Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Profissionais planejam carreira de olho em conselhos de administração

Por pressão de entidades como Nasdaq, empresas abrem mais as portas para mulheres, jovens e negros; cursos ensinam como desempenhar função consultiva, e não executiva, nos conselhos

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 05h03

A chegada ao conselho das organizações parecia mais distante e exclusiva no passado, mas a relevância que ele tem ganhado nos últimos anos faz com que profissionais mais jovens e de áreas variadas olhem para as cadeiras com um olhar especial. Com a vontade de ocupar um lugar onde decisões importantes são tomadas e mudanças estruturais podem ser feitas, eles correm atrás de capacitação e networking para conquistar um lugar no olimpo das empresas.

Um fator que ajuda a explicar o planejamento de carreira para os conselhos é que, nos últimos anos, o mercado passou a vê-los como algo maior do que apenas uma estrutura que dá aval à administração da empresa. Passou-se a encará-los como responsáveis pelos rumos da companhia. Uma vez mais vistos e almejados, eles também passaram a ser mais cobrados. Um exemplo disso é a decisão da Nasdaq, no ano passado, em exigir maior diversidade nos conselhos das empresas listadas na Bolsa. 

A redução da idade na participação nos conselhos é outro ponto importante para incentivar a trajetória de profissionais que querem se tornar conselheiros. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE), em 2021, conselheiros com menos de 50 anos estão em 74% das organizações, seja em conselhos de administração ou consultivos. O levantamento considerou 61 conselheiros, de empresas de todos os portes e setores. 

“Para fazer o seu papel, o conselho não pode ser limitado em seu conhecimento. Não pode ser só ex-diretor financeiro, ex-CEO. É preciso diversidade. Não só de etnia e gênero, mas de experiência e conhecimento e até diversidade geracional. Se todos os conselheiros tiverem em torno de 70 anos, pode ser que você tenha uma lógica de pensamento mais parecida, por exemplo”, explica José Lima, sócio da empresa de recrutamento de executivos e conselheiros Odgers Berndtson.

Essa variedade de perfis profissionais de conselheiros já aparecem em algumas empresas. De um lado, temos a trajetória mais tradicional de fundadores e ex-executivos que chegam ao conselho, como o caso de Luiza Trajano que, depois de muitos anos à frente da Magazine Luiza, hoje ocupa o lugar de presidente do conselho de administração da empresa. Por outro lado, o mundo dos conselhos também ficou até mais pop, com a participação de famosos como conselheiros de grandes empresas pelo mundo. No Brasil, é o caso da cantora Anitta, que se tornou parte do conselho administrativo do Nubank em 2021. Fora do País, a prática é ainda mais comum com nomes como Oprah Winfrey (Vigilantes do Peso), Serena Williams (Poshmark) e Emma Watson (Kering). 

Todos esses pontos fazem com que Lima acredite que, em um futuro breve, é possível que os conselhos também sejam compostos por pessoas que não necessariamente passaram por funções executivas, mas que levam conhecimentos importantes para eles, seja em questões sociais e ambientais ou tecnologia. “O conselho que prega diversidade vai contrário a essa ideia de que tem que passar por tal ou tal caminho. Ele não pode ser um prêmio para alguém que ficou muito tempo como presidente ou em outro cargo executivo”, diz.

Executivo versus conselheiro

No entanto, a trajetória que passa pela carreira executiva ainda é bastante comum entre membros dos conselhos das empresas. Muitas vezes, ser conselheiro é visto como o próximo passo natural na carreira de um executivo, mas Lima explica que nem todo grande executivo pode ser um grande conselheiro. 

“Existem diferenças fundamentais entre ser executivo e ser conselheiro e muita gente tem dificuldade em fazer essa transição. Elas não entendem com clareza que o conselheiro não vai executar nada. Ele vai opinar, mas quem vai executar é a administração. Essa fronteira é delicada para algumas pessoas que passaram a vida de sucesso como executivo fazendo coisas”, explica.

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A questão é uma das preocupações de Kwami Alfama, CEO da Tereos Amido & Adoçantes Brasil. “O maior trabalho é fazer essa transição do executivo mão na massa para o conselheiro que está olhando para o futuro. Parece simples, mas é um processo de desapego muito difícil. Eu conheço muitos colegas que fizeram a transição e vejo que é um exercício diário de desapego”, conta.

Aos 46 anos, Alfama apostou na capacitação. Além da vivência executiva, ele cursou durante um ano o Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral. O curso ensina temas como governança, tomada de decisão e riscos e responsabilidades na atuação de conselheiro. 

Segundo Dalton Sardenberg, professor de governança corporativa e coordenador técnico do programa, a formação é procurada, em média, por executivos do C-Level, seguidos por quem já é conselheiro. Em relação à idade, a maior parte dos alunos têm acima dos 56 anos, seguidos pelos que têm entre 41 e 50 anos. 

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) também é um dos mais reconhecidos capacitadores de conselheiros, com cursos oferecidos desde 1998. No começo deste ano, formou duas turmas, cada uma com 35 alunos, cuja certificação precisa ser renovada a cada três anos.

A diretora de desenvolvimento do IBGC, Adriane Almeida, explica que, além das responsabilidades legais do cargo, o foco principal da formação é nas soft skills, as famosas habilidades comportamentais, como a capacidade de trabalhar em grupo, o poder de convencimento e a tomada de decisão.

“Trata-se de compreender que o foco é mais estratégico e a tomada de decisão é feita por meio de colegiado. Por isso, escutar, ouvir seus pares e fazer perguntas que façam o executivo pensar de forma colaborativa, com bastante equilíbrio emocional, é fundamental. O conselheiro precisa estar preparado para decidir e não apenas seguir uma decisão”, diz.

Com os conceitos já aprendidos, Kwami Alfama acredita que nos próximos meses consiga chegar a uma cadeira de conselho. Em paralelo ao trabalho executivo, ele criou a Pactuá, uma iniciativa para incluir profissionais negros no mercado de trabalho e na alta gestão das empresas brasileiras. “Para quem sonha com uma carreira no conselho, não existe um momento certo para se preparar. O momento certo é agora. Estude e esteja antenado”, aconselha. 

O caminho até o conselho

Atualmente com 32 anos, Lisiane Lemos, especialista em transformação digital com passagem por empresas como Microsoft, pensava ser muito jovem para traçar uma carreira rumo ao conselho, mas percebeu que a idade não era determinante. “No início, eu pensei que deveria ter trilhado mais caminhos, mas percebi que ser conselheira é sobre o conhecimento que você aporta. Diante de uma carreira tão diversa, entendi que existiam pontos que eu poderia contribuir e que não poderiam esperar.”

Para construir a sua trajetória, ela planejou muito bem o que precisava fazer: quem deveria conhecer, onde deveria estar, que cursos teria que fazer e o tamanho do investimento necessário. Ela buscou conhecimento em um MBA executivo e em um programa de capacitação de mulheres para conselhos, da escola de negócios Saint Paul. Agora, diz se sentir pronta para assumir uma cadeira quando a oportunidade surgir.

Ela explica o passo a passo para quem tem interesse em direcionar a carreira para uma posição executiva:

  1. Experiência: entenda qual área você domina e pode agregar à empresa

  2. Qualificação: assim como você se capacita para ser executivo, invista também em uma formação como conselheiro.

  3. Networking: compartilhe com o mercado o seu desejo de dar esse passo. Além de formação, prática e qualificação, é preciso estar no lugar e na hora certos. 

  4. Entender dos processos seletivos: existe uma janela de eleição de conselheiros e empresas de recrutamento especializadas em conselhos, procure saber mais sobre. 

Enquanto traça o seu próprio caminho rumo aos conselhos, Lisiane também ajuda outras mulheres negras a chegarem lá. Ela é cofundadora do Conselheira 101, que capacita mulheres negras a se tornarem conselheiras de empresas. 

Do lado de quem já chegou aos conselhos, Rachel Maia acredita não exista um perfil específico para ser conselheiro, mas é preciso bastante preparação, que inclui uma grande dose de estudo. Com uma trajetória que passou pelo C-level de empresas como Pandora, Lacoste e Tiffany & Co, hoje ela é conselheira da Vale, da CVC Corp, do Grupo Soma, e do Banco do Brasil.

“Ter pensamento estratégico é fundamental. Uma visão mais apurada do negócio, uma escuta mais ativa, prestar atenção nos mínimos detalhes e informações, podem te ajudar a traçar um plano estratégico que funcione. Fazer uma autoanálise, entender seus pontos de melhoria, entender onde você pretende chegar e se dedicar àquilo, ser mentorado também é uma boa opção”, explica. Ao longo da carreira, ela foi mentorada por Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Pedro Passos, conselheiro da Natura. 

“Você, jovem, que quer se tornar conselheiro, aproveite todas as oportunidades que tiver no caminho, se aprimore, estude, que um dia você irá chegar lá”, aconselha. 

Cursos para conselheiros

  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA

    Curso: Curso de Conselheiros de Administração (100% online e semipresencial)

    Duração: Carga horária de 72 horas, mas tem opções de etapas extras que podem durar até um ano

    Requisito: Experiência prévia como conselheiro de administração ou como executivo sênior

    Valor: R$ 19.371 (para associados do IBGC; R$ 22.895 para não associados) 

  • FUNDAÇÃO DOM CABRAL

    Curso: Programa de Desenvolvimento para Conselheiros (online e presencial)

    Duração: Modalidade presencial (2 meses), modalidade online (3 a 4 meses)

    Valor: R$ 20.900

  • SAINT PAUL 

    Curso: Advanced Boardroom Program for Women 

    Duração: 1 ano

    Valor: R$ 108.100 

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