Taba Benedicto/Estadão
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'Funções de esforço cognitivo serão mais prestigiadas', diz especialista

Para psicólogo, com a automação se tornando uma realidade no mercado, as habilidades humanas serão o diferencial para aqueles que buscam a recolocação

Entrevista com

Roberto Shinyashiki, psicólogo e escritor

Felipe Laurence, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

“Você vai perder o seu trabalho, é inevitável”, diz o psicólogo e escritor Roberto Shinyashiki quando perguntado sobre automação. Estudo feito pela Universidade de Brasília em 2019 aponta que 54% das profissões formais no Brasil têm alto potencial de automação até 2026 e a situação está sendo agravada com a digitalização forçada pela pandemia.

Shinyashiki vê muitas semelhanças no perfil psicológico de quem está ameaçado de perder seu emprego pela automação com alguém que pode ser demitido, como a angústia constante e a queda no rendimento. Mas aponta que a situação é diferente porque, no caso da automação, dificilmente você consegue se recolocar, gerando um ressentimento.

“Funções mais mecânicas vão ser substituídas por robôs enquanto as que necessitam de um maior esforço cognitivo serão cada vez mais prestigiadas”, comenta ele, elencando que as habilidades essencialmente humanas serão o diferencial para alguém se recolocar no mercado. Confira abaixo trechos da entrevista.

Quais os sentimentos mais comuns do trabalhador que pode perder o emprego para uma máquina?

Eu costumo comparar essa situação da automação com um jogador de futebol que perde muitas partidas consecutivas. Ele pode entrar em uma espiral depressiva, se sente inseguro e sua própria performance diminui porque perde seu senso de realização no trabalho. A logoterapia de Viktor Frankl diz que a neurose é a falta de propósito de vida, então esse não é um quadro do futuro, estamos vendo isso acontecer hoje.

O impacto psicológico da automação é o mesmo de quando se é demitido?

Vi uma palestra há alguns anos que falava sobre a situação dos caminhoneiros americanos e o risco de eles serem substituídos por veículos autodirigíeis. Uma das soluções que apresentaram é continuar recebendo salários só para monitorar os robôs ou até mesmo pra ficar em casa. Fiquei pensando, como vai ficar a cabeça de uma pessoa que ganha, mas não trabalha? Porque há vários gatilhos ao trabalhar, tem o desejo de realização, o desejo de ser útil. Você continuar pagando uma pessoa só resolve parte do problema, ela não vai passar fome, mas a ociosidade traz uma série de desafios, como dependência química, e até potencial violência contra as máquinas.

Os impactos da automação no brasileiro é diferente do restante do mundo?

O ser humano é ser humano em qualquer lugar do planeta, mas a diferença é que o nosso sistema de ensino funciona para passar conhecimentos sobre funções que não existem mais ou vão deixar de existir muito em breve. O País precisava investir na verdadeira capacitação do nosso trabalhador para o mundo digital.

E como alguém pode se prevenir da angústia de perder o emprego para a automação?

Uma coisa que precisa ficar bem clara é que, de uma forma ou outra, o trabalho vai mudar: as funções serão severamente alteradas pela automação. Então a pergunta correta é: como ter paz de espírito para ir para outros empregos? Eu vejo que funções mais mecânicas vão ser substituídas por robôs enquanto as que necessitam de um maior esforço cognitivo serão cada vez mais prestigiadas. Há de ter uma resiliência muito forte e focar na adaptabilidade a essas mudanças estruturais.

Quais habilidades você vê como essenciais para a pessoa realizar essa mudança?

A primeira coisa é ter curiosidade, continuar estudando e aprendendo para não ser deixado para trás pela tecnologia. A segunda é ter uma boa leitura do mercado, entender o que acontece na sua profissão para que você reaja rápido às mudanças e também se adapte ao que se exige dela. E precisamos também de um “bando”, um grupo de pessoas que olhem por você e te direcionem para o que vai ser necessário.

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