Rafael Arbex/Estadão-29/10/2014
O CEO da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira.  Rafael Arbex/Estadão-29/10/2014

Crescimento do mercado de ações aumenta demanda por analistas

Carreira no mercado financeiro, em funções também como a do investment banker, tem chamado a atenção com a explosão de IPOs na Bolsa; veja salários e certificações

Pedro Hallack, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2020 | 05h02

Com a expansão do mercado de capitais e diferentes classes de ativos fora da renda fixa, a profissão de analista está em ascensão no mercado financeiro, entre os cargos mais cobiçados. Pudera: a demanda por profissionais com habilidades para avaliar a qualidade de ativos de renda variável é enorme.

Segundo a B3, o número de CPFs ativos na Bolsa de Valores atingiu o nível recorde de 3,17 milhões em novembro, alta de 88,78% em relação ao mesmo período do ano passado. Considerando os últimos quatro anos, o avanço é de 462,64%.

De acordo com o guia salarial para 2021 da Robert Half - empresa de recrutamento -, a remuneração média de um analista no começo de carreira é de R$ 13,85 mil mensais. Enquanto um profissional mais experiente pode chegar a ganhar em torno de R$ 27,75 mil, o salário de um diretor de análise pode variar entre R$ 26,15 mil e R$ 46,8 mil.

Como o nome sugere, esse profissional é responsável por analisar os investimentos disponíveis no mercado, assinando relatórios com recomendações positivas ou negativas para os ativos no seu radar. A quantidade de analistas no mercado é bem menor do que a de agentes autônomos (AAIs), mas a função é considerada fundamental do ponto de vista estratégico. “As empresas precisam de boas análises para entregar retorno aos investidores”, explica Michael Viriato, professor de Finanças do Insper, ao Estadão/Broadcast.

Pela Instrução 497 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que rege o trabalho dos agentes autônomos (AAIs), o analista não pode trabalhar diretamente num escritório de AAIs. Apesar dos analistas de renda fixa também terem o seu espaço, a popularização do mercado de ações tem aumentado a demanda por especialistas em renda variável.

Basicamente, os analistas de renda variável costumam se dividir entre os gráficos - ou técnicos - e os fundamentalistas. Enquanto os primeiros focam sua análise no histórico de preços através de gráficos, tentando prever comportamentos futuros para os papéis, o segundo grupo estuda os fundamentos das empresas, observando o potencial do negócio no longo prazo.

O analista fundamentalista, mais comum, tem perfil criterioso e detalhista. Características como gostar de ler, se aprofundar nos assuntos e ter um viés investigativo para entender o que ocorre em cada empresa são apontadas como essenciais.

“É uma área que tem muito espaço para avançar, pois ainda é carente no País”, aponta José Guilherme Chaves, coordenador da pós-graduação virtual em Mercado Financeiro e de Capitais da PUC-Minas.

Na visão dele, o aumento na expectativa de vida da população e a própria reforma da Previdência são fatores que estimulam a evolução do mercado acionário, assim como a queda da taxa de juros nos últimos anos. “Se eu estivesse começando no mercado financeiro, iria me especializar em ações.”

Já o analista gráfico precisa de uma base quantitativa mais sólida, com amplo domínio de modelos matemáticos. Apesar do fundamentalista também trabalhar intensamente com números, a exigência nesse sentido é um pouco menor, segundo o CEO da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira. “É difícil ver um analista gráfico que não tenha feito cursos como Engenharia ou Economia.”

O certificado obrigatório para atuar como analista é o CNPI, emitido pela Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais). Quem quiser se aprimorar também pode tirar o CFA, emitido pela instituição internacional CFA Institute.

Gestores e investment bankers em ascensão

Considerados profissionais mais exclusivos, os gestores e os investment bankers estão sendo cada vez mais demandados. Para especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, as duas funções estão no topo da “cadeia alimentar” do mercado financeiro. “Isso ocorre porque elas estão mais diretamente ligadas ao resultado das empresas”, afirma Michael Viriato, professor de Finanças do Insper.

Segundo os dados da Anbima, a indústria brasileira de fundos registrou captação líquida de R$ 126,8 bilhões entre janeiro e novembro de 2020, refletindo a procura por novos investimentos diante da taxa de juros na mínima histórica.

A função do gestor dialoga e se relaciona em grande parte com a do analista. Geralmente, ele comanda um time de analistas dentro de uma asset, sendo responsável por gerir o patrimônio dos clientes e alocar o dinheiro dos investidores nos ativos que ele considera mais atrativos.

Mesmo sendo assessorado por uma equipe de analistas, cabe ao gestor dar a palavra final na estratégia de alocação do fundo. É muito comum esse profissional ter um perfil mais sênior, sendo um analista que se especializou após anos de carreira.

Além das características comuns aos analistas, os gestores necessitam de grande senso de responsabilidade, uma vez que tomam decisões com o dinheiro de terceiros.

“Ter habilidade para trabalhar em grupo é fundamental, é um cargo que exige trocas constantes”, afirma Bianca Juliano, responsável pela escola de MBAs da XP Investimentos. “Como as equipes de gestão atuam com muita proximidade, é um segmento com menos mobilidade.”

Segundo levantamento da Robert Half, um gestor iniciante ganha em torno de R$ 23,15 mil, enquanto o mais experiente pode ter remuneração próxima a R$ 41,5 mil. O certificado obrigatório para fazer gestão de recursos é o CGA, emitido pela Anbima.

Explosão de IPOs na Bolsa

Outra profissão que vem ganhando corpo é a do investment banker. Ao contrário de assessores, analistas e gestores, esses profissionais prestam um serviço voltado diretamente para as empresas, sem foco no investidor no final. 

O investment banker identifica oportunidades e ajuda a estruturar operações de diferentes companhias no mercado de capitais, como IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) e fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês).

A função tem sido bastante exigida com a diminuição no custo de capital - dinheiro que as empresas tomam emprestado no mercado para se financiar - e a explosão de IPOs na Bolsa. Assim como ocorre com os assessores financeiros, os investment bankers costumam ser divididos entre os profissionais mais comerciais, de um lado, e os mais técnicos.

Enquanto o comercial se relaciona diretamente com os empresários, apresentando oportunidades, o investment banker mais técnico estrutura as operações, que também podem resultar na emissão de debêntures, CRIs e CRAs, por exemplo. Essas operações, que envolvem estruturas complexas, geralmente são feitas pelos grandes bancos de varejo e os bancos de investimentos.

O estudo da Robert Half indica que um analista que trabalha diretamente com fusões e aquisições, por exemplo, tem salário inicial por volta de R$ 11,7 mil, podendo alcançar a marca de R$ 21 mil com anos de experiência. Já um diretor geral para o setor pode abocanhar entre R$ 43,45 mil e R$ 77,85 mil por mês.

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Mercado financeiro atrai jovens com onda de investimentos e salários altos

Setor demanda, porém, jornadas exaustivas e longas horas de trabalho; especialistas também alertam para ‘visão utópica’ vendida por youtubers e influenciadores digitais

Pedro Hallack, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 05h03

As carreiras ligadas ao mercado financeiro sempre ocuparam um lugar especial no imaginário de jovens em busca de profissões bem remuneradas. Contudo, a própria timidez do mercado de capitais brasileiro sempre atuou como uma barreira psicológica para muita gente, que via o mundo das finanças como algo restrito e exclusivo para as grandes fortunas.

Ultimamente, essa visão tem mudado com uma série de avanços tecnológicos e mudanças estruturais na economia brasileira. Por um lado, as plataformas abertas de investimentos contribuem para a democratização do mercado de capitais. Por outro, a queda da taxa básica de juros do País, que começou ainda em 2016, ampliou o interesse em classes de ativos fora de renda fixa, dando mais dinamismo ao mercado.

Com o assunto entrando cada vez mais nas redes sociais e começando a fazer parte das rodas de conversas entre amigos e famílias de classe média, é natural que o interesse não fique restrito apenas aos investimentos pessoais. Diante do quadro atual, uma quantidade cada vez maior de pessoas começa a olhar o mercado como oportunidade para seguir carreira, seja o jovem que acabou de ingressar na faculdade ou aquele profissional em busca de novas áreas.

Enquanto alguns tentam a sorte como day trader, operando de casa em busca de ganhos rápidos, outros pensam com foco no longo prazo e planejam seguir carreira em uma grande instituição financeira. Considerando essa demanda, o Estadão/Broadcast conversou com professores de finanças e profissionais do mercado para entender quais são as funções mais promissoras e bem remuneradas neste momento.

De acordo com o guia salarial para 2021 da Robert Half - empresa de recrutamento executivo -, a remuneração média de um analista no começo de carreira é de R$ 13,85 mil mensais. Enquanto um profissional mais experiente pode chegar a ganhar em torno de R$ 27,75 mil, o salário de um diretor de análise pode variar entre R$ 26,15 mil e R$ 46,8 mil.

Além de analista e day trader, outros profissionais da área são assessor de investimentos e broker, além de gestor e investment banker. O assessor de investimentos, por exemplo, é o profissional que atua como agente autônomo (AAI) ligado às corretoras. Na XP, maior corretora do País, estão 77% dos assessores do mercado, segundo a consultoria AAWZ.

Segundo Bianca Juliano, responsável pela escola de MBAs da XP, a empresa repassa mensalmente à sua rede de AAIs cerca de R$ 20 mil por assessor, por meio das comissões.

Mas para exercer a função é necessário ter uma veia empreendedora e gostar de se relacionar, aponta ela. “É um trabalho que também envolve educação financeira, uma vez que o assessor acaba sendo uma espécie de professor para o investidor iniciante, apresentando o mercado e explicando diferentes estratégias de alocação.”

Youtubers e influenciadores no retrovisor

Apesar de as posições mais cobiçadas remunerarem bem, é ilusória a visão de que o profissional vai ficar milionário e se aposentar para curtir a vida em poucos anos. Contra soluções mágicas vendidas por youtubers e influenciadores digitais, os especialistas garantem que são necessários anos de trabalho duro para ser bem sucedido. O alerta se faz ainda mais necessário num contexto de forte influência das redes sociais

Segundo pesquisa divulgada pela B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, na última segunda-feira, 14, 60% dos novos investidores da Bolsa acompanham influenciadores para obter informações sobre o mercado, enquanto 32% confiam nas recomendações deste grupo.

“Viver do mercado financeiro não é ficar tomando champanhe e esquiando em Aspen (EUA) toda hora”, afirma Michael Viriato, professor de Finanças do Insper. “Quantas horas a pessoa está disposta a trabalhar e estudar? Quantos fins de semana está disposta a sacrificar? Nem todo mundo tem essa disposição, existe um trabalho exigente por trás do glamour que vendem.”

De fato, as posições de destaque no mundo das finanças também são conhecidas pela carga horária puxada, com jornadas que às vezes superam 12 horas diárias ou vão madrugada adentro. A resiliência e a habilidade de trabalhar num ambiente de pressão constante também são vistas como indispensáveis.

O CEO da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira cita o caso do indiano Aswath Damodaran, famoso professor de finanças da Universidade de Nova York, para exemplificar como cada um precisa conhecer o próprio perfil antes de escolher uma carreira. Ele explica que Damodaran recusou vários convites de instituições financeiras depois de concluir seu PhD, preferindo ganhar menos na academia. “Respeito muito a sua escolha, porque mostra autoconhecimento. Não adianta ganhar muito dinheiro se você tem uma vida infeliz.”

Uma forma de não se decepcionar é fazer uma pesquisa prévia detalhada sobre cada carreira. Além de aproveitar artigos online, a pessoa também pode fazer cursos introdutórios sobre o mercado, que apresentam um panorama geral sobre diferentes áreas. Por mais que alguns materiais nesse sentido estejam disponíveis gratuitamente na internet, algumas instituições também oferecem cursos de pós-graduação mais generalistas (leia mais abaixo).

“Para os estudantes, também é recomendável fazer estágio em bancos ou corretoras, para conhecer melhor as diferentes áreas", comenta José Guilherme Chaves, coordenador da pós-graduação virtual em Mercado Financeiro e de Capitais da PUC-Minas.

Com o mercado mapeado, o passo seguinte é fazer um plano de carreira e entender quais são os certificados, especializações e habilidades exigidas para a profissão escolhida. “Aqui, é sempre importante ver a reputação da faculdade. É natural que as empresas olhem com mais atenção para os profissionais formados nas melhores escolas”, destaca Joelson Sampaio, coordenador do curso de Economia da FGV-EESP.

Em relação à graduação, também é normal que o mercado privilegie formados em áreas como Engenharia, Economia e Administração. No entanto, o coordenador do MBA Banking da FIA, Roy Martelanc, vê espaço para profissionais oriundos de outros segmentos. “É um mito que você precisa ser PhD em matemática para trabalhar no mercado financeiro. É necessário ter essa área bem resolvida, mas não é uma barreira intransponível.”

Cursos de qualificação

Para quem tem interesse em se aprofundar no tema e está em busca de cursos, instituições como FGV, Insper, Escola Trevisan, FIA e PUC-Minas oferecem especializações, pós-graduações e MBAs em finanças. 

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