devem ser disputados.

3. Especialista em TI sob demanda

Com pessoas permanentemente em home office, deve crescer a demanda por profissionais independentes que vão até sua casa para resolver problemas de conectividade, de estrutura tecnológica – tão comum como hoje chamamos um encanador.

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'Funções de esforço cognitivo serão mais prestigiadas', diz especialista

Para psicólogo, com a automação se tornando uma realidade no mercado, as habilidades humanas serão o diferencial para aqueles que buscam a recolocação

Entrevista com

Roberto Shinyashiki, psicólogo e escritor

Felipe Laurence, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

“Você vai perder o seu trabalho, é inevitável”, diz o psicólogo e escritor Roberto Shinyashiki quando perguntado sobre automação. Estudo feito pela Universidade de Brasília em 2019 aponta que 54% das profissões formais no Brasil têm alto potencial de automação até 2026 e a situação está sendo agravada com a digitalização forçada pela pandemia.

Shinyashiki vê muitas semelhanças no perfil psicológico de quem está ameaçado de perder seu emprego pela automação com alguém que pode ser demitido, como a angústia constante e a queda no rendimento. Mas aponta que a situação é diferente porque, no caso da automação, dificilmente você consegue se recolocar, gerando um ressentimento.

“Funções mais mecânicas vão ser substituídas por robôs enquanto as que necessitam de um maior esforço cognitivo serão cada vez mais prestigiadas”, comenta ele, elencando que as habilidades essencialmente humanas serão o diferencial para alguém se recolocar no mercado. Confira abaixo trechos da entrevista.

Quais os sentimentos mais comuns do trabalhador que pode perder o emprego para uma máquina?

Eu costumo comparar essa situação da automação com um jogador de futebol que perde muitas partidas consecutivas. Ele pode entrar em uma espiral depressiva, se sente inseguro e sua própria performance diminui porque perde seu senso de realização no trabalho. A logoterapia de Viktor Frankl diz que a neurose é a falta de propósito de vida, então esse não é um quadro do futuro, estamos vendo isso acontecer hoje.

O impacto psicológico da automação é o mesmo de quando se é demitido?

Vi uma palestra há alguns anos que falava sobre a situação dos caminhoneiros americanos e o risco de eles serem substituídos por veículos autodirigíeis. Uma das soluções que apresentaram é continuar recebendo salários só para monitorar os robôs ou até mesmo pra ficar em casa. Fiquei pensando, como vai ficar a cabeça de uma pessoa que ganha, mas não trabalha? Porque há vários gatilhos ao trabalhar, tem o desejo de realização, o desejo de ser útil. Você continuar pagando uma pessoa só resolve parte do problema, ela não vai passar fome, mas a ociosidade traz uma série de desafios, como dependência química, e até potencial violência contra as máquinas.

Os impactos da automação no brasileiro é diferente do restante do mundo?

O ser humano é ser humano em qualquer lugar do planeta, mas a diferença é que o nosso sistema de ensino funciona para passar conhecimentos sobre funções que não existem mais ou vão deixar de existir muito em breve. O País precisava investir na verdadeira capacitação do nosso trabalhador para o mundo digital.

E como alguém pode se prevenir da angústia de perder o emprego para a automação?

Uma coisa que precisa ficar bem clara é que, de uma forma ou outra, o trabalho vai mudar: as funções serão severamente alteradas pela automação. Então a pergunta correta é: como ter paz de espírito para ir para outros empregos? Eu vejo que funções mais mecânicas vão ser substituídas por robôs enquanto as que necessitam de um maior esforço cognitivo serão cada vez mais prestigiadas. Há de ter uma resiliência muito forte e focar na adaptabilidade a essas mudanças estruturais.

Quais habilidades você vê como essenciais para a pessoa realizar essa mudança?

A primeira coisa é ter curiosidade, continuar estudando e aprendendo para não ser deixado para trás pela tecnologia. A segunda é ter uma boa leitura do mercado, entender o que acontece na sua profissão para que você reaja rápido às mudanças e também se adapte ao que se exige dela. E precisamos também de um “bando”, um grupo de pessoas que olhem por você e te direcionem para o que vai ser necessário.

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