De XPTO a expert: como levantar do fracasso e virar referência no mercado

De XPTO a expert: como levantar do fracasso e virar referência no mercado

Case de empresa bem-sucedida mostra que fracassar é experiência fundamental no mundo do trabalho e do empreendedorismo, apesar da falta de tolerância cultural no Brasil para isso

Marisa Eboli

01 de dezembro de 2020 | 12h11

Caro leitor, começarei esta coluna com uma pergunta: Você contrataria uma pessoa que tivesse em seu currículo as experiências mencionadas abaixo?

  • Em seu último ano da escola, com pressa de começar a ganhar dinheiro, arrumou uma espécie de estágio numa empresa de courier
  • Decidiu cursar Economia: tinha certa afinidade com matemática, mas não demonstrava interesse algum pelos grandes temas econômicos
  • Conseguiu um estágio numa corretora na vaga de back-office, que no jargão do mundo financeiro significava “qualquer área de apoio que ralava para possibilitar aos operadores brilhar”
  • Fracassou ao tentar um negócio próprio para ser parte da rede de vendas da empresa Vaporetto
  • No banco onde trabalhava não conseguia se destacar para os chefes, que o achavam um cara sem brilho
  • Teve de enfrentar a timidez para conquistar clientes
  • Detestava o back-office, não levava jeito para trader e, quando encontrara algo de que gostava, trabalhando numa startup dentro de um Banco, foi demitido… 

E aí, você o contrataria? Ele tinha 24 anos e não conseguia emplacar um sucesso. Mas era “raçudo”! O que julgava ser o fim de uma carreira foi o início de uma trajetória brilhante. 

Já sabe de quem estou falando?

De alguém que iniciou uma revolução do mercado financeiro brasileiro: Guilherme Benchimol – CEO e fundador da XP. Os trechos anteriores foram extraídos do livro Na Raça – Como Guilherme Benchimol Criou a XP e Iniciou a Maior Revolução do Mercado Financeiro Brasileiro, escrito pela jornalista Maria Luíza Filgueiras (2019).

Ao ler os relatos do livro foi impossível não associar às práticas de contratação adotadas por Steve Jobs, que George Anders, autor de The Rare Find, chama de “dissidentes livres” com “currículos irregulares” e “ziguezagues de carreira”, em vez de focar nas “pessoas certas”, com currículos perfeitos. 

Lee Chow, o publicitário responsável pelo comercial do Mac da Apple (1984), criou a campanha Think Different com as seguintes palavras: “Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os pinos redondos nos orifícios quadrados. Quem vê as coisas de maneira diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou difamá-los. A única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram a raça humana para a frente. Enquanto alguns podem vê-los como loucos, vemos genialidade.”

Andrés Oppenheimer, respeitado autor argentino, incluído entre os “50 intelectuais latino-americanos mais influentes” relata em seu livro Crear o morir! (2014) que, quando Steve Jobs morreu, ele se fez uma série de perguntas que deveriam estar no centro da agenda política dos países latinoamericanos: “Por que um Jobs não surge no México, Argentina, Colômbia ou em qualquer outro país da América Latina, onde existem pessoas tão ou mais talentosas do que o fundador da Apple?”

Levantou várias hipóteses. Duas delas: a prosperidade dos países depende cada vez mais de seus sistemas educacionais, seus cientistas e seus inovadores, e de questões culturais, pois temos uma cultura social e jurídica que não tolera o fracasso. Ressalta que na cultura de inovadores do Vale do Silício, fracassar é uma experiência de trabalho fundamental para a maioria dos empreendedores. Quanto mais fracassos, mais o investidor-anjo coloca dinheiro!

Guilherme Benchimol. Foto: Felipe Rau/Estadão

Retornando a Guilherme Benchimol. Após sua demissão da Investshop, sentindo-se psicologicamente destruído, ele tomou a decisão de fugir do Rio de Janeiro para Porto Alegre. Daí para frente vale a pena ler o livro de Filgueiras e deleitar-se com todos os lances dessa saga. Só faço questão de reproduzir um diálogo entre ele e seu sócio Marcelo quando estavam decidindo o nome a ser dado à empresa que nascia: 

– Ah, coloca um nome XPTO aí, Marcelo, e vamos atrás de clientes. 

– Vai ser XP então, de expertise – respondeu ele.

Em 2001, surgia a XP Investimentos.

Com relação a este episódio, pertinente relembrar a força das palavras e das falas para a criatividade e a inovação. Foi o que mostrou Chomsky (1970) ao dizer que cada pessoa é uma criadora incessante de uma infinidade de frases.  Cada uma é diferente e única, de modo que falar corresponde a um ato contínuo de criação e invenção.

Mas nem tudo foi um mar de rosas. A companhia enfrentou dificuldades – e as superou com energia, obstinação e raça.

Ao longo dos anos, a XP centrou seu discurso num ataque feroz aos bancos e à forma como investem (mal) o dinheiro dos poupadores brasileiros. Houve certa “saia justa” para fechar a transação que fez do Itaú dono de 49,9% da XP. Guilherme sabia que isto seria visto por muitos como uma traição. Passaria de rebelde a adepto ao sistema. Foi um passo ousado.

Em setembro de 2019, a XP Investimentos possuía 1,5 milhão de clientes e R$ 350 bilhões em ativos sob custódia. No mesmo ano, Guilherme Benchimol foi eleito uma das 50 pessoas mais influentes do mundo pela Bloomberg. 

Após um rebranding, em 2019, passou a se chamar XP Inc., abrigando todas as marcas (XP Investimentos, Rico, Clear, Infomoney, Flíper e XPEED) e iniciativas da holding. Em dezembro do mesmo ano, realizou sua oferta inicial de ações na bolsa de valores de Nova York. Captou US$ 2,25 bilhões e foi considerado o maior IPO de uma empresa brasileira na bolsa americana. 

A XP Inc. também tem se mostrado inovadora em termos de gestão de pessoas. No cenário de pandemia do coronavírus, ganhou destaque um anúncio da empresa que não só estendeu a vigência do home office para seus funcionários como também decidiu torná-lo permanente.

Deve construir uma nova sede no interior de SP, estilo campus universitário, para onde os funcionários não terão que ir todos os dias. Será um espaço de convivência, troca de conhecimento e networking. Além disso, oferecerá o Tour XP para visitantes de instituições de ensino, universidades, escolas de ensinos fundamental, médio e técnico.

A XP Inc. andou rápido ao criar um Guia de Boas Práticas #XPdeQualquerLugar, com a intenção de orientar líderes e colaboradores para as interações sociais e para o trabalho remoto. Possui outras práticas e ferramentas de gestão de pessoas como: Embaixadores XP, Lab on The Road, Campus XP (uma máquina de disseminação de conhecimento), além da XPEED School, escola de empreendedorismo, negócios e educação financeira.

Enfim, tornou-se celebridade, como expert e benchmark em termos de gestão no mundo corporativo, demonstrando ser mandatório se mudar a mentalidade frente aos fracassos. A história da administração está repleta de empreendedores que deram muito errado antes de obterem sucesso. São alguns exemplos ilustres Sam Walton, Ray Kroc, Walt Disney e Steve Jobs.

Cabe ressaltar que ao contrário de outros empreendedores de sucesso, como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Alexandre Costa, que abandonaram a faculdade por volta do segundo ano, Benchimol concluiu seu curso de Economia na prestigiosa UFRJ. Como não sobrava tempo para estudar, as matérias da faculdade iam se acumulando. Começou a mentir quando o pai perguntava sobre seu desempenho escolar. Apesar dos conflitos com o pai, este o obrigou a obter o diploma. O exemplo reforça a importância da família para estimular os estudos dos filhos, mesmo quando estes se sentem contrariados. 

Enfim, seus conflitos eram com a escola que não se harmonizava com sua ansiedade de empreender, e não com a educação. Haja vista como a estratégia da XP Inc. nutre-se na educação. De fato, observe-se que tecnologia e economia requerem conhecimentos mais abstratos que dificilmente podem ser adquiridos fora mundo acadêmico. Os CEOs citados são frutos da ótima educação que tiveram, mesmo com cursos incompletos.

Concluo com um post de Guilherme Benchimol, feito em outubro no LinkedIn.

“Sonhar grande não significa começar grande. Comece pequeno, sem vaidades, dando sempre um passo de cada vez e com muita humildade, obstinação e resiliência. Quando menos esperar se espantará com quão longe você pode ir.”

E assim, sua empresa passou de XPTO a XP Inc.

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora da graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios (meboli@usp.br).

Tudo o que sabemos sobre:

Sua CarreiraEmpreendedorismostartupxp

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.