Felipe Rau/Estadão
Jacqueline Oliveira é gerente de engenharia da Loggi e usa o idioma para ler artigos, escrever códigos e apresentar projetos em grupos. Felipe Rau/Estadão

Inglês para trabalho: empresas cobram, mas o quanto é necessário?

Empresas buscam idioma em candidatos, mas nem toda vaga precisa de inglês como pedido; plataforma usa inteligência artificial para medir peso nas seleções

Amanda Calazans, Especial para o Estadão

19 de junho de 2021 | 14h00

Jackie Oliveira estuda inglês há muitos anos. Já cursou escolas de idiomas, tomou aulas com professor particular e fez intercâmbio. Além disso, é gerente de engenharia de software, então trabalha em contato com a linguagem da tecnologia toda em inglês. Ainda assim, essa experiência não a livrou da surpresa que o trabalho na Loggi lhe trouxe.

O período de imersão na cultura da empresa, para a qual entrou há dois meses, foi uma prévia do que ela viveria todos os dias, porque ali já conheceu colegas estrangeiros e participou de reuniões em inglês. A surpresa se deu porque o processo seletivo não cobrou o conhecimento, embora constasse do currículo de Jackie. Assim, ela percebeu sozinha que era o momento de “ligar no ouvido o chipzinho para entender inglês”, brinca.

Apesar de a funcionária usar mais o idioma do que o que foi cobrado para entrar na empresa, o mercado de trabalho também sofre o inverso: cobra-se fluência em inglês ainda que o candidato não vá usá-lo no seu dia a dia. Em 2021, a plataforma de recrutamento e seleção Gupy observou aumento de 36% na frequência do requisito nos anúncios de vagas em comparação ao mesmo período do ano passado.

O debate é ainda mais frequente em vagas de empresas que trabalham com programação e tecnologia da informação (TI) e, nos últimos anos, também por conta da expansão internacional de startups brasileiras e da chegada de multinacionais no País, como Netflix, LinkedIn e Spotify. Segundo a Associação Brasileira de Startups, hoje há 13,5 mil empresas do tipo no Brasil, resultado de um crescimento de cerca de 100% ao ano desde 2011.

Para equilibrar a conta, consultorias de RH têm pedido aos gestores mais informações sobre a rotina de trabalho que aguarda o candidato e usado até inteligência artificial para entender melhor a necessidade de cada cliente. “Muitas empresas apontam o inglês como um pré-requisito, mas, por não ser tão relevante no dia a dia, essa habilidade acaba não sendo determinante na contratação”, afirma o CMO (Chief Marketing Officer) e cofundador da Gupy, Guilherme Dias.

A plataforma usa inteligência artificial para entender quais características profissionais são levadas em conta pelos contratantes. Dessa forma, consegue atribuir pesos diferentes para os itens de perfil e currículo. A exigência do inglês está presente em 20% das vagas de emprego publicadas na Gupy atualmente, enquanto 31% dos currículos cadastrados possuem a habilidade.

O peso dado aos idiomas, em média, é de 3%. “Esse peso varia segundo o perfil da empresa e também com o escopo da vaga, já que uma companhia global tende a ter um segundo idioma como pré-requisito, mas apenas para vagas de níveis e departamentos que realmente precisarão interagir com pessoas de outros países, por exemplo”, explica Dias.

É o caso de Jackie na startup de logística. Ela usa o idioma para escrever a documentação de projetos, aprender novas ferramentas e fazer apresentações. A gerente de engenharia ainda lida com a língua no desenvolvimento de códigos — inclusive os verbos. “A Loggi percebeu que o inglês faz parte da comunidade tech”, diz ela.

Qual o nível de inglês para a vaga

Em reunião com clientes, a consultoria RH Share costuma perguntar o que a empresa considera como inglês avançado: desenrolar uma conversa fluida, fazer uma leitura técnica ou entender uma reunião e interagir minimamente?

“Em escolas, você tem níveis bem claros do que se considera avançado, fluente, intermediário. Mas no mundo corporativo essa linha nem sempre é clara”, explica Douglas Rufino, head de recrutamento e seleção da consultoria.

Para vagas que requerem entrevistas em língua inglesa, além da avaliação objetiva, o consultor observa o quão confortável no idioma o candidato parece estar. Rufino conta que há casos em que se pode sugerir à empresa trabalhar alguma limitação que o candidato apresenta. “É importante o entendimento do nível que o cliente precisa para a gente não perder perfis bons”, diz ele.

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No caso da startup do setor imobiliário QuintoAndar, quando é solicitada a língua inglesa para uma vaga, a empresa costuma especificar o uso que o conhecimento poderá ter no trabalho. Para o cargo de performance marketing coordinator, por exemplo, foi explicado no anúncio que o colaborador “poderá participar de reuniões em inglês com parceiros ou fornecedores”.

“Essa é uma característica muito forte do QuintoAndar. A gente tem uma preocupação grande de ser transparente com o que a gente precisa, quando a gente precisa, de que jeito a gente precisa”, diz Aline Esteves, diretora de people da startup.

Aprendizado contínuo com idiomas

Segundo Jackie, quem não fala inglês tem espaço na Loggi, mas o ambiente motiva a desenvolver a língua. Na “daily”, por exemplo, a gerente conversa em português por não ter estrangeiros na equipe, mas durante a “sync”, reunião em que apresentam projetos, usa o segundo idioma quem se sentir confortável.

“Quando você vira para o lado e vê que o amigo talvez fale o inglês com um pouco de sotaque, gaguejando, mas tem termos técnicos (e todo mundo se entende em termos técnicos), isso dá uma liberdade muito grande”, afirma ela. A Loggi oferece aos colaboradores um incentivo educacional que pode ser usado para fazer cursos de idioma.

O fundador da escola Wise Up, Flávio Augusto da Silva, compara a decisão de um adulto de voltar a estudar inglês a tomar uma injeção de Benzetacil: “É dolorido, mas resolve o problema dele”. Para o empresário, o aluno mais velho não encara o idioma como prazer, mas como um investimento profissional.

Especializada em inglês para adultos, a instituição tem como método não infantilizá-los. Em vez disso, traz para as aulas temas de interesse como liderança, oratória e gestão emocional. Os alunos da escola, em geral, estão empregados.

Criador do projeto de desenvolvimento pessoal Geração de Valor, Flávio Augusto diz que qualquer pessoa pode aprender a língua sozinha, sem a necessidade de escolas. “Mas a curadoria desse assunto, as ferramentas necessárias, a especialização e a produção exclusiva que nós temos ajuda o aluno a atingir isso mais rápido”, destaca o empresário.

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Inglês como nota de corte reforça desigualdades entre candidatos

Empresas como Ambev, Coca-Cola e Basf adotam iniciativas para inclusão de profissionais sem base do idioma; mercado vê movimento que privilegia soft skills, as habilidades comportamentais

Bruno Luiz, Especial para o Estadão

20 de junho de 2021 | 05h00

Renata, Tattiane e Bárbara se encontram na exclusão. O inglês, considerado fator de conexão das pessoas ao mundo globalizado, quase as colocou à margem do mercado de trabalho. Sem domínio da língua, elas foram reprovadas em diversas seleções de emprego, que privilegiavam o idioma em detrimento de outras habilidades

Negras, periféricas e sem condições financeiras de investir no inglês, elas viveram o drama de quem é excluído do mercado por um critério que se torna uma “nota de corte” de classe e de cor. Para tentar reparar essa desigualdade social, empresas adotam iniciativas para deixar os processos seletivos com mais diversidade e inclusão, mas precisam avançar nas ações, avaliam especialistas.

Bárbara Tayná, de 26 anos, participou de 17 seleções de estágio apenas no segundo semestre do ano passado. Foi reprovada em 16 porque não sabe inglês. O pouco que sabe do idioma aprendeu na rede pública de ensino, onde estudou. Recebeu aprovação apenas na última seletiva, em dezembro, que não exigia o idioma. Hoje atua na área de marketing da empresa, que montou uma plataforma online de ensino da língua para funcionários.

A estudante de Relações Públicas critica empresas que querem adotar iniciativas de diversidade racial, mas não percebem como o idioma pode dificultar a vida de pessoas negras e periféricas, que, historicamente, têm menos acesso a uma educação de qualidade.

Com a pandemia, a desigualdade racial no mercado de trabalho bateu recorde. Enquanto o desemprego atingiu 15,8% entre pretos e pardos em junho de 2020, entre brancos, amarelos e indígenas ficou em 10,4%, maior diferença desde 2012, segundo dados da Pnad contabilizados pela consultoria LCA.

“Uma empresa que se diz diversa deve entender onde o público diverso vive. A maioria da população negra não tem inglês. Se você quer aumentar a equidade racial na sua empresa, você tem que saber o dia a dia do povo preto que se candidata”, reivindica Bárbara. 

Tattiane Cruz, de 37 anos, conta que já chegou a ficar entre os dois finalistas de uma seleção, mas, no fim das contas, perdeu a vaga porque o concorrente tinha um inglês melhor. “Eu me sentia parcialmente desvalorizada. É como se toda a sua história, suas fortalezas não fossem consideradas na sua plenitude”, lamenta. 

Hoje atuando como scrum master de projetos e inovação em uma indústria de cosméticos, ela lembra ainda que, apesar da exigência, o uso do idioma não é necessário no dia a dia para grande parte das funções. 

“Às vezes, eu achava estranho porque um colega da minha classe era aprovado e, quando a gente falava do nível de inglês, o nosso nível era o mesmo”, relata ela, que acredita que o inglês acaba sendo um critério das empresas para criar barreiras de acesso a pessoas negras.

Cotas de diversidade e inclusão

Vontade de estudar o idioma não faltou para Tattiane. O que estava em falta mesmo era dinheiro da família para pagar cursos. Ela só conseguiu estudar inglês após receber bolsa de uma empresa onde trabalhou. Depois de se formar, passou dois meses fora do País, onde aprimorou seus conhecimentos na língua, e também pagou aulas particulares.

A barreira do inglês não vai encontrar pessoas negras apenas em cargos iniciais, mas em postos de liderança também. Renata Hilário, especialista em insights de uma cervejaria, reclama que a exigência dificulta ainda mais a presença de não-brancos em posições de chefia. No Brasil, mulheres negras ocupam apenas 8% dos cargos de liderança, segundo pesquisa feita no ano passado pela consultoria Indique uma Preta e pela empresa Box1824.

“Para cargos de liderança, já pedem um inglês mais avançado. Você já faz entrevista em inglês no processo seletivo online ou presencial”, critica ela, que ironiza que “nosso Brasil é com z, não com s”, em referência à escrita de Brasil em inglês. “Nos pautamos sempre pelos norte-americanos. A gente tem competência, mas é barrado porque não tem inglês fluente, não fez intercâmbio.”

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Chefe de Cultura Inclusiva da 99jobs, Fábio Mariano explica que a exigência do inglês para o trabalho se consolidou na segunda metade da década de 1980, quando multinacionais se instalaram no Brasil a partir da reabertura política. Com isso, as empresas convencionaram um perfil a ser preenchido pelos funcionários.

“Era preciso vir de faculdades de primeira linha, ter alguma vivência no exterior, então começou a se privilegiar pessoas com intercâmbio, que já tivessem viajado várias vezes para fora do País. Além de tudo isso, a exigência em inglês. Assim, só uma elite vai ocupar cargos de liderança em empresas”, destaca Mariano.

Renata Hilário reclama. “De 10 palavras que as pessoas falam (na empresa), cinco são em inglês. Isso é muito excludente. As empresas querem mais pretos no seu time, mas elas promovem um ambiente seguro psicologicamente quando a gente entra? Eu acredito que não.”

Segundo Eduardo Migliano, cofundador da 99jobs, de 2019 para 2021, cresceu de 5% para 40% o porcentual de empresas que pedem medidas de diversidade e inclusão nos processos seletivos organizados pela startup. “O conceito de reparação é muito mais amplo que diversidade e inclusão. Empresas que trazem palavras como meritocracia para seus processos obviamente não cabem mais no contexto atual”, diz.

Curso de inglês e soft skills

Para evitar que o inglês seja elemento excludente, empresas têm abolido a exigência de processos seletivos ou custeado cursos para os funcionários aprovados. A Ambev, por exemplo, retirou a necessidade do idioma de uma seleção iniciada no mês passado para mulheres e pessoas não brancas na área de tecnologia da informação (TI).

Já a Coca-Cola vai pagar curso de inglês para os selecionados no programa de estágio da multinacional, aberto no início do mês. A Basf resolveu criar uma plataforma de autoaprendizagem da língua para auxiliar aqueles que forem aprovados na sua seletiva de estágio, voltada para negros, pessoas com deficiência e pessoas transexuais.

Outra tendência é a aposta cada vez maior das empresas nas chamadas soft skills (habilidades comportamentais), em detrimento de qualificações como o inglês. Segundo levantamento realizado pela Revelo, organização de tecnologia para recursos humanos, comunicação assertiva, aprendizagem contínua, autogerenciamento, capacidade de resolução de problemas e relacionamento interpessoal foram as características mais procuradas pelas empresas no ano passado.

Coordenador de Direitos Humanos do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (Iree), Yuri Silva acredita que critérios considerados objetivos, como formação acadêmica e fluência em inglês, acabam produzindo como resultado a exclusão. “Eles classificam por classe, raça, gênero, promovem a pausterização do processo seletivo e o entendimento de que novos corpos, novas formas de pensar não podem acessar o mercado de trabalho.”

Ainda segundo ele, as empresas privadas têm obrigação de pensar em ações para aumentar a diversidade e a inclusão. “A empresa privada tem um papel social. É um instrumento que deve visar mais do que o lucro, cumprir uma tarefa coletiva de impulsionar o crescimento econômico da sociedade. O setor corporativo não é uma ilha isolada.”

Renata Hilário reconhece que o cenário tem mudado aos poucos, mas pede que as empresas tratem o assunto como prioridade. “A gente é capaz, a gente só precisa de uma chance.”

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