Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa cai 3,1% na semana, maior queda desde fevereiro, com cautela pré-feriado no radar

Em dia marcado por dados ruins do mercado de trabalho dos EUA, expectativa ficou alta em torno dos atos de 7 de Setembro, principalmente após Bolsonaro voltar a subir o tom contra o STF

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 15h26
Atualizado 03 de setembro de 2021 | 18h24

O cenário desfavorável tanto aqui quanto no exterior, com o mercado de trabalho dos Estados Unidos apresentando desempenho abaixo do esperado e a expectativa em torno das manifestações de 7 de Setembro, afetaram o apetite por riscos dos investidores, prejudicando aos ativos locais. Nesta sexta-feira, 3, a Bolsa brasileira (B3) conseguiu virar no final do pregão e fechar com alta de 0,22%, aos 116.933,24 pontos, mas termina a semana em queda de 3,10%, em seu pior desempenho desde o intervalo entre 22 e 26 de fevereiro, quando cedeu 7,09%. No câmbio, o dólar teve variação positiva de 0,03%, cotado a R$ 5,1845.

Nas três primeiras sessões de setembro, o Ibovespa acumula perda de 1,56% no mês, levando as do ano a 1,75%. "A próxima semana deve ser agitada, com uma série de novos dados econômicos, aqui e fora, mas começará com baixa liquidez, devido ao feriado de 7 de setembro, que este ano resultou em bastante cautela, com as tensões políticas", diz Virgilio Lage, especialista da Valor Investimentos.

Hoje presidente Jair Bolsonaro voltou a subir o tom contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e disse que "duas pessoas" do órgão precisam entender o seu lugar, mas sem citar nominalmente os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Ele também disse que as manifestações serão um "ultimato" a estas "duas pessoas" que estariam atrapalhando seu governo. O presidente aproveitou ainda a ocasião para convocar apoiadores para participar dos atos.

"A despeito de todo imbróglio interno e do possível temor em relação a manifestações no 7 de setembro, a taxa de câmbio terminou o dia estável. Considerando que o dólar, de maneira geral, perdeu força hoje no mercado para emergentes, por conta do payroll pela manhã: os dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos vieram mais fracos do que o esperado e acabaram trazendo fraqueza para a moeda americana em relação a divisas emergentes. Aqui, se estabilizou a R$ 5,18, mesmo com a tensão política", diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Os EUA criaram 235 mil empregos mês passado, abaixo da previsão de 750 mil feita por analistas. "O relatório pode balizar as próximas ações do Federal Reserve [Fed, o banco central dos EUA], do qual se esperava desaceleração do programa de compra de ativos e, em consequência, menor estímulo monetário", observa Túlio Nunes, especialista da Toro Investimentos. Diante do resultado, a expectativa agora é que agenda do Fed não sofra grandes alterações.

A cautela reflete também, entre outros fatores, a avaliação em geral negativa sobre a reforma do Imposto de Renda aprovada esta semana na Câmara dos Deputados, que contribui para aguçar a percepção de piora do fiscal, apesar da promessa de efeito "neutro", sustentada ao longo do processo de negociação e votação.

No Senado, derrotas colhidas na noite de quarta-feira pelo governo na minirreforma trabalhista e em votação sobre planos de saúde de estatais, que pode dificultar a privatização dos Correios, alimentam a visão de que o desgaste do Planalto solta o freio para iniciativas contrárias ao interesse do governo, faltando pouco mais de um ano para o primeiro turno da eleição presidencial. E, para fechar, a semana conheceu também uma nova tarifa vermelha, de "escassez hídrica", que reforça temores sobre a inflação e lança sombra sobre a retomada econômica, na eventualidade de cenário extremo, de racionamento de energia.

Durante participação em evento nesta sexta-feira, o secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Bruno Funchal, reconheceu que uma das fontes de volatilidade do mercado é a questão fiscal, mas ponderou que "muito dessa questão fiscal é ruído". "Político e fiscal estão alinhados com as dúvidas internas. Para o estrangeiro, tem também o meio ambiente", citou. 

Ainda afetados pela aprovação da reforma do Imposto de Renda, devido ao fim de JCP (juros sobre capital próprio) e à criação da tributação de dividendos, o setor bancário estendeu a correção de ontem, com Santander, Itaú e Bradesco cedendo 1,37%, 1,47% e 1,03% cada. Entre as ações de grande peso, Vale teve variação positiva de 0,07% e Petrobras recuou 1,02%.

Câmbio

A cautela marcou os negócios no mercado de câmbio na tarde desta sexta-feira e, uma vez mais, impediu que o real se beneficiasse da fraqueza global da moeda americana, justificada hoje pelos dado fraco do mercado de trabalho americano. Aos poucos, o dólar se recuperou e passou a tarde entre estabilidade e ligeira alta. Já na última hora de negócios, a moeda americana ganhou novo impulso e marcou a máxima da dia, a R$ 5,1955, alta de 0,24%. Na semana, o dólar acumula leve queda, de 0,21%.

Analistas comentam que os ruídos políticos e o desconforto com as contas públicas, que cresceu após a aprovação da reforma do Imposto de Renda pela Câmara dos Deputados, desencorajam apostas na apreciação do real.  O próprio secretário da Economia, Bruno Funchal, reconheceu que a reforma do IR leva à perda de cerca de R$ 20 bilhões em arrecadação para o governo central e que ainda é preciso encontrar uma solução para a questão dos precatórios e do reajuste do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil.

Nas mesas de operação, a avaliação é que o dólar permanece abaixo de R$ 5,20 por de uma conjunção de três fatores: ambiente externo favorável a divisas emergentes, fluxo cambial positivo, com exportações robustas, e a perspectiva de uma alta mais forte e prolongada da Selic, o que estimula a entrada de capitais para operações de arbitragem entre o diferencial de juros interno e externo. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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