Suamy Beydoun/Agif
Suamy Beydoun/Agif

Bolsa cede 0,9% após prévia da inflação de julho vir acima do esperado; dólar cai

Resultado do IPCA-15, o maior para o mês desde julho de 2004, contribuiu para firmar a perspectiva de aumento da Selic, a taxa básica de juros; dólar acompanhou volatilidade do exterior

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 14h36
Atualizado 23 de julho de 2021 | 20h08

Contida pela leitura acima da mediana das expectativas para o IPCA-15 de julho, a prévia oficial da inflação, e sem conseguir acompanhar o exterior, a Bolsa brasileira (B3) fechou em queda de 0,87%, aos 125.052,78 pontos nesta sexta-feira, 23. No câmbio, a perspectiva de alta da Selic, a taxa básica de juros, ajudava o real, mas apoiado no exterior, o dólar ficou volátil e encerrou praticamente estável, em baixa de 0,05%, a R$ 5,2105.

No mês, o Ibovespa cede 1,38%, tendo se mantido na faixa de 124 mil a 126 mil pontos nos fechamentos desta segunda quinzena, após ter chegado a 128,4 mil pontos no melhor momento de julho, aos 128,4 mil pontos no encerramento do último dia 14. Na semana, a perda acumulada foi de 0,72% no período.

A perda de vigor do índice coincide com a retirada de recursos estrangeiros da B3: no mês até o dia 21, os saques líquidos se aproximam de R$ 5 bilhões, com ingresso no ano a R$ 43 bilhões. No meio da tarde, o Ibovespa passou a renovar mínimas abaixo dos 125 mil pontos, com o IPCA-15 de julho. A recuperação mais nítida dos preços no setor de serviços reforça a perspectiva de Selic mais alta, firmando o ciclo de aperto na política monetária doméstica, o qual afeta diretamente o apetite por renda variável.

"Foi a maior variação já registrada pelo índice para um mês de julho desde 2004 (0,93%). O indicador ainda veio acima da expectativa do mercado, pressionado, em julho, pelo aumento das contas de energia elétrica, em meio à crise hídrica no Brasil", diz Thayná Vieira, economista da Toro Investimentos.

"Nos 12 meses, o indicador, considerado uma prévia do IPCA, acumula alta de 8,59% e revela que a inflação deve encerrar o ano bem acima do teto da meta", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, destacando a reação do Ibovespa, que mais uma vez testou a linha de 125 mil pontos - "principal suporte de curtíssimo prazo" - e pareceu até perto do fim da sessão a caminho de cedê-la, como na segunda-feira.

"Preocupado com os possíveis impactos na inflação para o ano que vem, o Banco Central deve apertar o ritmo de alta da Selic. Essa percepção inclina ainda mais a curva de juros, com os investidores elevando as apostas de alta de 1 ponto porcentual para a Selic na reunião de 3 de agosto e migrando as projeções para encerrar o ano mais próximo de 7%", acrescenta o analista.

Assim, o Ibovespa voltou a operar descolado do exterior, onde "os índices acionários europeus tiveram hoje a quarta alta seguida enquanto, em Nova York, o Nasdaq buscava renovar máxima histórica - na semana que vem, a expectativa é pela decisão de política monetária do Federal Reserve [Fed, o bancoc central americano)", conforme observa Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos. Não apenas o Nasdaq, mas também Dow Jones e S&P 500 renovaram recordes de fechamento nesta sexta-feira.

Em Nova York, os ganhos chegaram hoje a 1,04% para o Nasdaq. Entre as ações, Petrobrás PN e ON caíram 0,59% e 1,33%, desconectadas da retomada nos preços do petróleo no exterior. Braskem subiu 5,56% e segurou a ponta negativa do Ibovespa, à

frente de Pão de Açúcar, com 3,56% e Magazine Luiza, com 2,80%. No lado oposto, Hypera fechou em alta de 3,52%, Usiminas, de 1,41%, e Locamerica, de 1,06%. Vale ON encerrou o dia em baixa de 0,51%, enquanto as perdas no setor de bancos chegaram a 1,03% para Bradesco PN.

Câmbio

Depois de operar em queda firme pela manhã, diante da expectativa de que uma eventual alta mais pronunciada da taxa Selic, na esteira do IPCA-15 de julho, aumente a atratividade da renda fixa brasileira, o dólar ganhou força à tarde e, em meio a muita volatilidade, fechou praticamente estável. A moeda americana encerra a semana com valorização de 1,86%. Em julho, a alta acumulada é de 4,77%.

Na mínima, o dólar caiu a R$ 5,1590 - na máxima, bateu em R$ 5,2330. No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes - opera em leve alta.

A percepção nas mesas de operação é que o comportamento do dólar no exterior, aliado ao quadro político interno conturbado, acabou levando investidores a realizar lucros e recompor posições defensivas, algo típico em véspera de fim de semana. Além disso, a liquidez é reduzida (cerca de US$ 10 bilhões no contrato futuro para agosto), o que torna o mercado muito suscetível a oscilações mais fortes e abruptas.

O economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, ressalta que a "verdadeira preocupação do mercado" é com o início da redução de compra de títulos públicos pelo Fed. "A cepa Delta pode provocar aumento do número de casos, mas não de hospitalizações e mortes, porque as vacinas são eficazes. O que assusta é a inflação nos Estados Unidos e a resposta do Fed", diz Miraglia, que aposta em início da redução de compra de ativos ainda neste ano, o que limitaria espaço para queda adicional do dólar por aqui. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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